30.6.08

c. O Monge-Guerreiro de Kamakura, por Eric Voegelin

A resposta ao post anterior mostra alguma incompreensão do que é luta. Remeto para duas fontes obrigatórias: Fernando pessoa e o seu peoma guerreiro -monge e a peça de igula título que sairá no nosso vol vol 03. cap. 4. c. de Voegelin que começa a entrar no prelo

vol 03. cap. 4. c. O Monge-Guerreiro de Kamakura

As ordens militares na sociedade ocidental tiveram de ceder o lugar à cidade e ao estado nacional. Contudo, o desaparecimento precoce não deve obscurecer a importância intrínseca do fenómeno. Em circunstâncias mais favoráveis, como por exemplo no Japão, na mistura do monge e dos ideais do guerreiro determinou durante séculos o carácter político da civilização. Por coincidência histórica, a introdução do budismo Zen no Japão, patrocinado pelo shogunato de Kamakura está em paralelo com a ascensão das ordens militares no Ocidente.

A fusão peculiar do misticismo e do esteticismo Zen com as virtudes guerreiras de lealdade, resistência e obediência deram forma à vida da classe governante guerreira de Kamakura porque a dinâmica da política japonesa naquele tempo seguiu um percurso oposto à do Ocidente cristão.[1] As ordens ocidentais sucumbiram porque as novas e fortes unidades políticas, emergiram a partir do campo feudal do poder. O ideal japonês do Monge-guerreiro venceu porque a vitória do clã de Minamoto e o estabelecimento do governo militar em Kamakura encerrou o período do governo imperial central moribundo, copiado das instituições chinesas, e iniciou a idade feudal japonesa (1192). As ordens militares do Ocidente, além disso, não podiam evoluir para uma elite governante porque o celibato monástico cortava a base vital que é a exigência inevitável para a continuação de um grupo secular governante; a atitude espiritual militar japonesa poderia crescer como uma força política estável porque a base vital era uma sociedade vitoriosa de um clã guerreiro.

 



[1] Sobre Zen veja Daisetz Teitaro Suzuki, Essays in Zen Buddhism, 1ª série (Londres: Luzac, 1927); 2ª série (Londres: Luzac, 1933); 3ª série  (Londres: Luzac, 1934). Reimpressão: Londres: Rider, 1970; e Teipei: Ch'eng Wen, 1971.

 

29.6.08

Peter Schlemihl....

Houve uma boa resposta ao post da Maria Luísa Guerra 
" P - Qual o futuro dos licenciados em filosofia, e de todos os licenciados em "humanísticas"? R - Call Centers."  
A pergunta seguinte é: Qual o futuro dos Call Centers? 
A questão é muito mais ampla do que emprego de uma classe; é de escolha de paradigmas de sociedade.  
Quando os vendedores de automóveis dizem " A minha filosofia de vendas é..." prestam homenagem ao conceito embora não percebam nada do conteúdo. Desvalorizar a filosofia, nos curriculos universitários, nos curriculos liceais, na aprendizagem ao longo da vida é esquecer que ela é a sombra da vida e que todos os nossos argumentos estão permeados de conceitos, valores, pressupostos.
Há quem queira viver sem a sombra, como o Peter Schlemihl. Por exemplo no debate do petróleo e dependência de combustíveis. Pode debater-se o preço do crude nos poços, o hedging nas refinarias, a distribuição, o ISPP, o IVA e a GALP, as sete irmãs e a Branca de Neve, se necessário também. Mas de nada adianta se não se colocar a condição prévia: por que razão escolhemos uma sociedade que depende de um produto cujo acesso não controla ?  
Curiosamente: lutar pela filosofia, tornou-se hoje lutar pelo bom senso.

28.6.08

Maria Luísa Guerra - O assassinato da Filosofia


Vai realizar-se no próximo mês de Julho, em Seul, na Coreia, o Congresso Mundial de Filosofia, organizado pelo FISF, organismo que concentra as sociedades dos professores de Filosofia do ensino secundário e do ensino universitário de todo o mundo. Tem a marca da globalização. É um encontro de tradições pedagógicas, de reflexão sobre a natureza e o papel da Filosofia na sociedade. Mostra o interesse dos vários países pelo problema. Mostra o que é evidente: o carácter vivo e actuante da Filosofia. O seu lugar insofismável na formação da mentalidade. Assim acontece no mundo.


E em Portugal? Em Portugal assiste-se ao inédito. Pela primeira vez em mais de um século (desde a reforma de Jaime Moniz, em 1895) destruiu-se decisivamente a Filosofia no ensino secundário. Podemos recuar mais atrás, a 1844, e mesmo aos Estudos Menores, criados pelo marquês de Pombal em 1799. Estudos onde figurava a disciplina de Filosofia Racional. Servia de acesso aos Estudos Maiores. Neste quadro de interesse global já referido, lembra-se também que a UNESCO instituiu o dia 15 de Novembro como Dia Mundial da Filosofia, congregando 36 nações. E em Portugal? Em Portugal desvaloriza-se o exercício do pensamento, o rigor da análise, a descoberta de paradigmas e de valores, a discussão de problemas, a formação do espírito crítico, a reflexão sobre a aventura humana, parâmetros específicos da Filosofia e do seu ensino.

Sabe-se que a finalidade do estudo em qualquer disciplina não é o exame. Mas também se sabe que, na prática, se não houver exame, os alunos não se interessam. Não estudam convenientemente. Residual e em vias de extinção a Filosofia no 12.° ano. Obrigatória no 10.° e 11.° anos mas não sujeita a exame nacional. "Para que serve?" pensam os alunos.

É uma disciplina decorativa. Sem importância. Morta à nascença. Ainda se rege Filosofia na universidade nalguns cursos, cada vez mais despovoados. Com este vazio no ensino secundário, acabará de vez.

O sucesso escolar não é gratuito. Depende de currículos apropriados, mas depende sobretudo de cabeças bem-feitas, treinadas numa apurada e progressiva ginástica mental, no exercício da abstracção, da comparação, do dissecar analítico. Esse exercício cabe especificamente à Filosofia.

No limite, pela depuração que exige e supõe, aproxima-se da Matemática. Não é por acaso que grandes filósofos de referência (de Pitágoras a Descartes, de Leibniz a Russell) foram matemáticos. Tirar aos jovens esta ginástica mental é criar o caos. Multiplica-se no mundo a presença e o interesse pela Filosofia. Em iniciativas globais. De Paris a... Seul. Em Portugal, desvaloriza-se até a morte. Original. 
[Público de 28/06/2008, sem link aberto ao público]

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23.6.08

VII-- Re(leituras), The End of Faith, de Sam Harris, por André Bandeira

Este livro de Sam Harris, mereceu, quase em circuito fechado, o seguinte comentário de Richard Dawkins, autor the "A desilusão de Deus" (ou ilusão): "Leiam o livro e acordem!". O livro começa por ser uma lufada de ar fresco contra o fanatismo religioso. Argumenta muito de uma forma lógica bivalente ( se se concede numa proposição que algo é, então, na segunda proposição, o seu contrário não é, ignorando que quando se muda de proposição, se muda também, muitas vezes, de contexto, e até se desvia, em vez de mudar realmente). Harris começa por descascar forte e feio no Islão, argumentando de um modo persuasivo que não há islâmicos "moderados" e que certas crenças são perigosas. Descasca depois no judaísmo e no cristianismo, invocando o Holocausto. Termina por propôr um orientalismo extra-mediterrânico (ilustrado até pelas pequenas percentagens de apoiantes dos atentados suicidas, registados na Indonésia) em que elogia e avulta toda a riqueza das tradições budista e hindu. Remata, na sua lógica bivalente -- descrita atrás -- por opôr Misticismo a Fé. "Fé", em Sam Harris, é algo que quase devia ser proibido, na medida em que vende os motivos, a acção e as consequências por atacado, enquanto o Misticismo tem regras como as de um manual. O livro perfila-se ao lado daquele de Dawkins e do outro, de Paul Berman ("Terror and Liberalism", 2003), que foi a grande tomada de posição da Esquerda Norte-americana contra o "islamo-fascismo", refundando-se na tradição liberal, e que será de certeza retomada por Barack Obama. Sam Harris, na sua criatividade vocabular, opõe ao pragmatismo norte-americano, o seu "realismo", o qual pretende jogar com a objectividade final dos valores éticos. Diz algo muito curioso, na sua arte de polemista (diga-se que um pouco "jovem"): quando os valores éticos são objectivamente agredidos, então ninguém se deve admirar que espectador racional deixe de ouvir ou conversar. Bom conselho...
Curiosamente, Sam Harris, que cita António Damásio e parece seguir a senda de Eric Kendal, na busca norte-americana de uma "Ciência da Consciência", acaba por se contradizer sem disso se aperceber, mesmo antes de partir para a etapa final: acaba por dizer que os valores éticos objectivos são construções que têm necessariamente de arrancar de "crenças" e, por conseguinte, negar o valor da crença é, mais que irracional...é inviável. Quer dizer: esta ou aquela crença repugnam-lhe mas não a crença em si, que prefere obter sob a forma de fluido, em vez de plasma, mergulhando em vez de acender. Enfim, parece-me que Sam Harris procura fundar a Fé por outras vias, que não o deslumbramento. O facto de ter sido publicado graças à sua desassombrada colecção de factos quanto a diversos fanatismos religiosos, fá-lo cair no erro em que nós, leitores de jornais, caímos frequentemente: o que parece óbvio -- porque o seu contrário parece obviamente falso -- tem um fôlego curto, a que a publicidade e as urgências da decisão pública, juntam uma certa cegueira própria do excesso de claro/escuro. Como se a Realidade fosse um fato de Pierrot, agitando-se constantemente, de todos os lados, à nossa volta.

15.6.08

A mensagem é:

Não preciso de perceber de futebol para considerar Luiz Felipe Scolari um cretino.
Quebrar uma dinâmica de vitória da Selecção A com uma Selecção B, como se os AA's estivessem muito cansadinhos é de "Sargentão" não é de "General". A mensagem é que não é preciso dar tudo por tudo. Deixa para lá: o Chelsea já contratou e ele dará tudo pelo Chelsea. Tive relutãncia até em ver o jogo. Vi alguns minutos. Parabéns À Suíça. Se até o moral dos pés vem abaixo, pobre Portugal no Verão.

14.6.08

Um Não que é um Yeah!

Para além dos gostos e desgostos eurofóbicos e luso-porreiristas, registo um facto geopolítico: nunca o Departamento de Estado norte-americano aplaudiu um único aprofundamento europeu ! Mas em todo o momento insiste no alargamento (Turquia, Ucrânia, Geórgia). É quase o mesmo que dizer a alguém: coma à vontade, que não precisa fazer ginástica! Quanta gente na Irlanda se chama Bush, Kennedy e Clinton ???? (admito que Obama deve haver poucos)... A comunicação social inundada por Reuters e IP nem tem tempo para indicar isto. Acordem, que o mundo é global e complicado! O Não da Irlanda, por 110.00 votos, também é um Yeah americano...

31.5.08

VI- (Re)leituras: " A World Restored " de Henry Kissinger, por André Bandeira

Esta é a Tese de Doutoramento, de 1964, daquele que foi o Ministros dos Negócios Estrangeiros de Nixon e lhe sobreviveu até hoje. Com mais de oitenta anos, Kissinger, filmou um spot publicitário a seguir ao ataque às Torres Gémeas de Nova Iorque em que corria e se atirava para o chão, naquilo que se chama "home run", do baseball, isto em homenagem à resistência da América ao Terrorismo. Mais recentemente, Kissinger, com George Schultz, William Perry e outros ex-Ministros dos Negócios Estrangeiros de ambos os grandes partidos norte-americanos, veio defender a abolição completa das armas nucleares. Sinais dos novos tempos que aí estão...
Que diz a Tese de Kissinger? A tese de Kissinger pode resumir-se em várias frases, como quem faz um holograma, onde, de todos os pontos de vista se vê sempre o conjunto todo. A mais famosa é a de que a legitimidade é precisamente aquilo de que não se fala e que funciona na mesma. Legitimidade não é justiça. Já o Direito diz que há a sucessão legítima e a sucessão legitimária, quando não se respeita a legitimidade, porque se esta não é respeitada, então faz-se respeitar, achemo-la ou não justa. E tem força de Lei mas tem muita mais força que isso.
Contudo, o que Kissinger exprime verdadeiramente neste livro é a diferença entre o revolucionário e o "legitimista", ou seja: o revolucionário exalta-se, o conservador qualifica-se. Mas, ao contrário do que se pensa, o revolucionário impõe-se, primeiro a si mesmo e, depois, aos outros, enquanto o conservador se legitima. Ora, se a legitimidade não é justiça, o que o livro quer dizer é que a justiça acaba sempre por perder.
O livro trata de Castlereagh, o lorde inglês que reprimiu a Irlanda pró-napoleónica e que foi um aliado menor de Metternich, o Príncepe austríaco que enterrou Napoleão mas também enterrou o Antigo Regime. Engraçado, não é? O homem conservador e da legitimidade acabou por aplicar Napoleão aos bocadinhos e a Europa acabou por ficar toda constitucional, o que quer dizer que se legitimou de outro modo e continuou injusta. O conservador não mudou algumas coisas para que tudo ficasse na mesma, mas manteve quase tudo para que de facto algo mudasse. Mas a Justiça não é mudança, é retorno, o que quer dizer "Revolução". Ou seja: o contrário de "mudança".
Kissinger declarou, não há muito tempo, na Alemanha que quem mais admirava era Bismarck, o unificador da Alemanha, aquele que dizia à sua mulher sentir-se como um anjo caído, com a beleza dos antigos anjos, mas sempre insatisfeito neste mundo, sem nunca encontrar paz. Kissinger é de origem austríaca. Ele e Bismarck esqueceram-se de dizer outra coisa sobre os anjos caídos: é que a Nostalgia é o nome da maior das suas dores. Quem tem nostalgia nunca perderá, ao contrário da Justiça que sempre se arrisca a perder, mas também nunca ganhará, como a Esperança, que só morre depois de morrermos. A nostalgia tira-nos da frente de batalha e as palavras estão todas trocadas. Há quem tenha prazer a pô-las todas no seu devido lugar, porque as palavras são apenas o início de uma conversa. Mas quem tem apenas prazer, é um patusco e as brincadeiras de uns fazem a dor de muitos.
Enfim: porque é que Castlereagh, um dos raríssimos britânicos que foi europeu, se suicidou? Porque quis repôr, em nome da Justiça, algo que não tinha que mudar mas que tinha apenas de se equilibrar e perdurar. Napoleão era sem dúvida um grande sedutor e Metternich fez-lhe o serviço. Kissinger faz-nos o serviço de dizer que só depois de Castlereagh se ter suicidado se revelou a sua enorme solidão, ao longo de toda a vida.
Pois é. Porque quem retorna em nome da Justiça não tem companhia. O abismo da solidão é o sêlo negro da Esperança, que é o contrário da Nostalgia. E assim caímos, como Homens e não como Anjos: caímos para cima.

9.5.08

Lançamento


Uma causa saborosa... acho eu...!

Não tenhais medo, por Pedro Cem

Lembro-me às vezes desta frase de João Paulo II. Está explicada por enquadramento, quando o Papa visitou a Polónia, ainda a do Pacto de Varsóvia e a gente, sempre católica, vinha falar com ele (até os dirigentes) exprimindo aquilo que desejavam mas não conseguiam fazer. Penso que foi, nesta altura, sobretudo quando ele se despediu dos dirigentes que sabiam ter um arma apontada à cabeça, que a frase lhe surgiu. Muitos a tinham dito, em diversas situações, aos berros numa batalha, numa barricada, a caminhar para o cadafalso, ao deitarem-se numa mesa de operações, ao compôrem o casaco antes de um encontro, ao alinharem em frente ao pelotão de execução, ao atrvessar um ermo escuro todos os dias, depois de um duro dia de trabalho. Não tenhais medo, repete-se dentro da minha cabeça.Não pergunto porquê. Como o meu amigo Mário Teixeira, frade fradinho, sindicalista e eremita e agente de viagens me dizia: tem confiança. Confiança em quê, perguntava eu e le dizia-me: só confiança. Mais nada.
E agora lembro-me a propósito de nada, outra coisa que me anda a bater na cabeça, o rumor de Roma, algures no séc. I D. C. quando toda a gente comentava que a bela Dama patrícia Lavínia tinha fugido com um pobre desafortunado gladiador, que lhe devia dar pelo ombro, o "Sergulo", e que se pode traduzir mais ou menos por "Serginho". E diz a lenda que nunca mais foram encontrados e que viveram felizes o resto da sua vida. Dizia ainda o rumor de Roma" Como era possível? O pobre Sergulo que tinha o corpo tão coberto de cicatrizes que parecia deformado e nem metade do nariz tinha, que lho tinham cortado num combate".

3.5.08

E não havia ninguém


Primeiro perseguiram os comunistas e eu nada disse - porque eu não era comunista.
Depois, perseguiram os socialistas e eu nada disse - porque não era socialista.
A seguir, perseguiram os sindicalistas e eu nada disse - porque não era sindicalista.
Depois perseguiram os judeus e eu nada disse - porque não era judeu.
Por fim perseguiram-me - e não havia ninguém para falar por mim. Martin Niemöller

22.4.08

V - (Re)leituras: "Das Spektrum Europas" de Keyserling, por André Bandeira

Hermann Von Keyserling escreveu em 1928 este perfil dos Povos da Europa, mas em 1931 acrescentou-lhe um capítulo sobre Portugal. Keyserling era tido como um ensaísta, um generalista que dizia muitas coisas gerais que pareciam verdade, todas pouco comprováveis ( e, talvez ouvindo falar de Colombo, dizia que Marco Pólo era português). Keyserling era considerado um Spengler mas sem pessimismo. Quando morreu, no Tirol, em 1946, este aristocrata báltico de cultura sueca, tinha visto a Europa toda,,de frente e de verso, e acreditava que ao mundo acontecia uma tragédia, de "quatro em quatro semanas", como as térmitas, mas que o futuro seria "ecuménico". Na aparência, que foi o seu Meio, teve razão. Sobre a sua comunidade, digamos que era daqueles da época de trinta a dizer que se tinha de combinar Sócrates com o Tao,ou Platão com Vivekaananda.
Sobre Portugal: começa por dizer que nunca viu tantos superlativos de cortesia como entre os Portugueses ( sic. Unamuno) tais como Excelência, "Vossa Senhoria", etc. Que ninguém falava tantas Línguas tão bem como os Portugueses. Que não havia nenhuma diferença entre Espanha e Portugal, excepto a negação total de Portugal feita a Castela,negação de resto partilhada pelos Galegos ( repete o episódio também ouvido das Invasões francesas, em que o Super-Poder do Duque de Alba entrando em Portugal, em 1580, numa ponte da fronteira, deparou como um indivíduo que de chapéu na mão lhe barrava o caminho e se aproximou dele dizendo " esteja tranquilo que eu não lhe faço mal"). Onde o castelhano era orgulhoso e brutal, o português era humilde e mesquinho. Também nunca vira tantos diminutivos, como numa canção em que a Morte era tratada por "a mortinha". A equação portuguesa era insolúvel, Portugal "uma varanda sobre o infinito". Nunca vira uma tão grande combinação de tipos raciais, onde todas as combinações e reaparições eram possíveis. O português era o mais explosivo dos caracteres europeus. Assim, Portugal só superou as suas contradições no Império, quando chegou ao máximo da combinação de um máximo de caracteres díspares. Só dois Povos, segundo Keyserling, se assemelhavam aos portugeses na Europa: os alemães, porque a sua "Sehnsucht" era a única coisa europeia comparável à Saudade, esse mecanismo para assentar em algo harmonioso, quando a desarmonia do Presente se reconhecia insuperável. E, acima de tudo, os Gregos: Portugal era grego ( Grécia qual, aliás, para Keyserling era o Sul da Rússia, acrescentando muito curiosamente que as discussões com Sócrates eram tão insuportáveis como aquelas que mantivera com estudantes de Moscovo -- só então me dei conta com a semelhança do busto de Sócrates com um velho russo). Portugal, como os Gregos, cultivava um passado eterno e glorioso, só para acabarem no total caos da realidade. Com uma diferença: os gregos acabavam no caos dos paradoxos intelectuais. Os portugueses, acabavam no caos dos paradoxos emocionais, o qual disfarçavam com um total virar das costas ao estudo do coração e um apêgo teimoso, mesquinho, ao Objectivo.
Keyserling tem muita razão e dá-nos porventura uma chave para o tempo horrível que Portugal atravessa: caos emocional.

19.4.08

Luís Filipe Meneses e o Cardeal de Retz





“Acredito firmemente que são necessárias maiores qualidades para ser um bom chefe de partido do que para ser um bom imperador”, disse Retz e mostrou-o Meneses.

Cardeal de Retz – Teoria da Conspiração 1ª parte
Perante a desconsoladora repetição dos comentadores políticos nacionais, vejo-me obrigado repetir clássicos. Não creio que seja presunção mas sim o efeito de revolta contra a presunção satisfeita e a miopia ideológica que ataca quase todos os nossos encartados e publicitados comentadores nacionais. Reduziram a política à ideia de manobra e conspiração. Mas será que conhecem mesmo os recantos desta visão teatral que tem um lugar indispensável mas subalterno na vida política? Acho que devemos todos reler o Cardeal de Retz.


Sainte Beuve dizia que só conseguia ler dois autores: Maquiavel e Retz. Porquê? Qual a razão de Paul de Gondi (1613-1679) coadjutor, e depois Arcebispo de Paris e Cardeal de Retz ter ganho um lugar na história das ideias políticas?

Retz entrou na história pela sua actuação no tempo da Fronda, a revolta contra a monarquia francesa, entregue então às mãos manipuladoras do Cardeal Mazarino. Eram tempos novos, de ruptura com a velha ordem. Está a terminar a harmonia medieval das autoridades difusas. E cada autoridade política quer definir os seus poderes, se possível por escrito. Era a revolução de Cromwell em Inglaterra, e as revoltas contra os reis Áustrias, das quais a única com sucesso foi a revolução de 1640 em Portugal. Richelieu morreu em 1642. Em 1647 o Parlamento de Paris recusou um édito de Mazarino. O crescimento da autoridade do estado e os problemas financeiros são os mesmos por toda a parte. E de um modo geral, vai falhar em toda a Europa a tentativa de estabelecer a monarquia limitada.

Retz é o conspirador que defende a velha monarquia limitada, apoiado no Parlamento de Paris. Este tinha o poder de aprovar as ordenações régias de natureza legislativa e financeira, a fim de adquirirem a força de lei. Era composto por cerca de 200 membros que formavam a cabeça de um corpo de 40 mil funcionários que reunia a magistratura judicial e financeira de toda a França. Organizadas em Câmaras mas reunindo em plenário para aprovação de assuntos de Estado, eram as cabeças das 40 mil famílias que representavam a França comercial e industrial.

Segundo Retz, a monarquia assentava num equilíbrio entre vários poderes, sendo virtuoso que os poderes do rei não estivessem fixados por escrito. Era uma monarquia temperada pelos costumes dos Estados Gerais e dos Parlamentos, uma monarquia que navegava entre a prepotência régia e a libertinagem popular. O “mistério do estado”, as prerrogativas do rei, não deviam ser rompidas. Não deviam , mas estavam a ser.

A teoria da conspiração de Retz assenta na criação de poder político através da imaginação. O poder do Parlamento, diz, assenta na imaginação: “Eles podem fazer o que acreditam que podem fazer, chegados a um certo ponto”. Contudo, a imaginação não trabalha por si própria; requer esforço e há um longo caminho a percorrer “ desde a veleidade à vontade, da vontade à resolução, da resolução ``a escolha de meios, da escolha de meios à sua aplicação”.

Se a imaginação se apoiar em acção pode ser fonte de sucesso. Neste sentido, Retz é o primeiro conspirador moderno, o agitador profissional que aprecia as jogadas políticas e as desenvolve como uma arte da manobra: “Acredito firmemente que são necessárias maiores qualidades para ser um bom chefe de partido (chef de parti) do que para ser um bom imperador”.

13.4.08

a voz portalegrense

Chamada de Atenção para A Voz Portalegrense, de Mário Casa Nova Martins , um excelente blog de actualidade cultural e política, irradiando do Alentejo

9.4.08

Coragem e Solidariedade

Posso não gostar de touradas mas gosto da Coragem e Solidariedade dos Forcados

3.4.08

IV- (Re)leituras. A Paixão, de Mel Gibson, por André Bandeira

"A Paixão", do realizador e actor australiano Mel Gibson tem alguns truques conhecidos. O uso, porventura das línguas originais, a caracterização dos legionários romanos como alguns lúbricos solteirões italianos, a possível piedade da mulher de Pilatos por Nossa Senhora e Maria Madalena, o grande traço que Jesus desenha na areia durante o episódio da condenação da mulher adúltera, a exclusão de Barrabás, os dois ladrões demasiado caracterizados, o Diabo como uma bruxa irlandesa e seu filho careca. O costume é dizer que Mel Gibson está cheio de referências àquelas coisas que algumas seitas preferem acrescentar ao Evangelho.
É possível que sim. Mas, por trás dos efeitos especiais, há o traço pessoal de Mel Gibson. O traço pessoal de Mel Gibson está na caracterização de um Jesus fisicamente forte, de um Jesus que parece desses australianos que bebem até cair, aos fins-de-semana, na Austrália, que vê tudo ao contrário quando é arrastado (sendo que faz parte do "ver ao contrário", recordar-se dos episódios da Sua Vida), que consegue sobreviver a todos os golpes até enfrentar a Morte. O desespero do Diabo passa-se num deserto sêco como o da Austrália, o desespero de Judas passa-se ao pé de um cadáver de cavalo, como os limites da colonização anglo-saxónica no deserto aborígene.
O plano da ressurreição de Jesus é bonito até se O ver sair, ao nível das pernas, da sepultura, no plano final. Há nisto tudo muito de um Mel Gibson idolatrado pelas mulheres, conhecido pela sua timidez irreparável ( Mel Gibson -- que é famoso pela candidez das suas declarações -- casou-se apenas graças a uma Agência, tendo sempre repetido que era incapaz de falar a uma mulher de quem gostasse), envolvido quando era mais novo em tareias de bar monumentais e finalmente nu, num leito de pedra.
E agora, por trás de todas estas marcas pessoais, que demonstram o Cristo que há em nós e também em Mel Gibson, o filme "a Paixão" não deixa de nos recordar, a uma segunda leitura, que para além dos que as palavras significam num texto, há uma condição comum a todos nós que é aquela da Paixão de Jesus. Por isso, para além de tudo aquilo que um filme de um ano deixará evaporar-se no éter, há uma mensagem bem humana, sobretudo naquele "flashback" ao Sermão da Montanha em que Jesus diz que "ao contrário, eu digo-vos que rezeis pelos vossos perseguidores", porque de outro modo "não haveria nenhum mérito". O possível para os Homens, o impossível para Deus.

2.4.08

Uma carta à América




David Boren, actual presidente da Universidade de Oklahoma, e ex senador e, governador acaba de publicar Carta à América, com 112 páginas para responder à pergunta, "Durante quanto tempo podem os EUA permanecer o super poder mundial?" e para que os americanos não se tornem em " nação de especialistas bárbaros."
Embora optimista, Boren acha que os problemas só podem ser resolvidos se desaparecer o partidarismo que domina a vida política americana. Tempos houve em que dominava o bipartidismo de Arthur Vanderburg e Mike Mansfield .
Actualmente, somente quatro ou cinco senadores em cada partido são moderados num total de 100. E há o cinismo crescente do público.
Em 1976 o custo da campanha presidencial era $67 milhões. Em 2000 era de $344 milhões e, em 2004, $718 milhões. O custo médio de uma campanha para Representante era de $53.000 em 1974, e de $773.000 em 2004. O custo médio de uma campanha para senador era de $437.000 em 1974 e $5.4 milhões em 2004. E os candidatos recebem mais de metade do dinheiro dos comités de acção política (PACs). O livro contém outras observações sobre o déficit, a instrução, a política externa, a classe média, o ambiente e a necessidade de conhecimento da história

30.3.08

Situação no Iraque

Na semana em que se desencadearam
as guerras intra shiitas, Bagdad está a tremer que Bassorah comece a arder.
Os 4100 britânicos no aeroporto de BAssorah são um alvo mas não servem para fazer a diferença. Será a Operação Assalto Final do presidente Maliki um erro tremendo porque não permite recuo e a ser derrotada é o descrédito sem apelo ? Ou será um golpe de poker bem jogado, agora que Bush já nada tem a perder. A operação "vietnamização da guerra" tem a marca de Richard Cheney e dos neocons. Deverá acabar do mesmo modo.

28.3.08

Conhecer pelo andar...!

De Luís Brum
http://bagosdeuva.blogspot.com/2008/03/conhecer-as-mulheres-pelo-andar.html

Um antigo jornal espanhol apreciava assim a mulher pelo andar:
A que bate com os tacões, deitando o escritório a baixo, tem um génio a quem o demónio resiste.
A que anda nos bicos dos pés, é zelosa, curiosa, viva, impressionável e algumas vezes impertinente.
A que assenta a planta do pé é descansada, alegre, risonha e de bom carácter.
A que mete os pés para dentro, é maliciosa, pouco animada e pouco sincera.
A que deita os pés para fora, saracotando-se com desenfado, é capaz de comer uma vitela e negar até que o sol dá luz.
A que anda de peito saído e apertada de cintura, é dominante, presumida e não se impressiona com coisa alguma.
A que anda de cabeça baixa olhando para o chão, está disposta a enganar pai, mãe, irmãos o mundo inteiro.
A de cabeça levantada tem a massa encefálica empoeirada e o coração cheio de estopa.
A que se balanceia para um e outro lado, não conhece a modéstia nem ao menos pelo avesso.
A que pela rua se vai mirando, só gosta dela mesmo.A que é simples e só olha quando é necessário, sem fixar demasiadamente, que não anda depressa nem devagar, nem direita nem curvada, sem demasiados enfeites, é uma grande mulher.
Esta legislação minhas senhoras é claro que vigorou só na Espanha...Nada de sustos...Antigamente em Espanha conheciam as mulheres pelo andar.Em Portugal, em 2008, como conhecer as mulheres?

20.3.08

Dois Pensadores

Hoje, dia dos tambores de guerra do Iraque, quero comemorar Agostinho da Silva, um profeta da paz messiànica. E porque ele não está isolado, vou buscar o que já escrevi em Aproximação e um outro avatar da sabedoria ocidental - Bernnard Lonergan"Homenagear Agostinho da Silva é combater este apartheid entre filosofias e entre filosofias e outros saberes. E em homenagem a Agostinho da Silva proponho-me aproximá-lo a um outro grande pensador, Bernard Lonergan, também à margem da tradição académica dos professores de filosofia e dos filósofos profissionais. Ambos são provocadores de ideias mais do que doutrinadores, e ambos assumem a tradição originária de apelo à sabedoria que é inseparável da experiência humana.São dois pensadores com percursos muito diferentes ­- dir-se-ia o dionisíaco e o apolíneo - mas também com muitos paralelos. O português que vai para o Brasil que é “Portugal à solta” e que regressa ao solo físico da pátria de onde nunca saiu espiritualmente. O canadiano que vem para a Europa em Inglaterra e Roma, onde adquire o saber que levará de volta para as Américas. O leigo que faz figura de profeta espiritual e o sacerdote que escreveu uma melhores hermenêuticas das ciências humanas. E nas suas diferenças, ambos peregrino por uma verdade maior.Sobre Agostinho da Silva creio que, neste Congresso, nada é preciso acrescentar mais que uma sua conhecida e deliciosa auto-definição: «Claro que sou cristão; e outra coisas, por exemplo budista, o que é, para tantos, ser ateísta; ou, outro exemplo, pagão. O que, tudo junto, dá português, na sua plena forma brasileira».Sobre Bernard Lonergan cuja obra Inteligência; um ensaio sobre o conhecimento humano, aqui anuncio como em vias de ser publicada em português, introduzo-o de uma forma ingrata às reputações contemporâneas: um sacerdote jesuíta, um professor da Universidade Gregoriana, um canadiano formado na velha Europa mas que pede que cada um de nós pense por si mesmo. "