24.8.09

XXVII - (Re)leituras: a Encíclica Caritas in Veritate, de Benedito XVI, por André Bandeira

Esta Encíclica pretende dar a boa doutrina, para quem olha e lê o Vaticano (Umberto Bossi, Ministro nortista de Itália, parece que não, uma vez que entrou em colisão com o Vaticano quando se afogaram cerca de 70 imigrantes clandestinos ao largo da ilha de Lampedusa depois de andarem vários dias à deriva, sem que ninguém dos que passavam, os viesse socorrer).Há outros para quem o que o Vaticano diz, pouco interessa (no Norte de Itália, canta-se como hino o «Va Pensiero» de Verdi...pois eu digo «Non Va», que tropeça). Mas a «boa doutrina» desta Encíclica usa uma linguagem que, no tempo de Leão XIII, com a «Rerum Novarum», surtia efeito.Vejamos o estilo: a Rerum Novarum começa por alertar contra as ideias novas, no fim do Séc. XIX, mas acaba a ajudá-las a passar.É portanto, um sarcasmo bondoso. Já a Encíclica de Benedito XVI usa fórmulas metafóricas em que a linguagem é a do socialismo mas que podem ser interpretadas favoravelmente quer por comunistas, quer por fascistas, que se considerem honestamente cristãos.A linguagem , portanto, serve a muitos mas não satisfaz todos. É claro que Bento XVI não conhece as loucuras do socialismo que fazem uma mandatária para a juventude de um Partido Socialista declarar publicamente que detesta perder e prefere fazer batota a perder, ou que só come cerejas e uvas quando a criada (direi «técnica de superfície») lhes tira previamente os caroços e graínhas. Uma declaração assim, de uma jovem, pode muito bem significar a derrota de umas eleições, do mesmo modo como algumas afirmações da «boa doutrina» de Bento XVI podem, por incrível que pareça, salvar uma Encíclica assim tão doutoral, cheia de metáforas que nos deixam a dormir. Pego em duas: subrepticiamente, Bento XVI, critica o hinduísmo e a New Age pela sua estrutura mágica (p. 55). Estou de acordo: a magia existe e é um dos piores inimigos dos cristãos, o que significa que quando ela está associada a uma religião, não se deve ter medo de criticar esta última. Segundo: em Ciência, a «Grande Final» desta época parece desenrolar-se nas ciências do cérebro e, aí, só há duas alternativas (p. 74): ou tecnologia, ou valores. Estou de acordo também. Por mais pujante que seja a Ciência, mesmo a Ciência da Ciência da Ciência, espera aí que já me perdi e, como dizia o Tótó «não consigo dormir. Quando apago a luz, vejo os olhos da Consciência». Bom, apaguem a luz. São horas de dormir, com uma boa piada do Tótó.

17.8.09

Leiam isto!!

Uma grande chamada de atenção para o texto de João Gomes em
O amor nos tempos da blogosfera

ROBERT MUSIL - UM HOMEM SEM QUALIDADES Parte 1


Primeira publicação in Portugueses, nº 8, 1989

ROBERT MUSIL - UM HOMEM SEM QUALIDADES
"Tenho para mim, que é mais importante escrever um bom livro do que governar um império. Aliás, é mais difícil."

Musil não será o mais conhecido romancista alemão do nosso século mas talvez seja o mais importante pelo que nos revela acerca dos destinos do indivíduo e da sociedade.
O sucesso literário de Robert Musil começou cedo, em 1906, com o seu romance "Os Tor mentos do Jovem Toerless" e sucessi vos artigos e obras de que se desta cam "Os Exaltados", "Três Mulheres", e "Vincenzo". Mas, para surpresa de todos, Musil decidiu abandonar o caminho convencional da literatura e empenhar-se num romance profético que compôs desde 1930 até à sua morte: "O Homem sem Qualidades".

Robert Musil nasceu em 6/11/1880 em Klagenfurt, de pais de origem checa e austríaca. Passou pela Academia Militar, cursou Engenharia Mecânica e Filosofia, sendo-lhe oferecida a cáte dra de Psicologia em Munique e Ber lim. Fundou ainda uma fábrica de tintas onde aplicou patentes suas. Entretanto, escrevia.

Engenheiro, doutor em Filosofia, capitão do exército austro-húngaro na 1.ª Grande Guerra, condecorado com o grau de Cavaleiro por feitos em combate, Conselheiro Federal em Viena entre 1920 e 1922, o nobre Robert von Musil a tudo renunciou, como se fosse louco, para ser apenas o Escritor, paupérrimo no final da sua vida, apenas ajudado por sua mulher Martha, e morrendo solitário em Ge nebra em 13 de Abril de 1942. Oito pessoas acompanharam o funeral daquele que fora o Mozart da Lite ratura.

Quem era Musil? Um asceta da arte? Um masoquista moral? Um aven tureiro do espírito? Um equivocado na profissão? O que o terá conduzido a tanto desprezar as comodidades da vida, o prestígio social, e o sucesso artístico até atingir a solidão da poe sia? Porque acreditou que fosse esse o seu destino?

Seria por desprezar a vida e o corpo? De modo algum, pois que até à sua morte por apoplexia, Musil sem pre praticou uma hora de ginástica por dia; sentia-se um descobridor. Seria por espírito de utopia e de revolta contra a sociedade? Pelo contrário, porque sempre teve uma profunda compreensão da história da sua pátria e do mundo. O certo é que a par do descobridor e do pensador havia um irmão melancólico de Dostoievsky que só agia movido pelo sofrimento e espi caçado pelo dever.

O destino pessoal face ao des tino do mundo - eis a questão de Musil. O século XX trouxera à super fície das pátrias germânicas, o senti mento trágico que constituiu, do princípio ao fim, o cerne da existência do escritor. Só a grande sombra histórica da Guerra e da Violência permite que se vislumbre a fraca luz do indivíduo. Em 1933 deixa Berlim; em 1938 aban­dona Viena; e nos últimos 3 anos leva para terras suíças o último bem que possuía e que a guerra estava a des truir - a sua mensagem. Qual seria a realidade mais forte: a obra ou a guerra? Quem estava louco: ele ou Hitler? Qual o sonho que iria termi nar: o seu ou o do século? Restava a Musil escrever cada vez melhor e com mais vigor, pois não era com um par de frases que o espírito germânico se poderia reencontrar a si próprio, de pois de atravessar tão profundos cata clismos sociais. Por isso escreveu "O HOMEM SEM QUALIDADES", o seu legado espiritual à posteridade.

13.8.09

Discurso do Trono da Infanta D. Isabel Maria - 1826


"Vós sabeis que o solo, que hoje chamamos Portugal, não conheceu desde séculos remotos outro Governo Político, que não fosse o Monárquico-Representativo. Prelados e Grandes Senhores formavam unicamente esta Representação: o Povo não tinha voz nem acção num regime quase feudal. Os Reis Portugueses, pouco depois do princípio da Monarquia, concederam ao terceiro Estado os direitos e a dignidade que os séculos bárbaros lhe haviam negado. Floresceu então Portugal à sombra de um Governo completamente Representativo: porém, não havendo Leis que fixassem de um modo invariável as Instituições adoptadas pela prática e tradição dos Maiores, vieram estas a cair em esquecimento; emudeceram as Cortes da Nação e estava reservado para os nossos dias renová-las por meio de estabelecimentos sábios e permanentes.
Tal foi o projecto que, na Sua Real Mente, concebeu Meu Augusto Pai [D. João VI], cuja memória será sempre cara aos Portugueses; e tal foi o que com glória imortal executou Meu Augusto Irmão [D. Pedro IV], felicitando esta Nação com a nova Carta Constitucional..."


(Discurso do Trono da Infanta Regente D. Isabel Maria, 30 de Outubro de 1826)

12.8.09

Ainda o José Agostinho de Macedo!

José Agostinho de Macedo, Por Oliveira Martins, Perfis (edição póstuma, 1930).

Faz hoje, 2 de Outubro, 55 anos que morreu o desbragado foliculário, o poetastro infatigável, o panfletário sabido que fundou entre nós o jornalismo político, com o Desengano, com a Tripa Virada e com a Besta Esfolada, de que chegavam a tirar-se quatro mil exemplares!

Nunca houve homem mais plebeiamente popular; nenhum dos nossos caceteiros da pena lhe deitou a barra adiante na impudência, no descaramento, na desfaçatez. A sua veia (hoje diz-se verve), a sua facúndia, eram inesgotáveis. Sabia a linguagem das colarejas e rameiras, porque as frequentava; e o calão dos cárceres e das enxovias porque passou por lá. O seu estilo era torrente, mas jorro que sai de um cano – um enxurro violento de imundícies. Criou um género, que se nacionalizou português.

Era alentejano, de Beja, onde nascera em 1761. Fez-se frade na Graça em 1778. Foi expulso por devasso em 1792. Os tempos tormentosos da passagem do século XVIII para o nosso, com o esboroar de todas as coisas, desequilibraram o pensamento e o carácter desse homem poderoso, cuja força se perdeu num dilúvio de vulgaridades, numa indigesta montanha de folhetos, de jornais, de sermões, de cartas, de poemas e de versalhada, medíocre, mas espantosa, pela quantidade – um Himalaia, de calhaus rolados!

Um grande orgulho baseado na consciência da sua força real, levava-o a odiar Camões, esse desespero de Castilho que se parece tanto com José Agostinho como uma limonada com um almude de vinho torrejano, espesso, negro, e carrascão. As cócegas da rivalidade levavam-no a beliscar em Bocage, o grande homem perdido, que lhe respondia:

...Epístolas, Sonetos
Odes, Canções, Metamorfoses...
Na frente põe teu nome, e estou vingado.

Elmiro, com a batina desabotoada, as ventas largas cheias de rapé, abordoado a uma bengala, membrudo, violento, ossudo, desbragado, dava murros no balcão gorduroso dos Bertrands, ao Chiado, enchendo Lisboa com o estrépito das suas polémicas e com a fama da sua vida airada.

Andava amancebado com uma freira de Odivelas; passava as noites em arruaças e bebedeiras. Acusavam-no de ter furtado livros da livraria dos Paulistas, o que provavelmente era calúnia.

Fabricava poemas: O Oriente, o Gama, A Meditação, Newton, A Natureza, para não falar nos Burros, traduzindo numa linguagem friamente convencional, sem génio, sem colorido, as sensaborias banais do racionalismo naturalista do tempo. Fazia comédias, pregava sermões. Ensaiava o drama burguês moderno, inventado por Diderot, com a Clotilde e o Vício sem Máscara, e alinhavava dissertações filosóficas. A sua veia porém, a sua vocação, era a polémica. Inventou o jornal, nacionalizou o panfleto. Foi o mestre de S. Boaventura, autor do Mastigóforo, e de Alvito Buela, o autor do Cacete.

É por ser o patriarca do jornalismo lusitano que lhe comemoramos hoje o aniversário.

Arrastado pelo movimento de entusiasmo patriótico que em 1820 expulsou os ingleses, José Agostinho apareceu liberal e democrata. Portalegre elegeu-o deputado em 1822; mas depois de 1823 e da Vila francada voltou-se como tantos outros para o absolutismo, e pôs-se à frente dos energúmenos caceteiros, que mais tarde aclamaram D. Miguel (1828).

A Tripa virada é dessa época, interessante pelo seu desvario, curiosa pelos seus entusiasmos. A Tripa virada é ele próprio, que se virou do direito ao avesso, confessando o acto com uma franqueza, com uma desfaçatez, que terão sempre aceitação entre os povos meridionais, cínicos por temperamento, nos momentos de agudas crises.

Sacudido o pó das sandálias liberais, encarneirado no bando de energúmenos avinhados que por toda a parte aclamavam D. Miguel, José Agostinho fez-se o apóstolo dessa ditadura plebeia, que veio a acabar em 1834. E de então a Besta esfolada.

Trabalhar o cacete, desandar o bordão, descarregar o arrocho, são axiomas eternos e invariáveis regras de justiça... Toma daqui, besta! Chó, besta! Isso não faz nada; é perder o tempo e com bestas não há contemplação: perde-se a obra, perde-se tudo, se o pau não trabalha, e deveras.

A violência plebeia contra os inimigos, a abjecção completa diante do tirano, o furor e a humildade, a lisonja e o vitupério; de um lado, a boca espumante e os punhos cerrados; do outro, a face por terra beijando o pó; esse estado de espírito incongruente do vilão com a vara na mão, de joelhos perante quem o armou: eis ali o que revela a oposição da Besta esfolada à Apoteose de Hércules, que se representou em S. Carlos na noite de 26 de Outubro de 1830. Hércules era D. Miguel.

Um ano depois, José Agostinho morria, sem ver o fim inevitável dessa tragi-comédia que durava desde 1828.

Morria, e, apesar da sua banalidade, da sua monstruosidade cínica, apesar de tudo, foi Alguém. O povo amou-o, sentiu pelos seus nervos, falou pela sua boca. Porquê?

Em primeiro lugar, porque o povo português, enervado por três séculos de decomposição, estava retratado na figura do padre. A força que ainda tinha esvaía-se toda em pedir arrocho, e em arrastar os cacetes apostólicos pelas portarias dos conventos e pelas vielas imundas das marafonas, cambaleando ébrio de cólera, e também de vinho frequentemente.

Mas, em segundo lugar, a razão é outra.

Dois homens podem entender-se para praticar uma traficância; muitos, é difícil – todos, nunca. Um povo pode ser cínico, mas não pode ser patife. Há sentimentos exclusivamente individuais, e a patifaria é um desses. Se um povo pratica acções criminosas, é porque perdeu a consciência do que seja crime. O povo é sempre sincero. A sinceridade, eis aí o segredo de José Agostinho; a franqueza foi a sua força; o desinteresse, a origem do seu prestígio. O cinismo desbragado, isto é, a sinceridade e a franqueza levadas até à impudência, com aquele desaforo dos que, não tendo vergonha têm o mundo por si, foram a nota dominante e a faculdade íntima do polemista que se achou desse modo num perfeito acordo com o povo. Plebeu, sem perfídias de civilizado, rústico, sem ambages de político, foi um arrieiro das letras, é verdade, mas não foi um chatim.

Cobiçava a fama, cobiçava a popularidade mais vulgar; mas não cobiçava o dinheiro, ídolo exclusivo dos dias de hoje. Viveu sempre quase mendigo. As letras e o púlpito davam-lhe apenas para não morrer de fome. Era, a valer, o tipo do demagogo antigo ao lado de D. Miguel que reproduzia a imagem dos velhos tiranos lacedemónios do Peloponeso ou da Sicília.

Além disso, levava sobre os dias de hoje e sobre os nossos foliculários outra vantagem: as suas verrinas não eram postiças, convencionais. Havia ódios, o que não deixa de ser um bem quando há antagonismos fundamentados. A imprensa não era ainda uma comédia representada para ilusão da galeria. Quando se jogavam injúrias, arriscavam-se facadas e tiros. Era sério.

Finalmente, havia uma outra vantagem, se comparamos a Besta esfolada às Tripas viradas dos dias de hoje: é que as injúrias inflamantes, os insultos obscenos, as verrinas descompostas, dirigiam-se a um partido odiado que, de resto, pagava na mesma moeda, em vez de se dirigirem como hoje, que tudo são questões de pessoas, a fulano ou sicrano, portadores, quando muito, de uma individualidade incómoda ou de um interesse cúpido.

Estudando comparadamente o jornalismo português com meio século de intervalo, vemos que a tradição de José Agostinho se mantém nuns pontos e se oblitera em outros. Oxalá seja para melhor!

10.8.09

XXVI - (Re)leituras - Raúl Solnado, por André Bandeira

Raúl Solnado era uma figura da transição. No seu rosto, no seu estilo de humor, na sua carreira e nas suas realizações, Solnado era uma figura daquilo que fica em Lisboa, apesar das épocas mudarem. Um moço da Madragoa, como Solnado, caminhava pelas ruas como se o fizesse por uma floresta. Uma floresta com muitas árvores, umas de sequeiro, outras de regadio. Penso que, no meio das ventanias que assolaram a floresta de Lisboa, a qual também tem os seus micro-climas, Solnado resolveu ficar sempre um bocado garoto porque isso lhe permitiu continuar a percorrê-la livremente. Por isso, o seu poema de eleição, era o «Liberdade» de Fernando Pessoa que acaba a dizer, para quem o quiser ouvir, em «O mais importante de tudo isto/é Jesus Cristo» (que nada sabia de Finanças/ nem consta que tivesse biblioteca). Solnado era certamente um homem bom, mesmo antes de morrer, quando a TV lhe negava uma série de projectos, talvez porque precisasse de um Humor feito com meninos perversos, em vez dum humor incondicional. O seu monumento é a Casa do Artista, que ajudou a fundar e que amparava os que nos fizeram rir e sonhar e deixámos na miséria, porque se espalhou em Portugal que a História do Mundo é a da Luta de Classes. E Solnado, no seu amor, misto de histeria, de loucura, de fragilidade que não era feminina nem postiça, nos seus repentes miméticos de pepineira, em que fazia uso da sua própria gaguez, lá fez História lutando como um garôto do cêrco de Lisboa, contra as Classes. Porque o riso deita abaixo as muralhas de Jericó, em que encerrámos, como leprosos, artistas como António Calvário, Artur Garcia, João Maria Tudela, Florbela Queirós, em que só a morte adiada de José Calvário ou as mortes rudes de Badaró, Raúl Indipwo ou Cândida Brancaflor nos chamam a atenção.
O seu monólogo contra a Guerra, certamente não inteiramente original, mas que ficou dele, pertence ao património universal da paz, merecia ficar no espólio de Hiroshima e Nagasaqui. Antes de Solnado, ele foi dito pelos camponeses da Idade Média, pelos espezinhados da Civilização industrial, pelos soldados nas trincheiras de Verdun, ou por aqueles que, dois dois lados da Europa, cantavam Lili Marlene. E se Solnado estivesse ao meu lado, havia de me perguntar se a Lili Marlene dava descontos a gagos. E se eu lhe perguntasse porquê, havia de me responder que um gago não dá uma sem repetir.

4.8.09

XXV - (Re)leituras - Kim, de Rudyard Kipling, por André Bandeira

Kim, é um romance do Séc. XIX. Mas os problemas de que trata estão todos presentes, porque não é a luz eléctrica, um avião ou a internet que os resolvem, antes os agravam. O excesso de população em centros urbanos parece algo que se auto-alimenta, porque concentra indivíduos e negligencia as pessoas. Se, na Idade Média, as cidades eram sinal de liberdade, hoje não o são. Kim é um romance em parte auto-biográfico escrito pelo espião britânico Rudyard Kipling, num momento em que o Império britânico tocava nos limites do Império russo. O cenário é o actual Paquistão e o Afeganistão, onde, na altura, todas as religiões conviviam de um modo mais ou menos tolerante. Tratá-los como terroristas, ou é obscurantismo, ou é uma cartada desesperada de quem precisa de os aliar e arregimentar, por exemplo, contra a persistência da China. Neste sentido, uma união da Índia e do Paquistão seria ouro sobre azul, mas a ganância do ouro faz-nos escorregar nos ladrilhos azuis da civilização quadrimilenária de Mohanjeddaro e Harappa.
A inquietação do Homem Branco, empurrado contra o precipício atlântico da Europa ocidental – e que se julga o suprassumo, sobretudo por uma confusão mental cheia de amnésia a que chamou «Liberdade» ( a qual se traduziu, muitas vezes, na suspensão da faculdade de julgar) deu origem em Rudyard Kipling à famosa frase: «o fardo do Homem branco». A colonização foi um mandato e um fardo de duplicidade. O colonialismo foi uma ansiedade de ocupação do vazio, que levou ao genocídio. Nada tinham a ver com os Impérios espirituais como foi o português, que não praticou genocídios. «Kim», não é, apesar disso, apenas o divertimento pedante dum espião em busca das letras. Ele deixa um problema filosófico muito ingénuo no fim: o velho Lama, que Kim conduz, descobre o seu Rio da purificação final, na corrente das coisas e volta a si próprio para proteger Kim. Quer dizer: o Velho Mundo mantém a responsabilidade até ao desprezo de si próprio, pelo Novo Mundo, o qual nunca o abandonou. Xangri-La está ao lado.
Enquanto isso, Soraia Santos, jovem mãe de 20 anos, de Vila Real de Santo António, é atacada por dois rafeiros alentejanos esfaimados, que guardavam uma fábrica e foi salva em último recurso, arriscando-se ainda a perder uma perna. Nós não temos ideia dos monstros que deixámos entrar na horta da nossa dislexia, a que chamámos Liberdade.

31.7.09

XXIV - (Re)leituras - O Artigo sobre a União Ibérica, de Saramago, no El País, por André Bandeira

Esta madrugada vi um filme de vampiros. No castelo de Drácula, todos os que entram morrem de terror mas ficam lá. Finalmente alguém se revolta contra a atracção do Terror e tem mais ou menos sorte. O filme não acaba nunca, porque Drácula fica sempre. Há apenas mais um alívio.
Assim como no castelo de Drácula, tudo se pode discutir antes da ferradela eterna: a eutanásia, a ETA, a União Ibérica, o casamento entre Homossexuais, o ordenado do Cristiano Ronaldo, a extinção da vida na Terra por efeito de um asteróide, ou por efeito da Poluição, a fusão dos pólos e a emergência das ruínas da Atlântida. A eternidade da alma já não interessa muito porque faltam coxas e peitos grandes à Alma.
Drácula é a eternidade da Morte por oposição à provisoriedade da Vida. E, numa vida que nunca morre, todos soçobramos, atraídos pelo descanso da sombra, pelo correr do sangue pujante que enche e sempre flui do estômago vazio. Ninguém quer a desolação das cinzas, do fim, do esquecimento.
Acredito que há uma Razão para Portugal. Acredito que quem vive à beira do abismo do Oceano mais bravo da Terra, veio de muito longe, com peles de urso, olhos rasgados, cabelos vermelhos, ganhou membros altos flexíveis e pele negra, fez cair-lhes na íris duas gotas azuis ou verdes. Veio e ficou em todo o lado, esperando partir, por imposição duma procura constante. Os outros podem ter tudo: terras, belos e saudáveis corpos, crianças espertas cheias de graça, ideias finais, engenhos brilhantes, bênçãos de Deus, batalhas épicas com o diabo, reis e repúblicas, liberdade e autoridade, monumentos, catedrais. Nós poderemos às vezes ter o céu azul, a nossos pés, como uma colcha que nos cobre e afaga sempre precária. Nós temos o sorriso da tartaruga e do golfinho, de quem não percebe bem o que lhe dizem mas mesmo assim compreende. Os vampiros vivem nas grutas repletas. Nós vivemos nos precipícios como as gaivotas, por uns instantes, chocando os ovos nos abismos. O Sol é toda a nossa riqueza. O Mar é todo o nosso consolo.
Dos meus lábios tolhidos pelo frio, sussurro ainda, coroado pelos espinhos do sol e as gotas de orvalho das estrelas: esta é a minha Pátria muito amada.

13.7.09

OS BURROS

Antes de existirem blogues e blogueiros havia, no início do séc XIX, a folhinha volante onde no máximo de frente e verso se devia dizer tudo o que interessava aos asnos da época e com as asneiras datadas.
E assim vos deixo do truculento ex-frade José Agostinho de Macedo, a quem de todas as muitas qualidades que tinha só faltou a principal de ter génio, o prefácio de OS BURROS, que serviria de albarda a muitos blogues do séc. XXI.

"Para formar o encómio das burricaes qualidades d .V. Reverendíssima, desejara ter as frases e o juízo alvar de um quinhentista, ou de um Padre Foyos; mas destituído do tudo, só me fica a sinceridade de lhe dizer sem ofensa da sua religiosa modéstia, e sem encher a sua manjedoira do retraço abominável da lisonja que V. Reverendíssima não só é um pedaço d’asno, uma conhecida besta, um acabadíssimo burro e perfeitíssimo jumento, de quem se protesta sincero tangedor."

29.6.09

Michael Jackson, por André Bandeira

Todos são porreiros, quando morrem. Já não estão à frente para se irritarem connosco e se tornarem pesados.
Parece que o menino Michael, depois de um bocado maltratado pelo pai Jackson que desejava uma vida melhor para os filhos todos (a vida que ele não teve) deixou de dançar pela nossa imaginação acima. O seu estilo era especial, só dele, do seu cabelo, do seu rosto progressivamente escondido, atónito, moribundo. A sua voz cada vez mais fina, mais seduzida pela doçura hipnotizante de quem sabe que tudo isto é uma peça amarga e sobre a qual ele pretendia correr o pano. Pois foi encontrado com esse reposteiro negro arrancado do crânio pelado, como um palco vindo abaixo e, pelos vistos, anoréxico dum mundo do qual já não queria absorver mais nada. As dores que tinha e que adormecia eram apenas protestos dum sono que queria eterno. E nós ficámos de mão parada, subitamente animalizados no gesto de lhe atirar moedinhas. A massa feroz quis julgá-lo por meter o bebé fora da varanda. Um rapazito é capaz de ter inventado uma história medonha sobre ele que o fez caminhar como um morto-vivo pelo resto da sua existência. As forças medonhas da inveja encarregaram-se de o apanhar a dizer «gosto de me deitar com meninos», ele que, certamente, a pouca felicidade que teve, entre os ensaios cruéis dos Jackson Five, quando era miúdo, foi a de se deitar com os irmãos e adormecerem a rir e a brincar nos motéis onde o pai Jackson os albergava num só quarto para poupar.
Tinha um estilo que era dele. O breakdance fazia-o suave como uma caminhada lunar, como quem emerge da Bronx e atravessa os arranha-céus sobre um fio de luz. Quando gritava o «I’m bad», não havia nada de realmente mau naquele dançarino, mas apenas um miúdo cansado de carregar tijolos às costas. As suas dívidas milionárias são apenas um montão de carros velhos que já ninguém compra. Desse pequeno momento em que dançou com o velho James Brown e se deram as mãos, se pode ter um exemplo do afecto que pode ligar dois homens, no respeito e na admiração mútua, bem diferente desta civilização de machos que se tansformam em gelatina quando cessam de se repetir. E nas lágrimas que Jackson deixou correr nesse momento, enquanto ambos dançavam, como dois moleques de moedinhas, eram Brama e Krishna dançando.
A dança é uma das belas artes e Michael Jackson talvez um dia – se isto lhe vale de alguma coisa – seja visto como um Rembrandt ou um Matisse disso tudo que há em nós: a de que nos mexemos para nascer, nos mexemos para morrer, nos mexemos para dizer uns aos outros na noite escura…eu estou aqui. Por favor não me abandones.

Por isso, quando as pessoas se juntam em Paris e Nova York para cantarem o «I'm bad» tudo aquilo me parece uma acção de graças onde Michael renasce fora do sarcófago e parece-me que lentamente se torna o hino de Neda, o hino de quem se recusa a ser supérfulo.

25.6.09

XXIII - (Re)leituras -- A traição dos intelectuais, de Julien Benda, por André Bandeira

Reler este livro, na versão de 1927, pode ser feito de muitas formas. A da política, República ou Monarquia, Alemanha ou França, Fascismo ou Comunismo, Semitismo ou Anti-semitismo.Eu prefiro lê-lo como uma Obra de Arte. Nesse aspecto, é uma obra singular, em que, em vez de cores, ou imagens,o autor utiliza pensamentos, citações, ideias. Assim,vamos esquecer que Benda se atirava a Charles Maurras, o qual escrevia tão bem como ele. Vamos esquecer que Benda se traíu a si mesmo, apesar de ter realçado tanto a vaidade letal dos intelectuais, quando escrevia isto em 1927 e,19 anos depois, se fartou de perseguir os colaboracionistas como Brasillach, ou os traidores como Nizan, quando estes estavam encostados ao cêpo, sem se traírem a si mesmos, enquanto Jean Paulhan, verdadeiro Resistente, lhes tentava defender a Vida. Vamos esquecer que Benda acabou a apoiar Estaline. Vamos apenas concentrar-nos nessa quimera que Benda persegue, a de que talvez haja uma ideia para tudo. Ele, que critica a venenosa mania da «prática» em quem se devia dedicar à Beleza, acaba por idealizar tudo, aquilo tudo que é uma colecção das coisas práticas de um leitor: cada obra, uma bibliografia, um estado de alma de um Escritor, uma máxima, um entusiasmo. Benda critica os «práticos» mas não sabe que ele é um prático da Arte e escreve como um artista quando pensava que era um intelectual. Triste sina a de um judeu, eternamente procurando uma pedra onde descansar a cabeça. Afinal essa pedra era o benfajezo cansaço da sua própria cabeça. Dreyfus foi um mártir da brutalidade humana mas muitos dos que o condenaram morreram honradamente como mártires. Quem quer saber destas dores antigas, mas também destes sonhos, como na canção de Marlene Dietrich? Talvez aqueles que não queremos ver no martírio final de Farrah Fawcett o que será Cristiano Ronaldo daqui a uns anos, ou que não queiramos ver em Berlusconi um homem como os outros ou em Nede, a nossa filha que devíamos ter protegido de apanhar um tiro. Também nós, jornalistas activos ou passivos, somos artistas que confundimos o sonho com a realidade e queremos uma ideia para tudo, quando as ideias são outra coisa, graças a Deus, e perduram apesar dos nossso estados de alma. Aprendamos, com Julien Benda, que a arte vale por si, seja ou não fiel às ideias e, contra Julien Benda, que a arte pode ser traída por quem busca a glória no talento. Se nos lembrarmos, agradeçamos a Deus, de cada vez que nos sentamos e podemos pôr um prato de sopa à nossa frente. Quão raro e fugaz é o pão deste mundo.

16.6.09

XXII -(Re)leituras - The Civil War Diary of Emma Simpson, de Barry Denenberg, por André Bandeira

As guerras civis são fenómenos horrendos. A guerra é algo que não se pode expulsar facilmente das nossas existências mas, quando ela é civil, quer dizer que expulsá-la é como abater as paredes e o teto da própria casa para se lutar mais à-vontade.Este diário de 1864, duma rapariga de quinze anos do Sul dos Estados Unidos, faz-me lembrar esse grande actor Patrick Swaize, que decidiu enfrentar a morte inevitável com cancro do pâncreas, sem tratamentos. Ele protagonizou, em tempos, uma bela série de Televisão sobre a Guerra da Secessão norte-americana. No diário de Emma Simpson, vai-se passando de um cenário de elegância e amor, até ao pesadelo diário, sem se sair de casa. Curiosamente, na família desfeita dos sulistas Simpson, restam duas tias velhas, a própria escritora e dois escravos negros que não as largaram. Todos morrem tragicamente excepto a escritora, a quem o amor por um soldado confederado, que teve a sorte de ter sido feito prisioneiro, permitiu sobreviver. Os exércitos garbosos do Sul, vitoriosos à partida, acabam por desfilar em frente à casa, desfeita, descalços, agonizantes e desvairados. Um soldado ferido do Norte depositado pelos seus camaradas nos jardins da casa agradece a água que a escritora lhe dá, antes de morrer, dizendo apenas:«Um homem com sede agradece-lhe, senhora».Os animais são mortos, os soldados pilham, violam, aterrorizam. Os negros fogem para o Norte, em busca da Liberdade e alguns vingam-se, nomeadamente aqueles a quem os patrões batiam ou que lhes separavam as famílias, vendendo um filho ou a mulher e impedindo depois as visitas. É todo um mundo que rui, em loucura e terror, onde dantes havia injustiça e crueldade mas onde este terror não cura nada, antes faz da crueldade uma orgia completa. No meio da brutalidade sem limites, qualquer gesto de delicadeza adquire um valor incrível, como se um simples bom pensamento fosse a única recordação de que a noite acabará um dia. E todos nos precipitamos neste poço como que obrigados. Para quê? Só para emergirmos um dia e, para num outro dia ainda voltarmos a cair. Quando já nem nos lembrarmos porquê, por que bandeiras, por que brilhos, por que slogans...há certamente, qualquer coisa na sucessão dos dias e das noites, dos passarinnhos que voltam a cantar de madrugada, que nos diz essa outra palavra sem som e que dura uma eternidade a ser pronunciada.

11.6.09

XXI - (Re)leituras: o discurso do Cairo, por André Bandeira

O discurso do presidente norte-americano na Universidade do Cairo, pode começar agora a ser julgado. Certamente que não se tornou significativo porque houve antes o «discurso de Osama», o qual julgávamos meio-morto e que disse, em resumo, que o discurso de Obama de pouco valeria enquanto os americanos andassem a matar e deslocar milhões de pessoas no Paquistão. Também nos tempos do «Equilíbrio do Terror», as novidades duma parte eram antecipadas pela outra, que dizia saber tudo. Muito antes de Bush ter reinventado o ataque antecipado, já todos nós o sabíamos e começámos a atacar por antecipação, em todo o lado, não como quem pretende provar que é mais rápido mas como quem se consegue libertar mais depressa de ilusões e hipnoses, nomeadamente na Bolsa de Valores. Enfim, o animal que triunfa na actual conjuntura da luta pela vida é uma espécie de lôbo negro, que não faz ruído e ataca de noite quando o dia é ainda e apenas um rio nocturno.Mas o «discurso de Osama» não preveniu o de Obama. Ante tantas guerras, acidentes e angústias, as palavras de Obama vão fazendo sentido. Primeiro: uma rapariga pode decidir usar um lenço na cabeça, mesmo na sala de aula, mas só se o fizer livremente. O que significa isto? Direito à privacidade na Educação. Uma confissão religiosa pode decidir mobilizar uma percentagem dos rendimentos para esmola. O que significa isto? Direito à propriedade. « A Paz esteja convosco». O que significa isto? Não tenho o direito de desejar para o outro o que desejaria para mim porque o outro pode ser diferente de mim. Há mil e duzentas mesquitas nos EUA? Existe pelo menos um país onde o convívio e as leis que o regem, permitem cultos diferentes. A civilização islâmica deu-nos imensos contributos? Que bom. Quem salva alguém salva a Humanidade inteira. Todas as religiões defendem um princípio de que não se deve fazer aos outros o que não queremos que nos façam a nós? Então quem mata e tortura em nome de uma religião, é preferível que reze.
Não. Osama não tirou o tapete a Obama. Não sabemos se Obama se foi apenas dirigir a uma das religiões que mais se expande no mundo, entre aqueles jovens que têm a riqueza enorme da sua juventude e que têm a vida e a Esperança do lado deles, mesmo quando estão a dormir. Mas o que ficou foi apenas esperança, espelhada no rosto de um homem bem intencionado. Mas Deus: Tu conheces o nosso coração.Então temos uma certeza: Deus tem Conhecimento.

31.5.09

XX - (Re)leituras -- l'Organizatsiya, de Alain Lallemand, por André Bandeira

Este livro sobre a Máfia russa, já tem mais de dez anos e vai fazendo História para o nosso presente. Embora já seja um pouco atrasado, a leitura deste livro bem fundamentado e com vasta bibliografia, deixa-noa a convicação que fazer História é sempre falar sobre o Presente.
O livro retrata um fenómeno muito grave que é a Máfia de Leste. Com a Rússia tão grande que é mais asiática que europeia e sempre fora da Europa, a História dum horizonte mais luminoso em que as candeias são muitas vezes alimentadas com o sêbo de milhões de cadáveres, parece ter silenciado. A Máfia russa representa o regresso a formas arcaicas de sociedade, que perduram. A Máfia russa é um facto e, em Nova York, no fim dos anos noventa fez um acordo com a Máfia italo-americana em que conquistou 25% do mercado mundial. Além dos ramos tradicionais da prostituição, tráfico de estupefacientes, contrafacção, falsificação e jogo, a Máfia Russa (que é constituída por várias associações bem diferentes entre si)dedicou-se também ao tráfico do petróleo que implica um mecanismo industrial e financeiro complexo. A primeira lição que se retia da Máfia russa é a de que ela medrou bem durante o Comunismo, graças à corrupção congénita do sistema e às necessidades duma população que não era satisfeita pela economia soviética, a qual, por sua vez, não se conseguia isolar inteiramente do Mundo. A segunda lição é que ela é protagonizada por pessoas muitas delas de origem judia, não praticantes da fé hebraica, que beneficiaram duma certa marginalização a que também os comunistas soviéticos as votaram, tendo sido, nomeadamente os primeiros a aproveitarem a porta de emigração aberta por Moscovo, nos anos oitenta. Mas atenção: a máfia russa não é nem de longe maioritariamente judia. A Máfia russa assenta as suas raízes mais recentes na resistência russa ao comunismo e envolve regiões inteiras da antiga URSS e do Pacto de Varsóvia. Os seus chefes, os "zighani" eram russos brancos ou moderados que não aceitaram os bolcheviques. A massa social da máfia russa os "ukzi", formaram nessa altura a sua mentalidade com princípios básicos de auxílio mútuo e rebeldia como a de nunca poderem casar nem prestar serviço militar sob que estrutura fosse. A enorme "noite comunista" de prisões e campos de concentração chegou para cimentar esta solidariedade, originada no romantismo europeu mas também no anarquismo russo e estabeleceu uma hierarquia férrea. Uma recolha minuciosa da sua «linguagem corporal», as tatuagens, revela uma ligação muito grande à religião, mas apenas enquanto ideologia oposta à do comunismo. O uso frequente a palavra "svoboda" (liberdade) não tem mais valor que as vezes que o termo "Freiheit" aparece nos discursos de Goebbels. Depois de ler este bom relato sobre os feitos duma Máfia, afinal tão cruel ou implacável como as outras, mas evolvendo populações mais vastas, percebo o que há de satânico na mesma, embora sem lhe achar novidade. Gaahl, o satanista norueguês do Heavy Metal, tem a noção clara de que conseguiu furar o sistema penal norueguês, torturar um indivíduo durante seis horas e levar uma pena pequena que só lhe granjeou popularidade musical. A Máfia russa é mais séria e mais social mas ambas têm a noção bem clara e desperta de que um crime violento cometido com determinação, no Mundo actual, acaba por ditar a lei e, portanto,compensa.

24.5.09

XIX - (Re)leituras -- O Heavy Metal, por André Bandeira

Deixei-me pela noite fora a ver umas reportagens de um canal de televisão alternativo, chamado "Vice Channel": duas reportagens paralelas sobre um grupo de Heavy Metal do Iraque e outro da Noruega. O primeiro, de nome Assiricatura e o outro, o conhecido grupo satanista Gorgoroth, de Espedal, perto de Bergen, numa região onde é possível chover 100 dias seguidos. O curioso do Heavy Metal é que ele mobiliza directamente, em filmagem e ao vivo, energias muito directas de agressividade. A reportagem sobre o grupo do Iraque, contava como três jovens, Firaz, Faisal e Ammanwan, sobreviviam a tocar as suas guitarras e a falar o seu Inglês de Nova York, numa Bagdad onde morriam duzentas pessoas por dia em 2006, onde todos se protegiam uns aos outros, sob pena de levarem um tiro, por não pagarem a protecção ou falarem inglês. Como dizia Firaz,«mataram Ali Bábá e deixaram os quarenta ladrões». Por fim acabaram todos refugiados em Damasco, vivendo em condições muito difíceis, quando o número acumulado de vítimas provocadas pela guerra subiu quase a 1 milhão. Já com pequenas famílias próprias, lutando por reunirem ainda hoje, fora do inferno de Bagdad, a suas famílias mais vastas, estes jovens demonstravam uma coragem incrível, por trás dos seus sorrisos tristes. Como dizia um outro mais jovem que se reunia a eles, em Damasco, pernoitando sempre com aspecto limpo e digno num dormitório de refugiados, entre trabalhos precários: «eu quero ser livre, quero ser feliz, como toda a gente, não quero que me considerem um terrorista porque sou iraquiano». A canção dos Assiricatura, «Massacre», dizia:«Roubaram-nos as terras/Mataram-nos as famílias/Só há um passo para a Morte». Ao fim, Faysal transforma a sua revolta juvenil de Heavy Metal numa mensagem concreta para a televisão:« You motherfuckers who made of my land a land of war».
Saltemos para a Noruega. Ghal, o mítico líder dos Gorgoroth vive isolado no país do Inverno. Em tom de queixa diz que andou até aos dezoito anos numa escola local,em que os únicos alunos eram ele e mais um colega. Leva os repórteres por um caminho difícil até um cabana na montanha, sempre nevada, de madeira cinzenta pelas intempéries, de aspecto mais desolador que aterrador. Ghal inspira medo a toda a gente, pois foi acusado de torturar um outro indivíduo durante seis horas e beber-lhe o sangue, ou obrigar o próprio a bebê-lo. Um dos seus correlegionários diz que a diferença dos Gorgoroth é que querem genuinamente espalhar a «palavra de satanás».Ghal passou uns anos na cadeia que o levaram a interromper o curso de Pintura, mostrando algumas telas mal pintadas, com temas em que o sangue e a violência são apenas espelho de uma existência desolada. Interrogado sobre o crime que cometeu diz o que lhe disse o advogado (foi legítima defesa) e que «é como uma tela, quando se começa tem de se ir até ao fim». Arvora-se em missionário do anti-cristianismo, diz que se deve confiar tudo à Natureza «que sempre flui», satisfazendo-se com esta máxima superficial e, depois de o ilustrar com a cabana no cimo da montanha, fala no Super-Homem e no único deus que existe (por oposição àquele que nos está sempre a dizer que «não devemos fazer isto» ou que «devemos fazer aqueloutro») e que é o nosso deus interior. Ghal, que soa mais ou menos a «maluco» em norueguês, tem uma cara realmente vertiginosa como um fiorde visto duma ressaca, mas no fundo, os seus silêncios, as suas ideias de pacotilha e os seus maus quadros (com a excepção de um desenho de um rapaz nu)não passa de um criminosozito juvenil que o sistema noruguês tratou demasiado bem. Entretanto, tem o Heavy Metal para expandir na zona do Báltico e na Europa do Norte, todas as frustrações que não conseguiu vencer, por ter esperado até aos 18 anos para sair de uma zona despovoada onde o peso do Estado social não estimulou essa calor humano face aos elementos que, em tempos, caracterizava a gente da Europa do Norte.
Em conclusão, o que há de satânico, nestes dois casos, é a nossa incompetência, disfarçada de mentira e irresponsabilidade: dum lado, uma Guerra que se perpetuou graças ao racismo contra a cultura árabe. Do outro, uma teatrada de terror de série B, que já ninguém teve força (senão um Polícia noruguês que contou a história toda e levou a investigação até ao fim)para proibir sob um regulamento mais ou menos assim: festas e celebrações, só aos domingos e nos termos da lei.Satânico é o disparate que perdura e que, por lassidão ou covardia, não queremos corrigir, tornando-se com o tempo-- e apesar de todos saberem que é um disparate completo -- algo real, duma realidade distorcida em que já nada direito parece correcto.

12.5.09

XVIII - (Re)leituras) - Santo António de Lisboa, o Santo de Pádua, de Franchetti Ferrante, por André Bandeira

Este livro dos anos sessenta sobre Santo António, tem mais valor de análise histórica, que de investigação sobre as origens do Santo (o qual foi o único amigo que tive, durante muitos anos, em Lisboa e a quem rezo todos os dias). O título arruma a questão sobre de que cidade é o Santo. Demonstra também uma certa admiração pelos portugueses, pois associa a tenacidade do Santo a quem S. Francisco conferiu o direito de estudar, sendo ambos duma Ordem que, na sua origem, desprezava as vaidades do saber em favor da prática da solidariedade e do testemunho cristão. O autor chama-lhe «íbero» e, por ser assim, Santo António era tão duro nos seus jejuns e exercícios espirituais, tendo sobrevivido a S. Francisco, apenas porque só entrara para frade aos 25 anos e, até aí, desenvolvera-se fisicamente como cavaleiro, provavelmente, como militar. Santo António é duro, sim, duríssimo. É duro quando ataca a corrupção do clero, é duro quando ataca os heréticos albigenses (que ficaram sempre com uma aura de serem mais cristãos que os católicos mas que o respeitavam porque sabiam que António era ainda mais forte que eles), é duro quando ataca os maus costumes da gente do Norte de Itália e do Sul de França, é duro quando ataca os reis e os Imperadores. E é duro quando não toma partido, nem por uns nem por outros, remetendo-se a um silêncio que chicotea na cara, quando se abstém de escolher entre aqueles que dizem que o Poder de Deus passa primeiro pelo Imperador, os outros que acham que ele passa primeiro primeiro pelo Papa. Santo António podia não ter levantado os peixinhos, ordenados dos mais pequenitos para os maiores, como conta a lenda, mas tenho a certeza que qualquer humano que o ouvisse, se levantaria electrizado. Porque o que dizia Santo António, vinha de uma determinação que começava no silêncio e nos actos, como quem, a partir do momento que repete o acto do nascimento de cada vez que acorda, o cavalo do tempo já lhe vai à frente e ele larga a correr atrás dele. O tempo de António foi de crise, de falsidade, de partidos que nenhum tinha mais razão do que o outro, de duelos, de vinganças, de desilusões, de tragédias, de loucuras e, depois, de assassínios, de violências, de guerras entre cristãos e muçulmanos, de perseguições de judeus e de ambições. Santo António deixou de limpar pratos na ordem franciscana, uma vez por acaso, quando lhe disseram para ser ele a dissertar esse dia sobre a Escritura. Tomou a tarefa, como quando se atirou voluntário para ir pregar para o Norte de África onde, certamente, não duraria vivo muito tempo e onde o aguardaria uma morte lenta, como aconteceu aos seus predecessores. E tomou a palavra, o saber, a sua busca de argumentar com a ciência do seu tempo, como um cajado para combater a ilusão que nos envenena. Sentiu-se mal, uma vez depois de comer o pouco que comiam os franciscanos da altura e caíu, com os irmãos em torno. Entrou a correr no outro lado sobre o qual sabemos pouco. E acredito que o milagre que lhe aconteceu, quando, uma vez encontrou um senhor que lhe deu aposentos para poder estudar, aquele do Menino Jesus lhe ter pousado sobre os livros e brincado com ele, talvez fosse produto da Imaginação, dele e de quem o viu. Sim, a Imaginação que nos resta dum Mundo melhor que não abandona os nossos corações mesmo quando a Realidade, até ao Fim, é terrível. Hoje, Santo António, lembra-te de todos nós, da Humanidade.

24.4.09

XVII (Re)leituras -- Diário da Alma, de João XXIII, por André Bandeira

Eis um livro que, como organização editorial, não é muito simpático. O diário que Angelo Roncalli manteve desde os seus catorze anos, não nos diz muito sobre o período da Segunda Guerra Mundial e, depois, tem um apêndice a especular sobre as origens aristocráticas deste bom Papa, que nasceu pobre, morreu pobre e foi sempre duma família pobre.
Mas o que é bom no livro, é que o que de espiritual lá está, salva tudo o resto. O Papa João XXIII, o do Concílio Vaticano II, teve muitos dias de sofrimento e de inspiração, teve muitos mesmo e pôde deixar-nos escrito o seu testemunho. Uma coisa que se aprende com o livro é que este Papa teve a enorme vitória de pecar muito pouco, graças a uma disciplina, graças ao Amor a essa imagem viva que chamava Jesus e Maria, contando talvez com uma família amorosa e solidária, que permaneceu pobre mas com Esperança.Penso que morreu em paz,tendo perservado essa herança de amor às pessoas, à sua família, à sua terra e a toda a Humanidade que considerava desde muito pequeno, como a coisa mais preciosa a perservar. Outro aspecto importante do livro é que nada desta sua proeza se conseguiu sem uma enorme força e dolorosas renúncias. Apesar de tudo, Deus parece ter-lhe dado a Graça de não ter sido muito tentado, de não ter caído em transes dum desalento infame ou de uma turbulência louca, como acontece até às vezes com alguns Santos. Foi um Papa suave, certamente muito dorido com trabalhos mas pouco assaltado pela dúvida. Do que nos ensina, resulta talvez mais clara a ideia de que quando temos a Graça de fazer o que devemos, a integridade do Bem é tão cósmica que esperar reconhecimento em vida, seria a mesma coisa que gravar um disco com os sons do Espaço ou tentar fazer montanhas russas movidas à velocidade da Luz, nas Feiras populares. Como aguentar esta desesperança de ser compreendido, não é fácil. João XXIII citava o Santo Cura de Ars, esse santo tão forte: quem diz mal de ti é teu amigo, quem diz bem, não é. Por fim recordo-me de uma coisa bonita deste Papa que foi diplomata de profissão, apesar de ter duas mudas de roupa: dizia que sofria muito na Grécia, onde as pessoas são tão belas e fascinantes mas adorava o povo turco, que nem era cristão e ficava às vezes a contemplar o Bósforo, onde os pescadores turcos juntavam os barcos de noite, com candeias, para pescarem atum em grande algazarra. Neste fogo nocturno, da Humanidade que se entreajuda, o solitário barrigudo, ficava a olhar sózinho, no intervalo dos trabalhos a que chamava repouso nocturno, com o seu sorriso de menino pobre italiano, que era demasiado tímido, ou gordo para participar na brincadeira, mas a quem os olhos se alumiavam com este milagre que é ter uma vez existido.

16.4.09

XVI - (Re)leituras: From Recession to Recovery: How soon and how strong? do FMI, por André Bandeira

Este capítulo terceiro do Relatório do FMI, sobre a crise, deixa a sua marca na crise que sentimos. E sentimo-la porque é uma crise. Se fosse uma catástrofe, tínhamos deixado de sentir. A conclusão não é boa e vem aí nos jornais: esta crise está para durar e a recuperação será lenta. É este, em suma o recado do FMI, pensemos o que quisermos de quem o dá.
Dois ou três pontos interessantes: a crise é pior do que a de 1929, na medida em que o sistema financeiro mundial está todo interligado. Tal quer dizer que as indústrias que não dependem muito do crédito mas sim da procura externa, ou arranjam clientes em Marte, ou não vão ser excepção. Estas indústrias são aquelas que produzem bens altamente vendáveis, fluídos,completos, destinados a satisfazer a nossa sêde, como computadores. Mas Marte parece que já tem água, continuando sem Internet. Segundo aspecto: a crise já estava aí, ao longo de 2008, e, em Portugal, na segunda metade. Terceiro: se, em 1929, se podia adivinhar o que ia acontecer, pelas restrições ao crédito antes da crise rebentar, o mal não está na restrição mas na febre avassaladora da corrida ao crédito. Quarto: a política de redução fiscal não tem grandes efeitos em aumentar o consumo privado, se o Estado está muito endividado, aparentemente porque a Sociedade, que concede crédito ao Estado, não se fia das benesses ou confianças desse grande gastador e começa a poupar ainda mais, se o Estado lhe deixa mais algum. Portanto, parece que o grande arrepio de frio de não gastar um tostão e de cortar nas despesas todas vai ser um sentimento geral, mesmo que o Estado, gastando mais e endividando-se graças ao seu bom nome, decida gastar mais, para estimular a Economia e manter os preços a um nível em que mereça a pena ser-se vendedor. Em suma: o excesso de financiamento, em vez de «febres produtivas»,destinava-se a juntar o mais rapidamente possível, um conjunto de liquidez, em vez de juntar as paredes duma casa, ou as peças duma máquina. Isto provocou um tal sentimento de culpa, que nem no Estado se confia. E eu acrescento: na nossa carteira já não está recheada só com poupança. Vamos procurar outras coisas para os dias de chuva. Não sei quais, mas esta procura, esgravatando no chão, mete-me medo pois o que passa a ser considerado valioso deixa de ser discutido em público. Em vez do segredo ser a alma do negócio, o negócio passará a ser a alma do segredo. O Estado tem uma grande carteira e os bens que decidir lá colocar não podem ser só bens de consumo. o Estado tem, agora, nos seus gastos, de ter um sentido visionário, tem de apontar para novos valores, para novos monumentos, à sombra dos quais morreremos e os filhos dos nossos filhos brincarão. Se o Estado não o fizer, a Sociedade terá de o fazer, mesmo contra o Estado. Os tempos vão ser de gastar forças para criar, ou não serão sequer tempos, mas apenas abismos.

13.4.09

XV - (Re)Leituras -- The UN Security Council and the Politics of International Authority, editado por Bruce Cronin e Ian Hurd, por André Bandeira

(Como é Primavera, ninguém acha bera). Mais um livro de vários autores, desta vez aqueles ligados a Tony Blair, aos socialistas de armas na mão. Começo por evocar Antero de Quental: era um homem impulsivo, generoso e suicidou-se, penso eu por uma mistura explosiva de Amor e Honra. O livro diz que o grau de autoridade do Conselho de Segurança das Nações Unidas expande e contrai-se segundo a legitimidade dos seus membros. Antero suicidou-se porque não podia cumprir o seu dever de alimentar a sobrinha, o que era a única coisa que lhe restava da mistura de amor ao direito à Liberdade e ao dever de solidariedade. Irão as Nações Unidas acabar, se não reformam o número dos membros do Conselho de Segurança? Eu penso que é legítimo pensar que as Nações Unidas, resultado duma vitória na Segunda Guerra Mundial, têm de alterar o seu esquema de Directório do Mundo. Mas, para isso, teriam que ter um poder regulador económico que não têm, não poderão ter e não é bom que tenham. Portanto, só restará à ONU ser um modelo moral.E o modelo moral é sempre de poucos.
Cabe neste modelo moral, o direito a intervir à força em países, como o Iraque de Saddam, para sustentar os Direitos Humanos, ou secar o mar da Somália para acabar com os piratas, ou invadir o Paquistão para acabar com os terroristas que se reclamam do Islão? Todas estas questões eram tão legítimas como aquelas que a Sociedade das Nações nem sequer conseguiu formular ante a Alemanha Nazi, a Rússia Soviética, a Itália invasora da Abissínia e o Japão invasor da China. Eu penso que não, por uma razão complexa que reza assim: se a minha verdade (Lei internacional) é apenas particular, porque a Parte nasce antes do Todo, há partes mais diferentes do que eu poderei algum dia imaginar. Então, para ser justo, eu preciso de ter consciência do Todo. Mas Tudo saber é igual a tudo perdoar. Como nunca saberei tudo, terei de actuar (intervir), mesmo correndo o risco de ser injusto (provocar guerras). Mas quem me disse que devo actuar? Para fazer pior (acabar com regimes ditatoriais mas sustentar guerras sem fim)?! O que eu devo é extrair-me da minha ilusão do Todo, reconhecer a minha profunda ignorância e não pretender conquistar a Verdade. Extraindo-me do Todo, eu deixarei a Verdade, pelo menos, pura das minhas distorsões, não me confundirei com o Todo, ao qual pertenço (não farei a Lei substituir o Costume internacional). Como ensina a moderna Ciência atómica, afinal a Parte é um corredor para o Todo e é melhor que eu me concentre sobre o meu próprio Todo. Se um dia me dominar a mim próprio, já terei cumprido o meu destino histórico.Tudo o que eu disser será sempre parcial e, muitas vezes injusto. Quando muito poderei existir (inclusive defender o meu país no Estrangeiro), para que o meu Todo coexista com os outros Todos, porque as Partes, afinal, são muitos Todos, não há um único Todo e, se é assim, então, «Tudo» (e não Todo) são ligações que se religam quando parece que iam morrer (a Comunidade Internacional vai para além das Nações Unidas). Assim reza o credo pacifista: como podes desarmar o Mundo se não te desarmas primeiro (ou seja: deixa de actuar como se fosses o Centro do Mundo)?!O único Direito Humano é o Direito à Vida e estou certo que há uma forma das vidas todas poderem coexistir, apesar de tal ideia, em qualquer momento, parecer ilógica.Mas se a Vida fosse lógica, já a teríamos pisado por distracção.
Com isto, volto a entrar na máquina do Tempo e vou aparecer ao lado de Antero de Quental, em Angra do Heroísmo, quando ele se sentar no banco de jardim que tem «Esperança» escrito por trás e segurar-lhe com força a mão onde ele empunhou o revólver, dizendo-lhe:«Antero, não te mates. Nós precisamos muito mais de ti que do teu Amor e da tua Honra».

9.4.09

XIV - (Re)leituras -- Democracy's Good Name, de Michael Mandelbaum, por André Bandeira

Ninguém discute o bom-nome da Democracia. Todos se reclamam democráticos, apesar do discurso de Péricles dizer que os monumentos à Democracia , ficarão para o Bem e para o Mal ( há alguns monumentos na Grécia, a maior parte deles, ruínas, que estão aquém do Bem e do Mal, como também vestígios de cataclismos vulcânicos se situam, hoje, em paisagens bucólicas). Em tempos dizia-se o mesmo da Cristandade, ou do Islão,e, mais tarde, dizia-se o mesmo do Socialismo.Todos eram cristãos, o Islão era Paz, todos eram socialistas. Há nisto algo de revoltantemente covarde, de Maria-vai-com-as outras, de camuflagem no caos da feira das vaidades. Confúcio -- e isto já se tornou uma chavão (pergunto-me se na hipnose colectiva em que nos encontramos haverá algo mais que chavões, não tendo aparecido ainda um Poeta que os desfaça) -- Confúcio dizia que tudo se reduzia a reatribuir os nomes correctos às coisas. Mas Wittgenstein, o tolo Positivista que nos tiraniza, dizia que não havia coisas, só factos, e os europeus continuam a ir sempre ao mesmo jogo de futebol, entre nominalistas e idealistas, rindo-se à socapa dos padres que acreditam na substanciação (Cristo é muito bonito mas o cristianismo é apenas uma notícia). Enfim, isto da Democracia, neste livro americano panfletário que escolhi, é sobretudo uma marca. Agora que houve uma oportunidade de negócio, há que vender a Democracia a toda a gente, dizendo, entre outras banhas da cobra, que é facto histórico provado que as democracias não se guerreiam umas às outras, e que as democracias só têm crescido desde que se aboliram os Reis e se implementou o princípio da auto-determinação nacional. Enfim, sempre houve profetas do fim da História, de quem, depois, os historiadores se encarregam de tomar nota quando eles passaram, mas o Tempo continuou a correr. Claro que, além deste profetas, ficam as pessoas sensatas que têm de organizar um Mundo cheio de diferenças e de desníveis, de mudanças de ritmo e de equívocos, além de terem em conta esse mundo do Corpo e da Mente, que é pouco democrático e que continua também a sua «História Natural».Alguns até lhes chamaam Santos, mas eles próprios não o sabem. Enfim, este livro, de 2007, diz duas coisas úteis: as democracias acabam quando acontecem grandes cataclismos económicos ( como a nossa crise estava aí há muito tempo, aplique-se o raciocínio à Democracia moderna). Por fim, o livro faz-nos pensar num facto,a noticiar urgentemente: a Democracia é uma questão de bom-nome. Aprendamos, portanto -- ao contrário de Confúcio -- a ver a Alma que está para além do Nome.