10.2.11
LXX - (Re)leituras -- Tiradentes, de Oilian José, por André Bandeira
Eis aqui um livro de uma grande autor, mineiro, sobre um grande Homem, universal. O autor completou ontem 90 anos de idade, sendo o Decano da Academia mineira de Letras, na sede da qual foi devidamente homenageado. Pois hoje homenageio-o eu, como leitor desta obra sintética e completa sobre o mártir da independência brasileira e talvez um dos primeiros portugueses de um Portugal universal. Pena é que, para ler o livro com calma, ele me tivesse sido emprestado pelo próprio autor, pois já não se encontra, nem em Alfarrabista. O livro foca sobre a biografia e o itinerário de Joaquim José da Silva Xavier, cognominado o «Tiradentes» e -- para os portugueses que não conhecem a multifacetada História do Brasil -- ele foi o único executado da primeira grande revolta secessionista contra Lisboa, em 1789, a Inconfidência mineira, com centro em Ouro Preto. O que torna o livro do Professor Oilian José diferente dos outros, sobre o mesmo tema, é aquilo que o Tiradentes tinha de pessoa do seu Tempo: a criatividade e o idealismo. Dos seus ideais, na forma como se comportou durante o julgamento e interrogatórios preliminares, Tiradentes não reage como um herói de romance. Ele reage como um mártir cristão, cumprindo o que jurara, não denunciando absolutamente ninguém e assumindo a culpa sobre si, ao ponto de ir cumprimentar os outros réus quando todos, excepto ele, na manhã seguinte a serem condenados à morte, foram absolvidos. Tiradentes não era provavelmente o líder da revolta (se esta questão estava já definida pelos inconfidentes), onde nomes como Tomás António Gonzaga, ou Cláudio Manuel da Costa, pelo lado civil, e Freire de Andrade, pelo lado militar, se encontravam muito acima dele em prestígio e experiência. Há um ideal de cristianismo redentor na conduta do Tiradentes, bem expressa no símbolo triangular da Inconfidência Mineira, que representa a Santíssima Trindade, sobre fundo branco, a cor dos que reinvindicavam a Legitimidade, em sua época. Uma outra coisa interessante é averiguar, em História das Ideias, que ideia de Res Publica aquela gente procurava, uma ideia que, por exemplo, na Europa do Séc. XIX, era comum a Presidentes como Abraham Lincoln, ou Soberanos como a Rainha Vitória. E, nesse aspecto, estou em crer, que um homem multifacetado como foi Joaquim José da Silva Xavier, o qual idealizou o moderno sistema de distribuição de água do Rio de Janeiro, tem algo mais interessante a dizer que essa alma nobre e antiga, a de Tomás António Gonzaga.
8.2.11
LXIX - (Re)leituras - The Oxford History of American People, de Samuel Morison, por André Bandeira
Este livro é interessante porque o Historiador fala da população e diz logo o que sente. Por exemplo, amaldiçoa 1000 vezes Wilkes Booth, o actor confederado que assassinou Abraham Lincoln. Ora, estamos habituados a ver os Estados Unidos como um país branco e europeu, consumado, em que as utopias (e também as manias) europeias do Passado, se consumaram, como na eleição de um Presidente negro. Os EUA são desde o princípio, um país marítimo. A grande definição dos EUA faz-se com a Guerra da Secessão, onde os soldados cinza e azul-marinho morrem por igual,como cães, à mercê dos devaneios e vaidades dos generais. E os irlandeses anti-britânicos, por não quererem ser mobilizados, enforcam na Nova York nortista, numa tarde, 300 negros caçados pelas ruas.Por seu turno, negros e brancos massacram alegremente índios que, na sua maior parte, se batem corajosamente ao lado dos confederados. Qual era a solução nortista para os negros? Não os manter na escravidão, para não roubarem os trabalhos aos imigrantes pobres. E, depois, exportá-los para uma região de África, do Texas ou do Caribe, todos misturados, sendo que esta era a primeira solução de Lincoln, a mais nobre na altura. Mas alguns dos seus gigantes recusaram-se a ser deportados mais um vez. Alguns radicais anti-esclavagismo, entre os quais Thaddeus Stevens, defenderam realmente a igualdade. Stevens vivia com um negro e sabotou a moderação necessária na Reconstrução do Sul, impondo o sistema nortista, aristocrático, a um Sul que, muito mais que o Norte, tornara os brancos iguais entre si, viessem de onde viessem ( o brilhante General Forrest, dos Confederados, começou como soldado raso). Por isso, o Sul, a certa altura se tornou igualitário e criminosamente racista e parte dos Democratas do Norte que haviam combatido o Sul, se juntaram ao igualitarismo do Sul, onde os mais ricos e educados se elitizavam. Em suma, Lincoln, foi assassinado por ambos porque governou como um Rei, com poder moderador e firme. Morto Lincoln, os EUA passaram a ser um República imperial, logo no seu próprio território, e a reunir dois colégios eleitorais,periodicamente, para eleger um Imperador ou aclamá-lo. Por isso, a exportação da Democracia dos EUA nem sequer merecia o nome americano de «democrata», uma vez que era elitista na sua essência. E violenta. A guilhotina da Revolução Americana foi Gettysburg. A Guerra da Secessão produziu o primeiro campo de concentração da História e o primeiro matadouro de trincheiras. À data do fim da Guerra, os EUA tinham um milhão de homens em armas, o maior Exército do Mundo, de todos os tempos. Nos trinta anos seguintes diminuiram-no mas, de repente, ao virar do Século, multiplicou-se. Em nome do direito do mais forte à liberdade.
7.2.11
LXVIII - (Re)leituras - Cristianismo Libertador - Religião e Política em Leonardo Boff, de Rodrigo Marcos de Jesus, por André Bandeira
Eis aqui uma boa introdução ou linha de orientação para quem quer conhecer Leonardo Boff, este filósofo e teólogo brasileiro associado à Teologia da Libertação. Trata-se de uma Tese de Mestrado, naquela que alguns consideram a melhor Faculdade de Filosofia do Brasil, a FAJE. O livro termina com uma entrevista a Leonardo Boff, da qual, registo ele se considerar como influenciado pela Escola de Frankfurt e por Heidegger. Registo também que, em relação à «Teologia da Libertação», o autor considera Paulo Freire como percursor e Henrique de Lima Vaz, Vieira Pinto e o peruano Gutiérrez, como seus representantes. Já Leonardo Boff considera que Lima Vaz foi mais crítico que apoiante, devido ao seu hegelianismo, o qual se distanciou da urgência sinalizada na dialéctica do oprimido,de Marx, parte do equipamento dos teólogos da libertação, na análise responsável da realidade. De Boff, há muito para ler, sobretudo na sua mais recente formulação de uma «eco-teologia da Libertação». Do autor, há, a meu ver, que reparar num certo generalismo de termos político-filosóficos que funcionarão para os seguidores e para as pessoas associadas a um certa evolução recente da América Latina (reparei também na distinção feita entre América Latina e Brasil, que me pareceu mais que retórica)apesar do Glossário final. Apliquemos o que li. Boff diz, no fim, que Jesus vai e vai ressuscitando mais, de cada vez que seus irmãos e irmãs, vão ganhamdo vida e liberdade. Infelizmente, isto tem uma aplicação imediata: demagógica ou precipitada. A concepção de liberdade, em Boff, é uma abertura do Homem a «Tudo». Já sabemos que o conceito de «Tudo» é volátil e secundário, se não mesmo arisco, ao contrário do de «Todo». Porque não uma liberdade feita dum mergulho na Realidade, onde Espírito e Matéria se consubstancializam? Porque não uma Libertas mais prudente e menos deslumbrada pela libertação da Cristandade em relação ao Estado, como era a Humanitas clássica? Eu respondo porquê: porque o ofício de filósofo, numa época de exagero de comunicação, tem de ser revisto. Proponho em vez de um filósofo-político ou filósofo-teólogo, um filósofo-médico. Ou um filósofo-engenheiro, de entre os refugiados duma elaborada mina de pensamento que desabou, com fragor.
6.2.11
LXVII (Re)leituras -- From Babel to Dragomans, de Bernard Lewis, por André Bandeira
Este clássico, subtitulado «Interpreting the Middle East», do historiador britânico Bernard Lewis, é indispensável para se compreender o que se passa. Claro que também é indispensável reler o «Orientalism», do palestiniano Edward Saïd. Bernard Lewis é um neo-colonialista democrático da nova geração intervencionista.O invasor e o invadido ficam para sempre unidos, por algo que é a condição comum do ser humano. Nem um assassínio liberta o agressor do agredido. De Babel, ao tradutor (Dragoman, Meturgaman, Truchement), fica-nos a imagem dos «levantinos», tão belos e tão odiados. Os Fanariotas eram, originalmente, gregos que trabalhavam para o sultão turco e lhe serviam de diplomatas, não concordavam com os ímpetos independentistas do seus compatriotas e adoçavam as missivas dos Sultões aos reis infiéis do Ocidente ou despojavam as notas secas da Raínha Vitória, iludindo o Sultão que esta lhes reconhecia a suzerania. Com esta aparente covardia, este camaleões fizeram Paz e semearam equilíbrio. Ficaram como serpentes traiçoeiras, como nessa linda canção de Ney Matogrosso «Meu sangue latino» e não deixaram, nem um estilo de diplomacia, nem um credo de «Terceira Via». Mas ficaram belos, os levantinos, fazendo ainda sonhar toda a gente, que se apaixona por eles e por elas.Ora o Médio Oriente é hoje todo constituído por levantinos, mesmo que fundamentalistas e rigorosamente abstinentes de vinho e de fumos. Como lidar com eles? No Egipto, os Fatimidas, fundadores do Cairo, não conseguiram seduzir os outros com a sua versão do xiismo, que é um legitimismo caudilhista, e passaram a sunitas, mas com um secreto fascínio pela Pérsia e pela Mesopotâmia. A estes, só resta mesmo a oposição de uma multidão com fome e sem Justiça que se recusa a aceitar um líder encomendado por quem quer que seja, ou retirado por quem, não sendo de lá, o encomendou. A solução jacobina de 1789 só deixou mortos. O pacifismo de Ghandi parece esquecido, apesar de toda a sua força. E esta gente levantina, bela e maldita que, escorraçada do Mundo, entregou a Alá todo o seu destino, acomodando lá dentro Adonai e Jesus, só tem uma forma de ser agarrada, porque sempre se conduziu desse modo. Os jovens que gritam e aguardam corajosamente, são o que de melhor podemos tirar deste mundo. Sempre foi. Como diz um Espiritual de Harlem: «Não me fales a mais nada/Fala-me só ao Coração». Um deste jovens é presidente dos Estados Unidos. Não pensem que ele é assim tão frágil. Também é levantino. Ele também se enganou quando prestou juramento. O segredo dele está no coração, aquele que continua a pulsar quando uma pedra nos bate na cara e nos cega, aquele que os antigos egípcios retiravam religiosamente da múmia e aguardavam ao lado, porque acreditavam que era ali onde residia a alma. A mão do Homem treme. A de Deus, não treme.
LXVI (Re)leituras -- Chico Xavier, mandato de Amor, da União Espírita Brasileira, por André Bandeira
Esta edição comemorativa do grande personagem da cultura e da espiritualidade brasileiras, em Minas Gerais, Chico Xavier, vem confirmar no fundo aquilo que o recente filme, protagonizado por Nelson Xavier, nos tinha mostrado. Chico Xavier, concordemos ou não com os seus pressupostos kardecistas, de Espiritismo cristão, revela-se um personagem fascinante e tranquilizador, neste mundo um pouco agitado. Para quem não o conhece em Portugal, Chico Xavier foi um um Espírita do interior de Minas Gerais, responsável pela escrita de cerca de 400 livros, que obtiveram edições em todo o mundo, em 40 milhões de exemplares, entre novelas, ensaios e poemas, constituindo, por isso, um caso inédito na História da Literatura. Chico Xavier recusou quaisquer direitos de autor deste fenómeno editorial, dando-os sempre para a sua obra espírita e viveu modestamente toda a sua vida, porque considerava que o que escreviA era ditado pelos Espíritos, nomeadamente de Escritores famosos e, portanto, nada lhe pertencia. Ainda não examinei a sua obra, mas estou muito curioso sobre aquilo que lhe foi inspirado por Antero de Quental. Não discuto os pressupostos de Chico Xavier, personagem de quem basta contemplar as fotografias, para perceber que era um homem com uma alma muito boa. Porém, Chico Xavier representa também algo de maravilhoso: uma Cultura lusitana universal que não teve provavelmente os instrumentos da arrogânica partilhados por outras, para se impôr, mas que viveu nas pessoas humildes e profundamente sensíveis, como uma sementeira de enormes abundâncias, as quais explicam como é que um território de fundo da Europa, com recursos muito limitados, criou um império de espiritualidade tão vasto. E lembro que um índice recente fazia dos Portugueses as pessoas menos detestadas no Mundo, onde perderam o lugar para...os brasileiros. E não resisto a contar uma cena verídica do filme biográfico deste vulto maior da espiritualidade brasileira, para a contar aos Portugueses de Portugal europeu: quando era homenzinho, o padrinho que o recebera duma vida miserável e cheia de sofrimentos, resolveu levá-lo a uma dessas «Casas fechadas», para ser iniciado. Enquanto o padrinho, cliente habitual, falava com a madame e, depois de ter sido atribuída a Chico Xavier, uma jovem profissional bem atraente, um silêncio enorme foi-se impondo da sala ao lado. E depois, um rumor. Antes de ser expulso para sempre, o padrinho e a Madame foram ver o que se passava e viram Chico Xavier, de mãos dadas com todas as prostitutas que ali trabalhavam, de joelhos, em roda, rezando a Avé Maria. E pronto.
4.2.11
LXV - (Re)leituras -- O método Delphi, de Jon Landeta, por André Bandeira
Este método de previsão do futuro, foi inventado pela Rand Corporation, nos anos cinquenta, para descobrir quantas bombas atómicas os EUA podiam diminuir e, ainda assim, vencerem a URSS. O método baseia-se no consenso de peritos anónimos e, imitando a Ciência, falha porque a adição de nova informação, não se sabe se leva os peritos a mudar de opinião, ou se a nova informação provoca uma condescendência dos peritos entre si. Em suma, depois de passar de uma votação entre as prioridades dos peritos, passa a ser, não se sabe bem, um novo estímulo aos peritos. Ora a a Praça Tahir no Cairo estava com peritos no centro e outros peritos nas ruas adjacentes, a saber o que ia acontecer no futuro. Há quem diga (como Tony Blair, no Passado)que o Médio-Oriente está a acertar o relógio. Adiantar o relógio é semelhante a poupar, o que era o objectivo do método Delphi, nomeadamente o de fazer que os russos fizessem por nós o que devíamos fazer (e eles fizeram: construiram bombas e o Ocidente computadores, sendo que os russos perderam). A realidade é que as Revoluções acabaram. Dantes, os revolucionários começavam com golpes audaciosos, iam para a prisão, ou eram executados, endureciam como um espécie de élite vingadora e, depois, controlavam as massas, que eram massas. Nas «Revoluções das flores» as audiências ditam a agenda dos jornais, o número de «tweets» diariza os sufrágios.Mas, dentro da maiorias, há minorias mais maiores e outras maiorias em crescimento. Perito é quem é mais votado na hora. Ora metade dos EUA querem, e podem, desde já, prosseguir uma política semelhante à de Bush Jr. A realidade é que um sistema feito de ansiedade e de Bolsa dia-a-dia não esconde os precipícios que foram cavados à nossa volta, em comida, Energia e Tempo. A colonização, movida pela cobiça, não deixa de dar desculpas, esquecendo-se que um outro tipo de colonização já existe no sentido inverso e os mares estão cheios de sementes flutuantes. Até a Ecologia é uma panaceia patética, quando se sabe que a ecologia começa dentro das próprias Espécies, ou seja, entre nós, senão muito dentro de nós. Portanto, é inútil dizer que o Capitalismo está a chegar ao fim, ultrapassado pelas audiências democráticas ou corrigir, e até dizer que, não, afinal é o Materialismo ou a Civilização Industrial que está a chegar ao fim. O que está a chegar ao fim são as forças do atleta. O que está a chegar ao fim, é um modo de vencer que esmaga o adversário, privilegiando a combustão ou a primeira lei da termodinâmica que diz que todos os complexos energéticos tendem para o equilíbrio. Esta lei, como se sabe, tem uma segunda, a da entropia, que reza que todos tendem para a degradação, a não ser que sejam sistemas abertos, onde as dúvidas se levantam e nem o método Delphi, baseado no consenso dos peritos, nos pode ajudar. Não adianta dizer que há mais peritos numa praça, que nas ruas adjacentes. Vencer realmente um jogo significa dominar o jogo.Um comportamento belicoso não faz o jogador pois o jogo precisa de tranquilidade, mesmo sendo um dominó. E Ghandi ou Lanza del Vasto eram vencedores mas o Ocidente, pelos vistos,devido ao excesso de Tweets, está doente de Alzheimer.
1.2.11
LXIV- (Re)leituras -- Une Femme d'Égypte, de Jehane Sadate, por André Bandeira
Se bem que se trate de um livro da Guerra Fria, estas são as Memórias da viúva de Anwar El-Sadate, Presidente do Egipto que foi metralhado durante uma parada militar pelos jihadistas, estando ao lado Hosni Mubarak, general da aviação, e que levou apenas um tiro na mão. O livro conta toda a História do Egipto dos pós-guerra e como um resistente independentista egípcio, simpatizante dos Alemães, filho de gente muito pobre, chegou a Presidente do Egipto, fazendo então a Paz com Israel. Claro que foi condenado à morte pelos radicais islâmicos. Para gerir a sociedade egípcia, não restava outra coisa a Sadate que a libertar, mais ou menos, tendo muitas vezes, para sobreviver fisicamente, que reprimir os radicais cristãos e islâmicos. Na República egípcia, saída do condomínio turco-franco-britânico, o «raïs» nomeava um Vice-Presidente quando se sentia que não chegaria ao fim. O «bey» turco nomeava um familiar. Mas as grandes convulsões eram geralmente anunciadas pelo ataque a uma igreja copta, cristã, como se se tratasse de um sacrifício ritual.
Se bem que a anglo-egípcia Jehane Sadate tivesse sido uma erupção da modernidade no Egipto, a modernidade, nas suas diversas formas, como as «rede sociais» e o «Twitter» não são suficientes para fazer uma Revolução (tendo em conta que a Revolução soviética,depois de sair de cena,transformou o feudalismo em capitalismo primitivo). Assim como a modernidade no Egipto se limitou a justificar a consolidação das facções sociais dum país ponto de passagem entre a Eurásia e a África, a modernidade, no Egipto, espreme mas não desinflama. Quanto mais agitação houver -- entende-se deste livro -- mais o Egipto fica surdo por uma inquietação cultural fundamental e passa de mediterrânico, a país africano, desta feita sob um vento oriental, do Índico. Jehane quer dizer «luz» em persa e Sadate foi o único que valeu ao escorraçado Xá do Irão, quando este ia morrendo pelas capitais ex-aliadas, fugindo a atentados constantes. O Xá do Irão fora o único na região que tivera a visão de apoiar a paz de Sadate com Israel, não por imposição de Washington (a qual lhe prendera e expulsara o pai) mas pelo equilíbrio interno. Ora o Amor de um egípcio é realmente persa, sendo que o Irão não é um país de passagem. O Irão é um país de chegada.
Se bem que a anglo-egípcia Jehane Sadate tivesse sido uma erupção da modernidade no Egipto, a modernidade, nas suas diversas formas, como as «rede sociais» e o «Twitter» não são suficientes para fazer uma Revolução (tendo em conta que a Revolução soviética,depois de sair de cena,transformou o feudalismo em capitalismo primitivo). Assim como a modernidade no Egipto se limitou a justificar a consolidação das facções sociais dum país ponto de passagem entre a Eurásia e a África, a modernidade, no Egipto, espreme mas não desinflama. Quanto mais agitação houver -- entende-se deste livro -- mais o Egipto fica surdo por uma inquietação cultural fundamental e passa de mediterrânico, a país africano, desta feita sob um vento oriental, do Índico. Jehane quer dizer «luz» em persa e Sadate foi o único que valeu ao escorraçado Xá do Irão, quando este ia morrendo pelas capitais ex-aliadas, fugindo a atentados constantes. O Xá do Irão fora o único na região que tivera a visão de apoiar a paz de Sadate com Israel, não por imposição de Washington (a qual lhe prendera e expulsara o pai) mas pelo equilíbrio interno. Ora o Amor de um egípcio é realmente persa, sendo que o Irão não é um país de passagem. O Irão é um país de chegada.
23.1.11
LXII - (Re)leituras -- Lincoln, a Novel, de Gore Vidal, por André Bandeira
Abraham Lincoln terá sido o maior Presidente dos Estados Unidos. E...uma Guerra é algo medonho. Nesta novela de Gore Vidal, que não deixa de ser uma interpretação da História, apesar de bem revista por um Historiador de Harvard, pode-se ver que Lincoln se tentou suicidar quando a mulher que amava, Ann Rutledge, morreu subitamente. Lincoln nunca mais exprimiu a dor, a não ser quando o seu filho Wille morreu e Lincoln lhe disse, as lágrimas pingando sobre o pequenino cadáver « Nós amávamos-te tanto!». A Guerra da Secessão foi a maior Guerra da História até à sua época. Mais de meio milhão de mortos.Foi uma guerra verdadeiramente civil, entre as metades de um Povo enamorado e entusiasmado por si mesmo e, dentro de cada metade, entre numerosas facções e, dentro de cada homem, entre várias ambições. Neste último aspecto, os Confederados foram mais unidos e os demónios da Ambição menos potentes.Por isso, nunca se poderá separaá-los da imagem benfazeja de «rebeldes». Lincoln não se suicidou por Amor, mas parte da sua consciência foi substituída pela Ambição de ser Presidente. Na sua Arte e no seu Destino, Lincoln governou como Luís XVI, a quem chamavam tonto. Ao contrário deste, só foi executado depois de cumprir a sua missão. Ao fim disto tudo, conclui-se algo: a população afro-americana e mestiça da América daquela altura, foi como que uma espécie de instrumento, que se pega de qualquer modo, no ardor da luta cega. Uma das cenas mais comoventes da novela é quando os negros que esperam um Lincoln nunca visto, no porto da capital confederada, Richmond, depois desta se render, lhe pedem humildemente para lhe apertar a mão, ou, demasiado tímidos, apenas tocar-lhe.Há uma outra História da dor, a História de Deus, que não cabe nos nosso capítulos. E, espantosamente, actores dessa História, coexistem sem se conhecerem: Lincoln e os Negros norte-americanos. Entre eles há uma grande equívoco: a Guerra. Corrijo: há também uma ligação indestrutível. Uma História de Dor e do Milagre, uma individual, outra colectiva.
18.1.11
LXI (Re)Leituras -- Os danados da Terra, de Frantz Fanon, por André Bandeira
Vai fazer cinquenta anos que este livro foi publicado. Redigido por um psiquiatra argelino, na fase final da Guerra da Argélia, é um manifesto político anti-colonialista, no decurso de uma Guerra que custou três milhões de mortos à Argélia, dezenas de milhares à França e vários milhares à Tunísia e a Marrocos. Quatro quintos do livro são os mais conhecidos: navegam nas águas turvas confluindo da incredulidade soviética quanto aos seus peões no Terceiro Mundo com a cobiça chinesa de os fazer seus. É um grande pastiche hegeliano, romântico, onde um europeu da periferia (naquela altura, mais longe que a periferia de Paris)flutua nas massas, as quais apontavam o caminho, como uma moça bem feita, desde que Ortega y Gasset as viu em esplendor solar nas praias da Andaluzia, em 1920. Mas o último quinto do livro é de um Médico que descreve casos clínicos de Guerra. Mensagem: evitar a Guerra a todo, todo o custo. Muito do que sofremos é infinitamente mais valioso que uma Guerra. Mas Frantz Fanon pode também ser lido como um autor que, há cinquenta anos, já sabia tudo o que de falso e postiço existiria no período post-colonial em África e descreve as situações sob o colonialismo de um modo exactamente igual a algumas reportagens que ouvimos hoje sobre o Norte de África. Mais: Frantz Fanon é considerado um dos iniciadores do Terceiro-mundismo. Se se substituir algumas palavras no seu sonho de uma terceira via, quase tudo podia ser dito por um islamista radical. E, contudo, ele é ateu. Para além do valor da prosa e das verdades que vai dizendo no meio de uma enxurrada romântica, bem europeia (faz lembrar Heinrich Heine, na Alemanha pós-napoleónica), Frantz Fanon fala das sombras interiores das pessoas, que a resistência anti-colonial não soube apagar e faz-nos lembrar -- com alguma alegria para o diagnóstico -- que essas sombras são muito mais vastas e antigas. Mais antigas e embrenhadas que as fronteiras ou o nosso domínio da História. Aceito, com ele, que a «Europa» massacrou milhões «por uma experiência espiritual». Exijo que se chegue a um resultado depois de se andar a experimentar, morrendo desolado. E a observância das Religiões não nos serve de desculpa. No Norte de África, como em outros sítios, as pessoas precisam de comer.
12.1.11
LX (Re)leituras - Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, por André Bandeira
Não gostei do Romance. Fiz um grande esforço para ler este capítulo único de 623 páginas. Estou farto de Riobaldo e, quanto à relação dele com Diadorim-Reinaldo.Dizer que Diadorim, afinal era uma mulher, a dez páginas do fim, não convence nem um ingénuo. Por outro lado, o tenente Euclides da Cunha, o autor de «Os Sertões (a campanha de Canudos)» relativo à Guerra movida pela República brasileira ao povo monárquico do Nordeste, no fim do Séc. XIX,era muito mais emotivo que Guimarães Rosa mas teve a enorme responsabilidade, e o feito, de salvar a honra do Povo do sertão. Morreu num duelo e, como o matemático Cauchy, foi genial, talvez porque o seu objecto -- como o de Cauchy -- ou sejam, Antônio Conselheiro e Canudos, foram de carne e osso, enquanto a jagunçada de Guimarães Rosa é pura fantasia. Concedo que Guimarães Rosa é autor de alguns dos melhores aforismos da Língua Portuguesa e todo o livro é engraçado, cheio de verdades e até de frases que foram merecidamente usadas no discurso oficial em Brasília. Mas este livro é todo um adiamento, e a celebração do não-importa-o-quê como revelação dos deuses,antes das botas cardadas de Estaline institucionalizarem o não-importa-o-quê como stress produtivo. É a modernidade por orgulho e vaidade, antes de passar a vício. Realmente o «Realismo fantástico» de Cortázar, Asturias, e Garcia Márquez corresponde ainda ao apodrecimento dos europeus nos trópicos do Novo Mundo, mesmo que Llosa apanhe os cacos e os ate todos com uma gravata de sêda. À falta de filósofos -- ou melhor: ante o desprezo destes -- arruma-se um xamã sincrético que é actor e Realizador do seu próprio filme, largando em transe, uma enxurrada verbal. Claro que muitas verdades e uma bela sinfonia, marcam a cena, mas Guimarães Rosa, pelo menos por aqui, não nos dá nenhum Pensamento. Só nos dá uma Mentalidade. Todo o Pensamento é relativo, mas não pode ser evitado num romance social e linguístico como é este. E não se pense que a ausência de Pensamento pode ser substituída pela verosimilhança de uma grande representação. Guimarães Rosa é um Actor. Uns dirão: actor da sua própria História. Como se a vastidão do Universo, em torno da História, para além do palco e das portas do Teatro, não tivesse consistência! Passemos ao seguinte, nesta linha de quem se diz preocupar com os outros, só para que desviemos a atenção de nós próprios, e vamos ver se é mais substancial: vou ler mais Leonardo Boff. E, sobretudo, vou ler Chico Xavier!
8.1.11
O caminho é servir !
Os escândalos de corrupção da 3ª República vão desaguar todos ao mesmo ponto ; a ausência de uma atitude de serviço. Não todos, mas um número suficientemente preocupante de influentes enriqueceram à margem da lei e, como agora sabemos, à nossa custa. Quando Cavaco Silva se afastou em 1995, é porque conhecia a gente intratável que tinha em seu redor; que agora queira regenerar a República com os poderes menores de Presidente é, pelo menos, estranho. Quando Guterres se afastou em 2002, por causa do “pântano”, é porque conhecia outros tantos animais políticos a chafurdarem à sua volta. Foi para um palco internacional.
A oligarquia do Bloco Central apoderou-se nos corredores do poder do agenciamento de negócios: a democracia portuguesa tem que se libertar dela e para isso só há um caminho, que é o caminho do rei. Queremos a monarquia, ou queremos dar um rei à república, porque o caminho do rei é servir, servir a pátria sem procurar nada para si. Queremos o caminho do rei, porque cada um de nós deve servir, sem ingenuidades nem contemplações para com os corruptos, e sabedor de que por cima das empresas, e dos indivíduos, temos de unir os interesses do Estado aos interesses da sociedade mediante o princípio monárquico que aponta para uma unidade de propósitos e um consenso sobre o futuro de todos os portugueses.
Para esta finalidade, as eleições presidenciais são secundárias e o alheamento que cresce em seu redor é significativo. É a falta de atitude de serviço revelado pelos políticos da 3ª República que leva à descrença generalizada neles, memos aos que procedem bem. Pelos mesmos motivos, existe um número crescente de monárquicos que se pretende abster, votar nulo ou branco, tal como existem muitos mais que preferem conscientemente votar pelo mal menor, ou escolher um candidato onde reconhecem a independência da sociedade civil. Porque acima dos partidos e das pessoas, os monárquicos seguem o caminho do rei, que é servir, ou seja, colocar a Pátria acima dos interesses particulares e colocar a democracia ao serviço do Povo…
A oligarquia do Bloco Central apoderou-se nos corredores do poder do agenciamento de negócios: a democracia portuguesa tem que se libertar dela e para isso só há um caminho, que é o caminho do rei. Queremos a monarquia, ou queremos dar um rei à república, porque o caminho do rei é servir, servir a pátria sem procurar nada para si. Queremos o caminho do rei, porque cada um de nós deve servir, sem ingenuidades nem contemplações para com os corruptos, e sabedor de que por cima das empresas, e dos indivíduos, temos de unir os interesses do Estado aos interesses da sociedade mediante o princípio monárquico que aponta para uma unidade de propósitos e um consenso sobre o futuro de todos os portugueses.
Para esta finalidade, as eleições presidenciais são secundárias e o alheamento que cresce em seu redor é significativo. É a falta de atitude de serviço revelado pelos políticos da 3ª República que leva à descrença generalizada neles, memos aos que procedem bem. Pelos mesmos motivos, existe um número crescente de monárquicos que se pretende abster, votar nulo ou branco, tal como existem muitos mais que preferem conscientemente votar pelo mal menor, ou escolher um candidato onde reconhecem a independência da sociedade civil. Porque acima dos partidos e das pessoas, os monárquicos seguem o caminho do rei, que é servir, ou seja, colocar a Pátria acima dos interesses particulares e colocar a democracia ao serviço do Povo…
26.12.10
IN MEMORIAM - Manuel Ivo Cruz
http://risco-continuo.blogs.sapo.pt/394257.html
IN MEMORIAM - Manuel Ivo Cruz - Risco Contínuo
risco-continuo.blogs.sapo.pt
Hoje, dia de Natal um amigo partiu. Conhecia-o há mais de 30 anos. Ultimamente apenas sabia notícias suas pelo telefone ou através de pessoas amigas. Data do passado dia 5 de Outubro a sua última aparição pública nos Paços do Concelho de Guimarães.
IN MEMORIAM - Manuel Ivo Cruz - Risco Contínuo
risco-continuo.blogs.sapo.pt
Hoje, dia de Natal um amigo partiu. Conhecia-o há mais de 30 anos. Ultimamente apenas sabia notícias suas pelo telefone ou através de pessoas amigas. Data do passado dia 5 de Outubro a sua última aparição pública nos Paços do Concelho de Guimarães.
1.12.10
Primeiro de Dezembro
Patria Mare
Haverá um Céu onde as Pátrias vão
Quando, velhinhas e cansadas, não
Retêm mais as águas e, sorridentes,
Fecham os olhos e a boca sem dentes?
Haverá nestas águas libertadas
De Oceanos, ilhas e enseadas
Um rumor de águas calmas, afinal
Que lave as feridas de Portugal?
Tudo é verdade, tudo está certo,
Nada tem forma, tudo é assim.
O cadáver jogado ao Mar aberto
Como um destroço, voga mansinho.
Nas águas calmas, do mar sem fim,
É ele ainda que indica o caminho.
Haverá um Céu onde as Pátrias vão
Quando, velhinhas e cansadas, não
Retêm mais as águas e, sorridentes,
Fecham os olhos e a boca sem dentes?
Haverá nestas águas libertadas
De Oceanos, ilhas e enseadas
Um rumor de águas calmas, afinal
Que lave as feridas de Portugal?
Tudo é verdade, tudo está certo,
Nada tem forma, tudo é assim.
O cadáver jogado ao Mar aberto
Como um destroço, voga mansinho.
Nas águas calmas, do mar sem fim,
É ele ainda que indica o caminho.
21.11.10
LIX - (Re) Leituras - A Escrita da Finitude, organização de Lélia Parreira Duarte, por André Bandeira
Esta colectânea de vinte autores foi-me oferecida pela organizadora, Professora da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. E foi no contexto de um colóquio sobre a Morte, com a presença dos sociólogos Michel Manffesoli e Moisés Martins. A morte não está na moda, mas está aí.Um shintoísta ou um budista tibetano sabem que dá sorte contemplar esqueletos ou ter mesas feitas com ossos. Quanto mais se contempla a morte, mais a vida se levanta da cama desalinhada da nossa mente e vai à vida. Mas quando a vida começa a ser mais recheada de «bem-estar» (ponho entre aspas porque os autores escolhidos, como Lobo Antunes, Autran Dourado, ou Jorge de Sena, não demonstram bem-estar nenhum) então tem-se que cuidar dos moribundos, dos velhos e dos aposentados que não querem morrer, siderados que estão no Bem-estar. Sobre a Morte, já se disse muito. Sobre a desgraça e a aflição diz-se pouco, porque não vendem nada e esta literatura da morte instila um certo bem-estar (os autores têm prazer a escrever sobre uma tema tão digno). Mas, em Política, eu tenho de dizer qualquer coisa: os anos sessenta deram o poder, no Ocidente, a muitos adolescentes que não saíram da adolescência. Talvez os adolescentes no Poder sejam aqueles que abrem as portas da cidade, aos bárbaros.E Santo Expedito, vestido de legionário romano, diz-nos com a cruz bem levantda na mão: «Hodie!», ou seja «É hoje!». As Esquerdas -- como estes textos, sobre a Morte, uma mistura de vidas introspectivas ou egocêntricas -- são uma série de Direitas mal realizadas. Ora a Vida -- dizia Bichat, o médico francês -- é o conjunto das forças todas que resistem à Morte, desde um copo de cachaça a uma Oração.Pois só me resta dizer algo contra esta -- muito bem organizada e refinada -- colectânea da indústria da Morte:quando se inventa um reino do outro lado do espelho, ou suspenso no vazio do precipício, esquece-se a hora que passa, cheia de minutos para preencher. Eu sei que é apenas Fé, mas é melhor uma Fé para juntar os ossos desconjuntados dos nossos sentidos, uma Fé ainda como acto de Vida e dizer aquilo que dizia o Evangelho: Oh Morte, onde está o teu Poder?!
14.11.10
LVIII (Re)leituras - Jean Monlevade, de Jairo Martins de Souza, por André Bandeira
Eis aqui um bom exemplo de literatura regional. Um município de 80.000 almas, perto de Belo Horizonte, tem o nome de um dos primeiros alunos da Escola Politécnica de Paris, que fundou a cidade: Jean Monlevade. Numa prosa cuidadosa e com um subliminar sentido de humor, o autor faz a arqueologia, direi, industrial, deste município brasileiro associado à siderurgia. Minas Gerais tem hoje uma das maiores taxas anuais de crescimento do Mundo e esse facto deve-se, também, à exportação do minério de ferro.Por isso mesmo, o romance, bem construído (talvez com pouca definição das personagens secundárias), faz uma arqueologia do futuro. Em termos científicos (que, devido à formação do autor, são também da História das Ciências)o livro permitiu-me constatar que há uma arqueologia industrial de futuros antigos, no interior do Brasil. Em termos morais, isso faz o autor achar engraçados alguns pormenores dum quotidiano, nomeadamente português, do passado do Brasil, que facilmente podem levar aquele, nadando no meio da corrente espessa da narrativa, a enfurecer-se com o seu próprio passado. É que um passado, que é apenas um futuro, e uma ideia de futuro, não é apenas um passado. É uma ideia que se revolta por não nascer. Mas o passado do Brasil é muito mais um ridículo D. João VI, desembarcando no Rio, com a mulher e a filha, piolhosas, do que um aluno do Politécnico de Paris, investido pessoalmente por Napoleão. No rei barrigudo português há já muito daquele passado mediterrânico e africano que foi construindo o Brasil, apesar de não ter a disciplina e a auto-flagelação de um sistema franco, comandado por um corso sem escrúpulos. Não nego a pluralidade das origens europeias que formaram o Brasil. Prefiro, contudo, pensar num Jean de Monlevade que fugia duma Europa, talada pela violência, pela purga e pela traição, e que pensava encontrar no Brasil uma harmonia entre a Razão e os seus bosques franceses do Antigo Regime, então fuzilados e guilhotinados pela modernidade. Veja-se a gravura da capa. O Porvir, ao contrário do Futuro, é uma mistura surpreendente do Passado e do Fututo.
4.11.10
LVII - Eta Mineiro...Jeito de Ser, de Olavo Romano, por André Bandeira
Este livro, do académico mineiro Olavo Romano, é uma chuva de Verão, em sentido de humor e perspicácia. O autor, tendo nascido em Morro de Ferro, no então remoto distrito de Oliveira, em Minas Gerais, trouxe consigo o tesouro da fala e da inteligência do Povo que o viu nascer. Os sessenta e seis textos são todos sábios e reais, sem excepção, mas o meu preferido é «O Elogio». Que os tropeções da reconversão do Português de Portugal, para o Português do Brasil, me vacinem contra fazer um discurso público, assim, algum dia. Mas pode ser que aconteça (espero bem que não). Este tipo de literatura, como a que Olavo Romano nos apresenta nesta colectânea de textos de outros volumes da sua Obra, têm o dom de nos ensinar e de nos divertir, chegando mesmo a dar-nos a sensação que o Mundo pode ser um lugar maravilhoso e que a Lógica e a Inteligência, correndo sempre duma fonte inesgotável, não se detêm em lado nenhum, aflorando quando menos se espera. Os textos fazem-me lembrar aquilo que Madonna, a cantora Rock, procurava quando lhe deu a fase, entre dois namorados novos e mais um programa de ginástica radical, de se virar para estudar a Cabala. No enxurro jornalístico que então expediu, disse-se que os cabalistas estudavam então qual é o cimento que une toda a Humanidade. Compreende-se que, numa saudável divulgação de que há homens que insistem em estudos místicos (o que não foi saudável foi divulgar-se isso, só porque a Madonna decidiu), se divulga também que há quem procure a salvação em algo específico da Humanidade. Pois estes 66 textos de Olavo Romano filtram esse cimento que nos une a todos. E não pude deixar de pensar num escritor muito interessante, português, António Cagica Rapaz, nome bem de Pescador, da antiquíssima vila de Sesimbra, trinta Kms ao sul de Lisboa, o qual escreveu um livro muito semelhante referindo-se à sua terra: 90 e tal Contos. Tive uma enorme dor quando o António nos abandonou, ano passado, sem a divulgação que merecia, fulminado por um tumor que não merecia, nem ninguém esperava. Mas tudo isto me lembrou que este estilo de escrever, de quem dá testemunho, até vindo de escritores pouco divulgados como foi o caso do Cagica Rapaz, entre outras coisas, fazem uma ponte comprida entre os Pescadores de Sesimbra e os Lavradores de Minas Gerais.
3.11.10
LVI - Chico Rei, de Agripa Vasconcelos, por André Bandeira
Este livro dos anos sessenta, representa muito da revolta do Brasil, na busca da sua identidade, sobretudo numa época em que o Brasil estava à mercê da identidade protestante e altiva dos EUA. Hoje, o Brasil tem um metalúrgico como Presidente, elegeu uma mulher para lhe suceder, e os EUA são presididos por um homem de origem africana com o nome de Barack Hussein. Todos estes factos, por si, são, a meu ver, positivos, mas o que se desdobra deles é muito mais complexo. O livro relata como um príncepe congolês, Galanga, foi feito escravo pelos seus inimigos, no meio do séc.XVIII, vendido aos negreiros portugueses e acabou escravo em Minas Gerais, com seu filho. Mas não acabou aqui. Estava só para começar. Galanga, baptizado Francisco da Natividade, foi libertado por um padre, adquiriu terra a um preço simbólico do seu antigo proprietário e trabalhou de sol a sol para libertar mais de 200 dos seus companheiros de tragédia. O Governador português, sem invocar outra Lei que a do senso político e humano, permitiu que ele se tornasse Rei da sua nação congolesa, dentro da capitania portuguesa de Minas Gerais. E recebeu a coroa do pároco local. É que a população africana não aceitou sempre o jugo da escravatura, neste lugar do Império português. Combateu-a, fugiu, revoltou-se, sustentou verdadeiros reinos dentro do mato, como o de Zumbi dos Palmares, no interior de S.Paulo, e ainda hoje mantém unidades agrícolas autónomas que se impõem ao Estado, os quilombos. Xico Rei não fez um quilombo no meio dos outros que o desprezavam. Fez um Reino. Reinou porque a sua humildade, a paz que irradiava da sua maneira de ser, punham os outros todos em respeito. Reinava pelo coração, o qual se moldara na violência hierárquica, da tardia Idade Média da África sub-saahriana, no Holocausto da escravatura negra, na primitividade da alma humana. Mais que pelo Poder, a sua autoridade era legítima porque se baseava em algo anterior a ele, que o escolhera para reinar e o seu reinado evitou muito derramamento de sangue. A população negra era mais que o dobro da população branca ou mestiça, juntas, de Minas Gerais, e, por várias vezes, esteve para se levantar e cortar a vertigem diabólica duma economia baseada no ouro. Um Governador esteve para o açoitar em praça pública, já velho e doente, porque Xico-Rei não se conseguiu levantar à sua passagem. O médico português Timóteo pôs o Governador em respeito, lembrando-lhe que nem um escravo podia ser açoitado se estivesse doente, quanto mais um cidadão livre! O primeiro açoite teria significado o massacre dos portugueses de Ouro Prêto, naquela mesma tarde. Xico-Rei morreu muito depois, revivendo em delírio na batalha de Marmara, em que, muitos anos antes cavara o caminho da sua própria escravatura, por intervir contra um chefe ilegítimo o qual tomara o poder pela violência. E aqui me ficaram duas imagens deste romance histórico: um Rei que se levantou da escravatura pela sua humildade e constância e um Governador autoritário e autista que, felizmente, foi detido a tempo por um médico, antes de deitar tudo a perder.
26.10.10
LV - (Re)Leituras: A Queda, de Albert Camus e A Noite, de Élie Wiesel, por André Bandeira
Este livro de Albert Camus, de 1956, que interesse tem para hoje, no tempo diáfano da blogosfera? Camus é mórbido, desconectado, disfásico e morrerá num acidente de automóvel quatro anos depois. Eu respondo: o que interessa neste livro, hoje, é mais que uma coincidência. A Europa está a cair depois de ter comprado várias almas a troco dum Bem-estar que, afinal, era todo crédito vazio dos Bancos. O livro «A Queda» fala num produto luxuoso da Guerra Fria, o advogado parisiense Jean-Baptiste Clamence, cujo nome é um grito («Clemência, S.João Baptista!»), o qual ganhou a vida a defender os fracos mas não foi capaz de acorrer a uma pobre mulher que se ia atirar de uma ponte de Paris, numa noite fria. Ficou, claro, para sempre amaldiçoado por si próprio, «julgado, todos os dias, sem lei», até ele próprio se suicidar, numa ponte de Amesterdão. Pergunto: vamos todos deixar as pessoas aproximarem-se da ponte, crivadas de dívidas e exaustas, depois de lhes termos arrancado a alma (nem a comprámos, sequer) com estímulos diários de prazer físico, a que chamámos Democracia? Ou vamos acreditar que Deus existe em nós e na moça insignificante à beira da ponte, um Deus de Amor, que não advoga bem, que se não sabe defender nos tribunais, que não tem lógica nem calendário, e que não pertence certamente ao feixe de estímulos físicos a que chamamos Democracia? Em «A Noite», descrição testemunhal de Auschwitz, por Élie Wiesel, Nobel de 1986, um relato que tem alguns subjectivismos facilmente explorados pelos negacionistas do Holocausto (os quais não se combatem decretando como crime o seu direito à liberdade de expressão), Deus morre numa criança que é enforcada.Com Camus, Deus é tão surdo que não existe. Num livro, Deus é morto pelos nazis, no outro, Deus asfixia-nos pela Sua ausência e, além da Sua ausência, só existe Inferno. Porquê? Porque não fomos capazes de ser a cápsula dos mineiros, à beira das pontes onde a Europa se suicidou, Monarquia insignificante, transida de frio, sem respeito nem carinho que devíamos ter para com o Passado, o qual vota, quer queiramos quer não, e o seu voto não é democrático. É tempo de um Socialismo liberal, liberal como a promessa que o fascista Mussolini não conseguiu cumprir, socialista como o Comunismo nos mentiu continuamente. E, por cima de tudo, um Rei. Para que, à beira da ponte, na noite escura, uma cabeça dourada nos encare iluminando os vãos escuros que não queremos ver. Uma cabeça um pouco maior que o tamanho natural. Como o Passado que se agiganta de cada vez que fugimos dele e que está lá, na cidade nocturna, para nos guiar, não para nos assombrar. Porque só nós, com a nossa violência e o nosso egoísmo, com a nossa animalidade, é que nos assombramos.
5.8.10
LIV - (Re)leituras: De la Démocratie en Amérique, de Alexis de Tocqueville, por André Bandeira
Eis uma edição de 1951, data da 4ª República francesa em que os comunistas e os gaullistas constituíam a esmagadora maioria da França, num projecto anti-americano, na Europa. Esta edição, cuidadosamente comentada por André Gain, revela o que havia de profético no aristocrata francês Alexis, que fora, em 1831, para o EUA, estudar o sistema penitenciário americano e voltara sendo o maior perito europeu, sobre os EUA. Tocqueville é um amigo da Democracia e termina o livro com uma conclusão brilhante: os climas e os acidentes históricos moldam as Nações, mas o que conta é sobretudo o que os Povos fazem do seu património histórico.
Tocqueville tivera o realismo, mas também a coragem, de abraçar a Democracia, face à Aristocracia, mas não abdicara de considerar a importância das diferenças do Género humano, sem o respeito das quais não há Liberdade, pois nada há a libertar (e a Liberdade é algo concreto). Profeta do que seriam o Fascismo, o Comunismo e as ditaduras mistas de ambos, chamadas «latino-americanas», mesmo quando acontecem na Europa ou na Ásia, Tocqueville antecipa o caminho para a servidão empreendido pela Democracia totalitária (o que é bom é aquilo que a maioria acha). Mas qual é a origem do «aristocratismo em vias de se tornar democrata» de Tocqueville? Primeiro, é o particularismo francês, em que as diferenças sociais tinham resistido contra um Soberano todo-poderoso. Tocqueville é, portanto, contra o absolutismo. Mas será Tocquevilie um monárquico liberal, ou seja, um republicano adiado? Tocquevile, a certo ponto, diz que o futuro temível é uma República monárquica na sua administração ou seja, cheia de pequenos reizinhos burocráticos e desprovida de particulares que resistem ao Poder central, pelo sua legitimidade e vitalidade. Pois parece que as sociedades evoluem, mesmo no modo como manuseiam a sua realidade política,mas o aristocratismo francês -- que fora sujeito a tantos banhos de sangue -- é sêco e materialista.O aristocratismo francês tornara-se republicano, não por ódio ao Antigo Regime, mas por trauma do Absolutismo Esclarecido. Há um descarnamento e uma crueldade na racionalidade francesa, mesmo quando cultiva as virtudes de uma certa aristocracia (Tocqueville propõe a possibilidade de uma aristocracia gerada pela Democracia). Do optimismo desesperado de Condorcet, à Fé de Maistre, ao cinismo de Maurras, há uma convulsão enorme. Talvez o aristocratismo francês tivesse o descarnamento próprio dos romanos, sózinhos na fronteira face aos hunos, depois de Roma cair. Antes do ditatorial Lutero se revoltar contra os diabólicos vaticanos da altura, já os franceses tinham uma secura que nada era de aristocracia, mas apenas de arcaísmo vingativo, e bárbarao, mesmo que o barbarismo o fosse ao modo dos troianos e etruscos, fundadores da Roma antiga: uma espécie de desprezo pelo Género Humano. Ora uma aristocracia assim, é anti-monárquica, embora não seja ainda democrática. É realista, sem ser Real. A vantagem de uma monarquia pode ser a mesma de uma República, com a vantagem de que a primeira é uma muito mais sábia das tradições históricas de uma Nação.Talvez a Monarquia funde muito mais fundo, as raízes tão diferentes de querermos viver em comum, a qual nunca é uma forma comum de viver, como nada na nossa vida pode ser banal e indiferente, uma vez que só vivemos uma vez. Talvez para a Eternidade.
Tocqueville tivera o realismo, mas também a coragem, de abraçar a Democracia, face à Aristocracia, mas não abdicara de considerar a importância das diferenças do Género humano, sem o respeito das quais não há Liberdade, pois nada há a libertar (e a Liberdade é algo concreto). Profeta do que seriam o Fascismo, o Comunismo e as ditaduras mistas de ambos, chamadas «latino-americanas», mesmo quando acontecem na Europa ou na Ásia, Tocqueville antecipa o caminho para a servidão empreendido pela Democracia totalitária (o que é bom é aquilo que a maioria acha). Mas qual é a origem do «aristocratismo em vias de se tornar democrata» de Tocqueville? Primeiro, é o particularismo francês, em que as diferenças sociais tinham resistido contra um Soberano todo-poderoso. Tocqueville é, portanto, contra o absolutismo. Mas será Tocquevilie um monárquico liberal, ou seja, um republicano adiado? Tocquevile, a certo ponto, diz que o futuro temível é uma República monárquica na sua administração ou seja, cheia de pequenos reizinhos burocráticos e desprovida de particulares que resistem ao Poder central, pelo sua legitimidade e vitalidade. Pois parece que as sociedades evoluem, mesmo no modo como manuseiam a sua realidade política,mas o aristocratismo francês -- que fora sujeito a tantos banhos de sangue -- é sêco e materialista.O aristocratismo francês tornara-se republicano, não por ódio ao Antigo Regime, mas por trauma do Absolutismo Esclarecido. Há um descarnamento e uma crueldade na racionalidade francesa, mesmo quando cultiva as virtudes de uma certa aristocracia (Tocqueville propõe a possibilidade de uma aristocracia gerada pela Democracia). Do optimismo desesperado de Condorcet, à Fé de Maistre, ao cinismo de Maurras, há uma convulsão enorme. Talvez o aristocratismo francês tivesse o descarnamento próprio dos romanos, sózinhos na fronteira face aos hunos, depois de Roma cair. Antes do ditatorial Lutero se revoltar contra os diabólicos vaticanos da altura, já os franceses tinham uma secura que nada era de aristocracia, mas apenas de arcaísmo vingativo, e bárbarao, mesmo que o barbarismo o fosse ao modo dos troianos e etruscos, fundadores da Roma antiga: uma espécie de desprezo pelo Género Humano. Ora uma aristocracia assim, é anti-monárquica, embora não seja ainda democrática. É realista, sem ser Real. A vantagem de uma monarquia pode ser a mesma de uma República, com a vantagem de que a primeira é uma muito mais sábia das tradições históricas de uma Nação.Talvez a Monarquia funde muito mais fundo, as raízes tão diferentes de querermos viver em comum, a qual nunca é uma forma comum de viver, como nada na nossa vida pode ser banal e indiferente, uma vez que só vivemos uma vez. Talvez para a Eternidade.
3.8.10
LIII - (Re)leituras: Introdução à Antropologia Cultural, de Mischa Titiev, por André Bandeira
Um clássico de 66. O que parecia óbvio, na geração dos «baby-boomers» e de Kennedy, e agora se oxidou, ficou a parecer um pouco esquisito. O Dr.Lynd e a mulher, na década de 20, foram estudar os índios Murcie em Indiana, nos EUA. Eram sociólogos e estudavam uma tribo primitiva. Faziam etnologia viva. Aplicaram então - outros por eles - os mesmos métodos à sociedade moderna e passámos todos a parecer índios. Estava em curso a descolonização. Para que o comunismo não ocupasse a alma dos índios, os EUA passaram a considerar-se, eles próprios, índios (o que era conveniente) mas, visto bem à luz de hoje em dia, o que eles passaram, foi a tratar a sua própria sociedade como algo distante, no meio do deserto. Urinar dentro de casa ou dentro da casa-de-banho, era uma questão de ordem dos factores. Se cheira mal ou não, era uma questão de gosto. Portanto: tudo era moldável e encadeável em séries diferentes. Tratava-se tudo de composição dum filme, umas cenas atrás e outras à frente. O importante era reduzir tudo a fotogramas.
Claro que Mischa Titiev canta, no fim, o hino do costume, ou seja, assobia que todos somos humanos, que nenhuma cultura é superior à outra, enfim, o credo da ONU. Contudo, o que restou de nós todos foi um gesto de estranheza em que nada era óbvio, em que nada tinha continuidade, como se as «culturas» perdidas não fossem do conhecimento ou não tivessem contribuído para a evolução das culturas «dominantes», enquanto não fossem fotografadas pelo olho distante do antropólogo. Enfim: os desmandos todos eram possíveis, porque éramos todos tribos.
Conclusão: a pretexto de não esmagar as culturas primitivas, a Antropologia cultural dos EUA licenciou o direito a acharmos tudo estranho, anacrónico e considerar que, se as pessoas não forem assim, não constituem sociedade, logo não têm direitos.
Quando, hoje, o Gen. Michael Mullen diz que tem um plano de ataque ao Irão, para além de isso ser uma estratégia de dissuasão por medida, o que ele nos diz é que somos todos tribos e, portanto, temos o direito de atacar com o machado de guerra.
Não foi Ruth Benedict, uma indivídua de afectividade anacrónica, que nos disse que ou só podíamos ser austeros (apolíneos) ou tresloucados (dionisíacos)? Pois é: cristão que não sacrifica ao Imperador, roda na arena dos leões. Já era assim, no mundo dos velhos e dos modernos bárbaros.
Claro que Mischa Titiev canta, no fim, o hino do costume, ou seja, assobia que todos somos humanos, que nenhuma cultura é superior à outra, enfim, o credo da ONU. Contudo, o que restou de nós todos foi um gesto de estranheza em que nada era óbvio, em que nada tinha continuidade, como se as «culturas» perdidas não fossem do conhecimento ou não tivessem contribuído para a evolução das culturas «dominantes», enquanto não fossem fotografadas pelo olho distante do antropólogo. Enfim: os desmandos todos eram possíveis, porque éramos todos tribos.
Conclusão: a pretexto de não esmagar as culturas primitivas, a Antropologia cultural dos EUA licenciou o direito a acharmos tudo estranho, anacrónico e considerar que, se as pessoas não forem assim, não constituem sociedade, logo não têm direitos.
Quando, hoje, o Gen. Michael Mullen diz que tem um plano de ataque ao Irão, para além de isso ser uma estratégia de dissuasão por medida, o que ele nos diz é que somos todos tribos e, portanto, temos o direito de atacar com o machado de guerra.
Não foi Ruth Benedict, uma indivídua de afectividade anacrónica, que nos disse que ou só podíamos ser austeros (apolíneos) ou tresloucados (dionisíacos)? Pois é: cristão que não sacrifica ao Imperador, roda na arena dos leões. Já era assim, no mundo dos velhos e dos modernos bárbaros.
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