Um livro, cheio de sinais. Não, o livro não tem nada de esotérico mas traduz um certo fascínio juvenil do Historidor Costa Couto, que foi de Tancredo e de Sarney, por uma cidade que ele acha, talvez acertadamente, ser um plano esotérico. Sonhada por S.João Bosco, pela Inconfidência Mineira, habitada pelo fantasma de Getúlio Vargas e jogada pelos magos Juscelino e Niemeyer, Brasília terá uma série de afinidades com a Tel el-Amarna do Faraó egípcio Akenathon, provável pai de uma Nação deambulado sem Terra pela Ásia. Juscelino foi o Presidente da Bossa-Nova, na sua sublimidade e no seu azedume. Com Niemeyer se entende que o Comunismo não foi só Tirania, mas também houve um Comunismo tropical que era uma forma de arte e não uma estratégia de golpe de Estado. O mesmo se poderá dizer da social-democracia de Juscelino Kubitscheck, o qual poderia ter dado uma dança às aspirações comunistas sem se lhe entregar nos braços. E pode ter dançado depois com o Capitalismo norte-americano, na dança seguinte, antes de outra e outra dança, até cair, porque a morte também é boémia. No fundo, talvez Juscelino Kubitscheck não tenha sido assassinado pelo Plano Condor da CIA, mas que fazia parte da lista de abate da mesma, lá isso fazia. E, se não foi morto por ela, foi moído até à lepra, como a Inveja que acaba a arrastar pelo chão um dançarino brilhante. Talvez, no fundo, comunismo e capitalismo sejam apenas dois pares de dança para os dançarinos tropicais, dançando a uma música que só eles ouvem, que só eles regatam à noite, escutando-a até ao fim, o qual é uma ilusão de óptica. Se essa dança vinha do sangue cigano de Juscelino ou do de Niemeyer, só o fim de festa da Bossa Nova, geralmente amargo, o poderá dizer. Brasília foi um grande erro, como os militares se limitaram a constatar, mas o erro, como outros, ficou, tal qual o aluímento da parede de um rio.
Onde está o rio, afinal? O erro é o de se julgar que a Beleza não pertence às pessoas, mas à própria Beleza. Por isso, na Cidade Administrativa Tancredo Neves, provavelmente a última grande obra de Niemeyer, as salas para lanche, entre os espaços abertos de trabalho, não têm luz natural. Ora Niemeyer parece não saber que um esguicho de água, que é curvo e um raio de sol, que é recto, se encontram num mesmo plano, sem se cruzarem.
30.7.10
24.7.10
L - (Re)Leituras - l'Incandéscent, de Michel Serres, por André Bandeira
Eis um livro bem francês, deste Professor de Stanford, especialista na História das Ciências, e com grande estrutura matemática. É um livro chato, apesar das técnicas modernas, de Televisão, que emprega,mas sempre sugere algo interessante para as Universidades. Com um são universalismo francês, um pouco histérico, celta mas generoso, Serres propõe, ao fim, um ano básico em todas as Universidades do Mundo, em que se começaria por uma História unificada das ciêncis «duras» e se acabaria com princípios de Linguística e o mosaico de culturas.É muito interessante, vindo de um bom Professor como Serres. Mas o seu livro, um pouco autobiográfico e já no Inverno da Vida, não traz muito de novo, em doutrina, que valha a pena repetir. O mesmo princípio de Prigogine, contra Einstein, ou seja, o da entropia e da direccionalidade do Universo; umas frases francesas muito bem apanhadas como a de que a Ecologia é uma nova domesticação; uma dúvida constante, como a se o Big-Bang existiu ou não (mas sempre pressupondo-o como quem diz «Bom, eu não sou crente, mas...»); a Biotecnologia como o perfazer do Neolítico; e uma graça que nem ele notou e faz pensar: dadas várias fotos a uma macaca, Sara, para ela separar (animais, plantas, pessoas que ela conhece, e ela própria), a macaca separa, dum lado, macacos, animais e plantas e, no outro lado, as fotos dos cientistas e ela própria. Serres -- que à boa maneira gálica, faz ataques de todos os lados à Verdade -- talvez toque a Verdade, de vez em quando, no meio do texto. A macaca não revelou nada de abstracto para os cientistas anotarem. Ela amou quem lhe perguntava, no «critério» que usou. Pois é: ciências, julgamentos, modas, ideias. De cada vez que somos confrontados nesta breve existência, nós e os macacos, não queremos é que nos batam. Realmente, o calor do afecto é que é bom. De resto, são tudo modas: Serres vem do campo, é gascão e occitano(zona de Bordéus) e é um bocado parôlo, como a França desde que estabeleceu a sequência maluca da Revolução francesa e do Império. Ao falar dos pais e, depois, do Big-Bang, Serres exprime sem o saber que fomos todos sujeitos pela Cultura e pela Ganância, a uma amputação das nossas raízes, a qual nos fez, até, assassinarmo-nos entre irmãos. Realmente, os piores ódios são aqueles dentro de uma família, até porque passam de geração em geração, sem Guerra aberta.
Enfim: nem tudo o que se publica é diferente das modas e das Artes. Asseguro-vos que é mais fácil entender os mistérios da Ciência de Stanford, estudando as modas da Belle Époque na Europa, do que procurar um curso de Física quântica. E Serres sabe-o. Em prol da Paz, que ele não teve no país, nem na Família (como muitos de nós), ele propõe como parte final desse «Primeiro ano Universitário» universal, a contemplação das Obras de Arte catalogadas pela Unesco.
Enfim: nem tudo o que se publica é diferente das modas e das Artes. Asseguro-vos que é mais fácil entender os mistérios da Ciência de Stanford, estudando as modas da Belle Époque na Europa, do que procurar um curso de Física quântica. E Serres sabe-o. Em prol da Paz, que ele não teve no país, nem na Família (como muitos de nós), ele propõe como parte final desse «Primeiro ano Universitário» universal, a contemplação das Obras de Arte catalogadas pela Unesco.
19.7.10
XLVIII - (Re)leituras -- Cristiano Ronaldo pai, por André Bandeira
Cristiano Ronaldo anunciou sucintamente que foi pai. Já tinha avisado. Anunciou, pediu poucas perguntas e guardou a identidade da mãe. Conhecemo-lo pelas muitas namoradas que teve. Não foi o brilhante jogador que esperávamos no Mundial. Mas foi pai, pai solteiro, sem discutir, sem fugir às responsabilidades, sem dizer que não tinha idade, que não tinha uma situação familiar, tenho a certeza que não pediu à mãe do bébé para abortar. Foi pai e acolheu o menino que lhe nasceu, como uma bênção do Céu. É certo que tem uma família à sua volta, a qual poderá cuidar do menino com amor e não lhe falta dinheiro para atender às necessidades dele, durante os primeiros anos de vida.
Cristiano Ronaldo não diz os disparates dos campeões que se sentam ao nosso lado e que se cruzam connosco todos os dias, como no poema de Fernando Pessoa. Diz que se arrepende de coisas que fez. E diz que herdou da sua mãe a tenacidade e de seu pai -- curiosamente -- a bondade e o amor pelas pessoas. O seu pai, humilde pessoa da Madeira, morreu com câncer e Cristiano Ronaldo tentou tudo para o salvar, embora o dinheiro que tinha não chegasse. Quis ser pai como o seu pai foi pai dele.
Tenho a suspeita que, embora Cristiano Ronaldo goze de uma situação que muitos pais não têm, antes de pensarem no aborto, não duvidou uma vez que fosse assumir aquele nascimento e, com isso, fiquei com a suspeita que Cristiano Ronaldo, na sua simplicidade e na sua nobreza, foi campeão mundial e fez Portugal campeão mundial.
Cristiano Ronaldo não diz os disparates dos campeões que se sentam ao nosso lado e que se cruzam connosco todos os dias, como no poema de Fernando Pessoa. Diz que se arrepende de coisas que fez. E diz que herdou da sua mãe a tenacidade e de seu pai -- curiosamente -- a bondade e o amor pelas pessoas. O seu pai, humilde pessoa da Madeira, morreu com câncer e Cristiano Ronaldo tentou tudo para o salvar, embora o dinheiro que tinha não chegasse. Quis ser pai como o seu pai foi pai dele.
Tenho a suspeita que, embora Cristiano Ronaldo goze de uma situação que muitos pais não têm, antes de pensarem no aborto, não duvidou uma vez que fosse assumir aquele nascimento e, com isso, fiquei com a suspeita que Cristiano Ronaldo, na sua simplicidade e na sua nobreza, foi campeão mundial e fez Portugal campeão mundial.
15.7.10
XLVII - (Re)leituras -- Descolonização Portuguesa - o malogro de dois planos, de Carlos Dugos, por André Bandeira
De novo retorno aqui a este meu caminho, levantando um pé, de cada vez, cheio de livros e de inscrições. É um caminhar pesado mas o caminho faz-se caminhando, não é? Olá a todos, aos que lêem, aos que comentam e aos que olham...
Este livro de 1975, seria um livro chamado de reaccionário. E, contudo, como ele, sinto-me como se tivesse levado um bofetão de um espírito, num corredor escuro da minha casa. É um livro de um português de Moçambique que nos diz, de uma forma muita clara e concisa tudo o que aconteceu. Havia dois planos para as Colónias portuguesas: o plano de Spínola, chamado de auto-determinação e o plano de independência, do Partido de Álvaro Cunhal. Spínola perdeu e perdeu-se. Mas o 25 de Abril tinha sido todo feito para resolver as questões das Colónias, em particular Angola. Angola e o Zaire são metade de África e metade de África é um domínio enorme do Mundo. O plano de Cunhal venceu e ele perdeu-se e perdeu-se a URSS. Ficaram guerras civis, de que nunca conheceremos os mortos, tiranias e explorações de fazer corar os antigos. E ficou uma esperança de liberdade e dignidade em que, afinal, só os fortes é que ganham. Ai dos vencidos!O autor diz uma coisa muito simples. Escrevera-o em 1972, mas foi censurado: depois da libertação das Colónias, quem libertará Portugal? Sim. Portugal sobrevivera graças à sua quase miraculosa expansão marítima. Já Norton de Matos pensara numa Federação portuguesa em que o Brasil teria uma parte importante. E D. João VI. Já o próprio Marcelo Caetano pensara numa auto-determinação das colónias em que, a independência inevitavelmente se seguiria e só ficariam os laços morais e culturais. Hoje, por mais que forcemos, num só dia mau, todos esses laços podem ser cortados e, quando resta um só, alguém vem para a rua exigir que se o corte também.
Meu Deus, que desperdício, que crime até! Será que o casamento entre pessoas do mesmo sexo é assim tão importante?! Será que é preciso encontrar na Lei um lugar para tudo, só para que a Lei regule os mais ínfimos pormenores da nossa vida?!
E tudo o que este livro diz é verdade, brutalmente verdade, mas agora é tarde demais. E eu próprio me sinto horrorosamente culpado...
Meu Deus, Portugal bateu-se por um mundo demasiado tímido para sobreviver e, afinal, o mundo arrogante dos Russos desfez-se pouco depois e o mundo arrogante dos norte-americanos, arqueja mortalmente ferido. É isto tudo um delta de histórias triste que acabam todas tragicamente?!
Que poderemos fazer para ainda dar sentido à nossa existência como algo que não apareceu por acaso, algo que inclui responsabilidade pelos outros? Algo que ainda passará como os que se foram antes de nós mas de que nos lembramos, até com carinho.
Este livro de 1975, seria um livro chamado de reaccionário. E, contudo, como ele, sinto-me como se tivesse levado um bofetão de um espírito, num corredor escuro da minha casa. É um livro de um português de Moçambique que nos diz, de uma forma muita clara e concisa tudo o que aconteceu. Havia dois planos para as Colónias portuguesas: o plano de Spínola, chamado de auto-determinação e o plano de independência, do Partido de Álvaro Cunhal. Spínola perdeu e perdeu-se. Mas o 25 de Abril tinha sido todo feito para resolver as questões das Colónias, em particular Angola. Angola e o Zaire são metade de África e metade de África é um domínio enorme do Mundo. O plano de Cunhal venceu e ele perdeu-se e perdeu-se a URSS. Ficaram guerras civis, de que nunca conheceremos os mortos, tiranias e explorações de fazer corar os antigos. E ficou uma esperança de liberdade e dignidade em que, afinal, só os fortes é que ganham. Ai dos vencidos!O autor diz uma coisa muito simples. Escrevera-o em 1972, mas foi censurado: depois da libertação das Colónias, quem libertará Portugal? Sim. Portugal sobrevivera graças à sua quase miraculosa expansão marítima. Já Norton de Matos pensara numa Federação portuguesa em que o Brasil teria uma parte importante. E D. João VI. Já o próprio Marcelo Caetano pensara numa auto-determinação das colónias em que, a independência inevitavelmente se seguiria e só ficariam os laços morais e culturais. Hoje, por mais que forcemos, num só dia mau, todos esses laços podem ser cortados e, quando resta um só, alguém vem para a rua exigir que se o corte também.
Meu Deus, que desperdício, que crime até! Será que o casamento entre pessoas do mesmo sexo é assim tão importante?! Será que é preciso encontrar na Lei um lugar para tudo, só para que a Lei regule os mais ínfimos pormenores da nossa vida?!
E tudo o que este livro diz é verdade, brutalmente verdade, mas agora é tarde demais. E eu próprio me sinto horrorosamente culpado...
Meu Deus, Portugal bateu-se por um mundo demasiado tímido para sobreviver e, afinal, o mundo arrogante dos Russos desfez-se pouco depois e o mundo arrogante dos norte-americanos, arqueja mortalmente ferido. É isto tudo um delta de histórias triste que acabam todas tragicamente?!
Que poderemos fazer para ainda dar sentido à nossa existência como algo que não apareceu por acaso, algo que inclui responsabilidade pelos outros? Algo que ainda passará como os que se foram antes de nós mas de que nos lembramos, até com carinho.
20.6.10
Lusofonia- Lusophony
I suppose I should to react to Clyde McMorrow's remark of 14 June, "I think the only Portuguese left in Brazil are the bakers."
Not quite. Actually, the remark shows an ignorance about what is going on in Portuguese and Brazilian Foreign Policy, the so-called Lusophone policy.
Portuguese direct investment in South America grew strongly in the latter half of the 1990s, with annual flows rising from almost 0 to an average of US$ 1.8 billion in 1996-2000, peaking at 4 billion euros in 1998. Brazil received over 95% of these flows.
The largest investments were in telecommunications (Portugal Telecom, PT), electricity, water and sewage (EDP); Águas de Portugal (AdP), cement (CIMPOR) and banking (CGD), both State-owned companies or wholly privatized. See the following:
http://www.eclac.cl/publicaciones/xml/4/28394/lcg2336i_Chapter_IV.pdf
This month--June 2010--Portugal Telecom (PTC.LS) rejected a 5.7 billion euros ($7.2 billion) bid from Spanish Telefonica (TEF.MC) to buy out its stake in Vivo (VIVO4.SA), Brazil's top wireless carrier, at a 140% premium. At the end of the day perhaps Portugal Telecom will finally sell VIVO for a larger bid ($9 billion) with a clause that its digital contents will be produced by Portuguese companies.
Perhaps the Portuguese are now known in Brazil as “The one who owns my phone company.” But OK. Call them bakers. I would not mind getting one of their pancakes...
There is an even more important link between Portugal and Brazil, as Hernán Grimberg rightly pointed out. It can be summarized in the formula, "Brazil nowadays has a Johannine policy." "Johannine" derives from king John VI, who ruled the United Kingdom of Portugal, Brazil and Algarve, from Rio de Janeiro where he created the Brazilian state in 1808 in the wake of the Napoleonic Wars. (I am finishing my book on this topic.) The people created the Brazilian nation after 1822.
The Brazilian leaders understood that South America can develop when there is an understanding between Brazil and Argentina, the heirs of the Portuguese and Spanish rulers, as Hernán points out. This policy is independent of political parties. (Just follow the statements of Samuel Guimarães, of the Brazilian Foreign Ministry.)
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16199
Other South American countries are locally interesting but they are less important from a geopolitical point of view. They are parts of the Spanish “broken mirror,” and maverick states like Venezuela can be moderated if Brazil and Argentina so agree. Fernando Henrique understood this and created Mercosur. Then came the Union of South America, with Lula da Silva in 2005. The term “Latin America,” formulated by Chevalier, a counselor of Napoleon III to justify French intervention in Mexico, is banned from the Brazilian discourse. Ibero-America is currently used in Brazil, Portugal and Spain in the annual summits.
Brazil is interested in having good relations with Portugal as a gateway to the European Union. President Lula just said it when he stopped at Lisbon, on May 19, after coming from Iran and Turkey. Brazil has not really explored it. Why? Perhaps because "é o maior país do mundo" and like the 20th-century US its domestic market seems self-sufficient for economic development.
Not quite. Actually, the remark shows an ignorance about what is going on in Portuguese and Brazilian Foreign Policy, the so-called Lusophone policy.
Portuguese direct investment in South America grew strongly in the latter half of the 1990s, with annual flows rising from almost 0 to an average of US$ 1.8 billion in 1996-2000, peaking at 4 billion euros in 1998. Brazil received over 95% of these flows.
The largest investments were in telecommunications (Portugal Telecom, PT), electricity, water and sewage (EDP); Águas de Portugal (AdP), cement (CIMPOR) and banking (CGD), both State-owned companies or wholly privatized. See the following:
http://www.eclac.cl/publicaciones/xml/4/28394/lcg2336i_Chapter_IV.pdf
This month--June 2010--Portugal Telecom (PTC.LS) rejected a 5.7 billion euros ($7.2 billion) bid from Spanish Telefonica (TEF.MC) to buy out its stake in Vivo (VIVO4.SA), Brazil's top wireless carrier, at a 140% premium. At the end of the day perhaps Portugal Telecom will finally sell VIVO for a larger bid ($9 billion) with a clause that its digital contents will be produced by Portuguese companies.
Perhaps the Portuguese are now known in Brazil as “The one who owns my phone company.” But OK. Call them bakers. I would not mind getting one of their pancakes...
There is an even more important link between Portugal and Brazil, as Hernán Grimberg rightly pointed out. It can be summarized in the formula, "Brazil nowadays has a Johannine policy." "Johannine" derives from king John VI, who ruled the United Kingdom of Portugal, Brazil and Algarve, from Rio de Janeiro where he created the Brazilian state in 1808 in the wake of the Napoleonic Wars. (I am finishing my book on this topic.) The people created the Brazilian nation after 1822.
The Brazilian leaders understood that South America can develop when there is an understanding between Brazil and Argentina, the heirs of the Portuguese and Spanish rulers, as Hernán points out. This policy is independent of political parties. (Just follow the statements of Samuel Guimarães, of the Brazilian Foreign Ministry.)
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16199
Other South American countries are locally interesting but they are less important from a geopolitical point of view. They are parts of the Spanish “broken mirror,” and maverick states like Venezuela can be moderated if Brazil and Argentina so agree. Fernando Henrique understood this and created Mercosur. Then came the Union of South America, with Lula da Silva in 2005. The term “Latin America,” formulated by Chevalier, a counselor of Napoleon III to justify French intervention in Mexico, is banned from the Brazilian discourse. Ibero-America is currently used in Brazil, Portugal and Spain in the annual summits.
Brazil is interested in having good relations with Portugal as a gateway to the European Union. President Lula just said it when he stopped at Lisbon, on May 19, after coming from Iran and Turkey. Brazil has not really explored it. Why? Perhaps because "é o maior país do mundo" and like the 20th-century US its domestic market seems self-sufficient for economic development.
1.3.10
17.12.09
II – Audições: Manoel de Oliveira em Belo Horizonte – por André Bandeira
Ouvi, no podium e do outro lado da mesa, Manoel de Oliveira. Foi engraçado ver alguém da mesma cidade onde nasci e em que renasci ao ver o seu filme «Porto da minha Infância». O seu discurso de agradecimento ao Doutoramento honoris causa não foi uma oração de sapiência mas serve de testemunho ao que fica dos olhos de um homem que viveu 100 anos e que viu as coisas de um modo que não nos esqueceremos tão cedo.
Manoel de Oliveira fala de um plano em que o centro de gravidade não é, certamente, aquele que ocupa o nosso plano de visão, todos os dias. Começou por abordar a sua comunicação, dizendo que admira mais os santos do que os revolucionários e acrescentou que há uma diferença entre a guerra e o terrorismo, pois o terrorista mata covardemente.
Constata que o progresso nos leva a situações catastróficas mas acrescenta que o homem ama as situações de perigo, embora se deixe dominar pelo pânico. Evocou Lincoln, Thomas Moro e Ghandi como modelos.
No limiar em que se encontra, considerou que a eternidade é uma ideia que o atrapalha. Se o Mundo começou a existir com o Big Bang, o que existia antes? Por isso, considerou que toda a ética se funda nas religiões.
Perguntou-se também se o gesto dos financeiros de Wall Street, não teria sido um gesto utópico. Notou que atravessamos uma crise moral e perguntou-se se um castigo assim não seria pelo Mundo se ter tornado em Sodoma e Gomorra.
No fim de tudo, a dúvida vive sempre ao lado da Esperança e citou S.Paulo para dizer que, se Cristo não ressuscitou, toda a Fé é vã.
Mas o pessimismo é a conclusão do optimista. A bondade da Natureza falha na sua também extrema crueldade.
Por fim citou o seu colega David Kronenberg para dizer que «todo o homem é um cientista louco e a vida o seu laboratório».
Manoel de Oliveira fala de um plano em que o centro de gravidade não é, certamente, aquele que ocupa o nosso plano de visão, todos os dias. Começou por abordar a sua comunicação, dizendo que admira mais os santos do que os revolucionários e acrescentou que há uma diferença entre a guerra e o terrorismo, pois o terrorista mata covardemente.
Constata que o progresso nos leva a situações catastróficas mas acrescenta que o homem ama as situações de perigo, embora se deixe dominar pelo pânico. Evocou Lincoln, Thomas Moro e Ghandi como modelos.
No limiar em que se encontra, considerou que a eternidade é uma ideia que o atrapalha. Se o Mundo começou a existir com o Big Bang, o que existia antes? Por isso, considerou que toda a ética se funda nas religiões.
Perguntou-se também se o gesto dos financeiros de Wall Street, não teria sido um gesto utópico. Notou que atravessamos uma crise moral e perguntou-se se um castigo assim não seria pelo Mundo se ter tornado em Sodoma e Gomorra.
No fim de tudo, a dúvida vive sempre ao lado da Esperança e citou S.Paulo para dizer que, se Cristo não ressuscitou, toda a Fé é vã.
Mas o pessimismo é a conclusão do optimista. A bondade da Natureza falha na sua também extrema crueldade.
Por fim citou o seu colega David Kronenberg para dizer que «todo o homem é um cientista louco e a vida o seu laboratório».
2.12.09
1 de Dezembro - por André Bandeira
No Primeiro de Dezembro, recordo a independência de Portugal. Sim, a independência. Durante muito tempo, imaginei-o como um acto de coragem de um punhado de portugueses que atacou o centro da ocupação castelhana antes que esta pudesse reagir. Tudo recomeçara ali. A guerra demoraria 28 anos. Não estou crente que, se o Conde-Duque de Olivares tivesse optado por reprimir Portugal, em vez de reprimir a Catalunha, que Portugal não moveria a mesma resistência. Portugal foi sempre um projecto extra-europeu. Em 1648 e 1649, nas duas batalhas de Guararapes, os portugueses do Brasil, expulsaram os holandeses que poderiam, a partir do Recife e Pernambuco, ter iniciado um Brasil inteiramente diferente.Em 1959, os holandeses partiram definitivamente, derrotados pela gente de um português do Brasil, Vidal de Negreiros, de um índio, Felipe Camarão e de um comandante negro, Henriques Dias. Henrique Dias não foi um santo. Jogou com os seus interesses, serviu-se da liberdade de muitos escravos mas usou a escravatura de outros. Foi um comandante notável duma gente notável.Sem a batalha de Guararapes e sem o Império do Brasil, Portugal não teria crédito, no continente, para comprar armas a França e reagir contra Espanha.
Portugal deve a sua independência também à batalha de Guararapes. Não há uma única estátua a Henrique Dias ou a Felipe Camarão, numa praça de Portugal.
Henrique Dias era negro. Foi-lhe prometida uma comenda. Nunca lha deram. Tentou viajar a Lisboa para a reivindicar. Viajou mas não lha deram.
Morreu pobre e ignorado.
Enquanto Portugal não honrar aquilo que foi universal, recusando-o como «História», Portugal ver-se-á a morrer, todos os dias, à frente dos seus próprios olhos.Talvez num quilombo perdido do Brasil, a campa rasa de portugueses negros esperem ainda o que lhes é devido. E talvez assim, Portugal se reconcilie consigo próprio e não se deixe sangrar, imparavelmente, todos os dias.
Portugal deve a sua independência também à batalha de Guararapes. Não há uma única estátua a Henrique Dias ou a Felipe Camarão, numa praça de Portugal.
Henrique Dias era negro. Foi-lhe prometida uma comenda. Nunca lha deram. Tentou viajar a Lisboa para a reivindicar. Viajou mas não lha deram.
Morreu pobre e ignorado.
Enquanto Portugal não honrar aquilo que foi universal, recusando-o como «História», Portugal ver-se-á a morrer, todos os dias, à frente dos seus próprios olhos.Talvez num quilombo perdido do Brasil, a campa rasa de portugueses negros esperem ainda o que lhes é devido. E talvez assim, Portugal se reconcilie consigo próprio e não se deixe sangrar, imparavelmente, todos os dias.
25.11.09
I - Audições: Slavoj Zizek em Hardtalk, da BBC, por André Bandeira
Depois de o ouvir, uma ou duas vezes, este filósofo da moda deixa-me desesperado.Diz que o comunismo é a solução para o capitalismo em que vivemos. E o entrevistador ainda parece mais desesperado do que ele. Enfim, esta entrevista em que Zizek já vinha preparado para uma «luta», é uma agressão ao telespectador. Porque é que este esloveno consagrado aceitou? Talvez porque os Conservadores vão ganhar em Inglaterra com um programa de esquerda e uma honestidade de conservadores. Tony Blair tinha um programa individualista próximo da histeria e, claro, o blairismo foi uma aldrabice. David Cameron virá com um programa de Esquerda que resvalará para a Direita e ficará também desonesto, porque a Inglaterra está condenada ao declínio, muito antes dos EUA e não há ainda uma consciência internacional conservadora. Porque digo isto? Porque uma entrevista de meia-hora a um escritor talentoso como Zizek, é inteiramente manipulada pela situação política decisiva em que se ganham e perdem votos com audições e imagens. Quem manda? A retórica, como massagem psicológica dum cultura de rebanho. Fugir a esta cultura de rebanho, que é já por si um cataclismo, é como fugir da droga.Em suma, Zizek é famoso entre os capitalistas porque escreve bem sobre filmes e pega bem frases no ar, como numa taberna mediterrânica do Sul do Império austríaco, onde os neuróticos de Viena podiam beber uns copos e seduzir umas moças. A isto se reduziu a Esquerda, uma das duas patas do Despotismo iluminado. Não adianta que Zizek diga que o comunismo foi um falhanço total e que o estalinismo foi pior do que o nazismo. A solução para um mundo de dor e confusão -- por razões que ainda não são muito claras -- é voltar um bocadinho atrás, a um comunismo como rosto humano,diz ele, como quando Zizek "lutava" em manifestações reprimidas suavemente, quando era novo, no «Comunismo» da Jugoslávia. Enfim, daquilo que este mundo malcriado e vulgar ainda não se libertou foi do guru modernaço Karl Marx, caro aos corpos «quentes» de Wall Street e aos corpos «sedutores» da Rive Gauche, o Marx sem concorrentes, adorador do deus dinheiro e que meteu poetas ou artistas a fazerem de filósofos, onde se tornaram em charlatães. Então, se eles forem misturados com jornalistas, temos um filme a falar sozinho, onde Zizek é o garoto loquaz da Democracia, com sessenta anos e o jornalista é o especulador da Bolsa com o emprego em jogo, aos quarenta.
22.11.09
XLVI - (Re)leituras - Anti-cancer, Prévenir et lutter grâce à nos défenses naturelles, de David Servan-Schreiber, por André Bandeira
David Servan-Schreiber surpreende-nos todos os Natais com um bom livro. E dá-nos uma nova concepção ao «best-seller». O livro vende-se bem? Então não é só num romance, destinado a absorver e alhear o leitor da barbárie informativa do dia-a-dia, mas tem de ir para a estante do leitor como uma lista de bons conselhos que se podem consultar caso a caso, ou consultar em geral. Por exemplo, quando ele nos dá, com uma técnica de imagem que já não é livresca, o «prato anti-câncer». Bom… este livro não é (mas pode ser) para hipocondríacos.
Na parte que não pode deixar de ser livro, o autor revela-nos aquilo que só se sabia superficialmente dos livros anteriores. Servan-Schreiber, judeu francês e filho do fundador dum dos Semanários mais importantes da França, o l’Express, obviamente ganancioso pelos EUA (onde é Professor), como todas as elites bonapartistas, depois de ser um jovem e arrogante neurologista, descobre durante uma brincadeira com os colegas, que tem um tumor maligno no cérebro. Quinze anos depois, venceu o tumor, mesmo depois de uma recaída e é sobre as técnicas de sobrevivência bem como de prolongamento da vida, e da busca incontornável do seu sentido, que ele exerceu o seu dever de nos informar. Ele dá muitos exemplos reais e tocantes que nos deixam calados. Pode dizer-se que a dieta mediterrânica é um bom preventivo mas também que a Civilização ocidental, que vem perdendo o domínio no Séc. XXI, deve ser afastada de um regime saudável de vida. Em suma, o modelo protestante anglo-saxónico faz objectivamente mal à saúde ou – como eu interpreto – é uma tal armadilha que, realmente, quem sobrevive nele, é porque travou com sucesso uma batalha bárbara que faria corar qualquer democrata liberal e sorrir de cúmplice a um antropófago. Concedo que Servan-Schreiber, como muitos judeus europeus, quer fugir de um ghetto interior, e que se expôs deliberadamente a todo o orientalismo da romaria norte-americana, com ioga, tai-chi e ecologismo radical. Mas o que ele nos ensina tem de ser ouvido: para sobrevivermos todos os dias, já não bastam os optimismos naturalistas da Europa romântica. É preciso comer e mover-se como um habitante do ghetto de Varsóvia, antes de mais uma levada. Não é paranóia. É a realidade e, neste aspecto, o Povo judeu da diáspora mantém intacta a sua força profética. A Democracia faz mal à saúde mesmo com um Serviço Nacional de Saúde.
Mas que vivemos num tempo de trevas espirituais profundas, parece-me que só uma pessoa acometida por uma doença assim o pode testemunhar. E não adianta proclamar a «Liberdade», que só um doente de cancro, absolutamente inocente, pode dizer-nos o limite de mais essa arrogância. Reduzir o mundo a uma dialéctica Esquerda-Direita é como matar por amor a um Clube de futebol. Mas, também, ver o mundo como Servan-Schreiber o vê, é esquecer o que disse o seu conterrâneo Bichat: « a vida é o conjunto das funções que resistem à morte». Mesmo aquelas que nos dizem que estando qualquer um de nós, morto, a prazo, resta-nos o dever de combater a Morte. Cada um de nós é uma «função de Bichat» e talvez este Natal seja melhor gastar mais em jogging, como os pastores do presépio e menos em camelo, como os Reis magos.
Na parte que não pode deixar de ser livro, o autor revela-nos aquilo que só se sabia superficialmente dos livros anteriores. Servan-Schreiber, judeu francês e filho do fundador dum dos Semanários mais importantes da França, o l’Express, obviamente ganancioso pelos EUA (onde é Professor), como todas as elites bonapartistas, depois de ser um jovem e arrogante neurologista, descobre durante uma brincadeira com os colegas, que tem um tumor maligno no cérebro. Quinze anos depois, venceu o tumor, mesmo depois de uma recaída e é sobre as técnicas de sobrevivência bem como de prolongamento da vida, e da busca incontornável do seu sentido, que ele exerceu o seu dever de nos informar. Ele dá muitos exemplos reais e tocantes que nos deixam calados. Pode dizer-se que a dieta mediterrânica é um bom preventivo mas também que a Civilização ocidental, que vem perdendo o domínio no Séc. XXI, deve ser afastada de um regime saudável de vida. Em suma, o modelo protestante anglo-saxónico faz objectivamente mal à saúde ou – como eu interpreto – é uma tal armadilha que, realmente, quem sobrevive nele, é porque travou com sucesso uma batalha bárbara que faria corar qualquer democrata liberal e sorrir de cúmplice a um antropófago. Concedo que Servan-Schreiber, como muitos judeus europeus, quer fugir de um ghetto interior, e que se expôs deliberadamente a todo o orientalismo da romaria norte-americana, com ioga, tai-chi e ecologismo radical. Mas o que ele nos ensina tem de ser ouvido: para sobrevivermos todos os dias, já não bastam os optimismos naturalistas da Europa romântica. É preciso comer e mover-se como um habitante do ghetto de Varsóvia, antes de mais uma levada. Não é paranóia. É a realidade e, neste aspecto, o Povo judeu da diáspora mantém intacta a sua força profética. A Democracia faz mal à saúde mesmo com um Serviço Nacional de Saúde.
Mas que vivemos num tempo de trevas espirituais profundas, parece-me que só uma pessoa acometida por uma doença assim o pode testemunhar. E não adianta proclamar a «Liberdade», que só um doente de cancro, absolutamente inocente, pode dizer-nos o limite de mais essa arrogância. Reduzir o mundo a uma dialéctica Esquerda-Direita é como matar por amor a um Clube de futebol. Mas, também, ver o mundo como Servan-Schreiber o vê, é esquecer o que disse o seu conterrâneo Bichat: « a vida é o conjunto das funções que resistem à morte». Mesmo aquelas que nos dizem que estando qualquer um de nós, morto, a prazo, resta-nos o dever de combater a Morte. Cada um de nós é uma «função de Bichat» e talvez este Natal seja melhor gastar mais em jogging, como os pastores do presépio e menos em camelo, como os Reis magos.
20.11.09
XLV - (Re)Leituras:The Geopolitics of Emotions, de Dominique Moïsi
Este livro foi publicado depois da eleição de Obama e antes da aprovação final do Tratado de Lisboa. Dominique Moïsi, do IFRI francês, é, talvez, o especialista de Relações Internacionais, francês, que melhor fala inglês. Filho dum sobrevivente de Auschwitz, parece-me o exemplo consumado da profunda estupidez do anti-semitismo. Não concordo com ele, já o presenciei em algumas atitudes um pouco arrogantes ou snobs, se não mesmo afectadas, mas tudo o que escreve é razoável, civilizado, até um pouco ingénuo, e sem ponta de perfídia. Neste livro, ele explica que as determinantes do Mundo moderno são a cultura da humilhação, à qual ele associa o mundo islâmico, e a cultura do medo, à qual ele associa o mundo israelita, mas também certa Europa e certa América. Termina com um capítulo de futurologia, com um cenário mau e outro bom, sobre o Mundo em 2025. Tem umas ideias interessantes como as de que os EUA se tornarão os missionários da ecologia, assinando um Acordo de Tóquio modificado e que tal os fará reentrar na Comunidade internacional, depois de passar um herdeiro de Obama, que será de extrema-direita mas isolacionista. Penso que exagera. Prevê, apesar de tudo, uma União Europeia, alinhando como Bloco económico e militar ao lado dos EUA, da Rússia, da China e da Índia mas, depois de um cenário, também possível, em que a Europa se reduzirá a menos do que o Reino Unido inicialmente queria dela. Prevê a independência da Catalunha, da Escócia e do País de Gales. Deixa o Brasil para depois. Prevê, apesar de tudo, um declínio da Europa, com expulsões em massa de emigrantes, prevê conflitos graves na Ásia, com a inevitabilidade de um regime fundamentalista no Paquistão, ou uma guerra local em Taiwan, e um exaurir do desenvolvimento da China. Prevê um clube muito maior de países nuclearizados, a começar pelo Japão mas também com a Turquia, a Arábia Saudita e o Egipto. Fala no bombardeamento conjunto das instalações nucleares iranianas, pelos EUA e Israel,derrubando Ahmanidejad, mas gerando um ódio generalizado aos EUA. No cenário bom, enquanto Israel e Palestina assinam finalmente o Tratado de Paz do conflito central da Modernidade, para Israel não acabar e a Palestina poder existir, abrindo Tel-Aviv mão de parte de Jesrusalém bem como dos territórios ocupados, e renunciando a Palestina ao direito de retorno dos seus exilados, o resto do Mundo debate-se com conflitos regionais. O Conselho de Segurança será alargado e contará com um Secretário-Geral carismático. Os «Grandes« contarão com a China, a Índia e o Brasil. Enfim, como ele diz, numa técnica de argumentação em que diz algumas coisas agradáveis, e deixa o paradoxo inquietante para o fim da frase, afinal Huntington tinha razão, porque conseguiu, em 1993, espalhar o perigo islâmico, o qual se materializou. Citando Hegel, os Homens fazem a História sem saberem qual. Acho que ele,o autor deste livro, realmente, não sabe.
17.11.09
XLIV - (Re)leituras, Milton: Political Writings, edited by Martin Dzelzainis, by André Bandeira
This collection of Milton's Political Writings, published in 1991, sheds some light on a politician who managed to survive as a poet. He got blind, had to go on hiding but finally got his own Candide's garden.
After reading his Tenure of King's and Magistrates, written to justify the beheading of the catholic Charles the First, and especially after reading his vitriolic argument, in Anglicorum Popolo Defensio, with Symasius, who was himself an «hired gun» for the royalists, one concludes that the modern conception of Republic didn't surface in Paris, in 1789, but did it long before, in London, in 1649.
What made both of the republics so prone to beheading as an execution techinque? It was the same costum of reserving to aristocrats, the fast lane. If the matter was speed, the ensuing civil wars, which didn't stop at all, neither during the Glorious Revolution, in 1688, nor with Napoleon, became the weapon of choice for eliminating other categories of ennemies, who were slower in time. At some point, Milton contends that his peculiar way of defending Cromwell's militar dictatorship is supported by evidences such as the fact that there is a pars potior or a pars sanior, a better or a healthier part of the population (the army, for instance) to legitimize a murder vested in trial. It doesn't matter which kind of church or doctrine, was Milton standing for. A mixture of Zwingli, and Luther was fair enough, particularly if all of it mouthed in the well proven demagoguery of Buchanan. As it happens in every Revolution, especially those ones proped up by black shirts such as the puritans and round-heads, the protagonists, and nobody but them, are day-dreaming. Therefore, there is a need in combing poets with advocates in every revolution, because they make nightmares look like dreams.
As far as one studies the fine art of conspiracy which leads to Monk turning his coat and facilitate the restoration of Charles the second, and, further in time, the restoration of parliamentarism, by William of Orange, one gets the feeling that what counts, is to have friends who stay afloat in every situation. If this corresponds to a technique of managing a stock of skeletons in the closet, as a kind of way in reaching a newtonian mass, it depends on how far Newton followed a secret cult. But it shows as well that nobody needs a kind of british parliamentarism, where royalists are ressented and republicans are frustrated. Instead of a little fatalism called Leviathan and a great deal of cynicysm, called Behemoth, as Hobbes put it, one needs more than a cave light which led Milton to see Lucifer as a superman, the moment he couldn´t see anything. As a matter of fact, in Paradise Lost, he watched the wrong movie: it was Frankenstein. The parts of the monster's body were ghosts of a demagogical assembly of sensations : an allucination called res publica.
After reading his Tenure of King's and Magistrates, written to justify the beheading of the catholic Charles the First, and especially after reading his vitriolic argument, in Anglicorum Popolo Defensio, with Symasius, who was himself an «hired gun» for the royalists, one concludes that the modern conception of Republic didn't surface in Paris, in 1789, but did it long before, in London, in 1649.
What made both of the republics so prone to beheading as an execution techinque? It was the same costum of reserving to aristocrats, the fast lane. If the matter was speed, the ensuing civil wars, which didn't stop at all, neither during the Glorious Revolution, in 1688, nor with Napoleon, became the weapon of choice for eliminating other categories of ennemies, who were slower in time. At some point, Milton contends that his peculiar way of defending Cromwell's militar dictatorship is supported by evidences such as the fact that there is a pars potior or a pars sanior, a better or a healthier part of the population (the army, for instance) to legitimize a murder vested in trial. It doesn't matter which kind of church or doctrine, was Milton standing for. A mixture of Zwingli, and Luther was fair enough, particularly if all of it mouthed in the well proven demagoguery of Buchanan. As it happens in every Revolution, especially those ones proped up by black shirts such as the puritans and round-heads, the protagonists, and nobody but them, are day-dreaming. Therefore, there is a need in combing poets with advocates in every revolution, because they make nightmares look like dreams.
As far as one studies the fine art of conspiracy which leads to Monk turning his coat and facilitate the restoration of Charles the second, and, further in time, the restoration of parliamentarism, by William of Orange, one gets the feeling that what counts, is to have friends who stay afloat in every situation. If this corresponds to a technique of managing a stock of skeletons in the closet, as a kind of way in reaching a newtonian mass, it depends on how far Newton followed a secret cult. But it shows as well that nobody needs a kind of british parliamentarism, where royalists are ressented and republicans are frustrated. Instead of a little fatalism called Leviathan and a great deal of cynicysm, called Behemoth, as Hobbes put it, one needs more than a cave light which led Milton to see Lucifer as a superman, the moment he couldn´t see anything. As a matter of fact, in Paradise Lost, he watched the wrong movie: it was Frankenstein. The parts of the monster's body were ghosts of a demagogical assembly of sensations : an allucination called res publica.
XLIII - Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, por André Bandeira
Este livro, tem edições subtis. Pego na de 1946. Mas o livro foi escrito, em 1936, um ano antes do golpe facistóide de Getúlio Vargas e dois, depois da insurreição comunistóide de Luís Carlos Prestes, o «Cavaleiro de Esperança». O texto é uma boa peça de investigação para a identidade portuguesa, no Séc.XXI. Para um país, como o Brasil, que será uma potência mundial dentro de alguns anos, e cujos intelectuais, depois de se sentarem à mesa dos maiores Pensadores do seu Tempo, insistem na identidade portuguesa das suas raízes, Portugal ainda é importante. Mas Sérgio Buarque de Holanda não se ensina nas escolas portuguesas, talvez porque há gente em Portugal que quer dissolver a identidade nacional, há muito tempo e a luta é amarga, há muito tempo também. Holanda terminou aqui a sua sociologia do Brasil e passou a Historiador. Dizem que foi Historiador das mentalidades.Porque,com tanta traição e tanto Miguel de Vasconcelos, Holanda não podia ir fazer a História do Brasil, em Lisboa. Rir-se-iam dele, como «brazuca». Por isso, saíu da América Portuguesa para uma outra América, que também tocou Roma.Contudo, Holanda sofre dum amargor irreparável em relação ao Brasil. Não o troca por uma cátedra na Europa, torce-se em esgares duma Nação em trabalho de parto e, por isso, não lhe adiantaria pensar que está noutro lugar. Defende, a concluir, que há um «espírito» que comanda a História e que a forma de Estado que o contorna, fica sempre no contorno. O erro dos fascistas, nomeadamente os postiços «integralistas» brasileiros, foi não serem oposição nenhuma. E o erro dos comunistas brasileiros foi o de serem naturalmente «anarquistas». Holanda deve ser um hegeliano no Brasil espírita, o que torna a pergunta sobre quem é o seu «Espírito da História», uma chalaça. Holanda é conservador e autoritário, apesar de se julgar avançado. E é-o em nome do realismo, dum frio polar como o de Max Weber. É cómico ver um «frio polar» num intelectual brasileiro. Portanto, a identidade nacional de Portugal é também brasileira, já que este frio polar permanece na combustão tropical dos portugueses. O estudo minucioso que Holanda fez da monarquia brasileira, apesar da curta duração desta, é fundamental para Portugal, porque a mesma pode ter durado pouco mas envolveu milhões de almas. E Holanda fala sem problemas de «influência ibérica», para, a todo o momento estabelecer a diferença abismal entre Portugal e Espanha. Pois...é que o Brasil não precisa nem de ódios, nem de guerras, nem de traições, para perceber a sua especificidade lusitana. O Brasil não é um imenso Portugal mas Portugal é um pedaço do Brasil.
15.11.09
XLII - Republicanos e Libertários - Pensadores radicais no Rio de Janeiro (1822), de Renato Lopes Leite, por André Bandeira
Hoje é 15 de Novembro, data da proclamação da República no Brasil. Alguns intelectuais brasileiros lamentam a data, dizendo que a República do Brasil inaugurou um período de guerras civis e aboliu um Imperador, Pedro II, que era afinal republicano. Neste livro percebe-se que já o seu pai, D.Pedro I, II de Portugal, era provavelmente republicano e que a luta nas Cortes constitucionais em Lisboa foi entre republicanos brasileiros e monárquicos portugueses. Mas a luta nas Cortes constitucionais do Brasil independente, em 1823,essa foi entre monárquicos constitucionais e republicanos. No fim, perderam os republicanos, e fizeram a Liga do Equador, que se revoltou contra o Rio de Janeiro de D. Pedro II do Brasil, levando ao primeiro ciclo de violência, no qual pereceram de João Soares Lisboa, um português feito brasileiro, e Frei Caneca. Mas o livro conclui de um modo cândido, dizendo que a proclamação da independência do Brasil, foi sobretudo resultado da intervenção da Imprensa republicana. O livro diz que sim. E acrescenta que o apoio popular foi certificado por uma série de festas públicas e populares em tumulto, nas quais a «voz do Povo» deu vivas ao Imperador do Brasil, entre foguetes e cornetas. Enquanto se lançavam também as sementes de um conflito racial, a proclamação foi o resultado de uma luta de elites, nas quais a minoria republicana - assinale-se -- nunca simpatizou, nem com Robespierre, nem com as invasões napoleónicas. E o conceito de Liberdade desta minoria era sobretudo a resistência à corrupção e à arbitrariedade do Estado. João Soares Lisboa morre em combate, agonizando por um dia, encostado a uma árvore,com uma frase bonita: «Morro nos braços da amizade».
Reconheço os ideais desta gente capaz do martírio. Porém, a História é tão irónica quanto a Humanidade. O desejo de Justiça e de Paz destes revolucionários surgiu depois de uma política sinistra e secreta, inaugurada com a abortada República de Cromwell e a seguinte Restauração dos Stuarts em Inglaterra, tudo abençoado pelo mago Hobbes. Não trouxe Paz a ninguém, entre picos de Justiça, semeou desertos de Injustiça e, de consolo, deu apenas breves alívios.Um regime deixou de se poder justificar por uma sequência de festas populares, em tumulto, nas quais se gritam alguns slogans. Os Reis que ainda existem, como as calotes polares da Humanidade, têm o dever de travar as lutas raivosas das elites. Com o escudo da gente boa e a espada da gente verdadeira.É esta a promessa do Rei Antigo, que não reina senão nos corações e que não é Imperador de nada.
Reconheço os ideais desta gente capaz do martírio. Porém, a História é tão irónica quanto a Humanidade. O desejo de Justiça e de Paz destes revolucionários surgiu depois de uma política sinistra e secreta, inaugurada com a abortada República de Cromwell e a seguinte Restauração dos Stuarts em Inglaterra, tudo abençoado pelo mago Hobbes. Não trouxe Paz a ninguém, entre picos de Justiça, semeou desertos de Injustiça e, de consolo, deu apenas breves alívios.Um regime deixou de se poder justificar por uma sequência de festas populares, em tumulto, nas quais se gritam alguns slogans. Os Reis que ainda existem, como as calotes polares da Humanidade, têm o dever de travar as lutas raivosas das elites. Com o escudo da gente boa e a espada da gente verdadeira.É esta a promessa do Rei Antigo, que não reina senão nos corações e que não é Imperador de nada.
12.11.09
XLI - (Re)leituras - The post-american World, de Fareed Zakaria, por André Bandeira
Fareed Zakaria, ex-editor da Newsweek, e com show próprio na CNN, escreveu este livro, pouco antes de Obama ser eleito. Hussein Obama fez um ano de presidência e John Muhammad, que, com o filho, matara dez pessoas arbitrariamente,em 2002, presumivelmente por uma imitação solitária da Al-Qaeda, foi executado sem últimas palavras.Dois nomes de nómadas do deserto dão o alfa e o ómega deste mandato presidencial que Zakaria, à data do livro, cautelosamente, não vaticinou.
Zakaria vem de Bombaim,sonhava com a América e materializou o seu sonho. De tal modo, que, depois de recitar a lição de óptimo aluno de Harvard, vem jogar. Porém, o seu tabuleiro de jogo é medonho: a Índia é um Estado-nação, os Estados-nação da Europa estão condenados a definhar e o Estado-nação americano, a «nação universal», vai continuar a liderar, mesmo num mundo bipolar -- com a China -- ou multipolar,com o Brasil e o México também.O jogo é sempre o mesmo, o do Poder, em que ser de esquerda liberal é igual ao credo de que a política pode mudar a cultura, se se vencer a competição. E o que é a «competição»? A maior classe média do Mundo, a lentidão indiana, contradições e vontade de prosperar,é a melhor das competições.
A competição por clientes, dos batoteiros, faz parte do jogo. Afinal, os Estados-nação -- ou campos de ensaio -- que a vaga de descolonização, seguinte à Segunda Guerra Mundial, inventou, por acordo entre os EUA e a URSS, reivindicam agora a selecção natural, no campo da Cultura. Os pequenos Estados-Nação, a despeito da sua longa História, estão condenados à irrelevância. Por conseguinte, só grandes Nações podem dividir o Mundo e, desde já, é entre essas Grandes Nações que se devem fazer intercâmbios. Entre as Grandes e as pequenas Nações só há concursos internos.O Ocidente certamente que cometeu erros hediondos, mas não deve somar, aos erros que cometeu, o do masoquismo. Se houve batoteiros que faziam «bluff» dizendo-se descendentes do Carlos Magno, a batota será a mesma quer se digam descendentes duma casta indiana superior, que beberam confucionismo no berço ou que são descendentes do lobisomem das estepes.
Zakaria vem de Bombaim,sonhava com a América e materializou o seu sonho. De tal modo, que, depois de recitar a lição de óptimo aluno de Harvard, vem jogar. Porém, o seu tabuleiro de jogo é medonho: a Índia é um Estado-nação, os Estados-nação da Europa estão condenados a definhar e o Estado-nação americano, a «nação universal», vai continuar a liderar, mesmo num mundo bipolar -- com a China -- ou multipolar,com o Brasil e o México também.O jogo é sempre o mesmo, o do Poder, em que ser de esquerda liberal é igual ao credo de que a política pode mudar a cultura, se se vencer a competição. E o que é a «competição»? A maior classe média do Mundo, a lentidão indiana, contradições e vontade de prosperar,é a melhor das competições.
A competição por clientes, dos batoteiros, faz parte do jogo. Afinal, os Estados-nação -- ou campos de ensaio -- que a vaga de descolonização, seguinte à Segunda Guerra Mundial, inventou, por acordo entre os EUA e a URSS, reivindicam agora a selecção natural, no campo da Cultura. Os pequenos Estados-Nação, a despeito da sua longa História, estão condenados à irrelevância. Por conseguinte, só grandes Nações podem dividir o Mundo e, desde já, é entre essas Grandes Nações que se devem fazer intercâmbios. Entre as Grandes e as pequenas Nações só há concursos internos.O Ocidente certamente que cometeu erros hediondos, mas não deve somar, aos erros que cometeu, o do masoquismo. Se houve batoteiros que faziam «bluff» dizendo-se descendentes do Carlos Magno, a batota será a mesma quer se digam descendentes duma casta indiana superior, que beberam confucionismo no berço ou que são descendentes do lobisomem das estepes.
9.11.09
XL - (Re)leituras - A Crítica da Faculdade de Julgar, de Immanuel Kant, por André Bandeira
Esta terceira «Crítica», de Kant, permitia aplicar uma espécie de raciocínio cumulativo para distinguir uma coisa bela duma outra sublime. Tudo dependia de categorias novas, como se «Alma, Mundo e Deus» ou Qualidade e Quantidade não permitissem, numa cervejaria, acertar entre uma cerveja, que se oferece, e o decote da criada, que arrefece. Seguindo Thomas Kuhn,as ciências humanas exigem «categorias móveis». Por exemplo, para explicar a sentença do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, para que se retirem os crucifixos das escolas, em Itália,eu acho que a categoria móvel, neste caso, é ambulante e o seu conceito «a ambulância».Goethe já dizia que, nem sempre a percepção erra. É o juízo que erra.
Ora vamos bem analisar o programa de uma excursão da escola dos nossos filhos, em que os podemos acompanhar. Os miúdos vão ver uma cidade europeia. Passem por aquela praça e está lá uma cruz, em cima do fontanário. A seguir, eles verão o cimo daquelas ruas com estátuas, algumas delas com cruzes. As estátuas estão com «gestos cristãos», como olhar para o céu, meter a mão no peito, carregar galos e chaves do Céu, peixes e coisas assim. Claro que há campanários por toda a parte, com cruzes em cima, colocadas em pontos estratégicos da cidade. No cimo daquela colina podem ver um fulano barbudo,de pálpebras semi-cerradas e em camisa de noite, com os braços abertos. Mede cerca de setenta metros, um exagero para um monumento à candura do sonambulismo e do Inconsciente de Freud,ou tratar-se-á de um campeão de natação, por estar ao pé do rio? E, agora, podem descer do autocarro e ir beber umas cervejas naquela tasca que existe desde o Séc. XVII, enquanto os miúdos jogam «Massacre», ou «Exterminio Total» no computador. Se olharem para o decote da empregada, e repararem na cruz, a balançar entre as duas suaves curvas na gola de renda, não se lembrem do «Manual de maus costumes» da Bíblia, nem tentem arrancar-lhe a cruz porque se ele traz vinte cervejas de cada vez, já houve quem a visse com três turistas engraçadinhos, debaixo do braço. É tudo um erro de percepção, como as receitas do Psiquiatra militar Nidal Malik Hassan.São as vossas caras que ficam mal na fotografia e há que fazer uma operação estética.Quando mudarem as vossas caras que podem traumatizar os meninos da escola,o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem terá também mudado já, o seu nome, para Tribunal do Juízo Universal.Se falharem a visita da sede desse baluarte da Liberdade e da Democracia, com um triângulo de quatro lados em cima,poderão dizer, sem preocupações: «Oh, que pena! Perdemos o Juízo!"
Ora vamos bem analisar o programa de uma excursão da escola dos nossos filhos, em que os podemos acompanhar. Os miúdos vão ver uma cidade europeia. Passem por aquela praça e está lá uma cruz, em cima do fontanário. A seguir, eles verão o cimo daquelas ruas com estátuas, algumas delas com cruzes. As estátuas estão com «gestos cristãos», como olhar para o céu, meter a mão no peito, carregar galos e chaves do Céu, peixes e coisas assim. Claro que há campanários por toda a parte, com cruzes em cima, colocadas em pontos estratégicos da cidade. No cimo daquela colina podem ver um fulano barbudo,de pálpebras semi-cerradas e em camisa de noite, com os braços abertos. Mede cerca de setenta metros, um exagero para um monumento à candura do sonambulismo e do Inconsciente de Freud,ou tratar-se-á de um campeão de natação, por estar ao pé do rio? E, agora, podem descer do autocarro e ir beber umas cervejas naquela tasca que existe desde o Séc. XVII, enquanto os miúdos jogam «Massacre», ou «Exterminio Total» no computador. Se olharem para o decote da empregada, e repararem na cruz, a balançar entre as duas suaves curvas na gola de renda, não se lembrem do «Manual de maus costumes» da Bíblia, nem tentem arrancar-lhe a cruz porque se ele traz vinte cervejas de cada vez, já houve quem a visse com três turistas engraçadinhos, debaixo do braço. É tudo um erro de percepção, como as receitas do Psiquiatra militar Nidal Malik Hassan.São as vossas caras que ficam mal na fotografia e há que fazer uma operação estética.Quando mudarem as vossas caras que podem traumatizar os meninos da escola,o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem terá também mudado já, o seu nome, para Tribunal do Juízo Universal.Se falharem a visita da sede desse baluarte da Liberdade e da Democracia, com um triângulo de quatro lados em cima,poderão dizer, sem preocupações: «Oh, que pena! Perdemos o Juízo!"
4.11.09
XXXIX - (Re)leituras - Raça e História, de Claude Lévi-Strauss, por André Bandeira
De Bruxelas, vale de tempestades, para o Brasil, terra de Vera Cruz. Lévi-Strauss fez esse caminho antes de sair do armário, que, no seu tempo, queria dizer tomar posições públicas por ideais públicos e não por miasmas individuais. Claude -- vou chamar-lhe assim -- morreu em silêncio antes que alguém o pudesse convidar para um concurso televisivo de longevidade ou, talvez, para dissertar sobre o direito ao testamento vital. Mandou depois um bilhete postal aos percursores bonitões das futuras câmaras de gaz. Claude era um judeu de Bruxelas, askhenazi que, saído da narrativa de maus costumes que foi o laboratório efervescente da Humanidade no Médio-Oriente (com um relatório parcial na Bíblia) se apercebeu da noite negra em que caíu o nosso espírito. Tomou, em plena época de premeditação assassina na Europa, a década de 30, a missão de exercer a influência francesa, racionalista, num país que ainda fardava os seus soldados à francesa.Como um século antes, o Arquitecto Montigny e o pintor Taunay. E chegou ao Brasil, foi ao Amazonas, decretou do alto da sua seriedade, o fim do termo «selvagem», porque encontrou índios que pouco tinham disso, graças a uma História que Paris ignorava e que não esperou por antropólogos de Paris para prosseguir. E fê-lo como se estivesse sempre dentro de um quarto, com livros, constatando e declarando sem pestanejar. A França, que fora derrotada ao lado da Confederação dos Estados do Sul, nos EUA, disputava agora a sua influência no Sul, com antropólogas norte-americanas de pouca lisura, como Ruth Benedict e Margaret Mead, ou fundadores como Boas e Malinowski. Claude atravessou a Segunda-Guerra mundial sem ser gazeado e emergiu com a sua Antropologia estrutural, que subdividia uma ideia académica em partes e depois somava-as para a voltar a repetir. Como Freud e outros, o seu número extenso de dados, corroborou uma teoria pré-definida. Mas, ao não-colaboracionista Claude, sobrou-lhe bom-senso. Quando foi chamado a discursar nas Nações Unidas sobre a Raça e a História, claro que deu testemunho de que não existem raças mas disse muito claramente, como lhe tinham ensinado milhares de picadelas de mosquitos tropicais e carrapatos europeus, que é um erro transferir culturas para meio de outras culturas, as quais se guerreiam forçosamente, quando obrigadas à promiscuidade. Tentaram vendê-lo como mais um padrinho da Revolução. Enganaram-se.Ele não foi, nem podia ser, porque nunca se pretendeu candidatar ao Parlamento europeu ou mundial -- ideia que certamente ignoraria -- um defensor da sociedade multicultural. O seu discurso Raça e História foi publicado e traduzido. Poucos o leram com atenção e os campeões da sanha libertacionista anti-colonial, que o ouviram discursar, protestaram exasperados. Mas Claude disse. E não se desdisse.
1.11.09
XXXVIII - (Re)Leituras - Conversas com Filósofos Brasileiros, de Marcos Nobre e José Márcio Rego, por André Bandeira
Quando leio este livro, compreendo porque é que Braz Teixeira considera tanto Tobias Barreto de Menezes, um filósofo mameluco (crioulo), nordestino, do Séc. XIX. Barreto testemunhou com a sua vida o que pensou e escreveu. Os filósofos deste livro, todos vivos à data da publicação do livro (2000), certamente que testemunham mas não sei se todos o fazem em relação ao que pensam. Noto com graça o diferendo pessoal entre Giannotti e Ruy Fausto,notando previamente que Giannotti vê na «filosofia brasileira» uma forma de resistência a influências estrangeiras que contradizem a experiência quotidiana do Brasil e a sensibilidade de Ruy Fausto, que é sobretudo um triunfo sobre uma existência épica. Simpatizo muito com a humildade de Leandro Konder, o que há de melhor num alemão tropical, nomeadamente quando dizia que militava com os comunistas, porque era normal, mas achava-os todos esquisitos. Mas de filosofia estamos falados: o mais covincente é mesmo Oswaldo Porchat, com o seu neo-pirronismo, porque sinto nele uma iluminação semperviva, a mesma que sustentará Diógenes de Halicarnasso, em qualquer lugar, em qualquer época. Ao começo, vejo a sombra do padre Lima Vaz e não posso deixar de pensar que também há legitimidade divina no gládio temporal, não apenas no espiritual. Só me resta mesmo Marilena Chauí. Lida aqui e em outras obras,esta filósofa filha de integralistas e que punha muitas perguntas, recebeu muitas respostas.Pediu Ordem e teve-a. A sua interpretação de Espinosa, monumental, só dignifica o filósofo português que viveu numa época sangrenta. Mas o espinosimo, aplicado hoje, é uma laranja mecânica,e revela a democracia como a ditadura do Povo. O drama da libertação pessoal de Espinosa obscurece a responsabilidade pessoal pela sociedade inteira de quem a pessoa, e não a sociedade, é o genótipo.Se, para isso, me despeço do Deus da Bíblia e entro na mistificação cristã, nem por isso me submeto ao gládio do padre Lima Vaz. Marilena continuará indefinidamente, como o Departamento francês ultramarino do Brasil. E fico-me a pensar se o diagnóstico marxista do capitalismo, depois de durar tanto tempo sem aplicar terapêutica de jeito, não será uma mistificação que, além de assassinar inocentes pobres, assassina empresários com princípios que sabem que a sua propriedade é o ganha-pão de muita gente enquanto não chega a Revolução mundial.
24.10.09
XXXVII (Re)leituras - Um «Fausto» de Saramago, por André Bandeira
Li «Cem Anos de solidão». Era um romance maravilhoso a que chamaram de «realismo fantástico». Tendo sido escrito por um homem muito culto e artista, fiquei durante uns tempos a pensar que passara a haver uma forma de falarmos das coisas a direito, sem nos dotarmos, antes, de uma linguagem certificada. Saramago, se calhar, pensou o mesmo. E pensou de tal maneira que achou que podia tratar também a Bíblia como «realismo fantástico». A linguagem antiquíssima da Bíblia passou a ser explícita como um comunicado político ou um anúncio das «Páginas Amarelas» e o que era símbolo passou de realidade fantástica, para uma noite sem dormir. Um pouco como se o que foi escrito nos hieroglifos egípcios fosse título de jornal e a raiva militante nos levasse a crer que, em vez do faraó, estavam a falar do Presidente, ou de mim próprio.Com o tempo, com o escavamento de civilizações mais antigas e o aprofundamento, quer da tecnologia, quer da linguagem dos animais, poderemos talvez tratar como «realismo fantástico», qualquer texto ou comportamento.Alguns textos de Física e Astronomia têm já esse carácter. Mas, aqui, faltam-me as palavras (parece que «neve» é dita de muitos modos por um «esquimó»). Vi também a amostra de debate entre o Padre especialista da Bíblia, Carreira das Neves, e Saramago, para perceber que o Padre, honesto e cortês, não se soube defender. Nesse mesmo dia conheci um missionário católico que trabalha há trinta e três anos numa região longínqua onde muitas pessoas estão mais ou menos condenadas a prazo por uma doença terrível, inclusive ele. Este missionário citou várias vezes a Bíblia e não tinha e-mail.Honestamente, não vou ter tempo para ler «Caim» e Saramago está para a Internet como Júlio Dantas para Almada Negreiros. Mesmo desculpando-se por uma linguagem rude que não o levou a retirar o livros das bancas e corrigi-los,Saramago lembra um Fausto fugindo duma sombra que lhe mostra um pacto assinado a sangue. E, aqui,o vulto cultural de Saramago entra no seu próprio realismo fantástico. Nesse mesmo dia percebi também que o missionário que conheci continuou a escrever a Bíblia, durante trinta e três anos, numa escrita que Saramago pode só vir a entender tarde demais.A escrita era realista.Se havia algo fantástico, era o Silêncio que se impôs a seguir.
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