10.8.09
XXVI - (Re)leituras - Raúl Solnado, por André Bandeira
O seu monólogo contra a Guerra, certamente não inteiramente original, mas que ficou dele, pertence ao património universal da paz, merecia ficar no espólio de Hiroshima e Nagasaqui. Antes de Solnado, ele foi dito pelos camponeses da Idade Média, pelos espezinhados da Civilização industrial, pelos soldados nas trincheiras de Verdun, ou por aqueles que, dois dois lados da Europa, cantavam Lili Marlene. E se Solnado estivesse ao meu lado, havia de me perguntar se a Lili Marlene dava descontos a gagos. E se eu lhe perguntasse porquê, havia de me responder que um gago não dá uma sem repetir.
4.8.09
XXV - (Re)leituras - Kim, de Rudyard Kipling, por André Bandeira
A inquietação do Homem Branco, empurrado contra o precipício atlântico da Europa ocidental – e que se julga o suprassumo, sobretudo por uma confusão mental cheia de amnésia a que chamou «Liberdade» ( a qual se traduziu, muitas vezes, na suspensão da faculdade de julgar) deu origem em Rudyard Kipling à famosa frase: «o fardo do Homem branco». A colonização foi um mandato e um fardo de duplicidade. O colonialismo foi uma ansiedade de ocupação do vazio, que levou ao genocídio. Nada tinham a ver com os Impérios espirituais como foi o português, que não praticou genocídios. «Kim», não é, apesar disso, apenas o divertimento pedante dum espião em busca das letras. Ele deixa um problema filosófico muito ingénuo no fim: o velho Lama, que Kim conduz, descobre o seu Rio da purificação final, na corrente das coisas e volta a si próprio para proteger Kim. Quer dizer: o Velho Mundo mantém a responsabilidade até ao desprezo de si próprio, pelo Novo Mundo, o qual nunca o abandonou. Xangri-La está ao lado.
Enquanto isso, Soraia Santos, jovem mãe de 20 anos, de Vila Real de Santo António, é atacada por dois rafeiros alentejanos esfaimados, que guardavam uma fábrica e foi salva em último recurso, arriscando-se ainda a perder uma perna. Nós não temos ideia dos monstros que deixámos entrar na horta da nossa dislexia, a que chamámos Liberdade.
31.7.09
XXIV - (Re)leituras - O Artigo sobre a União Ibérica, de Saramago, no El País, por André Bandeira
Assim como no castelo de Drácula, tudo se pode discutir antes da ferradela eterna: a eutanásia, a ETA, a União Ibérica, o casamento entre Homossexuais, o ordenado do Cristiano Ronaldo, a extinção da vida na Terra por efeito de um asteróide, ou por efeito da Poluição, a fusão dos pólos e a emergência das ruínas da Atlântida. A eternidade da alma já não interessa muito porque faltam coxas e peitos grandes à Alma.
Drácula é a eternidade da Morte por oposição à provisoriedade da Vida. E, numa vida que nunca morre, todos soçobramos, atraídos pelo descanso da sombra, pelo correr do sangue pujante que enche e sempre flui do estômago vazio. Ninguém quer a desolação das cinzas, do fim, do esquecimento.
Acredito que há uma Razão para Portugal. Acredito que quem vive à beira do abismo do Oceano mais bravo da Terra, veio de muito longe, com peles de urso, olhos rasgados, cabelos vermelhos, ganhou membros altos flexíveis e pele negra, fez cair-lhes na íris duas gotas azuis ou verdes. Veio e ficou em todo o lado, esperando partir, por imposição duma procura constante. Os outros podem ter tudo: terras, belos e saudáveis corpos, crianças espertas cheias de graça, ideias finais, engenhos brilhantes, bênçãos de Deus, batalhas épicas com o diabo, reis e repúblicas, liberdade e autoridade, monumentos, catedrais. Nós poderemos às vezes ter o céu azul, a nossos pés, como uma colcha que nos cobre e afaga sempre precária. Nós temos o sorriso da tartaruga e do golfinho, de quem não percebe bem o que lhe dizem mas mesmo assim compreende. Os vampiros vivem nas grutas repletas. Nós vivemos nos precipícios como as gaivotas, por uns instantes, chocando os ovos nos abismos. O Sol é toda a nossa riqueza. O Mar é todo o nosso consolo.
Dos meus lábios tolhidos pelo frio, sussurro ainda, coroado pelos espinhos do sol e as gotas de orvalho das estrelas: esta é a minha Pátria muito amada.
13.7.09
OS BURROS
E assim vos deixo do truculento ex-frade José Agostinho de Macedo, a quem de todas as muitas qualidades que tinha só faltou a principal de ter génio, o prefácio de OS BURROS, que serviria de albarda a muitos blogues do séc. XXI.
"Para formar o encómio das burricaes qualidades d .V. Reverendíssima, desejara ter as frases e o juízo alvar de um quinhentista, ou de um Padre Foyos; mas destituído do tudo, só me fica a sinceridade de lhe dizer sem ofensa da sua religiosa modéstia, e sem encher a sua manjedoira do retraço abominável da lisonja que V. Reverendíssima não só é um pedaço d’asno, uma conhecida besta, um acabadíssimo burro e perfeitíssimo jumento, de quem se protesta sincero tangedor."
29.6.09
Michael Jackson, por André Bandeira
Parece que o menino Michael, depois de um bocado maltratado pelo pai Jackson que desejava uma vida melhor para os filhos todos (a vida que ele não teve) deixou de dançar pela nossa imaginação acima. O seu estilo era especial, só dele, do seu cabelo, do seu rosto progressivamente escondido, atónito, moribundo. A sua voz cada vez mais fina, mais seduzida pela doçura hipnotizante de quem sabe que tudo isto é uma peça amarga e sobre a qual ele pretendia correr o pano. Pois foi encontrado com esse reposteiro negro arrancado do crânio pelado, como um palco vindo abaixo e, pelos vistos, anoréxico dum mundo do qual já não queria absorver mais nada. As dores que tinha e que adormecia eram apenas protestos dum sono que queria eterno. E nós ficámos de mão parada, subitamente animalizados no gesto de lhe atirar moedinhas. A massa feroz quis julgá-lo por meter o bebé fora da varanda. Um rapazito é capaz de ter inventado uma história medonha sobre ele que o fez caminhar como um morto-vivo pelo resto da sua existência. As forças medonhas da inveja encarregaram-se de o apanhar a dizer «gosto de me deitar com meninos», ele que, certamente, a pouca felicidade que teve, entre os ensaios cruéis dos Jackson Five, quando era miúdo, foi a de se deitar com os irmãos e adormecerem a rir e a brincar nos motéis onde o pai Jackson os albergava num só quarto para poupar.
Tinha um estilo que era dele. O breakdance fazia-o suave como uma caminhada lunar, como quem emerge da Bronx e atravessa os arranha-céus sobre um fio de luz. Quando gritava o «I’m bad», não havia nada de realmente mau naquele dançarino, mas apenas um miúdo cansado de carregar tijolos às costas. As suas dívidas milionárias são apenas um montão de carros velhos que já ninguém compra. Desse pequeno momento em que dançou com o velho James Brown e se deram as mãos, se pode ter um exemplo do afecto que pode ligar dois homens, no respeito e na admiração mútua, bem diferente desta civilização de machos que se tansformam em gelatina quando cessam de se repetir. E nas lágrimas que Jackson deixou correr nesse momento, enquanto ambos dançavam, como dois moleques de moedinhas, eram Brama e Krishna dançando.
A dança é uma das belas artes e Michael Jackson talvez um dia – se isto lhe vale de alguma coisa – seja visto como um Rembrandt ou um Matisse disso tudo que há em nós: a de que nos mexemos para nascer, nos mexemos para morrer, nos mexemos para dizer uns aos outros na noite escura…eu estou aqui. Por favor não me abandones.
Por isso, quando as pessoas se juntam em Paris e Nova York para cantarem o «I'm bad» tudo aquilo me parece uma acção de graças onde Michael renasce fora do sarcófago e parece-me que lentamente se torna o hino de Neda, o hino de quem se recusa a ser supérfulo.
25.6.09
XXIII - (Re)leituras -- A traição dos intelectuais, de Julien Benda, por André Bandeira
16.6.09
XXII -(Re)leituras - The Civil War Diary of Emma Simpson, de Barry Denenberg, por André Bandeira
11.6.09
XXI - (Re)leituras: o discurso do Cairo, por André Bandeira
Não. Osama não tirou o tapete a Obama. Não sabemos se Obama se foi apenas dirigir a uma das religiões que mais se expande no mundo, entre aqueles jovens que têm a riqueza enorme da sua juventude e que têm a vida e a Esperança do lado deles, mesmo quando estão a dormir. Mas o que ficou foi apenas esperança, espelhada no rosto de um homem bem intencionado. Mas Deus: Tu conheces o nosso coração.Então temos uma certeza: Deus tem Conhecimento.
31.5.09
XX - (Re)leituras -- l'Organizatsiya, de Alain Lallemand, por André Bandeira
O livro retrata um fenómeno muito grave que é a Máfia de Leste. Com a Rússia tão grande que é mais asiática que europeia e sempre fora da Europa, a História dum horizonte mais luminoso em que as candeias são muitas vezes alimentadas com o sêbo de milhões de cadáveres, parece ter silenciado. A Máfia russa representa o regresso a formas arcaicas de sociedade, que perduram. A Máfia russa é um facto e, em Nova York, no fim dos anos noventa fez um acordo com a Máfia italo-americana em que conquistou 25% do mercado mundial. Além dos ramos tradicionais da prostituição, tráfico de estupefacientes, contrafacção, falsificação e jogo, a Máfia Russa (que é constituída por várias associações bem diferentes entre si)dedicou-se também ao tráfico do petróleo que implica um mecanismo industrial e financeiro complexo. A primeira lição que se retia da Máfia russa é a de que ela medrou bem durante o Comunismo, graças à corrupção congénita do sistema e às necessidades duma população que não era satisfeita pela economia soviética, a qual, por sua vez, não se conseguia isolar inteiramente do Mundo. A segunda lição é que ela é protagonizada por pessoas muitas delas de origem judia, não praticantes da fé hebraica, que beneficiaram duma certa marginalização a que também os comunistas soviéticos as votaram, tendo sido, nomeadamente os primeiros a aproveitarem a porta de emigração aberta por Moscovo, nos anos oitenta. Mas atenção: a máfia russa não é nem de longe maioritariamente judia. A Máfia russa assenta as suas raízes mais recentes na resistência russa ao comunismo e envolve regiões inteiras da antiga URSS e do Pacto de Varsóvia. Os seus chefes, os "zighani" eram russos brancos ou moderados que não aceitaram os bolcheviques. A massa social da máfia russa os "ukzi", formaram nessa altura a sua mentalidade com princípios básicos de auxílio mútuo e rebeldia como a de nunca poderem casar nem prestar serviço militar sob que estrutura fosse. A enorme "noite comunista" de prisões e campos de concentração chegou para cimentar esta solidariedade, originada no romantismo europeu mas também no anarquismo russo e estabeleceu uma hierarquia férrea. Uma recolha minuciosa da sua «linguagem corporal», as tatuagens, revela uma ligação muito grande à religião, mas apenas enquanto ideologia oposta à do comunismo. O uso frequente a palavra "svoboda" (liberdade) não tem mais valor que as vezes que o termo "Freiheit" aparece nos discursos de Goebbels. Depois de ler este bom relato sobre os feitos duma Máfia, afinal tão cruel ou implacável como as outras, mas evolvendo populações mais vastas, percebo o que há de satânico na mesma, embora sem lhe achar novidade. Gaahl, o satanista norueguês do Heavy Metal, tem a noção clara de que conseguiu furar o sistema penal norueguês, torturar um indivíduo durante seis horas e levar uma pena pequena que só lhe granjeou popularidade musical. A Máfia russa é mais séria e mais social mas ambas têm a noção bem clara e desperta de que um crime violento cometido com determinação, no Mundo actual, acaba por ditar a lei e, portanto,compensa.
24.5.09
XIX - (Re)leituras -- O Heavy Metal, por André Bandeira
Saltemos para a Noruega. Ghal, o mítico líder dos Gorgoroth vive isolado no país do Inverno. Em tom de queixa diz que andou até aos dezoito anos numa escola local,em que os únicos alunos eram ele e mais um colega. Leva os repórteres por um caminho difícil até um cabana na montanha, sempre nevada, de madeira cinzenta pelas intempéries, de aspecto mais desolador que aterrador. Ghal inspira medo a toda a gente, pois foi acusado de torturar um outro indivíduo durante seis horas e beber-lhe o sangue, ou obrigar o próprio a bebê-lo. Um dos seus correlegionários diz que a diferença dos Gorgoroth é que querem genuinamente espalhar a «palavra de satanás».Ghal passou uns anos na cadeia que o levaram a interromper o curso de Pintura, mostrando algumas telas mal pintadas, com temas em que o sangue e a violência são apenas espelho de uma existência desolada. Interrogado sobre o crime que cometeu diz o que lhe disse o advogado (foi legítima defesa) e que «é como uma tela, quando se começa tem de se ir até ao fim». Arvora-se em missionário do anti-cristianismo, diz que se deve confiar tudo à Natureza «que sempre flui», satisfazendo-se com esta máxima superficial e, depois de o ilustrar com a cabana no cimo da montanha, fala no Super-Homem e no único deus que existe (por oposição àquele que nos está sempre a dizer que «não devemos fazer isto» ou que «devemos fazer aqueloutro») e que é o nosso deus interior. Ghal, que soa mais ou menos a «maluco» em norueguês, tem uma cara realmente vertiginosa como um fiorde visto duma ressaca, mas no fundo, os seus silêncios, as suas ideias de pacotilha e os seus maus quadros (com a excepção de um desenho de um rapaz nu)não passa de um criminosozito juvenil que o sistema noruguês tratou demasiado bem. Entretanto, tem o Heavy Metal para expandir na zona do Báltico e na Europa do Norte, todas as frustrações que não conseguiu vencer, por ter esperado até aos 18 anos para sair de uma zona despovoada onde o peso do Estado social não estimulou essa calor humano face aos elementos que, em tempos, caracterizava a gente da Europa do Norte.
Em conclusão, o que há de satânico, nestes dois casos, é a nossa incompetência, disfarçada de mentira e irresponsabilidade: dum lado, uma Guerra que se perpetuou graças ao racismo contra a cultura árabe. Do outro, uma teatrada de terror de série B, que já ninguém teve força (senão um Polícia noruguês que contou a história toda e levou a investigação até ao fim)para proibir sob um regulamento mais ou menos assim: festas e celebrações, só aos domingos e nos termos da lei.Satânico é o disparate que perdura e que, por lassidão ou covardia, não queremos corrigir, tornando-se com o tempo-- e apesar de todos saberem que é um disparate completo -- algo real, duma realidade distorcida em que já nada direito parece correcto.
12.5.09
XVIII - (Re)leituras) - Santo António de Lisboa, o Santo de Pádua, de Franchetti Ferrante, por André Bandeira
24.4.09
XVII (Re)leituras -- Diário da Alma, de João XXIII, por André Bandeira
Mas o que é bom no livro, é que o que de espiritual lá está, salva tudo o resto. O Papa João XXIII, o do Concílio Vaticano II, teve muitos dias de sofrimento e de inspiração, teve muitos mesmo e pôde deixar-nos escrito o seu testemunho. Uma coisa que se aprende com o livro é que este Papa teve a enorme vitória de pecar muito pouco, graças a uma disciplina, graças ao Amor a essa imagem viva que chamava Jesus e Maria, contando talvez com uma família amorosa e solidária, que permaneceu pobre mas com Esperança.Penso que morreu em paz,tendo perservado essa herança de amor às pessoas, à sua família, à sua terra e a toda a Humanidade que considerava desde muito pequeno, como a coisa mais preciosa a perservar. Outro aspecto importante do livro é que nada desta sua proeza se conseguiu sem uma enorme força e dolorosas renúncias. Apesar de tudo, Deus parece ter-lhe dado a Graça de não ter sido muito tentado, de não ter caído em transes dum desalento infame ou de uma turbulência louca, como acontece até às vezes com alguns Santos. Foi um Papa suave, certamente muito dorido com trabalhos mas pouco assaltado pela dúvida. Do que nos ensina, resulta talvez mais clara a ideia de que quando temos a Graça de fazer o que devemos, a integridade do Bem é tão cósmica que esperar reconhecimento em vida, seria a mesma coisa que gravar um disco com os sons do Espaço ou tentar fazer montanhas russas movidas à velocidade da Luz, nas Feiras populares. Como aguentar esta desesperança de ser compreendido, não é fácil. João XXIII citava o Santo Cura de Ars, esse santo tão forte: quem diz mal de ti é teu amigo, quem diz bem, não é. Por fim recordo-me de uma coisa bonita deste Papa que foi diplomata de profissão, apesar de ter duas mudas de roupa: dizia que sofria muito na Grécia, onde as pessoas são tão belas e fascinantes mas adorava o povo turco, que nem era cristão e ficava às vezes a contemplar o Bósforo, onde os pescadores turcos juntavam os barcos de noite, com candeias, para pescarem atum em grande algazarra. Neste fogo nocturno, da Humanidade que se entreajuda, o solitário barrigudo, ficava a olhar sózinho, no intervalo dos trabalhos a que chamava repouso nocturno, com o seu sorriso de menino pobre italiano, que era demasiado tímido, ou gordo para participar na brincadeira, mas a quem os olhos se alumiavam com este milagre que é ter uma vez existido.
16.4.09
XVI - (Re)leituras: From Recession to Recovery: How soon and how strong? do FMI, por André Bandeira
Dois ou três pontos interessantes: a crise é pior do que a de 1929, na medida em que o sistema financeiro mundial está todo interligado. Tal quer dizer que as indústrias que não dependem muito do crédito mas sim da procura externa, ou arranjam clientes em Marte, ou não vão ser excepção. Estas indústrias são aquelas que produzem bens altamente vendáveis, fluídos,completos, destinados a satisfazer a nossa sêde, como computadores. Mas Marte parece que já tem água, continuando sem Internet. Segundo aspecto: a crise já estava aí, ao longo de 2008, e, em Portugal, na segunda metade. Terceiro: se, em 1929, se podia adivinhar o que ia acontecer, pelas restrições ao crédito antes da crise rebentar, o mal não está na restrição mas na febre avassaladora da corrida ao crédito. Quarto: a política de redução fiscal não tem grandes efeitos em aumentar o consumo privado, se o Estado está muito endividado, aparentemente porque a Sociedade, que concede crédito ao Estado, não se fia das benesses ou confianças desse grande gastador e começa a poupar ainda mais, se o Estado lhe deixa mais algum. Portanto, parece que o grande arrepio de frio de não gastar um tostão e de cortar nas despesas todas vai ser um sentimento geral, mesmo que o Estado, gastando mais e endividando-se graças ao seu bom nome, decida gastar mais, para estimular a Economia e manter os preços a um nível em que mereça a pena ser-se vendedor. Em suma: o excesso de financiamento, em vez de «febres produtivas»,destinava-se a juntar o mais rapidamente possível, um conjunto de liquidez, em vez de juntar as paredes duma casa, ou as peças duma máquina. Isto provocou um tal sentimento de culpa, que nem no Estado se confia. E eu acrescento: na nossa carteira já não está recheada só com poupança. Vamos procurar outras coisas para os dias de chuva. Não sei quais, mas esta procura, esgravatando no chão, mete-me medo pois o que passa a ser considerado valioso deixa de ser discutido em público. Em vez do segredo ser a alma do negócio, o negócio passará a ser a alma do segredo. O Estado tem uma grande carteira e os bens que decidir lá colocar não podem ser só bens de consumo. o Estado tem, agora, nos seus gastos, de ter um sentido visionário, tem de apontar para novos valores, para novos monumentos, à sombra dos quais morreremos e os filhos dos nossos filhos brincarão. Se o Estado não o fizer, a Sociedade terá de o fazer, mesmo contra o Estado. Os tempos vão ser de gastar forças para criar, ou não serão sequer tempos, mas apenas abismos.
13.4.09
XV - (Re)Leituras -- The UN Security Council and the Politics of International Authority, editado por Bruce Cronin e Ian Hurd, por André Bandeira
Cabe neste modelo moral, o direito a intervir à força em países, como o Iraque de Saddam, para sustentar os Direitos Humanos, ou secar o mar da Somália para acabar com os piratas, ou invadir o Paquistão para acabar com os terroristas que se reclamam do Islão? Todas estas questões eram tão legítimas como aquelas que a Sociedade das Nações nem sequer conseguiu formular ante a Alemanha Nazi, a Rússia Soviética, a Itália invasora da Abissínia e o Japão invasor da China. Eu penso que não, por uma razão complexa que reza assim: se a minha verdade (Lei internacional) é apenas particular, porque a Parte nasce antes do Todo, há partes mais diferentes do que eu poderei algum dia imaginar. Então, para ser justo, eu preciso de ter consciência do Todo. Mas Tudo saber é igual a tudo perdoar. Como nunca saberei tudo, terei de actuar (intervir), mesmo correndo o risco de ser injusto (provocar guerras). Mas quem me disse que devo actuar? Para fazer pior (acabar com regimes ditatoriais mas sustentar guerras sem fim)?! O que eu devo é extrair-me da minha ilusão do Todo, reconhecer a minha profunda ignorância e não pretender conquistar a Verdade. Extraindo-me do Todo, eu deixarei a Verdade, pelo menos, pura das minhas distorsões, não me confundirei com o Todo, ao qual pertenço (não farei a Lei substituir o Costume internacional). Como ensina a moderna Ciência atómica, afinal a Parte é um corredor para o Todo e é melhor que eu me concentre sobre o meu próprio Todo. Se um dia me dominar a mim próprio, já terei cumprido o meu destino histórico.Tudo o que eu disser será sempre parcial e, muitas vezes injusto. Quando muito poderei existir (inclusive defender o meu país no Estrangeiro), para que o meu Todo coexista com os outros Todos, porque as Partes, afinal, são muitos Todos, não há um único Todo e, se é assim, então, «Tudo» (e não Todo) são ligações que se religam quando parece que iam morrer (a Comunidade Internacional vai para além das Nações Unidas). Assim reza o credo pacifista: como podes desarmar o Mundo se não te desarmas primeiro (ou seja: deixa de actuar como se fosses o Centro do Mundo)?!O único Direito Humano é o Direito à Vida e estou certo que há uma forma das vidas todas poderem coexistir, apesar de tal ideia, em qualquer momento, parecer ilógica.Mas se a Vida fosse lógica, já a teríamos pisado por distracção.
Com isto, volto a entrar na máquina do Tempo e vou aparecer ao lado de Antero de Quental, em Angra do Heroísmo, quando ele se sentar no banco de jardim que tem «Esperança» escrito por trás e segurar-lhe com força a mão onde ele empunhou o revólver, dizendo-lhe:«Antero, não te mates. Nós precisamos muito mais de ti que do teu Amor e da tua Honra».
9.4.09
XIV - (Re)leituras -- Democracy's Good Name, de Michael Mandelbaum, por André Bandeira
7.4.09
XIII (Re)leituras: The Assault on Reason, de Al Gore, por André Bandeira
3.4.09
G 20 e a Avestruz
30.3.09
XII -(Re)leituras: Lutero e os Concílios, por André Bandeira
13.3.09
8.3.09
Rescaldo de Espinho!
É um filme político comum na nossa história. Por exemplo: Portugal venceu a Guerra Peninsular nos campos de batalha mas quando lhe pediram 15.000 homens para a campanha da Bélgica e de Waterloo, recusou-se e foi castigado no Congresso de Viena de 1815 pelas grandes potências.
Hoje os G20, onde Portugal não consta mas a Espanha sim, estão a impôr a hierarquia das potências. O que se esperava de Portugal é que se salientasse que a Europa se deveria apresentar a uma voz. Para isso tem softpower que chegue. Louçã cedeu ao caudilhismo ao dizer que «A política europeia é um vazio». Manuela Ferreira Leite deveria ter dito que "defender o interesse nacional" seria defender o Tratado de Lisboa. Perdemos oportunidade de marcar nas declarações e dar um empurrão à entalada presidencia checa. É muito mau! Erro gravíssimo, Da próxima, dirão que já nem precisam de nós lá.
1.12.08
XI - (Re) Leituras «La connaissance surnaturelle», de Simone Weil, (no Primeiro de Dezembro) por André Bandeira
Simone Weil morreu jovem pouco depois de lhe terem recusado, pela última vez, ser lançada de páraquedas em França, para se juntar à Resistência. Nestes seus escritos, os últimos no Sanatório onde morreu, Simone passa por todo o saber da Humanidade que ela, como judia que era, guardara na memória, na lenda, no rito e na Razão, na teima, na obsessão, no misticismo, acho que tão antigo como o tempo das cavernas. Com Simone sabe-se seguramente que a Memória da Humanidade é mais sapiente que a mais brilhante das descobertas da Física quântica sobre a estrutura do nosso cérebro. Mas também é mais indomável, esta sapiência que aparece e desaparece naquilo que dizemos ser «sensibilidade feminina», ou «visões». Ao longo do livro, Simone reconcilia-se com todos os traumas culturais do Mundo, inclusive, para ela, os alemães. Reconcilia-se à mesa, no Presépio, com alegria, como numa ceia de Natal. O cristianismo dela é genuíno, não é converso, mas é exigente, como um Evangelho que nasceu no Antigo Testamento. Por isso se revolta contra Moisés, por isso se perde de febre na busca de Jesus. Se Jesus esteve ao lado dela, nos lençóis febris daquele sanatório, não sei. Uma das suas últimas linhas fala de alguém que a queria visitar, apenas porque ela estava tão doente e tão sem ninguém. A sua última frase fala sobre a importância de Conhecer e a sua última palavra é «Enfermeiras», talvez referindo-se ao conhecimento em eterna presença que é o de tratar de doentes e irmanar-se com eles.
Hoje, por Portugal, um Nada que é Tudo, um Reverso inverso em Espada: talvez Portugal não seja nem o território, nem um certo número de cabeças, umas que riem, outras que choram. Talvez Portugal seja um «Rei», corporizado ou não em alguém, coroado ou não, decidido ou hesitante. Sim, Portugal é uma cabeça, humana, que alguns, muito poucos seguem, como quem segura um cadáver moribundo de alguém muito amado. E, seguindo-o, com o coração coladinho ao coração vacilante, como quem guarda um flor, ou um passarinho ferido. Compaixão? Não. Paixão.
Mia Rose
Ainda precisa de colocar a voz .. Mas em comparação com os êxitos em inglês - cheios de tiques de adolescente - ao pegar neste clássico de Rui Veloso, mostra que é um talento fantástico...!
21.11.08
Crise nas Universidades Públicas
O ministro Mariano Gago, admitiu que existem maus gestores nas universidades públicas. E logo a seguir acrescentou que confia na autonomia universitária.
A autonomia assenta em três pilares – o financiamento, a avaliação e uma realidade mais difícil de definir a que podemos chamar o carácter humanista do ensino e da investigação. Quanto ao financiamento do ensino superior público a despesa aumentou muito com a contribuição de 11% para a Segurança Social. Várias Universidades entraram em rotura financeira, situação que umas enfrentaram com reforços orçamentais e outras utilizando os saldos de receitas próprias. Mas como entre 2005 e 2008, as dotações diminuíram, em percentagem do PIB, cerca de 16%”, a situação é insustentável a médio prazo. Por isso, os ex-reitores escreveram ao órgãos do poder a apelar por uma revisão da actual política de financiamento.
Mas os ex-reitores não falam que a universidade que aspira à produção, transmissão ou a aquisição de um saber autónomo em relação ao poder e ao dinheiro tem que ser governada pela investigação da verdade mais do que pela utilidade. Tal é o núcleo vivo de qualquer universidade. Se este ideal universitário é obsoleto, deite-se fora e façam-se escolas superiores. Qualquer das 10 melhores universidades americanas tem um orçamento supeiror a duas vezes todo o orçamento do ministerio português do ensino superior. Mas a força das universidades americanas, para além dos seus meios financeiros, é que souberam favorecer a dimensão antiutilitária, interdisciplinar e humanista do saber.
9.11.08
A finalidade do Estado é a liberdade

Amsterdão vai homenagear um dos seus filhos mais famosos: o judeu lusodescendente Bento de Espinosa (1632-1677), filho de agricultores de Beja que escreveu que “A finalidade do Estado é a liberdade”. A frase estará no pedestal da estátua a inaugurar a 24 de Novembro, dia do aniversário, no Zwanenburgwal onde ele viveu. Mas Espinoza ainda causa controvérsia O mayor de Amsterdão, Cohen, quer fazer o filósofo tão emblemático de Amsterdão como Erasmo é de Roterdão.
O monumento por Nicolas Dings é uma representação em granito de um icosaedro - um globo de vinte triângulos idênticos que simbolize a idéia do universo como um modelo cuja forma é dada pelo intelecto humano. A representação figurativa de Spinoza tem uma capa decorada com pardais, periquitos e rosas. Os periquitos são os animais de estimação exóticos nas árvores de Amsterdão visto que o pardal holandês está a desparecer. Os pássaros são símbolos de Amsterdão como uma cidade emigrante. As raizes Portuguesas-Judaicas do filósofo fazem dele um imigrante.
As suas idéias na tolerância religiosa e de liberdade de expressão são mais relevantes agora do que nunca quando o medo do fanatismo islâmico e o terrorismo aumentam a pressão. De acordo com Espinoza, Deus não tem num plano, está na natureza, e a Bíblia foi feita poelos povo. No seu Tractatus Theologico-Politicus (1670) escreveu: “Amsterdão progride por tudo o que a liberdade pode dar. Aqui, povos de todos os credos vivem em paz.
8.11.08
X -(Re)Leituras: A Roménia depois de 1989, de Catherine Durandin e Zoe Petre, por André Bandeira
Passeando pelo centro de Bucareste, em campanha eleitoral, dou esmola a gente boa que muitas vezes vejo em Portugal nos trabalhos mais humildes e topo com menos cães vadios do que os milhares que andavam livremente antes do presidente Basescu, então na Câmara, os limpar. Lembro-me do Rei Miguel que conheci nos seus modos simples e na sua permanente postura de saber ser digno perante quem o vai trair, a qualquer momento e de qualquer lado, mesmo da família, talvez até vendendo cara a pele, e renovo o meu amor por esta terra. A Roménia ligada ao solo, triste e nevoenta, com sóis orientais que arranja formas por vezes tortuosas de sobreviver. Na realidade, a Roménia apenas parece triste, para quem deixou de ver que as terras e os países foram compostos de pessoas, sobretudo de pessoas e por pessoas, antes de tudo. E sinto, no peito, que esta terra, nos seus vales, nos seus vampiros, na sua ingenuidade, nos seus pavores, nos seus ciganos que amontam a metade da alma romena, nos seus Cárpatos,se trata apenas dum enorme tesouro, algures nas traseiras da minha casa, a qual, sem ela, parecia um precipício sobre o Mar.
27.10.08
Liza Veiga, uma estrela mal conhecida!
Em qualquer país do mundo, esta diva já estaria a actuar para multidões.
O album homónimo "Liza Veiga", vem da produtora Chiado Records produções ou NZ produções onde canta também os Beatles, Procol HArum, etc..
Se tivessemos uma politica cultural a sério seria apoiado
Parabens Liza ! Canta, até que a voz doa...:!
16.10.08
IX - (Re)leituras : Truman, de David McCullough, por André Bandeira
Qual é a principal qualidade de Truman, que era maçon, aceitou contribuições da Ku Klux Klan sem as assumir, decididu o lançamento de duas bombas atómicas mas proibiu a terceira e começou a sua carreira ligado à máfia irlandesa?
A principal qualidade de Truman, como o seu nome indica, foi o Trabalho. Sim, o seu nome diz "verdade" e a verdade na América da sua época, foi o Trabalho. Por isso, Truman era de Esquerda porque ninguém pode trabalhar como ele trabalhou e não deixar o coração, um pouco, nesse Moloch poderoso que é o Trabalho. Ora porque Moloch é um Titã, dos tempos arcaicos, só pode, como qualquer Titã, estar, à esquerda ou estar à direita, quer dizer, descentrado. Este Mmoloch está à esquerda, sendo irrelevante a posição de um gigante.
O mesmo se está a passar agora. O neto do movimento dos Direitos cívicos (quer dizer: anti-apartheid) que Truman institucionalizou vai provavelmente vencer as eleições norte-americanas, no mês que vem e é apenas a metade mais densa de uma mesma coisa, onde talvez a simples vantagem da juventude é decisiva.
Portanto, Obama é neto da bomba atómica e filho de J.F.Kennedy, o que significa que estamos ante uma linhagem de ferro, o ferro da espada.
Truman diz que a decisão que mais lhe custou a tomar foi a da Guerra da Coreia ( que inchou e queimou Mac Arthur) e não a da bomba atómica (que amaldiçoou o seu criador, Oppenheimer). Diz-se que a Coreia prolongou a fabulosa máquina industrial-militar( um Moloch) da América na Segunda Guerra Mundial, permitindo ao Democrata Truman cumprir o seu programa social de Esquerda. A bomba atómica foi apenas mais um golpe horrível e sabemos que os ataques convencionais, como o bombardeamento de Tóquio, deixaram tantos mortos quanto Hiroshima e Nagasaqui juntas, numa geurra horrível. A Coreia deu origem ao Vietname, e o Vietname, por sua vez, deu origem ao Terceiro-Mundismo de Chávez e Ahmenidejad.
Mas qual foi a qualidade de Truman, sem ser um Moloch? Truman resistiu a tudo e levou com tudo. O que fez durante oitenta e oito anos e oito meses foi ignorar a má-sorte. De facto, a sua asserção de que nunca teve má-sorte tem o eco duma bomba. Quer dizer: ele não teve sorte, nem boa, nem má.
Truman morreu depois de escorregar na banheira. Teve um acidente de trabalho.
E, por incrível que pareça, tendo sido um empresário falhado, duma linha de empresários falhados e passado para a política com uma "mão irlandesa", mesmo assim, fez rigorosamente o que é permitido fazer a um homem nesta era sêca como a lua: trabalhou continuamente. E, nessa indiferença à Fealadade do Mundo -- da qual foi também um personagem -- Truman tem todo o mérito.
11.10.08
Escutar Marcos Portugal
Do Blog A Biblioteca do Jacinto
http://abibliotecadejacinto.blogspot.com/2008/09/amrica-antiga-2.html
9.10.08
VIII - (Re)leituras -- Bosquejo de Europa, de Salvador de Madariaga, por André Bandeira
Madariga, que escrevia do México, em 1951, altura do bem sucedido desenvolvimentismo franquista, tem humor, elegância, imaginação europeia. É culto, informado e veraz. Certamente que, num salão europeu, arrancaria uns suspiros e fixaria uns olhares da carneiro-mal-morto de algumas europeias. Não sei se durariam o tempo da Melanie Grifith e do António Banderas, mas, nesse tempo, não se conhecia o divórcio.
Enfim, também nos vem com um esclarecimento, útil de reler, porque já nos esquecíamos: a América Latina não é Hispano-América por causa do Brasil, e não é Ibero-América por causa do Haiti.
No meio de tanto "mikado", lá vou retirando as varinhas e fico com a ideia de que os seres humanos se fixam em vários pontos da terra, outras vezes imigram e vão ficando mais ou menos isolados, mais ou menos miscigenados. Isto não que dizer que tudo é uma misturada. Quer dizer que nada é definitivamente de ninguém. No fundo, o que Salvador de Madariaga diz é que a Europa na sua diversidade, é ainda muito dominadora.
Salvador de Madariga é, claro, um percursor da União Europeia, mas a sua "Hispânia" altaneira e esperta, é tão neurótica quanto muitos europeus. Ora Portugal, ainda tem um Império para velar, porque Tristeza tem-na muita, vinda de não se sabe de onde, vinda de não sei quando, mas neurótico, Portugal não quer ser. Nem que, para isso, se meta a bóiar num deserto azul, martelado pelo Sol.
3.10.08
Uns e Outros

A recente decisão do General Ramalho Eanes de abdicar de receber os retroactivos a que tem direito (num valor total de cerca de um milhão e trezentos mil euros) e que os Tribunais entenderem serem-lhe devidos pelas suas pensões públicas é mais um exemplo que ele nos dá de que um povo é uma comunidade de iguais e de desiguais. O acto do General Eanes contrasta com os dos 3200 pobrezinhos que receberam casas no Lisboagate desde que o vereador Pedro Feist começou o bodo, desde o tempo do eng.º Abecasis e que atravessou qual Bloco de Cimento de Esquerda e Direita das Casinhas. O acto do General explica algum ostracismo que lhe vota boa parte da classe política e banqueira. E merecia um acto de Homenagem, uma manifestação pública de apreço. Eu começo por aqui. E se continuarmos com outras pessoas e noutros lugares, algo de bom poderá sair.
15.9.08
II- Apontamentos de Viagem, por André Bandeira
1 -- Em Sesimbra, o cigano sem mão, tentou delicadamente vender-me uma t-shirt ( eu já tinha comprado uma, sem noção de que o côr-de-laranja vivo faz em mim uma espécie de efeito de recusa do envelhecimento). Ele, o ciganito, que no ano passado vendia tudo com um silêncio trágico, entre as mulheres, faz agora um esforço por vender mais.Sei que a compra e venda são também uma informação sagrada entre os intervenientes e ele pergunta-me/avisa-me de algo.
2 -- De novo contra a parede quente da fortaleza de Sesimbra, recupero forças, reponho os ossos, respiro fundo e distendo os nós do peito. Num encontro com esse Grande Homem que se chama Fernando Nobre, encontro uma via estranha que reza assim: juntar todos os medos, desesperos e angústias entre o diafragma e o coração. Depois é só empurrá-los, que eles caiem como uma garrafa mal equilibrada.E penso nisto passeando no jardim que Fernando Nobre acumulou no claustro interno da AMI, semeado pela mão dele, trazida dos quatro cantos do Mundo, esquecendo-me de dizer a este Homem alquebrado pelo fardo do Mundo, que aquele jardim se parece com o interior dele.
3 -- Tenho medo de visitar os meus amigos. Tenho medo de lhes mostrar o que ganho, no rosto, ante os apêrtos e angústias do mês que lhes turvam o deles.Tenho medo de não ter dinheiro para lhes emprestar, o dinheiro que eles não pedem, em carência surda. As moças vêem que vivo fora e enlevam-se de suspiros que são apenas o apelo básico a que o homem ajude a mulher, veículo de vida, a fugir da miséria. Parece que toda a juventude se prepara para partir.
4 - Conheço dois jovens realistas, o João e o Duarte. Um, corajoso e elegante, outro duro e atento. Na noite ouço-os falar e fico com Esperança. Poderá ser? Pprefiro imaginar, que, com estes, morreria em combate...
5 -- Falo com o Francisco, mendigo à beira da Basílica da Estrêla, com o seu ar humilde, limpo e amparado por Deus. Francisco foi durante muitos anos trabalhador hoteleiro, nomeadamente "garçon" na Tentadora, de Campo de Ourique. Tem 44 operações no corpo ( câncer nos intestinos) o que não o impediu de trabalhar, mas agora, uma obstrução em 70% da aorta, deixou-o a vegetar, com trinta anos de trabalho, a 200 Euros ao mês. Procura um quarto térreo, melhor para um doente cardíaco e telefono para um número, em Campo de Ourique, onde dizem que só aceitam estudantes. Ao cabo dumas palavras trocadas, o proprietário diz que não tem "racismos" e aceita falar com ele. Muito sofre este portalegrense, até quando diz com um certa vergonha que outro mendigo, africano, consegue ter o quarto pago enquanto ele, com o seu ar limpo e humilde, talvez seja demasiado verdade, para que as pessoas a possam suportar. Guardo o seu número, sempre sem crédito: 932422963.
6 -- Corro o país, sem medo dos assaltos. O meu carro é velho, o meu ar é irrelevante. Abro as mãos para o brilho dos Jerónimos, coíbo-me de fazer a saudação romana, ao Sol, ao mendigo Camões, pois - por milagre -- os meus olhos dão com um pobre mendigo negro estendido no chão, a quem sinto um impulso enorme de beijar a testa branca e enrugada.À porta de outra igreja encontro um mendigo jovem, português e pergunto-lhe se dormiu na rua. Ele diz-me docemente, sem me pedir nada: tenho problemas, prefiro não falar. Dou-lhe apenas uma leve palmada no ombro e ele aceita, sem mais, com gratidão.
7 -- Janto com a minha amiga Ana e temos a bênção de passear nas Azenhas do Mar. Somos remediados, com grandes fardos às costas. A Ana tem sempre tempo para os outros ( fôssemos Francisco e Clara!). Percebo bem o que o meu irmão me disse uma vez: ela veio cá um dia. Se ficasse mais um, apaixonava-me por ela. E, contudo, nunca seremos senão gratificados pelo amor não correspondido... porque Deus, o Misericordioso, assim quis. Amparar-nos-emos.
8 -- Vou a Fátima. Rezo por todos. Saio da Cova da Iria com a imagem negra e perplexa dessa Mulher grega que conheci. Penso que a irresolução da minha oração, é porque ela é apenas um egoísmo meu. Mesmo assim dá-me força pensar nela, pensar que Deus deu ao Mundo muita Beleza, até aquela que não é esbelta, só para que percebêssemos, que é entre as brechas do caminho pedregoso onde, de repente, se levanta o Templo luminoso de Jerusalém.
8.9.08
Uma Carta para o arraial do barrete frígio, por Manuel Alves
por Manuel Alves
Sob o título "Aos Republicanos", o historiador João Medina publicou em tempos
no Jornal de Letras, uma Carta que julgo deve merecer a atenção de todos
os que, como eu, entendem que a Instituição Real é a que melhor pode
servir na Suprema Magistratura de um Estado verdadeiramente republicano e
português.
Pedindo perdão aos seus "compatriotas de barrete frígio", João Medina vem
dizer "com franqueza e sem quaisquer intuitos de desafio ou provocação, a
dois anos do centenário da data da implantação da I República", "em termos
simples, cordatos e benévolos": "... não creio que valha a pena preparar,
oficialmente, ou mesmo em meios académicos, a celebração dum mau defunto
que foi esse regime de década e meia de vigência atarantada, e que, bem
feitas as contas, teve nada menos do que 47 governos que a desgovernaram
por trancos e barrancos (...) de atribuladíssima e caótica duração, com
muitas bernardas castrenses de permeio, sedições várias, tumultos
constantes e quase sempre mais ou menos sangrentos, de atropelos à
legalidade e ditaduras disfarçadas ou às escancaras, sem falar da Ditadura
das Urnas, com o 'partido democrático' do dr. Afonso Costa (aquele homem
de Direito que foi uma vez ao Porto, em 1902, com uma soqueira, para
agredir à traição o Sampaio Bruno), mais uma participação em tudo funesta
e catastrófica nos conflitos europeu e africano, e, por fim, uma degola
que nos privou da Liberdade, com certa lógica fatal depois de tanta
bagunça, desassossego, insensatez política e falta de implementação mínima
dum regime sério de Cidadania, Educação generalizada ou Progresso
material, porquanto nem se educou o povo, nem se fez de cada português um
cidadão livre, nem se melhorou a vida dos portugueses".
A concluir, João Medina lança aos correligionários algumas perguntas: "Em
2010 vamos, em suma, celebrar o quê? O começo dum erro imenso e desastroso
para o país que somos? A nova versão da comédia offenbaquiana da monarquia
constitucional, agora em versão sanguinolenta? (...) Não seria melhor, em
vez de celebrarmos o 5 de Outubro, rezarmos-lhe um responso (laico) pela
pobre alma penada que ele foi? Antes isso do que comemorar uma República
sem republicanos, como a nossa é."
Fazemos nossas as palavras citadas do seu balanço da I República, mas
acrescentamos ao desalento das suas interrogações finais: se o que é
nefasto não se celebra, pode no entanto ser comemorado com a História
diante dos olhos, como aliás o historiador, o ensaísta, e Professor
Catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa, acaba de fazer nos trechos
que escolhi desta Carta. Como deixou escrito D. Jerónimo Osório, nas
vésperas do nefasto 1580, "A História é proveitosa para adquirir
prudência, poderosa para despertar virtudes, saudável para sanear as
feridas da República".
5.9.08
Sarah Pallin
Answering John Eipper’s call for European perspectives on SP, I viewed her speech.
From 00.00 SP until 9:58, amid roars of applause, SP elaborates family values and presents her dear ones in a very moving way. She has a “celebrity” touch and she is emotionally persuasive. This mix of public and private issues is not palatable in any European nation, both for good and bad motives. So much family awareness would be misconstrued as a bridge to nepotism and “special interests” or protecting a dysfunctional family. On the other way, the energy she gets from family life is obvious and attuned to what is current in peripheral US regions.
14: 15 Attack on Obama as unqualified. Obama is about words. McCain is about deeds. This rethoric is useful but it may develop a blowback. SP has good words “for the common good”, and “against special interests”. Yet, a VP has much less executive power than the Governor of Alaska and no use for “veto powers”. Or is she considering the possibility of being President, just in case?
22:35. After a reference to “dangerous Foreign Powers” she (or the neocon text writer) absolutely misrepresented the latest crisis. “Russia wanted to intimidate Europe”; “Europe is at the mercy of foreign supplies”. In fact Russia is much more dependent upon UE machinery than UE is on Russian natural gas and oil, with the exception of Germany. She had not a single word for South America, Asia, and Africa. She is obviously ignorant on foreign policy.
She is immensely energetic, in all possible senses of the word, from supporting “drill” to being unbalanced. The sound-bite “The difference between a Hockey Mum and a Pit Bull is lipstick”. It sounds good for local politics. If you are behind McCain, it is an awful sound-bite. You would entrust her your dog, a babycare system, town government and, of course, Alaska; nuclear weapons, never. That said, and considering the contempt for current politicians, I think she will gain votes for the RP. Wolf Blitzer said that, exceptionally, her speech had 42 million viewers. I agree with Michael Sullivan that SP “electrifies people”; for the time being, not in the electric chair.
I have not yet seen Mc Cain’s speech but one thing is obvious. He will get votes by being presented as a moderate “patriot”, not a “nationalist”, which is the European profile of Sarah Pallin. Good electoral tactics!
2.9.08
1.9.08
Balanço sobre Solzhenitsyn - com vista para os acontecimentos da Geórgia
A maior parte destes comentários revelam mais sobre os respectivos autores do que sobre Solzhenitsyn. É a geo-ideologia de que Ocidente e democracia são sinónimos. ‘Ocidental’ aparentemente já não significa a tradição das clássicas Atenas e Roma e as religiões judaica e cristã.
Há aqui grandes equívocos. A começar com os mercados livres. Uma das medidas da liberdade de um mercado são os impostos. A taxa única do IRS na Rússia é de 13% , metade dos 25% dos E.U.A, e 1/3 dos mais de 40% da Europa continental. Quanto a cultura Pop, a Rússia tem em abundância, infelizmente.
Quanto aos comentários que desacreditam como inadequada a visão de Solzhenitsyn de uma “sociedade mais espiritual” e os seus julgamentos duros e antiquados “de nacionalista” que se parece com a propaganda soviética, são comentários de arrogantes mas atrasados mentais.
Reli o ensaio de Solzhenitsyn de 1995, The Russian Question at the End of the Twentieth Century. No livro Solzhenitsyn quase não se refere à religião que, sabemos, levava muito a sério. O que emerge é uma posição política extremamente simples e poderosa, idêntica à de Pat Buchanan, A Republic not an Empire, ou do libertário conservador Ron Paul, ou mesmo desse cowboy liberal William Ramsey Clark.
Solzhenitsyn ataca ferozmente trezentos anos de história russa. Só escapam a imperatriz Isabel, 1741-1762, e o Czar Alexandre III, 1881-1894. A coerência é evidente: opõr-se às aventuras imperiais a expensas da população russa. Antes de búlgaros, sérvios, Montenegrinos, seria melhor a Rússia pensar em Bielorussos e Ucranianos: a mão pesada do império privou-os de desenvolvimento cultural e espiritual; a tentativa da grande-Rússia prejudicou a Rússia. Aferrar-se ao império contribuiu para a extinção do povo.
Após o horror do comunismo, veio o caos relativo do post-Comunismo. O problema não é que a URSS quebrou – isso era inevitável. O problema real é que a dissolução ocorreu ao longo das fronterias leninistas. Em poucos dias, a Rússia perdeu 25 milhões de russos étnicos, 18% da nação, e o governo aceitou esta derrota.
O Leninismo criara as chamadas repúblicas Soviéticas, nacionalismos falsos que não correspondiam a realidades étnicas: Os Kazakhs são uma minoria numérica no Kazaquistão. A Ucrânia é uma colecção de antigas províncias russas (Kiev) e algumas ucranianas. Isto aconteceu quando a URSS foi dissolvida unilateralmente em Dezembro de 1991.
E esta é a chave da hostilidade ocidental para com Solzhenitsyn. O homem que ajudou o Ocidente a destruir o comunismo recusou dobrar o joelho às tentativas ocidentais de destruir a Rússia.
18.8.08
Saakashvili, criminoso de guerra e aventureiro tem ser julgado!
Boa parte do que se vê e ouve na comunicação social portuguesa sobre a Geórgia sofre da doença infantil do jornalismo: fontes viciadas; blogues políticos nem comento, porque não tenho tempo para ler.As fontes que interessam ( ocidentais em Moscovo) permitem traçar em 18 de Agosto um quadro fiel embora incompleto do que foi o conflito da Geórgia.
Centenas de cidadãos ossetos mortos (as reivindicações russas de milhares são exageradas), Tskhinvali em ruínas, centenas de soldados Georgianos mortos, forças armadas Georgianas destruídas, milhares de deslocados, o mundo em agitação, por causa das ambições pessoais de um cleptocrata asiático, Saakashvili, disfarçado de democrata ocidental.
http://www.militaryphotos.net/forums/showthread.php?t=139150&page=69
Analistas militares dizem que a guerra esteve tremida durante dois dias.. A Ossetia sul é separada da Rússia pelas cadeias de montanhas mais altas da Europa, e a única estrada atravessa o túnel vulnerável de Roki. Não havia força do exército do russo em Ossetia sul. Nenhuns tanques. Foram precisas 24 horas para mover os tanques através do túnel, enquanto Tskhinvali era pulverizada pelo bombardeamento em tapete Georgiano e o exército Georgiano ocupava toda a região. A força aérea Georgiana tem alguns Su-25 aviões de ataque ao solo similares ao A-10 com quatro toneladas de bombas. Poderiam ter tapado a entrada ao túnel de Roki durante dois dias antes dos russos estabelecerem a superioridade aérea. Mas a estupidez, ou erro estratégico, ditou a vitória russa.
No primeiro dia do conflito, o exército Georgiano controlou quase todo a Ossetia sul, e defendia-se o sufiiente para abater quatro aviões russos. Mas os Georgianos nem tentaram obstruir o túnel de Roki. Se quisessem ganhar, concentrariam os esforços em capturar ou obstruir a entrada ao túnel, em vez de destruir Tsinkhvali. " A menos que os oficiais sejam recrutados em hospitais pisquiátricos, nunca poderiam pensar em manter o território que conquistaram. Não se sabe porque iniciaram a invasão, mas não queriam conquistar a Ossetia."
Diz-se que a Geórgia atacou a Rússia para captar simpatia ocidental e entrar para a OTAN. Saakashvili (a) pensou que os E.U.A. se apressariam a ajudar; e (b) pensou que pôderia vencer. Há uma opinião geral que o ataque foi muito estúpido. Os E.U.A. não têm força na região; levariam semanas a mobilizar e já estão presos no Iraque e no Afeganistão"
A outra teoria, que Saakashvili pensou na vitória é mais crível e mostra aventureirismo.
A explicação real é a fragilidade de Saakashvili. Quase foi corrido do poder no Outono de 2007. Aguenta-se com o apoio de algumas cliques neoconservadoras norte americanas, cada vesz mais isoladas. A sua reivindicação principal é que só ele é respeitado no Ocidente. A sua propaganda é, que se for corrido, o Ocidente não apoiará a Geórgia contra os russos. Tal como os generais argentinos com as Malvinas, fugiu para a frente, para uma aventura militar. Os Georgianos odeiam-no pelas suas provocações. " É um outro incidente de Khurcha [onde as forças Georgianas metralharamum autocarro cheio de eleitores na frente das câmaras de televisão no dia de eleição mas à escala internacional.
http://www.geotimes.ge/index.php?m=home&newsid=11796,
Agora que morreram centenas de soldados Georgianos e já não existe a maioria do equipamento e da infra-estrutura militares, a Geórgia depende mesmo do Ocidente! Mas a Rússia é o maior parceiro comercial; e onde vive 20% da população. Saakashvili tem de ser preso, julgado por um tribunal internacional e deixar que georgianos e russos façam a paz, consolidada em inúmeros interesses comuns.
9.8.08
Silly Season II
7.8.08
I - Apontamentos, por André Bandeira
2 - Na Missa tardia onde vou, há de tudo, claro, à entrada da Igreja acompanhando os passos de Jesus que cai e, muitas vezes, tenho de combater os pensamentos maliciosos ou atrevidos que me mordem como moscas. Reconheço que clips, videos, notícias, revistas e até livros fizeram em torno de nós, como que um "esqueleto nervoso" que se articula quando julgamos dominar-nos completamente. Não é nossa culpa mas não podemos ignorar. Tudo me é lícito, dizia S. Paulo. Mas nem tudo me convém...
3 -- À entrada da Missa tardia onde chego atrasado, segue uma mulher à frente e outra atrás. Dizem que a missa é lugar de mulheres. Eu sou responsável por uma e também por uma menina que o será, um dia. Num relance, tento perceber: a mulher da frente é uma belga que deve ter sido bonita, em tempos, guardou um toque "hippie" na sua clareza. A de trás é escura, emigrante. Refulge o seu olhar de marfim na sombra de ébano, com o brilho de medo rasando em volta. Lembro-me então: na missa se acolhe uma grande fragilidade humana, como nas horas de visita de um hospital e estas duas mulheres lembram-me que é grande fragilidade, desde tempos imemoriais, transportar dentro delas, esta casquinha de noz no oceano do universo, a que chamamos vida.
4 -- Relembro as mulheres orgulhosas, violentas, das ruas da minha civilização, mas não quero criticar, pois o mundo já está tão cheio de lágrimas. Lembro-me das pobres mulheres de Mogadischiu que estavam a varrer a rua, quando uma bomba as atingiu. Não faço raciocínios fáceis sobre quem pôs lá a bomba, nem tão-pouco, teorias da conspiração. Não há de certeza nenhuma crença que justifique a violência sobre esta coisa tão frágil que é a vida, sobretudo a vida destas pobres mulheres miseráveis que varriam a rua para ganhar uns tostões que uma Organizaçao internacional lhes oferecera.
5 -- Ouço o meu coração a bater, à noite, na solidão, como se tivesse um animalzinho aninhado ao peito. Parece que ele já não corre muito bem, como dantes usava correr. Lembro-me de um chavão: de tanto bater, um dia parou. Um coração a bater num ponto qualquer do Universo, que coisa tão frágil! Está certo que olhe para o chão, mesmo quando vou com pressa, para não pisar um insecto, fugindo em ziguezague à minha frente.
6.8.08
31.7.08
1º Master de Verão em Política

Foi concluído com êxito o 1º Master de Verão em Política do Instituto da Democracia Portuguesa.
Alguns resultados podem ver-se aqui.
O proximo MAster deverá ter como exórdio a personalidade de Salgueiro Maia como me lembraram hoje:
"Aquele que na hora da vitória
Respeitou o vencido
Aquele que deu tudo e não pediu a paga
Aquele que na hora da ganância
Perdeu o apetite
Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com a sua ignorância ou o vício
Aquele que foi "fiel à palavra dada e ideia tida"
Com antes dele mas também por ele
Pessoa disse"
Sofia Mello Breyner
23.7.08
Capitão Ahab

A disciplina de Relações Internacionais ameaça tornar-se a preferida do Conselheiro Acácio.
A enorme massa de platitudes que infesta as revistas de geopolítica, relações internacionais e ciência politica, algumas transexuadas de jornalismo, é de fazer vómitos. Os ditos especialistas que se colocam em biquinhos dos pés para nos recitar como vai o mundo desde Vestefália e qual vai ser o próximo espirro de Condoleeza Rice ou o traque do novo senhor do Kremlin, são de enjoar; a suficiência bronca com que nos debitam cenários que nunca acontecem fora da cabeça deles, e de mais alguns centos de fotocópias da Universidade de Georgetown, é assustadora.
Para variar radicalmente gostaria de trazer o que ainda não vi nenhum embora decerto que uma pesquisa google o faça aparecer de tal modo é óbvio; ter modelos literários para analisar as relações internacionais.
O que me fez pensar nisso é o paralelo entre Moby Dick e o Terrorrismo, entre o capitão Ahhab e George (vai-se embora) W. Bush.
São bem conhecidas as análises de como o romance Moby Dick significa a externalização do mal; converte-se o mal no absolutamente outro para que o eu seja o bem. E nesse processo o capitão Ahab ( um nome elementar, básico, bushiano) perde a alma, os seus marinherios perdem a vida e tudo termina numa enorme tragédia como os acontecimentos contemporâneos do baleeiro Essex que inspirou o grande escritor americano.
Esta simplicidade de que só os grandes escritores são capazes para sondar a alma humana é decisiva para analisar George W. Bush. È muito mais verosímil do que os supostos actores, agentes, entrosamentos, redes, factores do potencial, cenários, e muitos outros pluses e minuses do jargão das RI. Perceber que por detraá das grandes causas que arrastam o mundo também ( ou sobretudo, isso é para debate) existem as pequenas causas da personalidade humana que nasce e morre sozinha. Mas pelo meio vive em comunidade e é a esta que deve prestar contas. Moral: Ler Moby Dick é ler o maior fantasma jamais concebido pela alma americana que renasceu com George Bush, é ler como melville profeticamente sabiaA uma certa América que caminha para o fim do império como sucedeu a outros impérios criados “como quem os desdenha”, ou seja, by default.
17.7.08
Pontos e vírgulas
O grande polemista Karl Kraus escrevia muito sobre a correcção do alemão por volta de 1901. E um dia disseram-lhe. "Então o senhor escreve sobre onde colocar pontos e vírgulas enquanto Pequim está a arder. ?" Decerto adivinham a resposta: " Se colocassem os pontos e vírgulas no sítio certo, Pequim não estaria a arder." Posto isto entregaram a Casa dos Bicos à Fundação Saramago
15.7.08
Margarida vai à fonte...!

A 15 de Julho de 2007, António Costa era eleito presidente da Cãmara nas eleições intercalares na Câmara Municipal de Lisboa.
Um ano depois, Margarida Vila-Nova, Mandatária para a Juventude de António Costa, numa sessão organizada pelo PS Lisboa veio afirmar corajosamente que "NO PASA NADA". E que eco teve nos OCS ? Que eco não lhe deram ? Afinal a direita dos interesses aliada à esquerda das palavras de ordem trata bem dos seus arranjinhos. Nem a explosividade sensual- política de Vila-Nova arrebenta com isso.
Eu que modestamente andei fazendo campanha pelo PT e que aprendi o que tinha a aprender de campanhas, saúdo este gesto de Margarida e por mim dou-lhe eco.


