24.5.09

XIX - (Re)leituras -- O Heavy Metal, por André Bandeira

Deixei-me pela noite fora a ver umas reportagens de um canal de televisão alternativo, chamado "Vice Channel": duas reportagens paralelas sobre um grupo de Heavy Metal do Iraque e outro da Noruega. O primeiro, de nome Assiricatura e o outro, o conhecido grupo satanista Gorgoroth, de Espedal, perto de Bergen, numa região onde é possível chover 100 dias seguidos. O curioso do Heavy Metal é que ele mobiliza directamente, em filmagem e ao vivo, energias muito directas de agressividade. A reportagem sobre o grupo do Iraque, contava como três jovens, Firaz, Faisal e Ammanwan, sobreviviam a tocar as suas guitarras e a falar o seu Inglês de Nova York, numa Bagdad onde morriam duzentas pessoas por dia em 2006, onde todos se protegiam uns aos outros, sob pena de levarem um tiro, por não pagarem a protecção ou falarem inglês. Como dizia Firaz,«mataram Ali Bábá e deixaram os quarenta ladrões». Por fim acabaram todos refugiados em Damasco, vivendo em condições muito difíceis, quando o número acumulado de vítimas provocadas pela guerra subiu quase a 1 milhão. Já com pequenas famílias próprias, lutando por reunirem ainda hoje, fora do inferno de Bagdad, a suas famílias mais vastas, estes jovens demonstravam uma coragem incrível, por trás dos seus sorrisos tristes. Como dizia um outro mais jovem que se reunia a eles, em Damasco, pernoitando sempre com aspecto limpo e digno num dormitório de refugiados, entre trabalhos precários: «eu quero ser livre, quero ser feliz, como toda a gente, não quero que me considerem um terrorista porque sou iraquiano». A canção dos Assiricatura, «Massacre», dizia:«Roubaram-nos as terras/Mataram-nos as famílias/Só há um passo para a Morte». Ao fim, Faysal transforma a sua revolta juvenil de Heavy Metal numa mensagem concreta para a televisão:« You motherfuckers who made of my land a land of war».
Saltemos para a Noruega. Ghal, o mítico líder dos Gorgoroth vive isolado no país do Inverno. Em tom de queixa diz que andou até aos dezoito anos numa escola local,em que os únicos alunos eram ele e mais um colega. Leva os repórteres por um caminho difícil até um cabana na montanha, sempre nevada, de madeira cinzenta pelas intempéries, de aspecto mais desolador que aterrador. Ghal inspira medo a toda a gente, pois foi acusado de torturar um outro indivíduo durante seis horas e beber-lhe o sangue, ou obrigar o próprio a bebê-lo. Um dos seus correlegionários diz que a diferença dos Gorgoroth é que querem genuinamente espalhar a «palavra de satanás».Ghal passou uns anos na cadeia que o levaram a interromper o curso de Pintura, mostrando algumas telas mal pintadas, com temas em que o sangue e a violência são apenas espelho de uma existência desolada. Interrogado sobre o crime que cometeu diz o que lhe disse o advogado (foi legítima defesa) e que «é como uma tela, quando se começa tem de se ir até ao fim». Arvora-se em missionário do anti-cristianismo, diz que se deve confiar tudo à Natureza «que sempre flui», satisfazendo-se com esta máxima superficial e, depois de o ilustrar com a cabana no cimo da montanha, fala no Super-Homem e no único deus que existe (por oposição àquele que nos está sempre a dizer que «não devemos fazer isto» ou que «devemos fazer aqueloutro») e que é o nosso deus interior. Ghal, que soa mais ou menos a «maluco» em norueguês, tem uma cara realmente vertiginosa como um fiorde visto duma ressaca, mas no fundo, os seus silêncios, as suas ideias de pacotilha e os seus maus quadros (com a excepção de um desenho de um rapaz nu)não passa de um criminosozito juvenil que o sistema noruguês tratou demasiado bem. Entretanto, tem o Heavy Metal para expandir na zona do Báltico e na Europa do Norte, todas as frustrações que não conseguiu vencer, por ter esperado até aos 18 anos para sair de uma zona despovoada onde o peso do Estado social não estimulou essa calor humano face aos elementos que, em tempos, caracterizava a gente da Europa do Norte.
Em conclusão, o que há de satânico, nestes dois casos, é a nossa incompetência, disfarçada de mentira e irresponsabilidade: dum lado, uma Guerra que se perpetuou graças ao racismo contra a cultura árabe. Do outro, uma teatrada de terror de série B, que já ninguém teve força (senão um Polícia noruguês que contou a história toda e levou a investigação até ao fim)para proibir sob um regulamento mais ou menos assim: festas e celebrações, só aos domingos e nos termos da lei.Satânico é o disparate que perdura e que, por lassidão ou covardia, não queremos corrigir, tornando-se com o tempo-- e apesar de todos saberem que é um disparate completo -- algo real, duma realidade distorcida em que já nada direito parece correcto.

12.5.09

XVIII - (Re)leituras) - Santo António de Lisboa, o Santo de Pádua, de Franchetti Ferrante, por André Bandeira

Este livro dos anos sessenta sobre Santo António, tem mais valor de análise histórica, que de investigação sobre as origens do Santo (o qual foi o único amigo que tive, durante muitos anos, em Lisboa e a quem rezo todos os dias). O título arruma a questão sobre de que cidade é o Santo. Demonstra também uma certa admiração pelos portugueses, pois associa a tenacidade do Santo a quem S. Francisco conferiu o direito de estudar, sendo ambos duma Ordem que, na sua origem, desprezava as vaidades do saber em favor da prática da solidariedade e do testemunho cristão. O autor chama-lhe «íbero» e, por ser assim, Santo António era tão duro nos seus jejuns e exercícios espirituais, tendo sobrevivido a S. Francisco, apenas porque só entrara para frade aos 25 anos e, até aí, desenvolvera-se fisicamente como cavaleiro, provavelmente, como militar. Santo António é duro, sim, duríssimo. É duro quando ataca a corrupção do clero, é duro quando ataca os heréticos albigenses (que ficaram sempre com uma aura de serem mais cristãos que os católicos mas que o respeitavam porque sabiam que António era ainda mais forte que eles), é duro quando ataca os maus costumes da gente do Norte de Itália e do Sul de França, é duro quando ataca os reis e os Imperadores. E é duro quando não toma partido, nem por uns nem por outros, remetendo-se a um silêncio que chicotea na cara, quando se abstém de escolher entre aqueles que dizem que o Poder de Deus passa primeiro pelo Imperador, os outros que acham que ele passa primeiro primeiro pelo Papa. Santo António podia não ter levantado os peixinhos, ordenados dos mais pequenitos para os maiores, como conta a lenda, mas tenho a certeza que qualquer humano que o ouvisse, se levantaria electrizado. Porque o que dizia Santo António, vinha de uma determinação que começava no silêncio e nos actos, como quem, a partir do momento que repete o acto do nascimento de cada vez que acorda, o cavalo do tempo já lhe vai à frente e ele larga a correr atrás dele. O tempo de António foi de crise, de falsidade, de partidos que nenhum tinha mais razão do que o outro, de duelos, de vinganças, de desilusões, de tragédias, de loucuras e, depois, de assassínios, de violências, de guerras entre cristãos e muçulmanos, de perseguições de judeus e de ambições. Santo António deixou de limpar pratos na ordem franciscana, uma vez por acaso, quando lhe disseram para ser ele a dissertar esse dia sobre a Escritura. Tomou a tarefa, como quando se atirou voluntário para ir pregar para o Norte de África onde, certamente, não duraria vivo muito tempo e onde o aguardaria uma morte lenta, como aconteceu aos seus predecessores. E tomou a palavra, o saber, a sua busca de argumentar com a ciência do seu tempo, como um cajado para combater a ilusão que nos envenena. Sentiu-se mal, uma vez depois de comer o pouco que comiam os franciscanos da altura e caíu, com os irmãos em torno. Entrou a correr no outro lado sobre o qual sabemos pouco. E acredito que o milagre que lhe aconteceu, quando, uma vez encontrou um senhor que lhe deu aposentos para poder estudar, aquele do Menino Jesus lhe ter pousado sobre os livros e brincado com ele, talvez fosse produto da Imaginação, dele e de quem o viu. Sim, a Imaginação que nos resta dum Mundo melhor que não abandona os nossos corações mesmo quando a Realidade, até ao Fim, é terrível. Hoje, Santo António, lembra-te de todos nós, da Humanidade.

24.4.09

XVII (Re)leituras -- Diário da Alma, de João XXIII, por André Bandeira

Eis um livro que, como organização editorial, não é muito simpático. O diário que Angelo Roncalli manteve desde os seus catorze anos, não nos diz muito sobre o período da Segunda Guerra Mundial e, depois, tem um apêndice a especular sobre as origens aristocráticas deste bom Papa, que nasceu pobre, morreu pobre e foi sempre duma família pobre.
Mas o que é bom no livro, é que o que de espiritual lá está, salva tudo o resto. O Papa João XXIII, o do Concílio Vaticano II, teve muitos dias de sofrimento e de inspiração, teve muitos mesmo e pôde deixar-nos escrito o seu testemunho. Uma coisa que se aprende com o livro é que este Papa teve a enorme vitória de pecar muito pouco, graças a uma disciplina, graças ao Amor a essa imagem viva que chamava Jesus e Maria, contando talvez com uma família amorosa e solidária, que permaneceu pobre mas com Esperança.Penso que morreu em paz,tendo perservado essa herança de amor às pessoas, à sua família, à sua terra e a toda a Humanidade que considerava desde muito pequeno, como a coisa mais preciosa a perservar. Outro aspecto importante do livro é que nada desta sua proeza se conseguiu sem uma enorme força e dolorosas renúncias. Apesar de tudo, Deus parece ter-lhe dado a Graça de não ter sido muito tentado, de não ter caído em transes dum desalento infame ou de uma turbulência louca, como acontece até às vezes com alguns Santos. Foi um Papa suave, certamente muito dorido com trabalhos mas pouco assaltado pela dúvida. Do que nos ensina, resulta talvez mais clara a ideia de que quando temos a Graça de fazer o que devemos, a integridade do Bem é tão cósmica que esperar reconhecimento em vida, seria a mesma coisa que gravar um disco com os sons do Espaço ou tentar fazer montanhas russas movidas à velocidade da Luz, nas Feiras populares. Como aguentar esta desesperança de ser compreendido, não é fácil. João XXIII citava o Santo Cura de Ars, esse santo tão forte: quem diz mal de ti é teu amigo, quem diz bem, não é. Por fim recordo-me de uma coisa bonita deste Papa que foi diplomata de profissão, apesar de ter duas mudas de roupa: dizia que sofria muito na Grécia, onde as pessoas são tão belas e fascinantes mas adorava o povo turco, que nem era cristão e ficava às vezes a contemplar o Bósforo, onde os pescadores turcos juntavam os barcos de noite, com candeias, para pescarem atum em grande algazarra. Neste fogo nocturno, da Humanidade que se entreajuda, o solitário barrigudo, ficava a olhar sózinho, no intervalo dos trabalhos a que chamava repouso nocturno, com o seu sorriso de menino pobre italiano, que era demasiado tímido, ou gordo para participar na brincadeira, mas a quem os olhos se alumiavam com este milagre que é ter uma vez existido.

16.4.09

XVI - (Re)leituras: From Recession to Recovery: How soon and how strong? do FMI, por André Bandeira

Este capítulo terceiro do Relatório do FMI, sobre a crise, deixa a sua marca na crise que sentimos. E sentimo-la porque é uma crise. Se fosse uma catástrofe, tínhamos deixado de sentir. A conclusão não é boa e vem aí nos jornais: esta crise está para durar e a recuperação será lenta. É este, em suma o recado do FMI, pensemos o que quisermos de quem o dá.
Dois ou três pontos interessantes: a crise é pior do que a de 1929, na medida em que o sistema financeiro mundial está todo interligado. Tal quer dizer que as indústrias que não dependem muito do crédito mas sim da procura externa, ou arranjam clientes em Marte, ou não vão ser excepção. Estas indústrias são aquelas que produzem bens altamente vendáveis, fluídos,completos, destinados a satisfazer a nossa sêde, como computadores. Mas Marte parece que já tem água, continuando sem Internet. Segundo aspecto: a crise já estava aí, ao longo de 2008, e, em Portugal, na segunda metade. Terceiro: se, em 1929, se podia adivinhar o que ia acontecer, pelas restrições ao crédito antes da crise rebentar, o mal não está na restrição mas na febre avassaladora da corrida ao crédito. Quarto: a política de redução fiscal não tem grandes efeitos em aumentar o consumo privado, se o Estado está muito endividado, aparentemente porque a Sociedade, que concede crédito ao Estado, não se fia das benesses ou confianças desse grande gastador e começa a poupar ainda mais, se o Estado lhe deixa mais algum. Portanto, parece que o grande arrepio de frio de não gastar um tostão e de cortar nas despesas todas vai ser um sentimento geral, mesmo que o Estado, gastando mais e endividando-se graças ao seu bom nome, decida gastar mais, para estimular a Economia e manter os preços a um nível em que mereça a pena ser-se vendedor. Em suma: o excesso de financiamento, em vez de «febres produtivas»,destinava-se a juntar o mais rapidamente possível, um conjunto de liquidez, em vez de juntar as paredes duma casa, ou as peças duma máquina. Isto provocou um tal sentimento de culpa, que nem no Estado se confia. E eu acrescento: na nossa carteira já não está recheada só com poupança. Vamos procurar outras coisas para os dias de chuva. Não sei quais, mas esta procura, esgravatando no chão, mete-me medo pois o que passa a ser considerado valioso deixa de ser discutido em público. Em vez do segredo ser a alma do negócio, o negócio passará a ser a alma do segredo. O Estado tem uma grande carteira e os bens que decidir lá colocar não podem ser só bens de consumo. o Estado tem, agora, nos seus gastos, de ter um sentido visionário, tem de apontar para novos valores, para novos monumentos, à sombra dos quais morreremos e os filhos dos nossos filhos brincarão. Se o Estado não o fizer, a Sociedade terá de o fazer, mesmo contra o Estado. Os tempos vão ser de gastar forças para criar, ou não serão sequer tempos, mas apenas abismos.

13.4.09

XV - (Re)Leituras -- The UN Security Council and the Politics of International Authority, editado por Bruce Cronin e Ian Hurd, por André Bandeira

(Como é Primavera, ninguém acha bera). Mais um livro de vários autores, desta vez aqueles ligados a Tony Blair, aos socialistas de armas na mão. Começo por evocar Antero de Quental: era um homem impulsivo, generoso e suicidou-se, penso eu por uma mistura explosiva de Amor e Honra. O livro diz que o grau de autoridade do Conselho de Segurança das Nações Unidas expande e contrai-se segundo a legitimidade dos seus membros. Antero suicidou-se porque não podia cumprir o seu dever de alimentar a sobrinha, o que era a única coisa que lhe restava da mistura de amor ao direito à Liberdade e ao dever de solidariedade. Irão as Nações Unidas acabar, se não reformam o número dos membros do Conselho de Segurança? Eu penso que é legítimo pensar que as Nações Unidas, resultado duma vitória na Segunda Guerra Mundial, têm de alterar o seu esquema de Directório do Mundo. Mas, para isso, teriam que ter um poder regulador económico que não têm, não poderão ter e não é bom que tenham. Portanto, só restará à ONU ser um modelo moral.E o modelo moral é sempre de poucos.
Cabe neste modelo moral, o direito a intervir à força em países, como o Iraque de Saddam, para sustentar os Direitos Humanos, ou secar o mar da Somália para acabar com os piratas, ou invadir o Paquistão para acabar com os terroristas que se reclamam do Islão? Todas estas questões eram tão legítimas como aquelas que a Sociedade das Nações nem sequer conseguiu formular ante a Alemanha Nazi, a Rússia Soviética, a Itália invasora da Abissínia e o Japão invasor da China. Eu penso que não, por uma razão complexa que reza assim: se a minha verdade (Lei internacional) é apenas particular, porque a Parte nasce antes do Todo, há partes mais diferentes do que eu poderei algum dia imaginar. Então, para ser justo, eu preciso de ter consciência do Todo. Mas Tudo saber é igual a tudo perdoar. Como nunca saberei tudo, terei de actuar (intervir), mesmo correndo o risco de ser injusto (provocar guerras). Mas quem me disse que devo actuar? Para fazer pior (acabar com regimes ditatoriais mas sustentar guerras sem fim)?! O que eu devo é extrair-me da minha ilusão do Todo, reconhecer a minha profunda ignorância e não pretender conquistar a Verdade. Extraindo-me do Todo, eu deixarei a Verdade, pelo menos, pura das minhas distorsões, não me confundirei com o Todo, ao qual pertenço (não farei a Lei substituir o Costume internacional). Como ensina a moderna Ciência atómica, afinal a Parte é um corredor para o Todo e é melhor que eu me concentre sobre o meu próprio Todo. Se um dia me dominar a mim próprio, já terei cumprido o meu destino histórico.Tudo o que eu disser será sempre parcial e, muitas vezes injusto. Quando muito poderei existir (inclusive defender o meu país no Estrangeiro), para que o meu Todo coexista com os outros Todos, porque as Partes, afinal, são muitos Todos, não há um único Todo e, se é assim, então, «Tudo» (e não Todo) são ligações que se religam quando parece que iam morrer (a Comunidade Internacional vai para além das Nações Unidas). Assim reza o credo pacifista: como podes desarmar o Mundo se não te desarmas primeiro (ou seja: deixa de actuar como se fosses o Centro do Mundo)?!O único Direito Humano é o Direito à Vida e estou certo que há uma forma das vidas todas poderem coexistir, apesar de tal ideia, em qualquer momento, parecer ilógica.Mas se a Vida fosse lógica, já a teríamos pisado por distracção.
Com isto, volto a entrar na máquina do Tempo e vou aparecer ao lado de Antero de Quental, em Angra do Heroísmo, quando ele se sentar no banco de jardim que tem «Esperança» escrito por trás e segurar-lhe com força a mão onde ele empunhou o revólver, dizendo-lhe:«Antero, não te mates. Nós precisamos muito mais de ti que do teu Amor e da tua Honra».

9.4.09

XIV - (Re)leituras -- Democracy's Good Name, de Michael Mandelbaum, por André Bandeira

Ninguém discute o bom-nome da Democracia. Todos se reclamam democráticos, apesar do discurso de Péricles dizer que os monumentos à Democracia , ficarão para o Bem e para o Mal ( há alguns monumentos na Grécia, a maior parte deles, ruínas, que estão aquém do Bem e do Mal, como também vestígios de cataclismos vulcânicos se situam, hoje, em paisagens bucólicas). Em tempos dizia-se o mesmo da Cristandade, ou do Islão,e, mais tarde, dizia-se o mesmo do Socialismo.Todos eram cristãos, o Islão era Paz, todos eram socialistas. Há nisto algo de revoltantemente covarde, de Maria-vai-com-as outras, de camuflagem no caos da feira das vaidades. Confúcio -- e isto já se tornou uma chavão (pergunto-me se na hipnose colectiva em que nos encontramos haverá algo mais que chavões, não tendo aparecido ainda um Poeta que os desfaça) -- Confúcio dizia que tudo se reduzia a reatribuir os nomes correctos às coisas. Mas Wittgenstein, o tolo Positivista que nos tiraniza, dizia que não havia coisas, só factos, e os europeus continuam a ir sempre ao mesmo jogo de futebol, entre nominalistas e idealistas, rindo-se à socapa dos padres que acreditam na substanciação (Cristo é muito bonito mas o cristianismo é apenas uma notícia). Enfim, isto da Democracia, neste livro americano panfletário que escolhi, é sobretudo uma marca. Agora que houve uma oportunidade de negócio, há que vender a Democracia a toda a gente, dizendo, entre outras banhas da cobra, que é facto histórico provado que as democracias não se guerreiam umas às outras, e que as democracias só têm crescido desde que se aboliram os Reis e se implementou o princípio da auto-determinação nacional. Enfim, sempre houve profetas do fim da História, de quem, depois, os historiadores se encarregam de tomar nota quando eles passaram, mas o Tempo continuou a correr. Claro que, além deste profetas, ficam as pessoas sensatas que têm de organizar um Mundo cheio de diferenças e de desníveis, de mudanças de ritmo e de equívocos, além de terem em conta esse mundo do Corpo e da Mente, que é pouco democrático e que continua também a sua «História Natural».Alguns até lhes chamaam Santos, mas eles próprios não o sabem. Enfim, este livro, de 2007, diz duas coisas úteis: as democracias acabam quando acontecem grandes cataclismos económicos ( como a nossa crise estava aí há muito tempo, aplique-se o raciocínio à Democracia moderna). Por fim, o livro faz-nos pensar num facto,a noticiar urgentemente: a Democracia é uma questão de bom-nome. Aprendamos, portanto -- ao contrário de Confúcio -- a ver a Alma que está para além do Nome.

7.4.09

XIII (Re)leituras: The Assault on Reason, de Al Gore, por André Bandeira

Diz uma leitura do teorema de Goedel, esse grande matemático de origem vienense, que, de dois prémios ou nada, há sempre uma fórmula de tirar o melhor prémio, muitas vezes desprezando o prémio menos bom. Para este adágio dos liberais de que «A sorte protege os audazes», o livro de Al Gore, escrito para combater esse mandato de pesadelo que foi o de Bush/Cheney, parece uma grande ode ao «livra-te do medo», quando nós vivemos em medos contínuos, de perder o emprego, de perder o pouco de alento ou felicidade que ainda temos, ou de perder a própria Vida. Mas vemos que as palavras são belas em Al Gore, como se o facto de que ele «costumava ser o próximo Presidente dos Estados Unidos» não é algo que nos deixe a pensar. É muito lindo falar contra o medo, contra os medos que nos foram deliberadamente induzidos pela Administração Bush, por meios de milhões de Dólares em propaganda televisiva. É muito lindo reconhecer o analfabetismo a que chegaram os milhões de telespectadores do Mundo Ocidental, citando até o afro-americano Douglass que descobriu que as grilhetas da escravatura, no Séc. XIX, eram verdadeiramente as da incultura. Tudo isto é muito bonito de ouvir. Como se Al Gore não recortasse e colasse slogans de outras Administrações que também parecerão ultrapassadas quando a Administração de Obama chegar ao fim do seu ciclo. E digo «quando» porque nem os mais espertos marxistas se atrevem a dizer que Marx, agora, vai ter razão. Talvez tenha mais razão Lénine que disse, depois de o seu irmão ter sido executado ( e depois de ter pedido para que só o culpassem a ele e poupassem a vida aos cúmplices) que «nunca mais actuaremos assim». Na realidade, se o irmão de Lénine tivesse sido poupado, talvez lhe tivesse acontecido como Dostoiewsky e esse outro pesadelo chamado URSS não tivesse nunca acontecido. É muito fácil ladrar contra o medo, erguer o cálice à Liberdade e aconchegar-se numa Loggia como se a História fosse uma Ópera. Mas os medo e as limitações vêem-se todos os dias, ao cair da Noite. Por isso, este repositório de Al Gore, pelo Partido Democrático, contra Bush, não passa de um panfleto como foi o seu livro sobre a Ecologia. E ainda uma outra conclusão que serve para criticarmos a América, não apenas pelo grau de analfabetismo a que a sociedade de consumo do modelo americano a reduziu: talvez na Bíblia se dessem centenas de anos de idade aos patriarcas porque não havia demografia suficiente na época, onde pudessem caber tantas experiências de sabedoria. No mundo moderno, a multiplicação de cabeças, de braços e pernas, multiplica também não só as histórias, como a História, pelo que é ridículo tentar manter o discurso ao nível épico da República moderna, em que já ninguém se reconhece. O Tempo é de S. Francisco, os milagres geram-se todos os dias, sem testemunhas. Cada pessoa, tantas pessoas, tantas almas. Tudo isto para que quando tivermos de enfrentar a inevitável Morte (que se não talha ao nosso gosto) possamos dizer algo de diferente de «eu costumava ser o próximo Presidente de mim próprio».

3.4.09

G 20 e a Avestruz

O provincianismo português está a vir ao de cima no meio da governamentalização em curso. Enquanto a longa marcha dos G20 lá teve mais um passo em Londres, não consta que Durão Barroso tivesse uma única palavra sobre Portugal até porque no seu blog nem consta a nossa língua. Que bom é ter dois chapéus para esconder a falta de verticalidade da cabeça! Nem consta que Francisco Louçã estivesse entre os anarquistas da antiglobalização que partem montras; estará já a preparar-se para a aliança com as cisões do PS à esquerda, ou para ser ministro de coligação após 5 de Outubro de 2009? Entetanto, vemos os jornais preocupados com Lopes da Mota que, antes do Eurojust, foi secretário de Estado da justiça de Guterres e exerceu funções em Felgueiras; preocupados com um Licínio Batista, nome improvável de imperador romano e de uma confissão cristã mas cuja profissão é apitar jogos. Mas não se preocupam que na Assembleia, a ministra da Educação pretendesse passar a palavra a um ajudante, tratando os deputados como adjuntos da governamentalização em curso; preferem ficar ao portão da Procuradoria-Geral da República, para que a Drª Cândida Almeida diga coisas, entre corvos e papagaios. O provincianismo português está nisto: olha com admiração para a cimeira do G -20 e, qual avestruz impotente enterra a cabeça na areia, pensando que está escondido porque nada vê. Estamos nisto; uma sociedade global com economia e geofinança globais, mas sem uma república global de regulação da economia e das finanças. Mas Portugal, perdido entre lícinios, lourdes, cândidas e lopes nem sequer está interessado em bater-se pelo seu lugar.

30.3.09

XII -(Re)leituras: Lutero e os Concílios, por André Bandeira

Pus-me a ler dois livros ao mesmo tempo, para reparar em algo de que desconfiava: como os livros se repetem. Dois bons livros. Um, «Luther and Reformation» do Historiador de Oxford, V.H.H. Green, e outro, «Les Conciles Oecuméniques dans l'Histoire», de J-M.A. Salles-Dabadie, um Historiador católico da Suíça. Conclusão, (e podia já acabar aqui, pois eu leio para aprender): Lutero não quis um Concílio, antes quis que o Concílio o quisesse a ele. No que o levou à revolta, estava cheio de Razão. Já no que o fez perseverar, não sei. Era um Homem conservador, não era santo, detestava a violência e era corajoso. Os outros que o seguiram, eram ainda menos santos que ele, embora fossem muito religiosos. Mas com excepções, pois nem todos o seguiam de um modo seguidista, como Melanchton, Wycliff, Buce.E o patrão das costas deles, Filipe de Hesse, o príncepe, esse queria aquilo que o Islão tentou resolver com o casamento poligâmico: queria ter duas mulheres, uma para criar os filhos e outra para outros fins. Pois parece que o problema da Reforma protestante teve muito de sexual. Ao cabo de tanto falarem no tema, os monges não pensavam noutra coisa como se houvesse já naquele tempo um televisão mental, acesa 24 horas por dia dentro da cabeça deles (e nisso tiveram alguma culpa Humanistas como Erasmo). Não quero moralizar mas um certo gosto alemão pela comida e pela bebida fizeram de Lutero alguém muito torturado, a quem a disciplina de frade impediu, apesar de tudo, que se desse aos excessos dos outros, fossem eles picados pelo demónio do orgulho ou pelo dos Sentidos. Quanto aos Concílios, percebe-se perfeitamente que eles tiveram muitos Luteros, ao longo dos tempos, chamassem-se eles Ário, Nestório, Cirilo de Alexandria,Prisciliano, os Iconoclastas ou, mais tarde, João Huss. Quem não se salva dentro da Igreja, essa casquinha de noz num Tempestade Universal, salva-se como pode mas não é por estar fora que as diversas maneiras de se salvar, compõem uma maioria, a qual, pelo simples facto de o ser, não equivaleria à Verdade. No fundo, a Igreja Católica, ao contrário da Ortodoxa e da Igreja Luterana, conseguiu manter uma muito maior independência política e uma muito menor venalidade temporal e, isto, ao cabo de esforços e martírios sem fim que compõem um milagre contínuo. A Igreja Católica não é melhor que as outras, nem vende bulas para o céu, e faz decerto muita asneira. Mas tem Alguém que vela por ela. As outras pretendem velar por elas próprias. Sim, temos Papas e à vezes arrependemo-nos de os ter. Mas um Papa não passa duma trémula flor rebentando dum tronco rude e improvável. Quando o ouvirmos, pensemos mais na Primavera que numa loja de flores. E, com isto tudo digo, por fim, que o Islão trazia frades a cavalo, de espada na mão. O Islão tem muito menos de oriental do que tem de cristianismo arcaico. Não nos admiremos, por isso, da sua enorme tenacidade, pois se trata muito mais de um mal-entendido monstro do nosso Passado do que uma fórmula nova e estranha de acreditar.

8.3.09

Rescaldo de Espinho!

É gravíssimo! Em vez de se bater em Bruxelas pelo Tratado de Lisboa, que até tem a sua marca, e é uma forma de contrariar o directório das potências europeias, José Sócrates foi discursar à americana ao Congresso do PS em Espinho a 1 de Março; e faltou pela segunda vez a uma Cimeira Europeia . É assim que defende o Tratado de Lisboa?
É um filme político comum na nossa história. Por exemplo: Portugal venceu a Guerra Peninsular nos campos de batalha mas quando lhe pediram 15.000 homens para a campanha da Bélgica e de Waterloo, recusou-se e foi castigado no Congresso de Viena de 1815 pelas grandes potências.
Hoje os G20, onde Portugal não consta mas a Espanha sim, estão a impôr a hierarquia das potências. O que se esperava de Portugal é que se salientasse que a Europa se deveria apresentar a uma voz. Para isso tem softpower que chegue. Louçã cedeu ao caudilhismo ao dizer que «A política europeia é um vazio». Manuela Ferreira Leite deveria ter dito que "defender o interesse nacional" seria defender o Tratado de Lisboa. Perdemos oportunidade de marcar nas declarações e dar um empurrão à entalada presidencia checa. É muito mau! Erro gravíssimo, Da próxima, dirão que já nem precisam de nós lá.

1.12.08

XI - (Re) Leituras «La connaissance surnaturelle», de Simone Weil, (no Primeiro de Dezembro) por André Bandeira

Escolhi este livro num dia de Sofrimento. No primeiro de Dezembro, a um passo do Sol nascente, Portugal dói-me enormemente no peito. Somos Portugueses de um modo diferente, em que os outros são outras coisas. Vivemos numa encosta de areia, sempre a escorregar, mas o nosso quintal é o Mar do Universo, onde o Sol nunca se põe,e, portanto, onde é sempre Natal. Penso ser este a primeira razão do nosso Sofrimento e da nossa maldade: é difícil viver sem nunca encontrar uma pedra onde fixar os pés.
Simone Weil morreu jovem pouco depois de lhe terem recusado, pela última vez, ser lançada de páraquedas em França, para se juntar à Resistência. Nestes seus escritos, os últimos no Sanatório onde morreu, Simone passa por todo o saber da Humanidade que ela, como judia que era, guardara na memória, na lenda, no rito e na Razão, na teima, na obsessão, no misticismo, acho que tão antigo como o tempo das cavernas. Com Simone sabe-se seguramente que a Memória da Humanidade é mais sapiente que a mais brilhante das descobertas da Física quântica sobre a estrutura do nosso cérebro. Mas também é mais indomável, esta sapiência que aparece e desaparece naquilo que dizemos ser «sensibilidade feminina», ou «visões». Ao longo do livro, Simone reconcilia-se com todos os traumas culturais do Mundo, inclusive, para ela, os alemães. Reconcilia-se à mesa, no Presépio, com alegria, como numa ceia de Natal. O cristianismo dela é genuíno, não é converso, mas é exigente, como um Evangelho que nasceu no Antigo Testamento. Por isso se revolta contra Moisés, por isso se perde de febre na busca de Jesus. Se Jesus esteve ao lado dela, nos lençóis febris daquele sanatório, não sei. Uma das suas últimas linhas fala de alguém que a queria visitar, apenas porque ela estava tão doente e tão sem ninguém. A sua última frase fala sobre a importância de Conhecer e a sua última palavra é «Enfermeiras», talvez referindo-se ao conhecimento em eterna presença que é o de tratar de doentes e irmanar-se com eles.
Hoje, por Portugal, um Nada que é Tudo, um Reverso inverso em Espada: talvez Portugal não seja nem o território, nem um certo número de cabeças, umas que riem, outras que choram. Talvez Portugal seja um «Rei», corporizado ou não em alguém, coroado ou não, decidido ou hesitante. Sim, Portugal é uma cabeça, humana, que alguns, muito poucos seguem, como quem segura um cadáver moribundo de alguém muito amado. E, seguindo-o, com o coração coladinho ao coração vacilante, como quem guarda um flor, ou um passarinho ferido. Compaixão? Não. Paixão.

Mia Rose

Mia Rose, um valor que se afirma.. Filha de pai inglês e mãe portuguesa...!
Ainda precisa de colocar a voz .. Mas em comparação com os êxitos em inglês - cheios de tiques de adolescente - ao pegar neste clássico de Rui Veloso, mostra que é um talento fantástico...!

21.11.08

Crise nas Universidades Públicas

Crise nas Universidades Públicas
O ministro Mariano Gago, admitiu que existem maus gestores nas universidades públicas. E logo a seguir acrescentou que confia na autonomia universitária.

A autonomia assenta em três pilares – o financiamento, a avaliação e uma realidade mais difícil de definir a que podemos chamar o carácter humanista do ensino e da investigação. Quanto ao financiamento do ensino superior público a despesa aumentou muito com a contribuição de 11% para a Segurança Social. Várias Universidades entraram em rotura financeira, situação que umas enfrentaram com reforços orçamentais e outras utilizando os saldos de receitas próprias. Mas como entre 2005 e 2008, as dotações diminuíram, em percentagem do PIB, cerca de 16%”, a situação é insustentável a médio prazo. Por isso, os ex-reitores escreveram ao órgãos do poder a apelar por uma revisão da actual política de financiamento.


Mas os ex-reitores não falam que a universidade que aspira à produção, transmissão ou a aquisição de um saber autónomo em relação ao poder e ao dinheiro tem que ser governada pela investigação da verdade mais do que pela utilidade. Tal é o núcleo vivo de qualquer universidade. Se este ideal universitário é obsoleto, deite-se fora e façam-se escolas superiores. Qualquer das 10 melhores universidades americanas tem um orçamento supeiror a duas vezes todo o orçamento do ministerio português do ensino superior. Mas a força das universidades americanas, para além dos seus meios financeiros, é que souberam favorecer a dimensão antiutilitária, interdisciplinar e humanista do saber.

9.11.08

A finalidade do Estado é a liberdade


Amsterdão vai homenagear um dos seus filhos mais famosos: o judeu lusodescendente Bento de Espinosa (1632-1677), filho de agricultores de Beja que escreveu que “A finalidade do Estado é a liberdade”. A frase estará no pedestal da estátua a inaugurar a 24 de Novembro, dia do aniversário, no Zwanenburgwal onde ele viveu. Mas Espinoza ainda causa controvérsia O mayor de Amsterdão, Cohen, quer fazer o filósofo tão emblemático de Amsterdão como Erasmo é de Roterdão.
O monumento por Nicolas Dings é uma representação em granito de um icosaedro - um globo de vinte triângulos idênticos que simbolize a idéia do universo como um modelo cuja forma é dada pelo intelecto humano. A representação figurativa de Spinoza tem uma capa decorada com pardais, periquitos e rosas. Os periquitos são os animais de estimação exóticos nas árvores de Amsterdão visto que o pardal holandês está a desparecer. Os pássaros são símbolos de Amsterdão como uma cidade emigrante. As raizes Portuguesas-Judaicas do filósofo fazem dele um imigrante.
As suas idéias na tolerância religiosa e de liberdade de expressão são mais relevantes agora do que nunca quando o medo do fanatismo islâmico e o terrorismo aumentam a pressão. De acordo com Espinoza, Deus não tem num plano, está na natureza, e a Bíblia foi feita poelos povo. No seu Tractatus Theologico-Politicus (1670) escreveu: “Amsterdão progride por tudo o que a liberdade pode dar. Aqui, povos de todos os credos vivem em paz.

8.11.08

X -(Re)Leituras: A Roménia depois de 1989, de Catherine Durandin e Zoe Petre, por André Bandeira

Um livro de duas historiadoras, sendo Zoe uma antiga conselheira do ex-Presidente de Direita, que tem hoje um partido irrelevante, Emil Constantinescu. O livro defende uma tese que toda a gente receia: que a Roménia, de todos os países da antiga Europa de Leste,foi aquele onde os membros do Partido Comunista, com o seu cortejo local de corruptos e tiranos, melhor se adaptaram. E equacionam o caso do seguinte modo: Ceausescu era realmente independente de Moscovo (tese contestada pelos historiadores russos e pela Espionagem norte-americana), de tal modo que Gorbachov teve mesmo de o mandar abaixo. Neste sentido, uma massa de militares, de agentes secretos (Securitate)e de pessoas com emprego ( inclusive os mineiros) se passaram de campo e serviram as cabeças do casal Ceausescu e uma espécie de Democracia, numa bandeja, aos russos. Mas, entretanto, Gorbachov era apeado e Moscovo passava do comunismo ao capitalismo selvagem. O que ficou? Ficou a capacidade de sobreviver, ficou uma velha Roménia que, em 1941, perdeu 200.000 pessoas a combater por Hitler, contra Moscovo e, em 1944, perdeu outros 200.000 a combater pelos Aliados contra a Alemanha, tudo isto para continuar a existir. Perdoem ser ignorante mas sempre pensei que a Roménia era a sul da Bulgária, porque esta sempre foi, pelo idioma e pela Igreja, muito naturalmente afeita a Moscovo. Ora a Roménia sempre foi muito romena,na sua diversidade, com os seus costumes, a sua música, o seu idioma. Mesmo os fascistas romenos, a Guarda de Ferro, eram os únicos fascistas que, apesar de terem cometido as maiores barbaridades, sabiam morrer, sem se moverem, debaixo de bala, por fidelidade ao seu comando e ao seu ideal que não era apenas violento.
Passeando pelo centro de Bucareste, em campanha eleitoral, dou esmola a gente boa que muitas vezes vejo em Portugal nos trabalhos mais humildes e topo com menos cães vadios do que os milhares que andavam livremente antes do presidente Basescu, então na Câmara, os limpar. Lembro-me do Rei Miguel que conheci nos seus modos simples e na sua permanente postura de saber ser digno perante quem o vai trair, a qualquer momento e de qualquer lado, mesmo da família, talvez até vendendo cara a pele, e renovo o meu amor por esta terra. A Roménia ligada ao solo, triste e nevoenta, com sóis orientais que arranja formas por vezes tortuosas de sobreviver. Na realidade, a Roménia apenas parece triste, para quem deixou de ver que as terras e os países foram compostos de pessoas, sobretudo de pessoas e por pessoas, antes de tudo. E sinto, no peito, que esta terra, nos seus vales, nos seus vampiros, na sua ingenuidade, nos seus pavores, nos seus ciganos que amontam a metade da alma romena, nos seus Cárpatos,se trata apenas dum enorme tesouro, algures nas traseiras da minha casa, a qual, sem ela, parecia um precipício sobre o Mar.

27.10.08

Liza Veiga, uma estrela mal conhecida!

Liza Veiga canta MArcos Portugal, com A Orquestra de Camra de Cascais.
Em qualquer país do mundo, esta diva já estaria a actuar para multidões.

O album homónimo "Liza Veiga", vem da produtora Chiado Records produções ou NZ produções onde canta também os Beatles, Procol HArum, etc..

Se tivessemos uma politica cultural a sério seria apoiado
Parabens Liza ! Canta, até que a voz doa...:!

16.10.08

IX - (Re)leituras : Truman, de David McCullough, por André Bandeira

Esta é um biografia do Presidente norte-americano Truman, e que foi prémio Politzer em 1980. Porquê Truman? Porque os neoconservadores que fizeram do mandato de Bush Jr. um "erro ideológico" se reclamaram de Truman.
Qual é a principal qualidade de Truman, que era maçon, aceitou contribuições da Ku Klux Klan sem as assumir, decididu o lançamento de duas bombas atómicas mas proibiu a terceira e começou a sua carreira ligado à máfia irlandesa?
A principal qualidade de Truman, como o seu nome indica, foi o Trabalho. Sim, o seu nome diz "verdade" e a verdade na América da sua época, foi o Trabalho. Por isso, Truman era de Esquerda porque ninguém pode trabalhar como ele trabalhou e não deixar o coração, um pouco, nesse Moloch poderoso que é o Trabalho. Ora porque Moloch é um Titã, dos tempos arcaicos, só pode, como qualquer Titã, estar, à esquerda ou estar à direita, quer dizer, descentrado. Este Mmoloch está à esquerda, sendo irrelevante a posição de um gigante.
O mesmo se está a passar agora. O neto do movimento dos Direitos cívicos (quer dizer: anti-apartheid) que Truman institucionalizou vai provavelmente vencer as eleições norte-americanas, no mês que vem e é apenas a metade mais densa de uma mesma coisa, onde talvez a simples vantagem da juventude é decisiva.
Portanto, Obama é neto da bomba atómica e filho de J.F.Kennedy, o que significa que estamos ante uma linhagem de ferro, o ferro da espada.
Truman diz que a decisão que mais lhe custou a tomar foi a da Guerra da Coreia ( que inchou e queimou Mac Arthur) e não a da bomba atómica (que amaldiçoou o seu criador, Oppenheimer). Diz-se que a Coreia prolongou a fabulosa máquina industrial-militar( um Moloch) da América na Segunda Guerra Mundial, permitindo ao Democrata Truman cumprir o seu programa social de Esquerda. A bomba atómica foi apenas mais um golpe horrível e sabemos que os ataques convencionais, como o bombardeamento de Tóquio, deixaram tantos mortos quanto Hiroshima e Nagasaqui juntas, numa geurra horrível. A Coreia deu origem ao Vietname, e o Vietname, por sua vez, deu origem ao Terceiro-Mundismo de Chávez e Ahmenidejad.
Mas qual foi a qualidade de Truman, sem ser um Moloch? Truman resistiu a tudo e levou com tudo. O que fez durante oitenta e oito anos e oito meses foi ignorar a má-sorte. De facto, a sua asserção de que nunca teve má-sorte tem o eco duma bomba. Quer dizer: ele não teve sorte, nem boa, nem má.
Truman morreu depois de escorregar na banheira. Teve um acidente de trabalho.
E, por incrível que pareça, tendo sido um empresário falhado, duma linha de empresários falhados e passado para a política com uma "mão irlandesa", mesmo assim, fez rigorosamente o que é permitido fazer a um homem nesta era sêca como a lua: trabalhou continuamente. E, nessa indiferença à Fealadade do Mundo -- da qual foi também um personagem -- Truman tem todo o mérito.

11.10.08

Escutar Marcos Portugal

"Sugiro a primeira audição moderna da ária Beatissimae Virginis, dos Responsórios da Imaculada Conceição (a 4 vozes e orquestra) de Marcos Portugal, executados a partir dos manuscritos existentes na Área de Música da Biblioteca Nacional de Portugal. O maestro Ricardo Bernardes esteve em Lisboa, este Verão, a consultar e copiar estes manuscritos e a 27 de Agosto já estava em Washington a executar a obra. Um exemplo a seguir!"

Do Blog A Biblioteca do Jacinto

http://abibliotecadejacinto.blogspot.com/2008/09/amrica-antiga-2.html


9.10.08

VIII - (Re)leituras -- Bosquejo de Europa, de Salvador de Madariaga, por André Bandeira

Ora aqui está um livro com espírito, com sabedoria. Na parte que nos interessa, Madariaga, da família de Solana, entra no campo chutando para a canela do adversário: os portugueses são espanhóis. Dá-nos um lugar autónomo entre "Gregos e Turcos" e "Judeus e Ciganos".Contudo, quando se trata de falar de espanhóis, que coloca num clube dos 5, na Europa, já não se refere ao braço direito da "Hispânia", que seria o lírico Portugal, nem o braço esquerdo (a levantina Catalunha), só fica o corpo, Castela/Andaluzia ( diga-se que este corpo, com os cabelos no país Basco e o baixo-ventre na Andaluzia, não tem pernas para andar).
Madariga, que escrevia do México, em 1951, altura do bem sucedido desenvolvimentismo franquista, tem humor, elegância, imaginação europeia. É culto, informado e veraz. Certamente que, num salão europeu, arrancaria uns suspiros e fixaria uns olhares da carneiro-mal-morto de algumas europeias. Não sei se durariam o tempo da Melanie Grifith e do António Banderas, mas, nesse tempo, não se conhecia o divórcio.
Enfim, também nos vem com um esclarecimento, útil de reler, porque já nos esquecíamos: a América Latina não é Hispano-América por causa do Brasil, e não é Ibero-América por causa do Haiti.
No meio de tanto "mikado", lá vou retirando as varinhas e fico com a ideia de que os seres humanos se fixam em vários pontos da terra, outras vezes imigram e vão ficando mais ou menos isolados, mais ou menos miscigenados. Isto não que dizer que tudo é uma misturada. Quer dizer que nada é definitivamente de ninguém. No fundo, o que Salvador de Madariaga diz é que a Europa na sua diversidade, é ainda muito dominadora.
Salvador de Madariga é, claro, um percursor da União Europeia, mas a sua "Hispânia" altaneira e esperta, é tão neurótica quanto muitos europeus. Ora Portugal, ainda tem um Império para velar, porque Tristeza tem-na muita, vinda de não se sabe de onde, vinda de não sei quando, mas neurótico, Portugal não quer ser. Nem que, para isso, se meta a bóiar num deserto azul, martelado pelo Sol.

3.10.08

Uns e Outros


A recente decisão do General Ramalho Eanes de abdicar de receber os retroactivos a que tem direito (num valor total de cerca de um milhão e trezentos mil euros) e que os Tribunais entenderem serem-lhe devidos pelas suas pensões públicas é mais um exemplo que ele nos dá de que um povo é uma comunidade de iguais e de desiguais. O acto do General Eanes contrasta com os dos 3200 pobrezinhos que receberam casas no Lisboagate desde que o vereador Pedro Feist começou o bodo, desde o tempo do eng.º Abecasis e que atravessou qual Bloco de Cimento de Esquerda e Direita das Casinhas. O acto do General explica algum ostracismo que lhe vota boa parte da classe política e banqueira. E merecia um acto de Homenagem, uma manifestação pública de apreço. Eu começo por aqui. E se continuarmos com outras pessoas e noutros lugares, algo de bom poderá sair.

15.9.08

II- Apontamentos de Viagem, por André Bandeira

Uma Viagem a Portugal

1 -- Em Sesimbra, o cigano sem mão, tentou delicadamente vender-me uma t-shirt ( eu já tinha comprado uma, sem noção de que o côr-de-laranja vivo faz em mim uma espécie de efeito de recusa do envelhecimento). Ele, o ciganito, que no ano passado vendia tudo com um silêncio trágico, entre as mulheres, faz agora um esforço por vender mais.Sei que a compra e venda são também uma informação sagrada entre os intervenientes e ele pergunta-me/avisa-me de algo.

2 -- De novo contra a parede quente da fortaleza de Sesimbra, recupero forças, reponho os ossos, respiro fundo e distendo os nós do peito. Num encontro com esse Grande Homem que se chama Fernando Nobre, encontro uma via estranha que reza assim: juntar todos os medos, desesperos e angústias entre o diafragma e o coração. Depois é só empurrá-los, que eles caiem como uma garrafa mal equilibrada.E penso nisto passeando no jardim que Fernando Nobre acumulou no claustro interno da AMI, semeado pela mão dele, trazida dos quatro cantos do Mundo, esquecendo-me de dizer a este Homem alquebrado pelo fardo do Mundo, que aquele jardim se parece com o interior dele.

3 -- Tenho medo de visitar os meus amigos. Tenho medo de lhes mostrar o que ganho, no rosto, ante os apêrtos e angústias do mês que lhes turvam o deles.Tenho medo de não ter dinheiro para lhes emprestar, o dinheiro que eles não pedem, em carência surda. As moças vêem que vivo fora e enlevam-se de suspiros que são apenas o apelo básico a que o homem ajude a mulher, veículo de vida, a fugir da miséria. Parece que toda a juventude se prepara para partir.

4 - Conheço dois jovens realistas, o João e o Duarte. Um, corajoso e elegante, outro duro e atento. Na noite ouço-os falar e fico com Esperança. Poderá ser? Pprefiro imaginar, que, com estes, morreria em combate...

5 -- Falo com o Francisco, mendigo à beira da Basílica da Estrêla, com o seu ar humilde, limpo e amparado por Deus. Francisco foi durante muitos anos trabalhador hoteleiro, nomeadamente "garçon" na Tentadora, de Campo de Ourique. Tem 44 operações no corpo ( câncer nos intestinos) o que não o impediu de trabalhar, mas agora, uma obstrução em 70% da aorta, deixou-o a vegetar, com trinta anos de trabalho, a 200 Euros ao mês. Procura um quarto térreo, melhor para um doente cardíaco e telefono para um número, em Campo de Ourique, onde dizem que só aceitam estudantes. Ao cabo dumas palavras trocadas, o proprietário diz que não tem "racismos" e aceita falar com ele. Muito sofre este portalegrense, até quando diz com um certa vergonha que outro mendigo, africano, consegue ter o quarto pago enquanto ele, com o seu ar limpo e humilde, talvez seja demasiado verdade, para que as pessoas a possam suportar. Guardo o seu número, sempre sem crédito: 932422963.

6 -- Corro o país, sem medo dos assaltos. O meu carro é velho, o meu ar é irrelevante. Abro as mãos para o brilho dos Jerónimos, coíbo-me de fazer a saudação romana, ao Sol, ao mendigo Camões, pois - por milagre -- os meus olhos dão com um pobre mendigo negro estendido no chão, a quem sinto um impulso enorme de beijar a testa branca e enrugada.À porta de outra igreja encontro um mendigo jovem, português e pergunto-lhe se dormiu na rua. Ele diz-me docemente, sem me pedir nada: tenho problemas, prefiro não falar. Dou-lhe apenas uma leve palmada no ombro e ele aceita, sem mais, com gratidão.

7 -- Janto com a minha amiga Ana e temos a bênção de passear nas Azenhas do Mar. Somos remediados, com grandes fardos às costas. A Ana tem sempre tempo para os outros ( fôssemos Francisco e Clara!). Percebo bem o que o meu irmão me disse uma vez: ela veio cá um dia. Se ficasse mais um, apaixonava-me por ela. E, contudo, nunca seremos senão gratificados pelo amor não correspondido... porque Deus, o Misericordioso, assim quis. Amparar-nos-emos.

8 -- Vou a Fátima. Rezo por todos. Saio da Cova da Iria com a imagem negra e perplexa dessa Mulher grega que conheci. Penso que a irresolução da minha oração, é porque ela é apenas um egoísmo meu. Mesmo assim dá-me força pensar nela, pensar que Deus deu ao Mundo muita Beleza, até aquela que não é esbelta, só para que percebêssemos, que é entre as brechas do caminho pedregoso onde, de repente, se levanta o Templo luminoso de Jerusalém.

8.9.08

Uma Carta para o arraial do barrete frígio, por Manuel Alves

Uma Carta para o arraial do barrete frígio
por Manuel Alves

Sob o título "Aos Republicanos", o historiador João Medina publicou em tempos
no Jornal de Letras, uma Carta que julgo deve merecer a atenção de todos
os que, como eu, entendem que a Instituição Real é a que melhor pode
servir na Suprema Magistratura de um Estado verdadeiramente republicano e
português.

Pedindo perdão aos seus "compatriotas de barrete frígio", João Medina vem
dizer "com franqueza e sem quaisquer intuitos de desafio ou provocação, a
dois anos do centenário da data da implantação da I República", "em termos
simples, cordatos e benévolos": "... não creio que valha a pena preparar,
oficialmente, ou mesmo em meios académicos, a celebração dum mau defunto
que foi esse regime de década e meia de vigência atarantada, e que, bem
feitas as contas, teve nada menos do que 47 governos que a desgovernaram
por trancos e barrancos (...) de atribuladíssima e caótica duração, com
muitas bernardas castrenses de permeio, sedições várias, tumultos
constantes e quase sempre mais ou menos sangrentos, de atropelos à
legalidade e ditaduras disfarçadas ou às escancaras, sem falar da Ditadura
das Urnas, com o 'partido democrático' do dr. Afonso Costa (aquele homem
de Direito que foi uma vez ao Porto, em 1902, com uma soqueira, para
agredir à traição o Sampaio Bruno), mais uma participação em tudo funesta
e catastrófica nos conflitos europeu e africano, e, por fim, uma degola
que nos privou da Liberdade, com certa lógica fatal depois de tanta
bagunça, desassossego, insensatez política e falta de implementação mínima
dum regime sério de Cidadania, Educação generalizada ou Progresso
material, porquanto nem se educou o povo, nem se fez de cada português um
cidadão livre, nem se melhorou a vida dos portugueses".

A concluir, João Medina lança aos correligionários algumas perguntas: "Em
2010 vamos, em suma, celebrar o quê? O começo dum erro imenso e desastroso
para o país que somos? A nova versão da comédia offenbaquiana da monarquia
constitucional, agora em versão sanguinolenta? (...) Não seria melhor, em
vez de celebrarmos o 5 de Outubro, rezarmos-lhe um responso (laico) pela
pobre alma penada que ele foi? Antes isso do que comemorar uma República
sem republicanos, como a nossa é."

Fazemos nossas as palavras citadas do seu balanço da I República, mas
acrescentamos ao desalento das suas interrogações finais: se o que é
nefasto não se celebra, pode no entanto ser comemorado com a História
diante dos olhos, como aliás o historiador, o ensaísta, e Professor
Catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa, acaba de fazer nos trechos
que escolhi desta Carta. Como deixou escrito D. Jerónimo Osório, nas
vésperas do nefasto 1580, "A História é proveitosa para adquirir
prudência, poderosa para despertar virtudes, saudável para sanear as
feridas da República".

5.9.08

Sarah Pallin

(Com justificação a eventuais leitores pelo texto vir em inglês ; não é snobismo; é falta de tempo para retroverter os meus contributos para o WAIS)
Answering John Eipper’s call for European perspectives on SP, I viewed her speech.
From 00.00 SP until 9:58, amid roars of applause, SP elaborates family values and presents her dear ones in a very moving way. She has a “celebrity” touch and she is emotionally persuasive. This mix of public and private issues is not palatable in any European nation, both for good and bad motives. So much family awareness would be misconstrued as a bridge to nepotism and “special interests” or protecting a dysfunctional family. On the other way, the energy she gets from family life is obvious and attuned to what is current in peripheral US regions.
14: 15 Attack on Obama as unqualified. Obama is about words. McCain is about deeds. This rethoric is useful but it may develop a blowback. SP has good words “for the common good”, and “against special interests”. Yet, a VP has much less executive power than the Governor of Alaska and no use for “veto powers”. Or is she considering the possibility of being President, just in case?
22:35. After a reference to “dangerous Foreign Powers” she (or the neocon text writer) absolutely misrepresented the latest crisis. “Russia wanted to intimidate Europe”; “Europe is at the mercy of foreign supplies”. In fact Russia is much more dependent upon UE machinery than UE is on Russian natural gas and oil, with the exception of Germany. She had not a single word for South America, Asia, and Africa. She is obviously ignorant on foreign policy.
She is immensely energetic, in all possible senses of the word, from supporting “drill” to being unbalanced. The sound-bite “The difference between a Hockey Mum and a Pit Bull is lipstick”. It sounds good for local politics. If you are behind McCain, it is an awful sound-bite. You would entrust her your dog, a babycare system, town government and, of course, Alaska; nuclear weapons, never. That said, and considering the contempt for current politicians, I think she will gain votes for the RP. Wolf Blitzer said that, exceptionally, her speech had 42 million viewers. I agree with Michael Sullivan that SP “electrifies people”; for the time being, not in the electric chair.
I have not yet seen Mc Cain’s speech but one thing is obvious. He will get votes by being presented as a moderate “patriot”, not a “nationalist”, which is the European profile of Sarah Pallin. Good electoral tactics!

2.9.08

Fim de Férias!


Francoise Hardy Jacques Dutronc Le Music via Noolmusic.com

1.9.08

Balanço sobre Solzhenitsyn - com vista para os acontecimentos da Geórgia

morte de Alexander Solzhenitsyn produziu reacções muito previsíveis dos comentadores ocidentais. Basicamente jornalistas e opinion makers, disseram isto: “Foi um gigante moral ao expôr os males soviéticos no arquipélago Gulag; mas a sua estatura moral ficou depois comprometida por se transformar num nacionalista russo a desconfiar do Ocidente”. Nunca gostou do Ocidente, equiparando-o aos mercados livres ou à cultura Pop.”

A maior parte destes comentários revelam mais sobre os respectivos autores do que sobre Solzhenitsyn. É a geo-ideologia de que Ocidente e democracia são sinónimos. ‘Ocidental’ aparentemente já não significa a tradição das clássicas Atenas e Roma e as religiões judaica e cristã.

Há aqui grandes equívocos. A começar com os mercados livres. Uma das medidas da liberdade de um mercado são os impostos. A taxa única do IRS na Rússia é de 13% , metade dos 25% dos E.U.A, e 1/3 dos mais de 40% da Europa continental. Quanto a cultura Pop, a Rússia tem em abundância, infelizmente.

Quanto aos comentários que desacreditam como inadequada a visão de Solzhenitsyn de uma “sociedade mais espiritual” e os seus julgamentos duros e antiquados “de nacionalista” que se parece com a propaganda soviética, são comentários de arrogantes mas atrasados mentais.

 Reli o ensaio de Solzhenitsyn de 1995, The Russian Question at the End of the Twentieth Century. No livro Solzhenitsyn quase não se refere à religião que, sabemos, levava muito a sério. O que emerge é uma posição política extremamente simples e poderosa, idêntica à de Pat Buchanan, A Republic not an Empire, ou do libertário conservador Ron Paul, ou mesmo desse cowboy liberal William Ramsey Clark.

Solzhenitsyn ataca ferozmente trezentos anos de história russa. Só escapam a imperatriz Isabel, 1741-1762, e o Czar Alexandre III, 1881-1894. A coerência é evidente: opõr-se às aventuras imperiais a expensas da população russa. Antes de búlgaros, sérvios, Montenegrinos, seria melhor a Rússia pensar em Bielorussos e Ucranianos: a mão pesada do império privou-os de desenvolvimento cultural e espiritual; a tentativa da grande-Rússia prejudicou a Rússia. Aferrar-se ao império contribuiu para a extinção do povo.

Após o horror do comunismo, veio o caos relativo do post-Comunismo. O problema não é que a URSS quebrou – isso era inevitável. O problema real é que a dissolução ocorreu ao longo das fronterias leninistas. Em poucos dias, a Rússia perdeu 25 milhões de russos étnicos, 18% da nação, e o governo aceitou esta derrota.

O Leninismo criara as chamadas repúblicas Soviéticas, nacionalismos falsos que não correspondiam a realidades étnicas: Os Kazakhs são uma minoria numérica no Kazaquistão. A Ucrânia é uma colecção de antigas províncias russas (Kiev) e algumas ucranianas. Isto aconteceu quando a URSS foi dissolvida unilateralmente em Dezembro de 1991.

E esta é a chave da hostilidade ocidental para com Solzhenitsyn. O homem que ajudou o Ocidente a destruir o comunismo recusou dobrar o joelho às tentativas ocidentais de destruir a Rússia.

18.8.08

Saakashvili, criminoso de guerra e aventureiro tem ser julgado!

Boa parte do que se vê e ouve na comunicação social portuguesa sobre a Geórgia sofre da doença infantil do jornalismo: fontes viciadas; blogues políticos nem comento, porque não tenho tempo para ler.

As fontes que interessam ( ocidentais em Moscovo) permitem traçar em 18 de Agosto um quadro fiel embora incompleto do que foi o conflito da Geórgia.
Centenas de cidadãos ossetos mortos (as reivindicações russas de milhares são exageradas), Tskhinvali em ruínas, centenas de soldados Georgianos mortos, forças armadas Georgianas destruídas, milhares de deslocados, o mundo em agitação, por causa das ambições pessoais de um cleptocrata asiático, Saakashvili, disfarçado de democrata ocidental.
http://www.militaryphotos.net/forums/showthread.php?t=139150&page=69

Analistas militares dizem que a guerra esteve tremida durante dois dias.. A Ossetia sul é separada da Rússia pelas cadeias de montanhas mais altas da Europa, e a única estrada atravessa o túnel vulnerável de Roki. Não havia força do exército do russo em Ossetia sul. Nenhuns tanques. Foram precisas 24 horas para mover os tanques através do túnel, enquanto Tskhinvali era pulverizada pelo bombardeamento em tapete Georgiano e o exército Georgiano ocupava toda a região. A força aérea Georgiana tem alguns Su-25 aviões de ataque ao solo similares ao A-10 com quatro toneladas de bombas. Poderiam ter tapado a entrada ao túnel de Roki durante dois dias antes dos russos estabelecerem a superioridade aérea. Mas a estupidez, ou erro estratégico, ditou a vitória russa.

No primeiro dia do conflito, o exército Georgiano controlou quase todo a Ossetia sul, e defendia-se o sufiiente para abater quatro aviões russos. Mas os Georgianos nem tentaram obstruir o túnel de Roki. Se quisessem ganhar, concentrariam os esforços em capturar ou obstruir a entrada ao túnel, em vez de destruir Tsinkhvali. " A menos que os oficiais sejam recrutados em hospitais pisquiátricos, nunca poderiam pensar em manter o território que conquistaram. Não se sabe porque iniciaram a invasão, mas não queriam conquistar a Ossetia."
Diz-se que a Geórgia atacou a Rússia para captar simpatia ocidental e entrar para a OTAN. Saakashvili (a) pensou que os E.U.A. se apressariam a ajudar; e (b) pensou que pôderia vencer. Há uma opinião geral que o ataque foi muito estúpido. Os E.U.A. não têm força na região; levariam semanas a mobilizar e já estão presos no Iraque e no Afeganistão"

A outra teoria, que Saakashvili pensou na vitória é mais crível e mostra aventureirismo.

A explicação real é a fragilidade de Saakashvili. Quase foi corrido do poder no Outono de 2007. Aguenta-se com o apoio de algumas cliques neoconservadoras norte americanas, cada vesz mais isoladas. A sua reivindicação principal é que só ele é respeitado no Ocidente. A sua propaganda é, que se for corrido, o Ocidente não apoiará a Geórgia contra os russos. Tal como os generais argentinos com as Malvinas, fugiu para a frente, para uma aventura militar. Os Georgianos odeiam-no pelas suas provocações. " É um outro incidente de Khurcha [onde as forças Georgianas metralharamum autocarro cheio de eleitores na frente das câmaras de televisão no dia de eleição mas à escala internacional.
http://www.geotimes.ge/index.php?m=home&newsid=11796,
Agora que morreram centenas de soldados Georgianos e já não existe a maioria do equipamento e da infra-estrutura militares, a Geórgia depende mesmo do Ocidente! Mas a Rússia é o maior parceiro comercial; e onde vive 20% da população. Saakashvili tem de ser preso, julgado por um tribunal internacional e deixar que georgianos e russos façam a paz, consolidada em inúmeros interesses comuns.

9.8.08

Silly Season II

Já passou muito tempo desde que Mary Ann Evans " tinha de arranjar um nome de homem "George Eliot" para fazer passar os seus escritos fantásticos de mulher. Em estilo ligeiro, pungente mas igualmente maravilhoso é o que faz a jovem cantora francesa Rose. Tem estilo.

7.8.08

I - Apontamentos, por André Bandeira

1 - Leio "A Imitação de Cristo" e confesso ter medo de assumir aquilo tudo. Diz Tomás de Kempîs que "não te falta o bom conselho e a força", quando as coisas estão de feição. Mas mal "uma tribulação te bate à porta" já me sinto fraco...

2 - Na Missa tardia onde vou, há de tudo, claro, à entrada da Igreja acompanhando os passos de Jesus que cai e, muitas vezes, tenho de combater os pensamentos maliciosos ou atrevidos que me mordem como moscas. Reconheço que clips, videos, notícias, revistas e até livros fizeram em torno de nós, como que um "esqueleto nervoso" que se articula quando julgamos dominar-nos completamente. Não é nossa culpa mas não podemos ignorar. Tudo me é lícito, dizia S. Paulo. Mas nem tudo me convém...

3 -- À entrada da Missa tardia onde chego atrasado, segue uma mulher à frente e outra atrás. Dizem que a missa é lugar de mulheres. Eu sou responsável por uma e também por uma menina que o será, um dia. Num relance, tento perceber: a mulher da frente é uma belga que deve ter sido bonita, em tempos, guardou um toque "hippie" na sua clareza. A de trás é escura, emigrante. Refulge o seu olhar de marfim na sombra de ébano, com o brilho de medo rasando em volta. Lembro-me então: na missa se acolhe uma grande fragilidade humana, como nas horas de visita de um hospital e estas duas mulheres lembram-me que é grande fragilidade, desde tempos imemoriais, transportar dentro delas, esta casquinha de noz no oceano do universo, a que chamamos vida.

4 -- Relembro as mulheres orgulhosas, violentas, das ruas da minha civilização, mas não quero criticar, pois o mundo já está tão cheio de lágrimas. Lembro-me das pobres mulheres de Mogadischiu que estavam a varrer a rua, quando uma bomba as atingiu. Não faço raciocínios fáceis sobre quem pôs lá a bomba, nem tão-pouco, teorias da conspiração. Não há de certeza nenhuma crença que justifique a violência sobre esta coisa tão frágil que é a vida, sobretudo a vida destas pobres mulheres miseráveis que varriam a rua para ganhar uns tostões que uma Organizaçao internacional lhes oferecera.

5 -- Ouço o meu coração a bater, à noite, na solidão, como se tivesse um animalzinho aninhado ao peito. Parece que ele já não corre muito bem, como dantes usava correr. Lembro-me de um chavão: de tanto bater, um dia parou. Um coração a bater num ponto qualquer do Universo, que coisa tão frágil! Está certo que olhe para o chão, mesmo quando vou com pressa, para não pisar um insecto, fugindo em ziguezague à minha frente.

31.7.08

1º Master de Verão em Política


Foi concluído com êxito o 1º Master de Verão em Política do Instituto da Democracia Portuguesa.
Alguns resultados podem ver-se aqui.

O proximo MAster deverá ter como exórdio a personalidade de Salgueiro Maia como me lembraram hoje:



"Aquele que na hora da vitória
Respeitou o vencido
Aquele que deu tudo e não pediu a paga
Aquele que na hora da ganância
Perdeu o apetite
Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com a sua ignorância ou o vício
Aquele que foi "fiel à palavra dada e ideia tida"
Com antes dele mas também por ele
Pessoa disse"

Sofia Mello Breyner

23.7.08

Capitão Ahab




A disciplina de Relações Internacionais ameaça tornar-se a preferida do Conselheiro Acácio.
A enorme massa de platitudes que infesta as revistas de geopolítica, relações internacionais e ciência politica, algumas transexuadas de jornalismo, é de fazer vómitos. Os ditos especialistas que se colocam em biquinhos dos pés para nos recitar como vai o mundo desde Vestefália e qual vai ser o próximo espirro de Condoleeza Rice ou o traque do novo senhor do Kremlin, são de enjoar; a suficiência bronca com que nos debitam cenários que nunca acontecem fora da cabeça deles, e de mais alguns centos de fotocópias da Universidade de Georgetown, é assustadora.
Para variar radicalmente gostaria de trazer o que ainda não vi nenhum embora decerto que uma pesquisa google o faça aparecer de tal modo é óbvio; ter modelos literários para analisar as relações internacionais.
O que me fez pensar nisso é o paralelo entre Moby Dick e o Terrorrismo, entre o capitão Ahhab e George (vai-se embora) W. Bush.
São bem conhecidas as análises de como o romance Moby Dick significa a externalização do mal; converte-se o mal no absolutamente outro para que o eu seja o bem. E nesse processo o capitão Ahab ( um nome elementar, básico, bushiano) perde a alma, os seus marinherios perdem a vida e tudo termina numa enorme tragédia como os acontecimentos contemporâneos do baleeiro Essex que inspirou o grande escritor americano.
Esta simplicidade de que só os grandes escritores são capazes para sondar a alma humana é decisiva para analisar George W. Bush. È muito mais verosímil do que os supostos actores, agentes, entrosamentos, redes, factores do potencial, cenários, e muitos outros pluses e minuses do jargão das RI. Perceber que por detraá das grandes causas que arrastam o mundo também ( ou sobretudo, isso é para debate) existem as pequenas causas da personalidade humana que nasce e morre sozinha. Mas pelo meio vive em comunidade e é a esta que deve prestar contas. Moral: Ler Moby Dick é ler o maior fantasma jamais concebido pela alma americana que renasceu com George Bush, é ler como melville profeticamente sabiaA uma certa América que caminha para o fim do império como sucedeu a outros impérios criados “como quem os desdenha”, ou seja, by default.

17.7.08

Pontos e vírgulas



O grande polemista Karl Kraus escrevia muito sobre a correcção do alemão por volta de 1901. E um dia disseram-lhe. "Então o senhor escreve sobre onde colocar pontos e vírgulas enquanto Pequim está a arder. ?" Decerto adivinham a resposta: " Se colocassem os pontos e vírgulas no sítio certo, Pequim não estaria a arder." Posto isto entregaram a Casa dos Bicos à Fundação Saramago

15.7.08

Margarida vai à fonte...!



A 15 de Julho de 2007, António Costa era eleito presidente da Cãmara nas eleições intercalares na Câmara Municipal de Lisboa.
Um ano depois, Margarida Vila-Nova, Mandatária para a Juventude de António Costa, numa sessão organizada pelo PS Lisboa veio afirmar corajosamente que "NO PASA NADA". E que eco teve nos OCS ? Que eco não lhe deram ? Afinal a direita dos interesses aliada à esquerda das palavras de ordem trata bem dos seus arranjinhos. Nem a explosividade sensual- política de Vila-Nova arrebenta com isso.
Eu que modestamente andei fazendo campanha pelo PT e que aprendi o que tinha a aprender de campanhas, saúdo este gesto de Margarida e por mim dou-lhe eco.

14.7.08

Barrilaro Ruas morreu a 14 de Julho de 2003



Tinha de ser. Tinha de morrer a 14 de Julho, o velho bardo da monarquia portuguesa com a memória exacta dos acontecimentos porque lhes conhecia o peso específico. No campo político, pela sua acção e livros contribuiu para o descomprometimento dos monárquicos com o salazarismo. Autor de obras sobre temas históricos, eclesiásticos, literários, pedagógicos, e de ensaio político, a que se junta uma vasta bibliografia dispersa por revistas, dicionários e enciclopédias, o essencial da obra de HBR foi o de chamar a atenção para os fundamentos das questões de identidade nacional como ressalta na sua monumental edição de Os Lusíadas que contém materiais indispensáveis para reconfigurar a interpretação da obra, como sejam o “discurso a D. Sebastião” que atravessa a epopeia, a «imagem pessoal» de Camões, ou os silêncios sobre a história de Portugal.
Muyito mais ele fez mas, por isso mesmo, apenas aqui deixo esta evocação
"Em todas as culturas ( ou civilizações) e apesar do espírito crítico e das revoluções da mentalidade, sempre a Monarquia guardou algum vestígio ao menos do revestimento (ou substância) do sagrado que deriva em linha recta da sua originária experiência religiosa"
H. Barrilaro Ruas - Do artigo Monarquia na Enciclopédia POLIS

13.7.08

Homenagem ao Bispo do Porto


Associo-me e pedi que me representassem nesta cerimónia! E há uns anos atrás escrevi, juntamente com o António Amaral sobre António Ferreira Gomes e a sua Carta.

HOMENAGEM DE COIMBRA AO BISPO DO PORTO D. ANTÓNIO FERREIRA GOMES NO 50º ANIVERSÁRIO DA CARTA A SALAZAR
Em 13 de Julho de 2008, próximo domingo, ocorre o 50º Aniversário da Carta a Salazar, escrita pelo Bispo do Porto D. António Ferreira Gomes.

Cidadãos de Coimbra, conscientes da importância política que teve na luta pela Democracia essa Carta, assinada um mês e cinco dias após as eleições presidenciais ganhas pelo General Humberto Delgado, surgida do interior de um dos pilares do Estado Novo, a Igreja Católica, a qual levou ao exílio do País o seu autor, entendem prestar Homenagem a quem teve tão profundo acto de coragem, que o Estado Democrático reconheceu ao atribuir-lhe a Grã Cruz da Ordem da Liberdade.

Convidam-se todos os que se queiram associar a esta Homenagem Cívica, a divulgá-la e a nela participar, sendo portadores das respectivas condecorações.

Dia – 13 de Julho, próximo domingo
Local – Monumento ao 25 de Abril, Rua Antero de Quental, praceta junto ao edifício da ex – PIDE/DGS

Início – 11h00
Intervenções –
11h15 – José Dias – colaborador da Fundação Inatel, Movimento Cívico Não Apaguem a Memória
11h30 – Amadeu Carvalho Homem – professor da Universidade de Coimbra, Alternativa Associação Cultural para o Desenvolvimento do Ser Humano
11h45 – José Manuel Pureza – professor da Universidade de Coimbra, Comunidade de Acolhimento João XXIII
Encerramento – 12h00


Nota – Carta a Salazar e biografia de D. António em www.fspes.pt
Coimbra, 08 Julho 07
Amadeu Carvalho Homem, José Dias, José Manuel Pureza

6.7.08

Novilíngua


O futuro ou já o presente?
Eu axo q os alunos n devem d xumbar qd n vam á escola. Pq o aluno tb tem direitos e se n vai á escola latrá os seus motivos pq isto tb é perciso ver q á razões qd um aluno não vai á escola. primeiros a peçoa n se sente motivada pq axa q a escola e a iducação estam uma beca sobre alurizadas.
Valáver, o q é q intereça a um bacano se o quelima de trásosmontes é munto montanhoso? ou se a ecuação é exdruxula ou alcalina? ou cuantas estrofes tem um cuadrado? ou se um angulo é paleolitico ou espongiforme? Hã?
E ópois os setores ainda xutam preguntas parvas tipo cuantos cantos tem 'os lesiades', q é um livro xato e q n foi escrevido c/ palavras normais mas q no aspequeto é como outro qq e só pode ter 4 cantos comós outros, daaaah.
Ás veses o pipol ainda tenta tar cos abanos em on, mas os bitaites dos profes até dam gomitos e a malta re-sentesse, outro dia um arrotou q os jovens n tem abitos de leitura e q a malta n sabemos ler nem escrever e a sorte do gimbras foi q ele h-xoce bué da rapido e só o 'garra de lin-chao' é q conceguiu assertar lhe com um sapato. Atão agora aviamos de ler tudo qt é livro desde o Camóes até á idade média e por aí fora, qués ver???
O pipol tem é q aprender cenas q intressam como na minha escola q á um curço de otelaria e a malta aprendemos a faser lã pereias e ovos mois e merdas de xicolate q são assim tipo as pecialidades da rejião e ópois pudemos ganhar um gravetame do camandro. Ah poizé. tarei a inzajerar?


Verdadeira ou falsa, esta composição de um aluno do CEF-9ºANO reflecte uma parte do ensino secundário na novilíngua que corresponde ao "fechamento da mente portuguesa". Eric Blair (aka George Orwell) analisou o fenómeno no "1984" em 1952. Anthony Burgess escreveu o mesmo em 1962 no Orange Clockwork que deu origem a um dos grandes fimes da história do cinema e de Stanley Kubrick. Allan Bloom em 1992 analisou o fechamento da mente americana. A crise há muito que anda por aí. Agora, até estamos no momento de catársis , de reconhecimento maciço do que se passa. A nossa época já não acredita em ideologias porque a ciência desmistificou os respectivos fundamentos unilaterais; mas - há sempre uma mas - continua a viver e pensar segundo categorias ideológicas sem um pensamento matricial capaz de acolher contributos dispersos por metodologias diversas.

3.7.08

Então, para que serve a Lusofonia ?


A nossa COMUNICAÇÃO SOCIAL ESTÁ DOENTE, com excepções. O grave não é só o dinossaurismo de Miguel Urbano Rodrigues e demais avantistas, bem referido por Jorge Ferreira. O grave é que estando em jogo a vida de um luso descendente pouco ou nada se preocupou durante cinco anos com os movimentos e petições que corriam, pela Lusoesfera nos Estados Unidos e na Venezuela e em Portugal.

Entre as noticias da libertação de Ingrid Betancourt veio agora o destaque do jovem luso-americano Marc Gonsalves, filho de Josephine Rosano e do luso-descendente George Gonsalves, descendente de emigrantes madeirenses por parte do avô e de açorianos por parte da avó. Estava refém desde 13 de Fevereiro de 2003 quando foi capturado pelas FARC- Colombia após ser abatido o avião no qual se deslocava numa missão de controlo do narcotráfico na província de Caquetá, na selva da Colômbia, durante uma operação de vigilância ao cultivo de coca - não sabemos se daquela que costuma desembarcar no aeródromo de Tires...

Mas houve quem se tivesse mexido antes e não foi noticiado. João R. Crisóstomo, reconhecido pela defesa dos portugueses radicados nos EUA, bem como dos Direitos Humanos – e que em 2004 liderou uma grande homenagem internacional a Aristides de Sousa Mendes –, lançou a ideia entre os clubes e organizações luso-americanas nos Estados Unidos de uma petição a 3 de Abril que foi entregue.  João Paulo Veracruz, presidente do Centro Social Madeirense de Valência, João Sidónio Rodrigues, presidente do Centro Marítimo de Venezuela, Fernando Silva, presidente da Casa Portuguesa da Arágua e o presidente do Centro Português de Caracas Juan Gonçalves, apelaram ao "Governo português a avançar com gestões para ajudar a este luso-descendente que está sequestrado e reforçar o apoio a qualquer português, do mundo inteiro" que eventualmente seja sequestrado. Tal como não se falou dos negócios de Américo Amorim na ida do primeiro ministro a Caracas, também não se falou destes pedidos a José Sócrates.

Agora o drama chega ao fim e Gonsalves volta a Casa.Devido a outros meios.  Fico contente.  MAs a Lusoesfera mexeu-se e em Portugal quase não se falou dela. É de esperar que fique a lição que não haverá mais silenciamentos quando houver capturas de outros portugueses ou luso descendentes por esse mundo fora. Mas então, para que serve a Lusofonia ?

2.7.08

Espaços Verdes




O jardim do Palácio Galveias em obras vai ser de novo visualmente tapado. Em vez de deixarem Sá Fernandes, o Vereador dos Espaços Verdes manter o jardim com um gradeado protector para o público o poder desfrutar visualmente, os serviços de Cultura de que depende a Biblioteca Municipal no Palácio Galveias impuseram que se refizesse o muro anteriormente existente, cortando aos olhos do público este espaço lisboeta. E assim se corre o risco de perder o que aos cidadãos pertence ...

30.6.08

c. O Monge-Guerreiro de Kamakura, por Eric Voegelin

A resposta ao post anterior mostra alguma incompreensão do que é luta. Remeto para duas fontes obrigatórias: Fernando pessoa e o seu peoma guerreiro -monge e a peça de igula título que sairá no nosso vol vol 03. cap. 4. c. de Voegelin que começa a entrar no prelo

vol 03. cap. 4. c. O Monge-Guerreiro de Kamakura

As ordens militares na sociedade ocidental tiveram de ceder o lugar à cidade e ao estado nacional. Contudo, o desaparecimento precoce não deve obscurecer a importância intrínseca do fenómeno. Em circunstâncias mais favoráveis, como por exemplo no Japão, na mistura do monge e dos ideais do guerreiro determinou durante séculos o carácter político da civilização. Por coincidência histórica, a introdução do budismo Zen no Japão, patrocinado pelo shogunato de Kamakura está em paralelo com a ascensão das ordens militares no Ocidente.

A fusão peculiar do misticismo e do esteticismo Zen com as virtudes guerreiras de lealdade, resistência e obediência deram forma à vida da classe governante guerreira de Kamakura porque a dinâmica da política japonesa naquele tempo seguiu um percurso oposto à do Ocidente cristão.[1] As ordens ocidentais sucumbiram porque as novas e fortes unidades políticas, emergiram a partir do campo feudal do poder. O ideal japonês do Monge-guerreiro venceu porque a vitória do clã de Minamoto e o estabelecimento do governo militar em Kamakura encerrou o período do governo imperial central moribundo, copiado das instituições chinesas, e iniciou a idade feudal japonesa (1192). As ordens militares do Ocidente, além disso, não podiam evoluir para uma elite governante porque o celibato monástico cortava a base vital que é a exigência inevitável para a continuação de um grupo secular governante; a atitude espiritual militar japonesa poderia crescer como uma força política estável porque a base vital era uma sociedade vitoriosa de um clã guerreiro.

 



[1] Sobre Zen veja Daisetz Teitaro Suzuki, Essays in Zen Buddhism, 1ª série (Londres: Luzac, 1927); 2ª série (Londres: Luzac, 1933); 3ª série  (Londres: Luzac, 1934). Reimpressão: Londres: Rider, 1970; e Teipei: Ch'eng Wen, 1971.

 

29.6.08

Peter Schlemihl....

Houve uma boa resposta ao post da Maria Luísa Guerra 
" P - Qual o futuro dos licenciados em filosofia, e de todos os licenciados em "humanísticas"? R - Call Centers."  
A pergunta seguinte é: Qual o futuro dos Call Centers? 
A questão é muito mais ampla do que emprego de uma classe; é de escolha de paradigmas de sociedade.  
Quando os vendedores de automóveis dizem " A minha filosofia de vendas é..." prestam homenagem ao conceito embora não percebam nada do conteúdo. Desvalorizar a filosofia, nos curriculos universitários, nos curriculos liceais, na aprendizagem ao longo da vida é esquecer que ela é a sombra da vida e que todos os nossos argumentos estão permeados de conceitos, valores, pressupostos.
Há quem queira viver sem a sombra, como o Peter Schlemihl. Por exemplo no debate do petróleo e dependência de combustíveis. Pode debater-se o preço do crude nos poços, o hedging nas refinarias, a distribuição, o ISPP, o IVA e a GALP, as sete irmãs e a Branca de Neve, se necessário também. Mas de nada adianta se não se colocar a condição prévia: por que razão escolhemos uma sociedade que depende de um produto cujo acesso não controla ?  
Curiosamente: lutar pela filosofia, tornou-se hoje lutar pelo bom senso.

28.6.08

Maria Luísa Guerra - O assassinato da Filosofia


Vai realizar-se no próximo mês de Julho, em Seul, na Coreia, o Congresso Mundial de Filosofia, organizado pelo FISF, organismo que concentra as sociedades dos professores de Filosofia do ensino secundário e do ensino universitário de todo o mundo. Tem a marca da globalização. É um encontro de tradições pedagógicas, de reflexão sobre a natureza e o papel da Filosofia na sociedade. Mostra o interesse dos vários países pelo problema. Mostra o que é evidente: o carácter vivo e actuante da Filosofia. O seu lugar insofismável na formação da mentalidade. Assim acontece no mundo.


E em Portugal? Em Portugal assiste-se ao inédito. Pela primeira vez em mais de um século (desde a reforma de Jaime Moniz, em 1895) destruiu-se decisivamente a Filosofia no ensino secundário. Podemos recuar mais atrás, a 1844, e mesmo aos Estudos Menores, criados pelo marquês de Pombal em 1799. Estudos onde figurava a disciplina de Filosofia Racional. Servia de acesso aos Estudos Maiores. Neste quadro de interesse global já referido, lembra-se também que a UNESCO instituiu o dia 15 de Novembro como Dia Mundial da Filosofia, congregando 36 nações. E em Portugal? Em Portugal desvaloriza-se o exercício do pensamento, o rigor da análise, a descoberta de paradigmas e de valores, a discussão de problemas, a formação do espírito crítico, a reflexão sobre a aventura humana, parâmetros específicos da Filosofia e do seu ensino.

Sabe-se que a finalidade do estudo em qualquer disciplina não é o exame. Mas também se sabe que, na prática, se não houver exame, os alunos não se interessam. Não estudam convenientemente. Residual e em vias de extinção a Filosofia no 12.° ano. Obrigatória no 10.° e 11.° anos mas não sujeita a exame nacional. "Para que serve?" pensam os alunos.

É uma disciplina decorativa. Sem importância. Morta à nascença. Ainda se rege Filosofia na universidade nalguns cursos, cada vez mais despovoados. Com este vazio no ensino secundário, acabará de vez.

O sucesso escolar não é gratuito. Depende de currículos apropriados, mas depende sobretudo de cabeças bem-feitas, treinadas numa apurada e progressiva ginástica mental, no exercício da abstracção, da comparação, do dissecar analítico. Esse exercício cabe especificamente à Filosofia.

No limite, pela depuração que exige e supõe, aproxima-se da Matemática. Não é por acaso que grandes filósofos de referência (de Pitágoras a Descartes, de Leibniz a Russell) foram matemáticos. Tirar aos jovens esta ginástica mental é criar o caos. Multiplica-se no mundo a presença e o interesse pela Filosofia. Em iniciativas globais. De Paris a... Seul. Em Portugal, desvaloriza-se até a morte. Original. 
[Público de 28/06/2008, sem link aberto ao público]

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