23.7.08

Capitão Ahab




A disciplina de Relações Internacionais ameaça tornar-se a preferida do Conselheiro Acácio.
A enorme massa de platitudes que infesta as revistas de geopolítica, relações internacionais e ciência politica, algumas transexuadas de jornalismo, é de fazer vómitos. Os ditos especialistas que se colocam em biquinhos dos pés para nos recitar como vai o mundo desde Vestefália e qual vai ser o próximo espirro de Condoleeza Rice ou o traque do novo senhor do Kremlin, são de enjoar; a suficiência bronca com que nos debitam cenários que nunca acontecem fora da cabeça deles, e de mais alguns centos de fotocópias da Universidade de Georgetown, é assustadora.
Para variar radicalmente gostaria de trazer o que ainda não vi nenhum embora decerto que uma pesquisa google o faça aparecer de tal modo é óbvio; ter modelos literários para analisar as relações internacionais.
O que me fez pensar nisso é o paralelo entre Moby Dick e o Terrorrismo, entre o capitão Ahhab e George (vai-se embora) W. Bush.
São bem conhecidas as análises de como o romance Moby Dick significa a externalização do mal; converte-se o mal no absolutamente outro para que o eu seja o bem. E nesse processo o capitão Ahab ( um nome elementar, básico, bushiano) perde a alma, os seus marinherios perdem a vida e tudo termina numa enorme tragédia como os acontecimentos contemporâneos do baleeiro Essex que inspirou o grande escritor americano.
Esta simplicidade de que só os grandes escritores são capazes para sondar a alma humana é decisiva para analisar George W. Bush. È muito mais verosímil do que os supostos actores, agentes, entrosamentos, redes, factores do potencial, cenários, e muitos outros pluses e minuses do jargão das RI. Perceber que por detraá das grandes causas que arrastam o mundo também ( ou sobretudo, isso é para debate) existem as pequenas causas da personalidade humana que nasce e morre sozinha. Mas pelo meio vive em comunidade e é a esta que deve prestar contas. Moral: Ler Moby Dick é ler o maior fantasma jamais concebido pela alma americana que renasceu com George Bush, é ler como melville profeticamente sabiaA uma certa América que caminha para o fim do império como sucedeu a outros impérios criados “como quem os desdenha”, ou seja, by default.

17.7.08

Pontos e vírgulas



O grande polemista Karl Kraus escrevia muito sobre a correcção do alemão por volta de 1901. E um dia disseram-lhe. "Então o senhor escreve sobre onde colocar pontos e vírgulas enquanto Pequim está a arder. ?" Decerto adivinham a resposta: " Se colocassem os pontos e vírgulas no sítio certo, Pequim não estaria a arder." Posto isto entregaram a Casa dos Bicos à Fundação Saramago

15.7.08

Margarida vai à fonte...!



A 15 de Julho de 2007, António Costa era eleito presidente da Cãmara nas eleições intercalares na Câmara Municipal de Lisboa.
Um ano depois, Margarida Vila-Nova, Mandatária para a Juventude de António Costa, numa sessão organizada pelo PS Lisboa veio afirmar corajosamente que "NO PASA NADA". E que eco teve nos OCS ? Que eco não lhe deram ? Afinal a direita dos interesses aliada à esquerda das palavras de ordem trata bem dos seus arranjinhos. Nem a explosividade sensual- política de Vila-Nova arrebenta com isso.
Eu que modestamente andei fazendo campanha pelo PT e que aprendi o que tinha a aprender de campanhas, saúdo este gesto de Margarida e por mim dou-lhe eco.

14.7.08

Barrilaro Ruas morreu a 14 de Julho de 2003



Tinha de ser. Tinha de morrer a 14 de Julho, o velho bardo da monarquia portuguesa com a memória exacta dos acontecimentos porque lhes conhecia o peso específico. No campo político, pela sua acção e livros contribuiu para o descomprometimento dos monárquicos com o salazarismo. Autor de obras sobre temas históricos, eclesiásticos, literários, pedagógicos, e de ensaio político, a que se junta uma vasta bibliografia dispersa por revistas, dicionários e enciclopédias, o essencial da obra de HBR foi o de chamar a atenção para os fundamentos das questões de identidade nacional como ressalta na sua monumental edição de Os Lusíadas que contém materiais indispensáveis para reconfigurar a interpretação da obra, como sejam o “discurso a D. Sebastião” que atravessa a epopeia, a «imagem pessoal» de Camões, ou os silêncios sobre a história de Portugal.
Muyito mais ele fez mas, por isso mesmo, apenas aqui deixo esta evocação
"Em todas as culturas ( ou civilizações) e apesar do espírito crítico e das revoluções da mentalidade, sempre a Monarquia guardou algum vestígio ao menos do revestimento (ou substância) do sagrado que deriva em linha recta da sua originária experiência religiosa"
H. Barrilaro Ruas - Do artigo Monarquia na Enciclopédia POLIS

13.7.08

Homenagem ao Bispo do Porto


Associo-me e pedi que me representassem nesta cerimónia! E há uns anos atrás escrevi, juntamente com o António Amaral sobre António Ferreira Gomes e a sua Carta.

HOMENAGEM DE COIMBRA AO BISPO DO PORTO D. ANTÓNIO FERREIRA GOMES NO 50º ANIVERSÁRIO DA CARTA A SALAZAR
Em 13 de Julho de 2008, próximo domingo, ocorre o 50º Aniversário da Carta a Salazar, escrita pelo Bispo do Porto D. António Ferreira Gomes.

Cidadãos de Coimbra, conscientes da importância política que teve na luta pela Democracia essa Carta, assinada um mês e cinco dias após as eleições presidenciais ganhas pelo General Humberto Delgado, surgida do interior de um dos pilares do Estado Novo, a Igreja Católica, a qual levou ao exílio do País o seu autor, entendem prestar Homenagem a quem teve tão profundo acto de coragem, que o Estado Democrático reconheceu ao atribuir-lhe a Grã Cruz da Ordem da Liberdade.

Convidam-se todos os que se queiram associar a esta Homenagem Cívica, a divulgá-la e a nela participar, sendo portadores das respectivas condecorações.

Dia – 13 de Julho, próximo domingo
Local – Monumento ao 25 de Abril, Rua Antero de Quental, praceta junto ao edifício da ex – PIDE/DGS

Início – 11h00
Intervenções –
11h15 – José Dias – colaborador da Fundação Inatel, Movimento Cívico Não Apaguem a Memória
11h30 – Amadeu Carvalho Homem – professor da Universidade de Coimbra, Alternativa Associação Cultural para o Desenvolvimento do Ser Humano
11h45 – José Manuel Pureza – professor da Universidade de Coimbra, Comunidade de Acolhimento João XXIII
Encerramento – 12h00


Nota – Carta a Salazar e biografia de D. António em www.fspes.pt
Coimbra, 08 Julho 07
Amadeu Carvalho Homem, José Dias, José Manuel Pureza

6.7.08

Novilíngua


O futuro ou já o presente?
Eu axo q os alunos n devem d xumbar qd n vam á escola. Pq o aluno tb tem direitos e se n vai á escola latrá os seus motivos pq isto tb é perciso ver q á razões qd um aluno não vai á escola. primeiros a peçoa n se sente motivada pq axa q a escola e a iducação estam uma beca sobre alurizadas.
Valáver, o q é q intereça a um bacano se o quelima de trásosmontes é munto montanhoso? ou se a ecuação é exdruxula ou alcalina? ou cuantas estrofes tem um cuadrado? ou se um angulo é paleolitico ou espongiforme? Hã?
E ópois os setores ainda xutam preguntas parvas tipo cuantos cantos tem 'os lesiades', q é um livro xato e q n foi escrevido c/ palavras normais mas q no aspequeto é como outro qq e só pode ter 4 cantos comós outros, daaaah.
Ás veses o pipol ainda tenta tar cos abanos em on, mas os bitaites dos profes até dam gomitos e a malta re-sentesse, outro dia um arrotou q os jovens n tem abitos de leitura e q a malta n sabemos ler nem escrever e a sorte do gimbras foi q ele h-xoce bué da rapido e só o 'garra de lin-chao' é q conceguiu assertar lhe com um sapato. Atão agora aviamos de ler tudo qt é livro desde o Camóes até á idade média e por aí fora, qués ver???
O pipol tem é q aprender cenas q intressam como na minha escola q á um curço de otelaria e a malta aprendemos a faser lã pereias e ovos mois e merdas de xicolate q são assim tipo as pecialidades da rejião e ópois pudemos ganhar um gravetame do camandro. Ah poizé. tarei a inzajerar?


Verdadeira ou falsa, esta composição de um aluno do CEF-9ºANO reflecte uma parte do ensino secundário na novilíngua que corresponde ao "fechamento da mente portuguesa". Eric Blair (aka George Orwell) analisou o fenómeno no "1984" em 1952. Anthony Burgess escreveu o mesmo em 1962 no Orange Clockwork que deu origem a um dos grandes fimes da história do cinema e de Stanley Kubrick. Allan Bloom em 1992 analisou o fechamento da mente americana. A crise há muito que anda por aí. Agora, até estamos no momento de catársis , de reconhecimento maciço do que se passa. A nossa época já não acredita em ideologias porque a ciência desmistificou os respectivos fundamentos unilaterais; mas - há sempre uma mas - continua a viver e pensar segundo categorias ideológicas sem um pensamento matricial capaz de acolher contributos dispersos por metodologias diversas.

3.7.08

Então, para que serve a Lusofonia ?


A nossa COMUNICAÇÃO SOCIAL ESTÁ DOENTE, com excepções. O grave não é só o dinossaurismo de Miguel Urbano Rodrigues e demais avantistas, bem referido por Jorge Ferreira. O grave é que estando em jogo a vida de um luso descendente pouco ou nada se preocupou durante cinco anos com os movimentos e petições que corriam, pela Lusoesfera nos Estados Unidos e na Venezuela e em Portugal.

Entre as noticias da libertação de Ingrid Betancourt veio agora o destaque do jovem luso-americano Marc Gonsalves, filho de Josephine Rosano e do luso-descendente George Gonsalves, descendente de emigrantes madeirenses por parte do avô e de açorianos por parte da avó. Estava refém desde 13 de Fevereiro de 2003 quando foi capturado pelas FARC- Colombia após ser abatido o avião no qual se deslocava numa missão de controlo do narcotráfico na província de Caquetá, na selva da Colômbia, durante uma operação de vigilância ao cultivo de coca - não sabemos se daquela que costuma desembarcar no aeródromo de Tires...

Mas houve quem se tivesse mexido antes e não foi noticiado. João R. Crisóstomo, reconhecido pela defesa dos portugueses radicados nos EUA, bem como dos Direitos Humanos – e que em 2004 liderou uma grande homenagem internacional a Aristides de Sousa Mendes –, lançou a ideia entre os clubes e organizações luso-americanas nos Estados Unidos de uma petição a 3 de Abril que foi entregue.  João Paulo Veracruz, presidente do Centro Social Madeirense de Valência, João Sidónio Rodrigues, presidente do Centro Marítimo de Venezuela, Fernando Silva, presidente da Casa Portuguesa da Arágua e o presidente do Centro Português de Caracas Juan Gonçalves, apelaram ao "Governo português a avançar com gestões para ajudar a este luso-descendente que está sequestrado e reforçar o apoio a qualquer português, do mundo inteiro" que eventualmente seja sequestrado. Tal como não se falou dos negócios de Américo Amorim na ida do primeiro ministro a Caracas, também não se falou destes pedidos a José Sócrates.

Agora o drama chega ao fim e Gonsalves volta a Casa.Devido a outros meios.  Fico contente.  MAs a Lusoesfera mexeu-se e em Portugal quase não se falou dela. É de esperar que fique a lição que não haverá mais silenciamentos quando houver capturas de outros portugueses ou luso descendentes por esse mundo fora. Mas então, para que serve a Lusofonia ?

2.7.08

Espaços Verdes




O jardim do Palácio Galveias em obras vai ser de novo visualmente tapado. Em vez de deixarem Sá Fernandes, o Vereador dos Espaços Verdes manter o jardim com um gradeado protector para o público o poder desfrutar visualmente, os serviços de Cultura de que depende a Biblioteca Municipal no Palácio Galveias impuseram que se refizesse o muro anteriormente existente, cortando aos olhos do público este espaço lisboeta. E assim se corre o risco de perder o que aos cidadãos pertence ...

30.6.08

c. O Monge-Guerreiro de Kamakura, por Eric Voegelin

A resposta ao post anterior mostra alguma incompreensão do que é luta. Remeto para duas fontes obrigatórias: Fernando pessoa e o seu peoma guerreiro -monge e a peça de igula título que sairá no nosso vol vol 03. cap. 4. c. de Voegelin que começa a entrar no prelo

vol 03. cap. 4. c. O Monge-Guerreiro de Kamakura

As ordens militares na sociedade ocidental tiveram de ceder o lugar à cidade e ao estado nacional. Contudo, o desaparecimento precoce não deve obscurecer a importância intrínseca do fenómeno. Em circunstâncias mais favoráveis, como por exemplo no Japão, na mistura do monge e dos ideais do guerreiro determinou durante séculos o carácter político da civilização. Por coincidência histórica, a introdução do budismo Zen no Japão, patrocinado pelo shogunato de Kamakura está em paralelo com a ascensão das ordens militares no Ocidente.

A fusão peculiar do misticismo e do esteticismo Zen com as virtudes guerreiras de lealdade, resistência e obediência deram forma à vida da classe governante guerreira de Kamakura porque a dinâmica da política japonesa naquele tempo seguiu um percurso oposto à do Ocidente cristão.[1] As ordens ocidentais sucumbiram porque as novas e fortes unidades políticas, emergiram a partir do campo feudal do poder. O ideal japonês do Monge-guerreiro venceu porque a vitória do clã de Minamoto e o estabelecimento do governo militar em Kamakura encerrou o período do governo imperial central moribundo, copiado das instituições chinesas, e iniciou a idade feudal japonesa (1192). As ordens militares do Ocidente, além disso, não podiam evoluir para uma elite governante porque o celibato monástico cortava a base vital que é a exigência inevitável para a continuação de um grupo secular governante; a atitude espiritual militar japonesa poderia crescer como uma força política estável porque a base vital era uma sociedade vitoriosa de um clã guerreiro.

 



[1] Sobre Zen veja Daisetz Teitaro Suzuki, Essays in Zen Buddhism, 1ª série (Londres: Luzac, 1927); 2ª série (Londres: Luzac, 1933); 3ª série  (Londres: Luzac, 1934). Reimpressão: Londres: Rider, 1970; e Teipei: Ch'eng Wen, 1971.

 

29.6.08

Peter Schlemihl....

Houve uma boa resposta ao post da Maria Luísa Guerra 
" P - Qual o futuro dos licenciados em filosofia, e de todos os licenciados em "humanísticas"? R - Call Centers."  
A pergunta seguinte é: Qual o futuro dos Call Centers? 
A questão é muito mais ampla do que emprego de uma classe; é de escolha de paradigmas de sociedade.  
Quando os vendedores de automóveis dizem " A minha filosofia de vendas é..." prestam homenagem ao conceito embora não percebam nada do conteúdo. Desvalorizar a filosofia, nos curriculos universitários, nos curriculos liceais, na aprendizagem ao longo da vida é esquecer que ela é a sombra da vida e que todos os nossos argumentos estão permeados de conceitos, valores, pressupostos.
Há quem queira viver sem a sombra, como o Peter Schlemihl. Por exemplo no debate do petróleo e dependência de combustíveis. Pode debater-se o preço do crude nos poços, o hedging nas refinarias, a distribuição, o ISPP, o IVA e a GALP, as sete irmãs e a Branca de Neve, se necessário também. Mas de nada adianta se não se colocar a condição prévia: por que razão escolhemos uma sociedade que depende de um produto cujo acesso não controla ?  
Curiosamente: lutar pela filosofia, tornou-se hoje lutar pelo bom senso.

28.6.08

Maria Luísa Guerra - O assassinato da Filosofia


Vai realizar-se no próximo mês de Julho, em Seul, na Coreia, o Congresso Mundial de Filosofia, organizado pelo FISF, organismo que concentra as sociedades dos professores de Filosofia do ensino secundário e do ensino universitário de todo o mundo. Tem a marca da globalização. É um encontro de tradições pedagógicas, de reflexão sobre a natureza e o papel da Filosofia na sociedade. Mostra o interesse dos vários países pelo problema. Mostra o que é evidente: o carácter vivo e actuante da Filosofia. O seu lugar insofismável na formação da mentalidade. Assim acontece no mundo.


E em Portugal? Em Portugal assiste-se ao inédito. Pela primeira vez em mais de um século (desde a reforma de Jaime Moniz, em 1895) destruiu-se decisivamente a Filosofia no ensino secundário. Podemos recuar mais atrás, a 1844, e mesmo aos Estudos Menores, criados pelo marquês de Pombal em 1799. Estudos onde figurava a disciplina de Filosofia Racional. Servia de acesso aos Estudos Maiores. Neste quadro de interesse global já referido, lembra-se também que a UNESCO instituiu o dia 15 de Novembro como Dia Mundial da Filosofia, congregando 36 nações. E em Portugal? Em Portugal desvaloriza-se o exercício do pensamento, o rigor da análise, a descoberta de paradigmas e de valores, a discussão de problemas, a formação do espírito crítico, a reflexão sobre a aventura humana, parâmetros específicos da Filosofia e do seu ensino.

Sabe-se que a finalidade do estudo em qualquer disciplina não é o exame. Mas também se sabe que, na prática, se não houver exame, os alunos não se interessam. Não estudam convenientemente. Residual e em vias de extinção a Filosofia no 12.° ano. Obrigatória no 10.° e 11.° anos mas não sujeita a exame nacional. "Para que serve?" pensam os alunos.

É uma disciplina decorativa. Sem importância. Morta à nascença. Ainda se rege Filosofia na universidade nalguns cursos, cada vez mais despovoados. Com este vazio no ensino secundário, acabará de vez.

O sucesso escolar não é gratuito. Depende de currículos apropriados, mas depende sobretudo de cabeças bem-feitas, treinadas numa apurada e progressiva ginástica mental, no exercício da abstracção, da comparação, do dissecar analítico. Esse exercício cabe especificamente à Filosofia.

No limite, pela depuração que exige e supõe, aproxima-se da Matemática. Não é por acaso que grandes filósofos de referência (de Pitágoras a Descartes, de Leibniz a Russell) foram matemáticos. Tirar aos jovens esta ginástica mental é criar o caos. Multiplica-se no mundo a presença e o interesse pela Filosofia. Em iniciativas globais. De Paris a... Seul. Em Portugal, desvaloriza-se até a morte. Original. 
[Público de 28/06/2008, sem link aberto ao público]

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23.6.08

VII-- Re(leituras), The End of Faith, de Sam Harris, por André Bandeira

Este livro de Sam Harris, mereceu, quase em circuito fechado, o seguinte comentário de Richard Dawkins, autor the "A desilusão de Deus" (ou ilusão): "Leiam o livro e acordem!". O livro começa por ser uma lufada de ar fresco contra o fanatismo religioso. Argumenta muito de uma forma lógica bivalente ( se se concede numa proposição que algo é, então, na segunda proposição, o seu contrário não é, ignorando que quando se muda de proposição, se muda também, muitas vezes, de contexto, e até se desvia, em vez de mudar realmente). Harris começa por descascar forte e feio no Islão, argumentando de um modo persuasivo que não há islâmicos "moderados" e que certas crenças são perigosas. Descasca depois no judaísmo e no cristianismo, invocando o Holocausto. Termina por propôr um orientalismo extra-mediterrânico (ilustrado até pelas pequenas percentagens de apoiantes dos atentados suicidas, registados na Indonésia) em que elogia e avulta toda a riqueza das tradições budista e hindu. Remata, na sua lógica bivalente -- descrita atrás -- por opôr Misticismo a Fé. "Fé", em Sam Harris, é algo que quase devia ser proibido, na medida em que vende os motivos, a acção e as consequências por atacado, enquanto o Misticismo tem regras como as de um manual. O livro perfila-se ao lado daquele de Dawkins e do outro, de Paul Berman ("Terror and Liberalism", 2003), que foi a grande tomada de posição da Esquerda Norte-americana contra o "islamo-fascismo", refundando-se na tradição liberal, e que será de certeza retomada por Barack Obama. Sam Harris, na sua criatividade vocabular, opõe ao pragmatismo norte-americano, o seu "realismo", o qual pretende jogar com a objectividade final dos valores éticos. Diz algo muito curioso, na sua arte de polemista (diga-se que um pouco "jovem"): quando os valores éticos são objectivamente agredidos, então ninguém se deve admirar que espectador racional deixe de ouvir ou conversar. Bom conselho...
Curiosamente, Sam Harris, que cita António Damásio e parece seguir a senda de Eric Kendal, na busca norte-americana de uma "Ciência da Consciência", acaba por se contradizer sem disso se aperceber, mesmo antes de partir para a etapa final: acaba por dizer que os valores éticos objectivos são construções que têm necessariamente de arrancar de "crenças" e, por conseguinte, negar o valor da crença é, mais que irracional...é inviável. Quer dizer: esta ou aquela crença repugnam-lhe mas não a crença em si, que prefere obter sob a forma de fluido, em vez de plasma, mergulhando em vez de acender. Enfim, parece-me que Sam Harris procura fundar a Fé por outras vias, que não o deslumbramento. O facto de ter sido publicado graças à sua desassombrada colecção de factos quanto a diversos fanatismos religiosos, fá-lo cair no erro em que nós, leitores de jornais, caímos frequentemente: o que parece óbvio -- porque o seu contrário parece obviamente falso -- tem um fôlego curto, a que a publicidade e as urgências da decisão pública, juntam uma certa cegueira própria do excesso de claro/escuro. Como se a Realidade fosse um fato de Pierrot, agitando-se constantemente, de todos os lados, à nossa volta.

15.6.08

A mensagem é:

Não preciso de perceber de futebol para considerar Luiz Felipe Scolari um cretino.
Quebrar uma dinâmica de vitória da Selecção A com uma Selecção B, como se os AA's estivessem muito cansadinhos é de "Sargentão" não é de "General". A mensagem é que não é preciso dar tudo por tudo. Deixa para lá: o Chelsea já contratou e ele dará tudo pelo Chelsea. Tive relutãncia até em ver o jogo. Vi alguns minutos. Parabéns À Suíça. Se até o moral dos pés vem abaixo, pobre Portugal no Verão.

14.6.08

Um Não que é um Yeah!

Para além dos gostos e desgostos eurofóbicos e luso-porreiristas, registo um facto geopolítico: nunca o Departamento de Estado norte-americano aplaudiu um único aprofundamento europeu ! Mas em todo o momento insiste no alargamento (Turquia, Ucrânia, Geórgia). É quase o mesmo que dizer a alguém: coma à vontade, que não precisa fazer ginástica! Quanta gente na Irlanda se chama Bush, Kennedy e Clinton ???? (admito que Obama deve haver poucos)... A comunicação social inundada por Reuters e IP nem tem tempo para indicar isto. Acordem, que o mundo é global e complicado! O Não da Irlanda, por 110.00 votos, também é um Yeah americano...

31.5.08

VI- (Re)leituras: " A World Restored " de Henry Kissinger, por André Bandeira

Esta é a Tese de Doutoramento, de 1964, daquele que foi o Ministros dos Negócios Estrangeiros de Nixon e lhe sobreviveu até hoje. Com mais de oitenta anos, Kissinger, filmou um spot publicitário a seguir ao ataque às Torres Gémeas de Nova Iorque em que corria e se atirava para o chão, naquilo que se chama "home run", do baseball, isto em homenagem à resistência da América ao Terrorismo. Mais recentemente, Kissinger, com George Schultz, William Perry e outros ex-Ministros dos Negócios Estrangeiros de ambos os grandes partidos norte-americanos, veio defender a abolição completa das armas nucleares. Sinais dos novos tempos que aí estão...
Que diz a Tese de Kissinger? A tese de Kissinger pode resumir-se em várias frases, como quem faz um holograma, onde, de todos os pontos de vista se vê sempre o conjunto todo. A mais famosa é a de que a legitimidade é precisamente aquilo de que não se fala e que funciona na mesma. Legitimidade não é justiça. Já o Direito diz que há a sucessão legítima e a sucessão legitimária, quando não se respeita a legitimidade, porque se esta não é respeitada, então faz-se respeitar, achemo-la ou não justa. E tem força de Lei mas tem muita mais força que isso.
Contudo, o que Kissinger exprime verdadeiramente neste livro é a diferença entre o revolucionário e o "legitimista", ou seja: o revolucionário exalta-se, o conservador qualifica-se. Mas, ao contrário do que se pensa, o revolucionário impõe-se, primeiro a si mesmo e, depois, aos outros, enquanto o conservador se legitima. Ora, se a legitimidade não é justiça, o que o livro quer dizer é que a justiça acaba sempre por perder.
O livro trata de Castlereagh, o lorde inglês que reprimiu a Irlanda pró-napoleónica e que foi um aliado menor de Metternich, o Príncepe austríaco que enterrou Napoleão mas também enterrou o Antigo Regime. Engraçado, não é? O homem conservador e da legitimidade acabou por aplicar Napoleão aos bocadinhos e a Europa acabou por ficar toda constitucional, o que quer dizer que se legitimou de outro modo e continuou injusta. O conservador não mudou algumas coisas para que tudo ficasse na mesma, mas manteve quase tudo para que de facto algo mudasse. Mas a Justiça não é mudança, é retorno, o que quer dizer "Revolução". Ou seja: o contrário de "mudança".
Kissinger declarou, não há muito tempo, na Alemanha que quem mais admirava era Bismarck, o unificador da Alemanha, aquele que dizia à sua mulher sentir-se como um anjo caído, com a beleza dos antigos anjos, mas sempre insatisfeito neste mundo, sem nunca encontrar paz. Kissinger é de origem austríaca. Ele e Bismarck esqueceram-se de dizer outra coisa sobre os anjos caídos: é que a Nostalgia é o nome da maior das suas dores. Quem tem nostalgia nunca perderá, ao contrário da Justiça que sempre se arrisca a perder, mas também nunca ganhará, como a Esperança, que só morre depois de morrermos. A nostalgia tira-nos da frente de batalha e as palavras estão todas trocadas. Há quem tenha prazer a pô-las todas no seu devido lugar, porque as palavras são apenas o início de uma conversa. Mas quem tem apenas prazer, é um patusco e as brincadeiras de uns fazem a dor de muitos.
Enfim: porque é que Castlereagh, um dos raríssimos britânicos que foi europeu, se suicidou? Porque quis repôr, em nome da Justiça, algo que não tinha que mudar mas que tinha apenas de se equilibrar e perdurar. Napoleão era sem dúvida um grande sedutor e Metternich fez-lhe o serviço. Kissinger faz-nos o serviço de dizer que só depois de Castlereagh se ter suicidado se revelou a sua enorme solidão, ao longo de toda a vida.
Pois é. Porque quem retorna em nome da Justiça não tem companhia. O abismo da solidão é o sêlo negro da Esperança, que é o contrário da Nostalgia. E assim caímos, como Homens e não como Anjos: caímos para cima.

9.5.08

Lançamento


Uma causa saborosa... acho eu...!

Não tenhais medo, por Pedro Cem

Lembro-me às vezes desta frase de João Paulo II. Está explicada por enquadramento, quando o Papa visitou a Polónia, ainda a do Pacto de Varsóvia e a gente, sempre católica, vinha falar com ele (até os dirigentes) exprimindo aquilo que desejavam mas não conseguiam fazer. Penso que foi, nesta altura, sobretudo quando ele se despediu dos dirigentes que sabiam ter um arma apontada à cabeça, que a frase lhe surgiu. Muitos a tinham dito, em diversas situações, aos berros numa batalha, numa barricada, a caminhar para o cadafalso, ao deitarem-se numa mesa de operações, ao compôrem o casaco antes de um encontro, ao alinharem em frente ao pelotão de execução, ao atrvessar um ermo escuro todos os dias, depois de um duro dia de trabalho. Não tenhais medo, repete-se dentro da minha cabeça.Não pergunto porquê. Como o meu amigo Mário Teixeira, frade fradinho, sindicalista e eremita e agente de viagens me dizia: tem confiança. Confiança em quê, perguntava eu e le dizia-me: só confiança. Mais nada.
E agora lembro-me a propósito de nada, outra coisa que me anda a bater na cabeça, o rumor de Roma, algures no séc. I D. C. quando toda a gente comentava que a bela Dama patrícia Lavínia tinha fugido com um pobre desafortunado gladiador, que lhe devia dar pelo ombro, o "Sergulo", e que se pode traduzir mais ou menos por "Serginho". E diz a lenda que nunca mais foram encontrados e que viveram felizes o resto da sua vida. Dizia ainda o rumor de Roma" Como era possível? O pobre Sergulo que tinha o corpo tão coberto de cicatrizes que parecia deformado e nem metade do nariz tinha, que lho tinham cortado num combate".

3.5.08

E não havia ninguém


Primeiro perseguiram os comunistas e eu nada disse - porque eu não era comunista.
Depois, perseguiram os socialistas e eu nada disse - porque não era socialista.
A seguir, perseguiram os sindicalistas e eu nada disse - porque não era sindicalista.
Depois perseguiram os judeus e eu nada disse - porque não era judeu.
Por fim perseguiram-me - e não havia ninguém para falar por mim. Martin Niemöller

22.4.08

V - (Re)leituras: "Das Spektrum Europas" de Keyserling, por André Bandeira

Hermann Von Keyserling escreveu em 1928 este perfil dos Povos da Europa, mas em 1931 acrescentou-lhe um capítulo sobre Portugal. Keyserling era tido como um ensaísta, um generalista que dizia muitas coisas gerais que pareciam verdade, todas pouco comprováveis ( e, talvez ouvindo falar de Colombo, dizia que Marco Pólo era português). Keyserling era considerado um Spengler mas sem pessimismo. Quando morreu, no Tirol, em 1946, este aristocrata báltico de cultura sueca, tinha visto a Europa toda,,de frente e de verso, e acreditava que ao mundo acontecia uma tragédia, de "quatro em quatro semanas", como as térmitas, mas que o futuro seria "ecuménico". Na aparência, que foi o seu Meio, teve razão. Sobre a sua comunidade, digamos que era daqueles da época de trinta a dizer que se tinha de combinar Sócrates com o Tao,ou Platão com Vivekaananda.
Sobre Portugal: começa por dizer que nunca viu tantos superlativos de cortesia como entre os Portugueses ( sic. Unamuno) tais como Excelência, "Vossa Senhoria", etc. Que ninguém falava tantas Línguas tão bem como os Portugueses. Que não havia nenhuma diferença entre Espanha e Portugal, excepto a negação total de Portugal feita a Castela,negação de resto partilhada pelos Galegos ( repete o episódio também ouvido das Invasões francesas, em que o Super-Poder do Duque de Alba entrando em Portugal, em 1580, numa ponte da fronteira, deparou como um indivíduo que de chapéu na mão lhe barrava o caminho e se aproximou dele dizendo " esteja tranquilo que eu não lhe faço mal"). Onde o castelhano era orgulhoso e brutal, o português era humilde e mesquinho. Também nunca vira tantos diminutivos, como numa canção em que a Morte era tratada por "a mortinha". A equação portuguesa era insolúvel, Portugal "uma varanda sobre o infinito". Nunca vira uma tão grande combinação de tipos raciais, onde todas as combinações e reaparições eram possíveis. O português era o mais explosivo dos caracteres europeus. Assim, Portugal só superou as suas contradições no Império, quando chegou ao máximo da combinação de um máximo de caracteres díspares. Só dois Povos, segundo Keyserling, se assemelhavam aos portugeses na Europa: os alemães, porque a sua "Sehnsucht" era a única coisa europeia comparável à Saudade, esse mecanismo para assentar em algo harmonioso, quando a desarmonia do Presente se reconhecia insuperável. E, acima de tudo, os Gregos: Portugal era grego ( Grécia qual, aliás, para Keyserling era o Sul da Rússia, acrescentando muito curiosamente que as discussões com Sócrates eram tão insuportáveis como aquelas que mantivera com estudantes de Moscovo -- só então me dei conta com a semelhança do busto de Sócrates com um velho russo). Portugal, como os Gregos, cultivava um passado eterno e glorioso, só para acabarem no total caos da realidade. Com uma diferença: os gregos acabavam no caos dos paradoxos intelectuais. Os portugueses, acabavam no caos dos paradoxos emocionais, o qual disfarçavam com um total virar das costas ao estudo do coração e um apêgo teimoso, mesquinho, ao Objectivo.
Keyserling tem muita razão e dá-nos porventura uma chave para o tempo horrível que Portugal atravessa: caos emocional.