Se bem que se trate de um livro da Guerra Fria, estas são as Memórias da viúva de Anwar El-Sadate, Presidente do Egipto que foi metralhado durante uma parada militar pelos jihadistas, estando ao lado Hosni Mubarak, general da aviação, e que levou apenas um tiro na mão. O livro conta toda a História do Egipto dos pós-guerra e como um resistente independentista egípcio, simpatizante dos Alemães, filho de gente muito pobre, chegou a Presidente do Egipto, fazendo então a Paz com Israel. Claro que foi condenado à morte pelos radicais islâmicos. Para gerir a sociedade egípcia, não restava outra coisa a Sadate que a libertar, mais ou menos, tendo muitas vezes, para sobreviver fisicamente, que reprimir os radicais cristãos e islâmicos. Na República egípcia, saída do condomínio turco-franco-britânico, o «raïs» nomeava um Vice-Presidente quando se sentia que não chegaria ao fim. O «bey» turco nomeava um familiar. Mas as grandes convulsões eram geralmente anunciadas pelo ataque a uma igreja copta, cristã, como se se tratasse de um sacrifício ritual.
Se bem que a anglo-egípcia Jehane Sadate tivesse sido uma erupção da modernidade no Egipto, a modernidade, nas suas diversas formas, como as «rede sociais» e o «Twitter» não são suficientes para fazer uma Revolução (tendo em conta que a Revolução soviética,depois de sair de cena,transformou o feudalismo em capitalismo primitivo). Assim como a modernidade no Egipto se limitou a justificar a consolidação das facções sociais dum país ponto de passagem entre a Eurásia e a África, a modernidade, no Egipto, espreme mas não desinflama. Quanto mais agitação houver -- entende-se deste livro -- mais o Egipto fica surdo por uma inquietação cultural fundamental e passa de mediterrânico, a país africano, desta feita sob um vento oriental, do Índico. Jehane quer dizer «luz» em persa e Sadate foi o único que valeu ao escorraçado Xá do Irão, quando este ia morrendo pelas capitais ex-aliadas, fugindo a atentados constantes. O Xá do Irão fora o único na região que tivera a visão de apoiar a paz de Sadate com Israel, não por imposição de Washington (a qual lhe prendera e expulsara o pai) mas pelo equilíbrio interno. Ora o Amor de um egípcio é realmente persa, sendo que o Irão não é um país de passagem. O Irão é um país de chegada.
1.2.11
23.1.11
LXII - (Re)leituras -- Lincoln, a Novel, de Gore Vidal, por André Bandeira
Abraham Lincoln terá sido o maior Presidente dos Estados Unidos. E...uma Guerra é algo medonho. Nesta novela de Gore Vidal, que não deixa de ser uma interpretação da História, apesar de bem revista por um Historiador de Harvard, pode-se ver que Lincoln se tentou suicidar quando a mulher que amava, Ann Rutledge, morreu subitamente. Lincoln nunca mais exprimiu a dor, a não ser quando o seu filho Wille morreu e Lincoln lhe disse, as lágrimas pingando sobre o pequenino cadáver « Nós amávamos-te tanto!». A Guerra da Secessão foi a maior Guerra da História até à sua época. Mais de meio milhão de mortos.Foi uma guerra verdadeiramente civil, entre as metades de um Povo enamorado e entusiasmado por si mesmo e, dentro de cada metade, entre numerosas facções e, dentro de cada homem, entre várias ambições. Neste último aspecto, os Confederados foram mais unidos e os demónios da Ambição menos potentes.Por isso, nunca se poderá separaá-los da imagem benfazeja de «rebeldes». Lincoln não se suicidou por Amor, mas parte da sua consciência foi substituída pela Ambição de ser Presidente. Na sua Arte e no seu Destino, Lincoln governou como Luís XVI, a quem chamavam tonto. Ao contrário deste, só foi executado depois de cumprir a sua missão. Ao fim disto tudo, conclui-se algo: a população afro-americana e mestiça da América daquela altura, foi como que uma espécie de instrumento, que se pega de qualquer modo, no ardor da luta cega. Uma das cenas mais comoventes da novela é quando os negros que esperam um Lincoln nunca visto, no porto da capital confederada, Richmond, depois desta se render, lhe pedem humildemente para lhe apertar a mão, ou, demasiado tímidos, apenas tocar-lhe.Há uma outra História da dor, a História de Deus, que não cabe nos nosso capítulos. E, espantosamente, actores dessa História, coexistem sem se conhecerem: Lincoln e os Negros norte-americanos. Entre eles há uma grande equívoco: a Guerra. Corrijo: há também uma ligação indestrutível. Uma História de Dor e do Milagre, uma individual, outra colectiva.
18.1.11
LXI (Re)Leituras -- Os danados da Terra, de Frantz Fanon, por André Bandeira
Vai fazer cinquenta anos que este livro foi publicado. Redigido por um psiquiatra argelino, na fase final da Guerra da Argélia, é um manifesto político anti-colonialista, no decurso de uma Guerra que custou três milhões de mortos à Argélia, dezenas de milhares à França e vários milhares à Tunísia e a Marrocos. Quatro quintos do livro são os mais conhecidos: navegam nas águas turvas confluindo da incredulidade soviética quanto aos seus peões no Terceiro Mundo com a cobiça chinesa de os fazer seus. É um grande pastiche hegeliano, romântico, onde um europeu da periferia (naquela altura, mais longe que a periferia de Paris)flutua nas massas, as quais apontavam o caminho, como uma moça bem feita, desde que Ortega y Gasset as viu em esplendor solar nas praias da Andaluzia, em 1920. Mas o último quinto do livro é de um Médico que descreve casos clínicos de Guerra. Mensagem: evitar a Guerra a todo, todo o custo. Muito do que sofremos é infinitamente mais valioso que uma Guerra. Mas Frantz Fanon pode também ser lido como um autor que, há cinquenta anos, já sabia tudo o que de falso e postiço existiria no período post-colonial em África e descreve as situações sob o colonialismo de um modo exactamente igual a algumas reportagens que ouvimos hoje sobre o Norte de África. Mais: Frantz Fanon é considerado um dos iniciadores do Terceiro-mundismo. Se se substituir algumas palavras no seu sonho de uma terceira via, quase tudo podia ser dito por um islamista radical. E, contudo, ele é ateu. Para além do valor da prosa e das verdades que vai dizendo no meio de uma enxurrada romântica, bem europeia (faz lembrar Heinrich Heine, na Alemanha pós-napoleónica), Frantz Fanon fala das sombras interiores das pessoas, que a resistência anti-colonial não soube apagar e faz-nos lembrar -- com alguma alegria para o diagnóstico -- que essas sombras são muito mais vastas e antigas. Mais antigas e embrenhadas que as fronteiras ou o nosso domínio da História. Aceito, com ele, que a «Europa» massacrou milhões «por uma experiência espiritual». Exijo que se chegue a um resultado depois de se andar a experimentar, morrendo desolado. E a observância das Religiões não nos serve de desculpa. No Norte de África, como em outros sítios, as pessoas precisam de comer.
12.1.11
LX (Re)leituras - Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, por André Bandeira
Não gostei do Romance. Fiz um grande esforço para ler este capítulo único de 623 páginas. Estou farto de Riobaldo e, quanto à relação dele com Diadorim-Reinaldo.Dizer que Diadorim, afinal era uma mulher, a dez páginas do fim, não convence nem um ingénuo. Por outro lado, o tenente Euclides da Cunha, o autor de «Os Sertões (a campanha de Canudos)» relativo à Guerra movida pela República brasileira ao povo monárquico do Nordeste, no fim do Séc. XIX,era muito mais emotivo que Guimarães Rosa mas teve a enorme responsabilidade, e o feito, de salvar a honra do Povo do sertão. Morreu num duelo e, como o matemático Cauchy, foi genial, talvez porque o seu objecto -- como o de Cauchy -- ou sejam, Antônio Conselheiro e Canudos, foram de carne e osso, enquanto a jagunçada de Guimarães Rosa é pura fantasia. Concedo que Guimarães Rosa é autor de alguns dos melhores aforismos da Língua Portuguesa e todo o livro é engraçado, cheio de verdades e até de frases que foram merecidamente usadas no discurso oficial em Brasília. Mas este livro é todo um adiamento, e a celebração do não-importa-o-quê como revelação dos deuses,antes das botas cardadas de Estaline institucionalizarem o não-importa-o-quê como stress produtivo. É a modernidade por orgulho e vaidade, antes de passar a vício. Realmente o «Realismo fantástico» de Cortázar, Asturias, e Garcia Márquez corresponde ainda ao apodrecimento dos europeus nos trópicos do Novo Mundo, mesmo que Llosa apanhe os cacos e os ate todos com uma gravata de sêda. À falta de filósofos -- ou melhor: ante o desprezo destes -- arruma-se um xamã sincrético que é actor e Realizador do seu próprio filme, largando em transe, uma enxurrada verbal. Claro que muitas verdades e uma bela sinfonia, marcam a cena, mas Guimarães Rosa, pelo menos por aqui, não nos dá nenhum Pensamento. Só nos dá uma Mentalidade. Todo o Pensamento é relativo, mas não pode ser evitado num romance social e linguístico como é este. E não se pense que a ausência de Pensamento pode ser substituída pela verosimilhança de uma grande representação. Guimarães Rosa é um Actor. Uns dirão: actor da sua própria História. Como se a vastidão do Universo, em torno da História, para além do palco e das portas do Teatro, não tivesse consistência! Passemos ao seguinte, nesta linha de quem se diz preocupar com os outros, só para que desviemos a atenção de nós próprios, e vamos ver se é mais substancial: vou ler mais Leonardo Boff. E, sobretudo, vou ler Chico Xavier!
8.1.11
O caminho é servir !
Os escândalos de corrupção da 3ª República vão desaguar todos ao mesmo ponto ; a ausência de uma atitude de serviço. Não todos, mas um número suficientemente preocupante de influentes enriqueceram à margem da lei e, como agora sabemos, à nossa custa. Quando Cavaco Silva se afastou em 1995, é porque conhecia a gente intratável que tinha em seu redor; que agora queira regenerar a República com os poderes menores de Presidente é, pelo menos, estranho. Quando Guterres se afastou em 2002, por causa do “pântano”, é porque conhecia outros tantos animais políticos a chafurdarem à sua volta. Foi para um palco internacional.
A oligarquia do Bloco Central apoderou-se nos corredores do poder do agenciamento de negócios: a democracia portuguesa tem que se libertar dela e para isso só há um caminho, que é o caminho do rei. Queremos a monarquia, ou queremos dar um rei à república, porque o caminho do rei é servir, servir a pátria sem procurar nada para si. Queremos o caminho do rei, porque cada um de nós deve servir, sem ingenuidades nem contemplações para com os corruptos, e sabedor de que por cima das empresas, e dos indivíduos, temos de unir os interesses do Estado aos interesses da sociedade mediante o princípio monárquico que aponta para uma unidade de propósitos e um consenso sobre o futuro de todos os portugueses.
Para esta finalidade, as eleições presidenciais são secundárias e o alheamento que cresce em seu redor é significativo. É a falta de atitude de serviço revelado pelos políticos da 3ª República que leva à descrença generalizada neles, memos aos que procedem bem. Pelos mesmos motivos, existe um número crescente de monárquicos que se pretende abster, votar nulo ou branco, tal como existem muitos mais que preferem conscientemente votar pelo mal menor, ou escolher um candidato onde reconhecem a independência da sociedade civil. Porque acima dos partidos e das pessoas, os monárquicos seguem o caminho do rei, que é servir, ou seja, colocar a Pátria acima dos interesses particulares e colocar a democracia ao serviço do Povo…
A oligarquia do Bloco Central apoderou-se nos corredores do poder do agenciamento de negócios: a democracia portuguesa tem que se libertar dela e para isso só há um caminho, que é o caminho do rei. Queremos a monarquia, ou queremos dar um rei à república, porque o caminho do rei é servir, servir a pátria sem procurar nada para si. Queremos o caminho do rei, porque cada um de nós deve servir, sem ingenuidades nem contemplações para com os corruptos, e sabedor de que por cima das empresas, e dos indivíduos, temos de unir os interesses do Estado aos interesses da sociedade mediante o princípio monárquico que aponta para uma unidade de propósitos e um consenso sobre o futuro de todos os portugueses.
Para esta finalidade, as eleições presidenciais são secundárias e o alheamento que cresce em seu redor é significativo. É a falta de atitude de serviço revelado pelos políticos da 3ª República que leva à descrença generalizada neles, memos aos que procedem bem. Pelos mesmos motivos, existe um número crescente de monárquicos que se pretende abster, votar nulo ou branco, tal como existem muitos mais que preferem conscientemente votar pelo mal menor, ou escolher um candidato onde reconhecem a independência da sociedade civil. Porque acima dos partidos e das pessoas, os monárquicos seguem o caminho do rei, que é servir, ou seja, colocar a Pátria acima dos interesses particulares e colocar a democracia ao serviço do Povo…
26.12.10
IN MEMORIAM - Manuel Ivo Cruz
http://risco-continuo.blogs.sapo.pt/394257.html
IN MEMORIAM - Manuel Ivo Cruz - Risco Contínuo
risco-continuo.blogs.sapo.pt
Hoje, dia de Natal um amigo partiu. Conhecia-o há mais de 30 anos. Ultimamente apenas sabia notícias suas pelo telefone ou através de pessoas amigas. Data do passado dia 5 de Outubro a sua última aparição pública nos Paços do Concelho de Guimarães.
IN MEMORIAM - Manuel Ivo Cruz - Risco Contínuo
risco-continuo.blogs.sapo.pt
Hoje, dia de Natal um amigo partiu. Conhecia-o há mais de 30 anos. Ultimamente apenas sabia notícias suas pelo telefone ou através de pessoas amigas. Data do passado dia 5 de Outubro a sua última aparição pública nos Paços do Concelho de Guimarães.
1.12.10
Primeiro de Dezembro
Patria Mare
Haverá um Céu onde as Pátrias vão
Quando, velhinhas e cansadas, não
Retêm mais as águas e, sorridentes,
Fecham os olhos e a boca sem dentes?
Haverá nestas águas libertadas
De Oceanos, ilhas e enseadas
Um rumor de águas calmas, afinal
Que lave as feridas de Portugal?
Tudo é verdade, tudo está certo,
Nada tem forma, tudo é assim.
O cadáver jogado ao Mar aberto
Como um destroço, voga mansinho.
Nas águas calmas, do mar sem fim,
É ele ainda que indica o caminho.
Haverá um Céu onde as Pátrias vão
Quando, velhinhas e cansadas, não
Retêm mais as águas e, sorridentes,
Fecham os olhos e a boca sem dentes?
Haverá nestas águas libertadas
De Oceanos, ilhas e enseadas
Um rumor de águas calmas, afinal
Que lave as feridas de Portugal?
Tudo é verdade, tudo está certo,
Nada tem forma, tudo é assim.
O cadáver jogado ao Mar aberto
Como um destroço, voga mansinho.
Nas águas calmas, do mar sem fim,
É ele ainda que indica o caminho.
21.11.10
LIX - (Re) Leituras - A Escrita da Finitude, organização de Lélia Parreira Duarte, por André Bandeira
Esta colectânea de vinte autores foi-me oferecida pela organizadora, Professora da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. E foi no contexto de um colóquio sobre a Morte, com a presença dos sociólogos Michel Manffesoli e Moisés Martins. A morte não está na moda, mas está aí.Um shintoísta ou um budista tibetano sabem que dá sorte contemplar esqueletos ou ter mesas feitas com ossos. Quanto mais se contempla a morte, mais a vida se levanta da cama desalinhada da nossa mente e vai à vida. Mas quando a vida começa a ser mais recheada de «bem-estar» (ponho entre aspas porque os autores escolhidos, como Lobo Antunes, Autran Dourado, ou Jorge de Sena, não demonstram bem-estar nenhum) então tem-se que cuidar dos moribundos, dos velhos e dos aposentados que não querem morrer, siderados que estão no Bem-estar. Sobre a Morte, já se disse muito. Sobre a desgraça e a aflição diz-se pouco, porque não vendem nada e esta literatura da morte instila um certo bem-estar (os autores têm prazer a escrever sobre uma tema tão digno). Mas, em Política, eu tenho de dizer qualquer coisa: os anos sessenta deram o poder, no Ocidente, a muitos adolescentes que não saíram da adolescência. Talvez os adolescentes no Poder sejam aqueles que abrem as portas da cidade, aos bárbaros.E Santo Expedito, vestido de legionário romano, diz-nos com a cruz bem levantda na mão: «Hodie!», ou seja «É hoje!». As Esquerdas -- como estes textos, sobre a Morte, uma mistura de vidas introspectivas ou egocêntricas -- são uma série de Direitas mal realizadas. Ora a Vida -- dizia Bichat, o médico francês -- é o conjunto das forças todas que resistem à Morte, desde um copo de cachaça a uma Oração.Pois só me resta dizer algo contra esta -- muito bem organizada e refinada -- colectânea da indústria da Morte:quando se inventa um reino do outro lado do espelho, ou suspenso no vazio do precipício, esquece-se a hora que passa, cheia de minutos para preencher. Eu sei que é apenas Fé, mas é melhor uma Fé para juntar os ossos desconjuntados dos nossos sentidos, uma Fé ainda como acto de Vida e dizer aquilo que dizia o Evangelho: Oh Morte, onde está o teu Poder?!
14.11.10
LVIII (Re)leituras - Jean Monlevade, de Jairo Martins de Souza, por André Bandeira
Eis aqui um bom exemplo de literatura regional. Um município de 80.000 almas, perto de Belo Horizonte, tem o nome de um dos primeiros alunos da Escola Politécnica de Paris, que fundou a cidade: Jean Monlevade. Numa prosa cuidadosa e com um subliminar sentido de humor, o autor faz a arqueologia, direi, industrial, deste município brasileiro associado à siderurgia. Minas Gerais tem hoje uma das maiores taxas anuais de crescimento do Mundo e esse facto deve-se, também, à exportação do minério de ferro.Por isso mesmo, o romance, bem construído (talvez com pouca definição das personagens secundárias), faz uma arqueologia do futuro. Em termos científicos (que, devido à formação do autor, são também da História das Ciências)o livro permitiu-me constatar que há uma arqueologia industrial de futuros antigos, no interior do Brasil. Em termos morais, isso faz o autor achar engraçados alguns pormenores dum quotidiano, nomeadamente português, do passado do Brasil, que facilmente podem levar aquele, nadando no meio da corrente espessa da narrativa, a enfurecer-se com o seu próprio passado. É que um passado, que é apenas um futuro, e uma ideia de futuro, não é apenas um passado. É uma ideia que se revolta por não nascer. Mas o passado do Brasil é muito mais um ridículo D. João VI, desembarcando no Rio, com a mulher e a filha, piolhosas, do que um aluno do Politécnico de Paris, investido pessoalmente por Napoleão. No rei barrigudo português há já muito daquele passado mediterrânico e africano que foi construindo o Brasil, apesar de não ter a disciplina e a auto-flagelação de um sistema franco, comandado por um corso sem escrúpulos. Não nego a pluralidade das origens europeias que formaram o Brasil. Prefiro, contudo, pensar num Jean de Monlevade que fugia duma Europa, talada pela violência, pela purga e pela traição, e que pensava encontrar no Brasil uma harmonia entre a Razão e os seus bosques franceses do Antigo Regime, então fuzilados e guilhotinados pela modernidade. Veja-se a gravura da capa. O Porvir, ao contrário do Futuro, é uma mistura surpreendente do Passado e do Fututo.
4.11.10
LVII - Eta Mineiro...Jeito de Ser, de Olavo Romano, por André Bandeira
Este livro, do académico mineiro Olavo Romano, é uma chuva de Verão, em sentido de humor e perspicácia. O autor, tendo nascido em Morro de Ferro, no então remoto distrito de Oliveira, em Minas Gerais, trouxe consigo o tesouro da fala e da inteligência do Povo que o viu nascer. Os sessenta e seis textos são todos sábios e reais, sem excepção, mas o meu preferido é «O Elogio». Que os tropeções da reconversão do Português de Portugal, para o Português do Brasil, me vacinem contra fazer um discurso público, assim, algum dia. Mas pode ser que aconteça (espero bem que não). Este tipo de literatura, como a que Olavo Romano nos apresenta nesta colectânea de textos de outros volumes da sua Obra, têm o dom de nos ensinar e de nos divertir, chegando mesmo a dar-nos a sensação que o Mundo pode ser um lugar maravilhoso e que a Lógica e a Inteligência, correndo sempre duma fonte inesgotável, não se detêm em lado nenhum, aflorando quando menos se espera. Os textos fazem-me lembrar aquilo que Madonna, a cantora Rock, procurava quando lhe deu a fase, entre dois namorados novos e mais um programa de ginástica radical, de se virar para estudar a Cabala. No enxurro jornalístico que então expediu, disse-se que os cabalistas estudavam então qual é o cimento que une toda a Humanidade. Compreende-se que, numa saudável divulgação de que há homens que insistem em estudos místicos (o que não foi saudável foi divulgar-se isso, só porque a Madonna decidiu), se divulga também que há quem procure a salvação em algo específico da Humanidade. Pois estes 66 textos de Olavo Romano filtram esse cimento que nos une a todos. E não pude deixar de pensar num escritor muito interessante, português, António Cagica Rapaz, nome bem de Pescador, da antiquíssima vila de Sesimbra, trinta Kms ao sul de Lisboa, o qual escreveu um livro muito semelhante referindo-se à sua terra: 90 e tal Contos. Tive uma enorme dor quando o António nos abandonou, ano passado, sem a divulgação que merecia, fulminado por um tumor que não merecia, nem ninguém esperava. Mas tudo isto me lembrou que este estilo de escrever, de quem dá testemunho, até vindo de escritores pouco divulgados como foi o caso do Cagica Rapaz, entre outras coisas, fazem uma ponte comprida entre os Pescadores de Sesimbra e os Lavradores de Minas Gerais.
3.11.10
LVI - Chico Rei, de Agripa Vasconcelos, por André Bandeira
Este livro dos anos sessenta, representa muito da revolta do Brasil, na busca da sua identidade, sobretudo numa época em que o Brasil estava à mercê da identidade protestante e altiva dos EUA. Hoje, o Brasil tem um metalúrgico como Presidente, elegeu uma mulher para lhe suceder, e os EUA são presididos por um homem de origem africana com o nome de Barack Hussein. Todos estes factos, por si, são, a meu ver, positivos, mas o que se desdobra deles é muito mais complexo. O livro relata como um príncepe congolês, Galanga, foi feito escravo pelos seus inimigos, no meio do séc.XVIII, vendido aos negreiros portugueses e acabou escravo em Minas Gerais, com seu filho. Mas não acabou aqui. Estava só para começar. Galanga, baptizado Francisco da Natividade, foi libertado por um padre, adquiriu terra a um preço simbólico do seu antigo proprietário e trabalhou de sol a sol para libertar mais de 200 dos seus companheiros de tragédia. O Governador português, sem invocar outra Lei que a do senso político e humano, permitiu que ele se tornasse Rei da sua nação congolesa, dentro da capitania portuguesa de Minas Gerais. E recebeu a coroa do pároco local. É que a população africana não aceitou sempre o jugo da escravatura, neste lugar do Império português. Combateu-a, fugiu, revoltou-se, sustentou verdadeiros reinos dentro do mato, como o de Zumbi dos Palmares, no interior de S.Paulo, e ainda hoje mantém unidades agrícolas autónomas que se impõem ao Estado, os quilombos. Xico Rei não fez um quilombo no meio dos outros que o desprezavam. Fez um Reino. Reinou porque a sua humildade, a paz que irradiava da sua maneira de ser, punham os outros todos em respeito. Reinava pelo coração, o qual se moldara na violência hierárquica, da tardia Idade Média da África sub-saahriana, no Holocausto da escravatura negra, na primitividade da alma humana. Mais que pelo Poder, a sua autoridade era legítima porque se baseava em algo anterior a ele, que o escolhera para reinar e o seu reinado evitou muito derramamento de sangue. A população negra era mais que o dobro da população branca ou mestiça, juntas, de Minas Gerais, e, por várias vezes, esteve para se levantar e cortar a vertigem diabólica duma economia baseada no ouro. Um Governador esteve para o açoitar em praça pública, já velho e doente, porque Xico-Rei não se conseguiu levantar à sua passagem. O médico português Timóteo pôs o Governador em respeito, lembrando-lhe que nem um escravo podia ser açoitado se estivesse doente, quanto mais um cidadão livre! O primeiro açoite teria significado o massacre dos portugueses de Ouro Prêto, naquela mesma tarde. Xico-Rei morreu muito depois, revivendo em delírio na batalha de Marmara, em que, muitos anos antes cavara o caminho da sua própria escravatura, por intervir contra um chefe ilegítimo o qual tomara o poder pela violência. E aqui me ficaram duas imagens deste romance histórico: um Rei que se levantou da escravatura pela sua humildade e constância e um Governador autoritário e autista que, felizmente, foi detido a tempo por um médico, antes de deitar tudo a perder.
26.10.10
LV - (Re)Leituras: A Queda, de Albert Camus e A Noite, de Élie Wiesel, por André Bandeira
Este livro de Albert Camus, de 1956, que interesse tem para hoje, no tempo diáfano da blogosfera? Camus é mórbido, desconectado, disfásico e morrerá num acidente de automóvel quatro anos depois. Eu respondo: o que interessa neste livro, hoje, é mais que uma coincidência. A Europa está a cair depois de ter comprado várias almas a troco dum Bem-estar que, afinal, era todo crédito vazio dos Bancos. O livro «A Queda» fala num produto luxuoso da Guerra Fria, o advogado parisiense Jean-Baptiste Clamence, cujo nome é um grito («Clemência, S.João Baptista!»), o qual ganhou a vida a defender os fracos mas não foi capaz de acorrer a uma pobre mulher que se ia atirar de uma ponte de Paris, numa noite fria. Ficou, claro, para sempre amaldiçoado por si próprio, «julgado, todos os dias, sem lei», até ele próprio se suicidar, numa ponte de Amesterdão. Pergunto: vamos todos deixar as pessoas aproximarem-se da ponte, crivadas de dívidas e exaustas, depois de lhes termos arrancado a alma (nem a comprámos, sequer) com estímulos diários de prazer físico, a que chamámos Democracia? Ou vamos acreditar que Deus existe em nós e na moça insignificante à beira da ponte, um Deus de Amor, que não advoga bem, que se não sabe defender nos tribunais, que não tem lógica nem calendário, e que não pertence certamente ao feixe de estímulos físicos a que chamamos Democracia? Em «A Noite», descrição testemunhal de Auschwitz, por Élie Wiesel, Nobel de 1986, um relato que tem alguns subjectivismos facilmente explorados pelos negacionistas do Holocausto (os quais não se combatem decretando como crime o seu direito à liberdade de expressão), Deus morre numa criança que é enforcada.Com Camus, Deus é tão surdo que não existe. Num livro, Deus é morto pelos nazis, no outro, Deus asfixia-nos pela Sua ausência e, além da Sua ausência, só existe Inferno. Porquê? Porque não fomos capazes de ser a cápsula dos mineiros, à beira das pontes onde a Europa se suicidou, Monarquia insignificante, transida de frio, sem respeito nem carinho que devíamos ter para com o Passado, o qual vota, quer queiramos quer não, e o seu voto não é democrático. É tempo de um Socialismo liberal, liberal como a promessa que o fascista Mussolini não conseguiu cumprir, socialista como o Comunismo nos mentiu continuamente. E, por cima de tudo, um Rei. Para que, à beira da ponte, na noite escura, uma cabeça dourada nos encare iluminando os vãos escuros que não queremos ver. Uma cabeça um pouco maior que o tamanho natural. Como o Passado que se agiganta de cada vez que fugimos dele e que está lá, na cidade nocturna, para nos guiar, não para nos assombrar. Porque só nós, com a nossa violência e o nosso egoísmo, com a nossa animalidade, é que nos assombramos.
5.8.10
LIV - (Re)leituras: De la Démocratie en Amérique, de Alexis de Tocqueville, por André Bandeira
Eis uma edição de 1951, data da 4ª República francesa em que os comunistas e os gaullistas constituíam a esmagadora maioria da França, num projecto anti-americano, na Europa. Esta edição, cuidadosamente comentada por André Gain, revela o que havia de profético no aristocrata francês Alexis, que fora, em 1831, para o EUA, estudar o sistema penitenciário americano e voltara sendo o maior perito europeu, sobre os EUA. Tocqueville é um amigo da Democracia e termina o livro com uma conclusão brilhante: os climas e os acidentes históricos moldam as Nações, mas o que conta é sobretudo o que os Povos fazem do seu património histórico.
Tocqueville tivera o realismo, mas também a coragem, de abraçar a Democracia, face à Aristocracia, mas não abdicara de considerar a importância das diferenças do Género humano, sem o respeito das quais não há Liberdade, pois nada há a libertar (e a Liberdade é algo concreto). Profeta do que seriam o Fascismo, o Comunismo e as ditaduras mistas de ambos, chamadas «latino-americanas», mesmo quando acontecem na Europa ou na Ásia, Tocqueville antecipa o caminho para a servidão empreendido pela Democracia totalitária (o que é bom é aquilo que a maioria acha). Mas qual é a origem do «aristocratismo em vias de se tornar democrata» de Tocqueville? Primeiro, é o particularismo francês, em que as diferenças sociais tinham resistido contra um Soberano todo-poderoso. Tocqueville é, portanto, contra o absolutismo. Mas será Tocquevilie um monárquico liberal, ou seja, um republicano adiado? Tocquevile, a certo ponto, diz que o futuro temível é uma República monárquica na sua administração ou seja, cheia de pequenos reizinhos burocráticos e desprovida de particulares que resistem ao Poder central, pelo sua legitimidade e vitalidade. Pois parece que as sociedades evoluem, mesmo no modo como manuseiam a sua realidade política,mas o aristocratismo francês -- que fora sujeito a tantos banhos de sangue -- é sêco e materialista.O aristocratismo francês tornara-se republicano, não por ódio ao Antigo Regime, mas por trauma do Absolutismo Esclarecido. Há um descarnamento e uma crueldade na racionalidade francesa, mesmo quando cultiva as virtudes de uma certa aristocracia (Tocqueville propõe a possibilidade de uma aristocracia gerada pela Democracia). Do optimismo desesperado de Condorcet, à Fé de Maistre, ao cinismo de Maurras, há uma convulsão enorme. Talvez o aristocratismo francês tivesse o descarnamento próprio dos romanos, sózinhos na fronteira face aos hunos, depois de Roma cair. Antes do ditatorial Lutero se revoltar contra os diabólicos vaticanos da altura, já os franceses tinham uma secura que nada era de aristocracia, mas apenas de arcaísmo vingativo, e bárbarao, mesmo que o barbarismo o fosse ao modo dos troianos e etruscos, fundadores da Roma antiga: uma espécie de desprezo pelo Género Humano. Ora uma aristocracia assim, é anti-monárquica, embora não seja ainda democrática. É realista, sem ser Real. A vantagem de uma monarquia pode ser a mesma de uma República, com a vantagem de que a primeira é uma muito mais sábia das tradições históricas de uma Nação.Talvez a Monarquia funde muito mais fundo, as raízes tão diferentes de querermos viver em comum, a qual nunca é uma forma comum de viver, como nada na nossa vida pode ser banal e indiferente, uma vez que só vivemos uma vez. Talvez para a Eternidade.
Tocqueville tivera o realismo, mas também a coragem, de abraçar a Democracia, face à Aristocracia, mas não abdicara de considerar a importância das diferenças do Género humano, sem o respeito das quais não há Liberdade, pois nada há a libertar (e a Liberdade é algo concreto). Profeta do que seriam o Fascismo, o Comunismo e as ditaduras mistas de ambos, chamadas «latino-americanas», mesmo quando acontecem na Europa ou na Ásia, Tocqueville antecipa o caminho para a servidão empreendido pela Democracia totalitária (o que é bom é aquilo que a maioria acha). Mas qual é a origem do «aristocratismo em vias de se tornar democrata» de Tocqueville? Primeiro, é o particularismo francês, em que as diferenças sociais tinham resistido contra um Soberano todo-poderoso. Tocqueville é, portanto, contra o absolutismo. Mas será Tocquevilie um monárquico liberal, ou seja, um republicano adiado? Tocquevile, a certo ponto, diz que o futuro temível é uma República monárquica na sua administração ou seja, cheia de pequenos reizinhos burocráticos e desprovida de particulares que resistem ao Poder central, pelo sua legitimidade e vitalidade. Pois parece que as sociedades evoluem, mesmo no modo como manuseiam a sua realidade política,mas o aristocratismo francês -- que fora sujeito a tantos banhos de sangue -- é sêco e materialista.O aristocratismo francês tornara-se republicano, não por ódio ao Antigo Regime, mas por trauma do Absolutismo Esclarecido. Há um descarnamento e uma crueldade na racionalidade francesa, mesmo quando cultiva as virtudes de uma certa aristocracia (Tocqueville propõe a possibilidade de uma aristocracia gerada pela Democracia). Do optimismo desesperado de Condorcet, à Fé de Maistre, ao cinismo de Maurras, há uma convulsão enorme. Talvez o aristocratismo francês tivesse o descarnamento próprio dos romanos, sózinhos na fronteira face aos hunos, depois de Roma cair. Antes do ditatorial Lutero se revoltar contra os diabólicos vaticanos da altura, já os franceses tinham uma secura que nada era de aristocracia, mas apenas de arcaísmo vingativo, e bárbarao, mesmo que o barbarismo o fosse ao modo dos troianos e etruscos, fundadores da Roma antiga: uma espécie de desprezo pelo Género Humano. Ora uma aristocracia assim, é anti-monárquica, embora não seja ainda democrática. É realista, sem ser Real. A vantagem de uma monarquia pode ser a mesma de uma República, com a vantagem de que a primeira é uma muito mais sábia das tradições históricas de uma Nação.Talvez a Monarquia funde muito mais fundo, as raízes tão diferentes de querermos viver em comum, a qual nunca é uma forma comum de viver, como nada na nossa vida pode ser banal e indiferente, uma vez que só vivemos uma vez. Talvez para a Eternidade.
3.8.10
LIII - (Re)leituras: Introdução à Antropologia Cultural, de Mischa Titiev, por André Bandeira
Um clássico de 66. O que parecia óbvio, na geração dos «baby-boomers» e de Kennedy, e agora se oxidou, ficou a parecer um pouco esquisito. O Dr.Lynd e a mulher, na década de 20, foram estudar os índios Murcie em Indiana, nos EUA. Eram sociólogos e estudavam uma tribo primitiva. Faziam etnologia viva. Aplicaram então - outros por eles - os mesmos métodos à sociedade moderna e passámos todos a parecer índios. Estava em curso a descolonização. Para que o comunismo não ocupasse a alma dos índios, os EUA passaram a considerar-se, eles próprios, índios (o que era conveniente) mas, visto bem à luz de hoje em dia, o que eles passaram, foi a tratar a sua própria sociedade como algo distante, no meio do deserto. Urinar dentro de casa ou dentro da casa-de-banho, era uma questão de ordem dos factores. Se cheira mal ou não, era uma questão de gosto. Portanto: tudo era moldável e encadeável em séries diferentes. Tratava-se tudo de composição dum filme, umas cenas atrás e outras à frente. O importante era reduzir tudo a fotogramas.
Claro que Mischa Titiev canta, no fim, o hino do costume, ou seja, assobia que todos somos humanos, que nenhuma cultura é superior à outra, enfim, o credo da ONU. Contudo, o que restou de nós todos foi um gesto de estranheza em que nada era óbvio, em que nada tinha continuidade, como se as «culturas» perdidas não fossem do conhecimento ou não tivessem contribuído para a evolução das culturas «dominantes», enquanto não fossem fotografadas pelo olho distante do antropólogo. Enfim: os desmandos todos eram possíveis, porque éramos todos tribos.
Conclusão: a pretexto de não esmagar as culturas primitivas, a Antropologia cultural dos EUA licenciou o direito a acharmos tudo estranho, anacrónico e considerar que, se as pessoas não forem assim, não constituem sociedade, logo não têm direitos.
Quando, hoje, o Gen. Michael Mullen diz que tem um plano de ataque ao Irão, para além de isso ser uma estratégia de dissuasão por medida, o que ele nos diz é que somos todos tribos e, portanto, temos o direito de atacar com o machado de guerra.
Não foi Ruth Benedict, uma indivídua de afectividade anacrónica, que nos disse que ou só podíamos ser austeros (apolíneos) ou tresloucados (dionisíacos)? Pois é: cristão que não sacrifica ao Imperador, roda na arena dos leões. Já era assim, no mundo dos velhos e dos modernos bárbaros.
Claro que Mischa Titiev canta, no fim, o hino do costume, ou seja, assobia que todos somos humanos, que nenhuma cultura é superior à outra, enfim, o credo da ONU. Contudo, o que restou de nós todos foi um gesto de estranheza em que nada era óbvio, em que nada tinha continuidade, como se as «culturas» perdidas não fossem do conhecimento ou não tivessem contribuído para a evolução das culturas «dominantes», enquanto não fossem fotografadas pelo olho distante do antropólogo. Enfim: os desmandos todos eram possíveis, porque éramos todos tribos.
Conclusão: a pretexto de não esmagar as culturas primitivas, a Antropologia cultural dos EUA licenciou o direito a acharmos tudo estranho, anacrónico e considerar que, se as pessoas não forem assim, não constituem sociedade, logo não têm direitos.
Quando, hoje, o Gen. Michael Mullen diz que tem um plano de ataque ao Irão, para além de isso ser uma estratégia de dissuasão por medida, o que ele nos diz é que somos todos tribos e, portanto, temos o direito de atacar com o machado de guerra.
Não foi Ruth Benedict, uma indivídua de afectividade anacrónica, que nos disse que ou só podíamos ser austeros (apolíneos) ou tresloucados (dionisíacos)? Pois é: cristão que não sacrifica ao Imperador, roda na arena dos leões. Já era assim, no mundo dos velhos e dos modernos bárbaros.
1.8.10
LII - (Re)leituras: Sociologia Jurídica, de Antônio Luís Machado Neto, por André Bandeira
Este é um Manual escolar. E, como todos os manuais escolares, obedece a regras clássicas de construção. Mas esconde algo diferente no fim. Dá a sensação que este Manual dum Professor de Direito da Baía, publicado em 1987, segue um percurso clássico (positivista, francês do Séc. XIX) apenas para expressar o seu «raciovitalismo», de Ortega y Gasset e do mexicano Récasens Siches. Muito bem: temos o voto dele bem expresso numa matéria que ele define, entre o positivismo seco de Comte e o individualismo de Tarde, como uma descrição dos fenómenos sociais que produzem o Direito e, em seguida,o efeito do Direito nos fenómenos sociais.
O defeito é que esta banalidade, dita ao cabo de muitas páginas, algumas citações poliglotas, antigas e modernas, continua a ser clássica. E o mal deste manual é que se fica com a sensação que a Coruja de Minerva, não vôa ao anoitecer mas vôa na manhã do dia seguinte, sem retorno.
Um dos males dos juristas é que pouco experimentam, pouco vivem e, depois da sua dogmática, limitam-se a expressar uma simpatia ideológica de escola (neste caso, o vitalismo latino de Ortega), bem escondidos. Os juristas perpetuam assim a sua timidez e, involuntariamente, exageram as suas paixões sensíveis.
No fundo, é impossível fugir ao contínuo das sociedades modernas, em que o «espírito» de Espécie, acelera a História para uma Evolução contínua, onde a batlaha é mental e a Guerra não se sabe ainda bem qual é, mas nela convergem várias guerras antigas e resilientes.
Os países latino-americanos não tiveram Reinos (ou os que tiveram foram destruídos, muitos deles com a respectivas Histórias) mas restou-lhes algo de Império. Machado Neto representa esse espírito de Império, que nada tem do bolivarismo inicial, o qual levou ao desenho actual da América Latina.Duvido que este «Império», mesmo tendo evoluído para República, seja uma solução para um continente que está agora a despertar. Isto, porque a solução norte-americana não se adapta aos trópicos, mesmo sob a forma de Império. Talvez a América Latina esteja mais perto do Pacífico e da Oceânia, como a América do Norte está mais perto da Europa ocidental.
O defeito é que esta banalidade, dita ao cabo de muitas páginas, algumas citações poliglotas, antigas e modernas, continua a ser clássica. E o mal deste manual é que se fica com a sensação que a Coruja de Minerva, não vôa ao anoitecer mas vôa na manhã do dia seguinte, sem retorno.
Um dos males dos juristas é que pouco experimentam, pouco vivem e, depois da sua dogmática, limitam-se a expressar uma simpatia ideológica de escola (neste caso, o vitalismo latino de Ortega), bem escondidos. Os juristas perpetuam assim a sua timidez e, involuntariamente, exageram as suas paixões sensíveis.
No fundo, é impossível fugir ao contínuo das sociedades modernas, em que o «espírito» de Espécie, acelera a História para uma Evolução contínua, onde a batlaha é mental e a Guerra não se sabe ainda bem qual é, mas nela convergem várias guerras antigas e resilientes.
Os países latino-americanos não tiveram Reinos (ou os que tiveram foram destruídos, muitos deles com a respectivas Histórias) mas restou-lhes algo de Império. Machado Neto representa esse espírito de Império, que nada tem do bolivarismo inicial, o qual levou ao desenho actual da América Latina.Duvido que este «Império», mesmo tendo evoluído para República, seja uma solução para um continente que está agora a despertar. Isto, porque a solução norte-americana não se adapta aos trópicos, mesmo sob a forma de Império. Talvez a América Latina esteja mais perto do Pacífico e da Oceânia, como a América do Norte está mais perto da Europa ocidental.
30.7.10
LI -- (Re)Leituras: Brasília Kubitscheck de Oliveira, por Ronaldo Costa Couto, de André Bandeira
Um livro, cheio de sinais. Não, o livro não tem nada de esotérico mas traduz um certo fascínio juvenil do Historidor Costa Couto, que foi de Tancredo e de Sarney, por uma cidade que ele acha, talvez acertadamente, ser um plano esotérico. Sonhada por S.João Bosco, pela Inconfidência Mineira, habitada pelo fantasma de Getúlio Vargas e jogada pelos magos Juscelino e Niemeyer, Brasília terá uma série de afinidades com a Tel el-Amarna do Faraó egípcio Akenathon, provável pai de uma Nação deambulado sem Terra pela Ásia. Juscelino foi o Presidente da Bossa-Nova, na sua sublimidade e no seu azedume. Com Niemeyer se entende que o Comunismo não foi só Tirania, mas também houve um Comunismo tropical que era uma forma de arte e não uma estratégia de golpe de Estado. O mesmo se poderá dizer da social-democracia de Juscelino Kubitscheck, o qual poderia ter dado uma dança às aspirações comunistas sem se lhe entregar nos braços. E pode ter dançado depois com o Capitalismo norte-americano, na dança seguinte, antes de outra e outra dança, até cair, porque a morte também é boémia. No fundo, talvez Juscelino Kubitscheck não tenha sido assassinado pelo Plano Condor da CIA, mas que fazia parte da lista de abate da mesma, lá isso fazia. E, se não foi morto por ela, foi moído até à lepra, como a Inveja que acaba a arrastar pelo chão um dançarino brilhante. Talvez, no fundo, comunismo e capitalismo sejam apenas dois pares de dança para os dançarinos tropicais, dançando a uma música que só eles ouvem, que só eles regatam à noite, escutando-a até ao fim, o qual é uma ilusão de óptica. Se essa dança vinha do sangue cigano de Juscelino ou do de Niemeyer, só o fim de festa da Bossa Nova, geralmente amargo, o poderá dizer. Brasília foi um grande erro, como os militares se limitaram a constatar, mas o erro, como outros, ficou, tal qual o aluímento da parede de um rio.
Onde está o rio, afinal? O erro é o de se julgar que a Beleza não pertence às pessoas, mas à própria Beleza. Por isso, na Cidade Administrativa Tancredo Neves, provavelmente a última grande obra de Niemeyer, as salas para lanche, entre os espaços abertos de trabalho, não têm luz natural. Ora Niemeyer parece não saber que um esguicho de água, que é curvo e um raio de sol, que é recto, se encontram num mesmo plano, sem se cruzarem.
Onde está o rio, afinal? O erro é o de se julgar que a Beleza não pertence às pessoas, mas à própria Beleza. Por isso, na Cidade Administrativa Tancredo Neves, provavelmente a última grande obra de Niemeyer, as salas para lanche, entre os espaços abertos de trabalho, não têm luz natural. Ora Niemeyer parece não saber que um esguicho de água, que é curvo e um raio de sol, que é recto, se encontram num mesmo plano, sem se cruzarem.
24.7.10
L - (Re)Leituras - l'Incandéscent, de Michel Serres, por André Bandeira
Eis um livro bem francês, deste Professor de Stanford, especialista na História das Ciências, e com grande estrutura matemática. É um livro chato, apesar das técnicas modernas, de Televisão, que emprega,mas sempre sugere algo interessante para as Universidades. Com um são universalismo francês, um pouco histérico, celta mas generoso, Serres propõe, ao fim, um ano básico em todas as Universidades do Mundo, em que se começaria por uma História unificada das ciêncis «duras» e se acabaria com princípios de Linguística e o mosaico de culturas.É muito interessante, vindo de um bom Professor como Serres. Mas o seu livro, um pouco autobiográfico e já no Inverno da Vida, não traz muito de novo, em doutrina, que valha a pena repetir. O mesmo princípio de Prigogine, contra Einstein, ou seja, o da entropia e da direccionalidade do Universo; umas frases francesas muito bem apanhadas como a de que a Ecologia é uma nova domesticação; uma dúvida constante, como a se o Big-Bang existiu ou não (mas sempre pressupondo-o como quem diz «Bom, eu não sou crente, mas...»); a Biotecnologia como o perfazer do Neolítico; e uma graça que nem ele notou e faz pensar: dadas várias fotos a uma macaca, Sara, para ela separar (animais, plantas, pessoas que ela conhece, e ela própria), a macaca separa, dum lado, macacos, animais e plantas e, no outro lado, as fotos dos cientistas e ela própria. Serres -- que à boa maneira gálica, faz ataques de todos os lados à Verdade -- talvez toque a Verdade, de vez em quando, no meio do texto. A macaca não revelou nada de abstracto para os cientistas anotarem. Ela amou quem lhe perguntava, no «critério» que usou. Pois é: ciências, julgamentos, modas, ideias. De cada vez que somos confrontados nesta breve existência, nós e os macacos, não queremos é que nos batam. Realmente, o calor do afecto é que é bom. De resto, são tudo modas: Serres vem do campo, é gascão e occitano(zona de Bordéus) e é um bocado parôlo, como a França desde que estabeleceu a sequência maluca da Revolução francesa e do Império. Ao falar dos pais e, depois, do Big-Bang, Serres exprime sem o saber que fomos todos sujeitos pela Cultura e pela Ganância, a uma amputação das nossas raízes, a qual nos fez, até, assassinarmo-nos entre irmãos. Realmente, os piores ódios são aqueles dentro de uma família, até porque passam de geração em geração, sem Guerra aberta.
Enfim: nem tudo o que se publica é diferente das modas e das Artes. Asseguro-vos que é mais fácil entender os mistérios da Ciência de Stanford, estudando as modas da Belle Époque na Europa, do que procurar um curso de Física quântica. E Serres sabe-o. Em prol da Paz, que ele não teve no país, nem na Família (como muitos de nós), ele propõe como parte final desse «Primeiro ano Universitário» universal, a contemplação das Obras de Arte catalogadas pela Unesco.
Enfim: nem tudo o que se publica é diferente das modas e das Artes. Asseguro-vos que é mais fácil entender os mistérios da Ciência de Stanford, estudando as modas da Belle Époque na Europa, do que procurar um curso de Física quântica. E Serres sabe-o. Em prol da Paz, que ele não teve no país, nem na Família (como muitos de nós), ele propõe como parte final desse «Primeiro ano Universitário» universal, a contemplação das Obras de Arte catalogadas pela Unesco.
19.7.10
XLVIII - (Re)leituras -- Cristiano Ronaldo pai, por André Bandeira
Cristiano Ronaldo anunciou sucintamente que foi pai. Já tinha avisado. Anunciou, pediu poucas perguntas e guardou a identidade da mãe. Conhecemo-lo pelas muitas namoradas que teve. Não foi o brilhante jogador que esperávamos no Mundial. Mas foi pai, pai solteiro, sem discutir, sem fugir às responsabilidades, sem dizer que não tinha idade, que não tinha uma situação familiar, tenho a certeza que não pediu à mãe do bébé para abortar. Foi pai e acolheu o menino que lhe nasceu, como uma bênção do Céu. É certo que tem uma família à sua volta, a qual poderá cuidar do menino com amor e não lhe falta dinheiro para atender às necessidades dele, durante os primeiros anos de vida.
Cristiano Ronaldo não diz os disparates dos campeões que se sentam ao nosso lado e que se cruzam connosco todos os dias, como no poema de Fernando Pessoa. Diz que se arrepende de coisas que fez. E diz que herdou da sua mãe a tenacidade e de seu pai -- curiosamente -- a bondade e o amor pelas pessoas. O seu pai, humilde pessoa da Madeira, morreu com câncer e Cristiano Ronaldo tentou tudo para o salvar, embora o dinheiro que tinha não chegasse. Quis ser pai como o seu pai foi pai dele.
Tenho a suspeita que, embora Cristiano Ronaldo goze de uma situação que muitos pais não têm, antes de pensarem no aborto, não duvidou uma vez que fosse assumir aquele nascimento e, com isso, fiquei com a suspeita que Cristiano Ronaldo, na sua simplicidade e na sua nobreza, foi campeão mundial e fez Portugal campeão mundial.
Cristiano Ronaldo não diz os disparates dos campeões que se sentam ao nosso lado e que se cruzam connosco todos os dias, como no poema de Fernando Pessoa. Diz que se arrepende de coisas que fez. E diz que herdou da sua mãe a tenacidade e de seu pai -- curiosamente -- a bondade e o amor pelas pessoas. O seu pai, humilde pessoa da Madeira, morreu com câncer e Cristiano Ronaldo tentou tudo para o salvar, embora o dinheiro que tinha não chegasse. Quis ser pai como o seu pai foi pai dele.
Tenho a suspeita que, embora Cristiano Ronaldo goze de uma situação que muitos pais não têm, antes de pensarem no aborto, não duvidou uma vez que fosse assumir aquele nascimento e, com isso, fiquei com a suspeita que Cristiano Ronaldo, na sua simplicidade e na sua nobreza, foi campeão mundial e fez Portugal campeão mundial.
15.7.10
XLVII - (Re)leituras -- Descolonização Portuguesa - o malogro de dois planos, de Carlos Dugos, por André Bandeira
De novo retorno aqui a este meu caminho, levantando um pé, de cada vez, cheio de livros e de inscrições. É um caminhar pesado mas o caminho faz-se caminhando, não é? Olá a todos, aos que lêem, aos que comentam e aos que olham...
Este livro de 1975, seria um livro chamado de reaccionário. E, contudo, como ele, sinto-me como se tivesse levado um bofetão de um espírito, num corredor escuro da minha casa. É um livro de um português de Moçambique que nos diz, de uma forma muita clara e concisa tudo o que aconteceu. Havia dois planos para as Colónias portuguesas: o plano de Spínola, chamado de auto-determinação e o plano de independência, do Partido de Álvaro Cunhal. Spínola perdeu e perdeu-se. Mas o 25 de Abril tinha sido todo feito para resolver as questões das Colónias, em particular Angola. Angola e o Zaire são metade de África e metade de África é um domínio enorme do Mundo. O plano de Cunhal venceu e ele perdeu-se e perdeu-se a URSS. Ficaram guerras civis, de que nunca conheceremos os mortos, tiranias e explorações de fazer corar os antigos. E ficou uma esperança de liberdade e dignidade em que, afinal, só os fortes é que ganham. Ai dos vencidos!O autor diz uma coisa muito simples. Escrevera-o em 1972, mas foi censurado: depois da libertação das Colónias, quem libertará Portugal? Sim. Portugal sobrevivera graças à sua quase miraculosa expansão marítima. Já Norton de Matos pensara numa Federação portuguesa em que o Brasil teria uma parte importante. E D. João VI. Já o próprio Marcelo Caetano pensara numa auto-determinação das colónias em que, a independência inevitavelmente se seguiria e só ficariam os laços morais e culturais. Hoje, por mais que forcemos, num só dia mau, todos esses laços podem ser cortados e, quando resta um só, alguém vem para a rua exigir que se o corte também.
Meu Deus, que desperdício, que crime até! Será que o casamento entre pessoas do mesmo sexo é assim tão importante?! Será que é preciso encontrar na Lei um lugar para tudo, só para que a Lei regule os mais ínfimos pormenores da nossa vida?!
E tudo o que este livro diz é verdade, brutalmente verdade, mas agora é tarde demais. E eu próprio me sinto horrorosamente culpado...
Meu Deus, Portugal bateu-se por um mundo demasiado tímido para sobreviver e, afinal, o mundo arrogante dos Russos desfez-se pouco depois e o mundo arrogante dos norte-americanos, arqueja mortalmente ferido. É isto tudo um delta de histórias triste que acabam todas tragicamente?!
Que poderemos fazer para ainda dar sentido à nossa existência como algo que não apareceu por acaso, algo que inclui responsabilidade pelos outros? Algo que ainda passará como os que se foram antes de nós mas de que nos lembramos, até com carinho.
Este livro de 1975, seria um livro chamado de reaccionário. E, contudo, como ele, sinto-me como se tivesse levado um bofetão de um espírito, num corredor escuro da minha casa. É um livro de um português de Moçambique que nos diz, de uma forma muita clara e concisa tudo o que aconteceu. Havia dois planos para as Colónias portuguesas: o plano de Spínola, chamado de auto-determinação e o plano de independência, do Partido de Álvaro Cunhal. Spínola perdeu e perdeu-se. Mas o 25 de Abril tinha sido todo feito para resolver as questões das Colónias, em particular Angola. Angola e o Zaire são metade de África e metade de África é um domínio enorme do Mundo. O plano de Cunhal venceu e ele perdeu-se e perdeu-se a URSS. Ficaram guerras civis, de que nunca conheceremos os mortos, tiranias e explorações de fazer corar os antigos. E ficou uma esperança de liberdade e dignidade em que, afinal, só os fortes é que ganham. Ai dos vencidos!O autor diz uma coisa muito simples. Escrevera-o em 1972, mas foi censurado: depois da libertação das Colónias, quem libertará Portugal? Sim. Portugal sobrevivera graças à sua quase miraculosa expansão marítima. Já Norton de Matos pensara numa Federação portuguesa em que o Brasil teria uma parte importante. E D. João VI. Já o próprio Marcelo Caetano pensara numa auto-determinação das colónias em que, a independência inevitavelmente se seguiria e só ficariam os laços morais e culturais. Hoje, por mais que forcemos, num só dia mau, todos esses laços podem ser cortados e, quando resta um só, alguém vem para a rua exigir que se o corte também.
Meu Deus, que desperdício, que crime até! Será que o casamento entre pessoas do mesmo sexo é assim tão importante?! Será que é preciso encontrar na Lei um lugar para tudo, só para que a Lei regule os mais ínfimos pormenores da nossa vida?!
E tudo o que este livro diz é verdade, brutalmente verdade, mas agora é tarde demais. E eu próprio me sinto horrorosamente culpado...
Meu Deus, Portugal bateu-se por um mundo demasiado tímido para sobreviver e, afinal, o mundo arrogante dos Russos desfez-se pouco depois e o mundo arrogante dos norte-americanos, arqueja mortalmente ferido. É isto tudo um delta de histórias triste que acabam todas tragicamente?!
Que poderemos fazer para ainda dar sentido à nossa existência como algo que não apareceu por acaso, algo que inclui responsabilidade pelos outros? Algo que ainda passará como os que se foram antes de nós mas de que nos lembramos, até com carinho.
20.6.10
Lusofonia- Lusophony
I suppose I should to react to Clyde McMorrow's remark of 14 June, "I think the only Portuguese left in Brazil are the bakers."
Not quite. Actually, the remark shows an ignorance about what is going on in Portuguese and Brazilian Foreign Policy, the so-called Lusophone policy.
Portuguese direct investment in South America grew strongly in the latter half of the 1990s, with annual flows rising from almost 0 to an average of US$ 1.8 billion in 1996-2000, peaking at 4 billion euros in 1998. Brazil received over 95% of these flows.
The largest investments were in telecommunications (Portugal Telecom, PT), electricity, water and sewage (EDP); Águas de Portugal (AdP), cement (CIMPOR) and banking (CGD), both State-owned companies or wholly privatized. See the following:
http://www.eclac.cl/publicaciones/xml/4/28394/lcg2336i_Chapter_IV.pdf
This month--June 2010--Portugal Telecom (PTC.LS) rejected a 5.7 billion euros ($7.2 billion) bid from Spanish Telefonica (TEF.MC) to buy out its stake in Vivo (VIVO4.SA), Brazil's top wireless carrier, at a 140% premium. At the end of the day perhaps Portugal Telecom will finally sell VIVO for a larger bid ($9 billion) with a clause that its digital contents will be produced by Portuguese companies.
Perhaps the Portuguese are now known in Brazil as “The one who owns my phone company.” But OK. Call them bakers. I would not mind getting one of their pancakes...
There is an even more important link between Portugal and Brazil, as Hernán Grimberg rightly pointed out. It can be summarized in the formula, "Brazil nowadays has a Johannine policy." "Johannine" derives from king John VI, who ruled the United Kingdom of Portugal, Brazil and Algarve, from Rio de Janeiro where he created the Brazilian state in 1808 in the wake of the Napoleonic Wars. (I am finishing my book on this topic.) The people created the Brazilian nation after 1822.
The Brazilian leaders understood that South America can develop when there is an understanding between Brazil and Argentina, the heirs of the Portuguese and Spanish rulers, as Hernán points out. This policy is independent of political parties. (Just follow the statements of Samuel Guimarães, of the Brazilian Foreign Ministry.)
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16199
Other South American countries are locally interesting but they are less important from a geopolitical point of view. They are parts of the Spanish “broken mirror,” and maverick states like Venezuela can be moderated if Brazil and Argentina so agree. Fernando Henrique understood this and created Mercosur. Then came the Union of South America, with Lula da Silva in 2005. The term “Latin America,” formulated by Chevalier, a counselor of Napoleon III to justify French intervention in Mexico, is banned from the Brazilian discourse. Ibero-America is currently used in Brazil, Portugal and Spain in the annual summits.
Brazil is interested in having good relations with Portugal as a gateway to the European Union. President Lula just said it when he stopped at Lisbon, on May 19, after coming from Iran and Turkey. Brazil has not really explored it. Why? Perhaps because "é o maior país do mundo" and like the 20th-century US its domestic market seems self-sufficient for economic development.
Not quite. Actually, the remark shows an ignorance about what is going on in Portuguese and Brazilian Foreign Policy, the so-called Lusophone policy.
Portuguese direct investment in South America grew strongly in the latter half of the 1990s, with annual flows rising from almost 0 to an average of US$ 1.8 billion in 1996-2000, peaking at 4 billion euros in 1998. Brazil received over 95% of these flows.
The largest investments were in telecommunications (Portugal Telecom, PT), electricity, water and sewage (EDP); Águas de Portugal (AdP), cement (CIMPOR) and banking (CGD), both State-owned companies or wholly privatized. See the following:
http://www.eclac.cl/publicaciones/xml/4/28394/lcg2336i_Chapter_IV.pdf
This month--June 2010--Portugal Telecom (PTC.LS) rejected a 5.7 billion euros ($7.2 billion) bid from Spanish Telefonica (TEF.MC) to buy out its stake in Vivo (VIVO4.SA), Brazil's top wireless carrier, at a 140% premium. At the end of the day perhaps Portugal Telecom will finally sell VIVO for a larger bid ($9 billion) with a clause that its digital contents will be produced by Portuguese companies.
Perhaps the Portuguese are now known in Brazil as “The one who owns my phone company.” But OK. Call them bakers. I would not mind getting one of their pancakes...
There is an even more important link between Portugal and Brazil, as Hernán Grimberg rightly pointed out. It can be summarized in the formula, "Brazil nowadays has a Johannine policy." "Johannine" derives from king John VI, who ruled the United Kingdom of Portugal, Brazil and Algarve, from Rio de Janeiro where he created the Brazilian state in 1808 in the wake of the Napoleonic Wars. (I am finishing my book on this topic.) The people created the Brazilian nation after 1822.
The Brazilian leaders understood that South America can develop when there is an understanding between Brazil and Argentina, the heirs of the Portuguese and Spanish rulers, as Hernán points out. This policy is independent of political parties. (Just follow the statements of Samuel Guimarães, of the Brazilian Foreign Ministry.)
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16199
Other South American countries are locally interesting but they are less important from a geopolitical point of view. They are parts of the Spanish “broken mirror,” and maverick states like Venezuela can be moderated if Brazil and Argentina so agree. Fernando Henrique understood this and created Mercosur. Then came the Union of South America, with Lula da Silva in 2005. The term “Latin America,” formulated by Chevalier, a counselor of Napoleon III to justify French intervention in Mexico, is banned from the Brazilian discourse. Ibero-America is currently used in Brazil, Portugal and Spain in the annual summits.
Brazil is interested in having good relations with Portugal as a gateway to the European Union. President Lula just said it when he stopped at Lisbon, on May 19, after coming from Iran and Turkey. Brazil has not really explored it. Why? Perhaps because "é o maior país do mundo" and like the 20th-century US its domestic market seems self-sufficient for economic development.
1.3.10
17.12.09
II – Audições: Manoel de Oliveira em Belo Horizonte – por André Bandeira
Ouvi, no podium e do outro lado da mesa, Manoel de Oliveira. Foi engraçado ver alguém da mesma cidade onde nasci e em que renasci ao ver o seu filme «Porto da minha Infância». O seu discurso de agradecimento ao Doutoramento honoris causa não foi uma oração de sapiência mas serve de testemunho ao que fica dos olhos de um homem que viveu 100 anos e que viu as coisas de um modo que não nos esqueceremos tão cedo.
Manoel de Oliveira fala de um plano em que o centro de gravidade não é, certamente, aquele que ocupa o nosso plano de visão, todos os dias. Começou por abordar a sua comunicação, dizendo que admira mais os santos do que os revolucionários e acrescentou que há uma diferença entre a guerra e o terrorismo, pois o terrorista mata covardemente.
Constata que o progresso nos leva a situações catastróficas mas acrescenta que o homem ama as situações de perigo, embora se deixe dominar pelo pânico. Evocou Lincoln, Thomas Moro e Ghandi como modelos.
No limiar em que se encontra, considerou que a eternidade é uma ideia que o atrapalha. Se o Mundo começou a existir com o Big Bang, o que existia antes? Por isso, considerou que toda a ética se funda nas religiões.
Perguntou-se também se o gesto dos financeiros de Wall Street, não teria sido um gesto utópico. Notou que atravessamos uma crise moral e perguntou-se se um castigo assim não seria pelo Mundo se ter tornado em Sodoma e Gomorra.
No fim de tudo, a dúvida vive sempre ao lado da Esperança e citou S.Paulo para dizer que, se Cristo não ressuscitou, toda a Fé é vã.
Mas o pessimismo é a conclusão do optimista. A bondade da Natureza falha na sua também extrema crueldade.
Por fim citou o seu colega David Kronenberg para dizer que «todo o homem é um cientista louco e a vida o seu laboratório».
Manoel de Oliveira fala de um plano em que o centro de gravidade não é, certamente, aquele que ocupa o nosso plano de visão, todos os dias. Começou por abordar a sua comunicação, dizendo que admira mais os santos do que os revolucionários e acrescentou que há uma diferença entre a guerra e o terrorismo, pois o terrorista mata covardemente.
Constata que o progresso nos leva a situações catastróficas mas acrescenta que o homem ama as situações de perigo, embora se deixe dominar pelo pânico. Evocou Lincoln, Thomas Moro e Ghandi como modelos.
No limiar em que se encontra, considerou que a eternidade é uma ideia que o atrapalha. Se o Mundo começou a existir com o Big Bang, o que existia antes? Por isso, considerou que toda a ética se funda nas religiões.
Perguntou-se também se o gesto dos financeiros de Wall Street, não teria sido um gesto utópico. Notou que atravessamos uma crise moral e perguntou-se se um castigo assim não seria pelo Mundo se ter tornado em Sodoma e Gomorra.
No fim de tudo, a dúvida vive sempre ao lado da Esperança e citou S.Paulo para dizer que, se Cristo não ressuscitou, toda a Fé é vã.
Mas o pessimismo é a conclusão do optimista. A bondade da Natureza falha na sua também extrema crueldade.
Por fim citou o seu colega David Kronenberg para dizer que «todo o homem é um cientista louco e a vida o seu laboratório».
2.12.09
1 de Dezembro - por André Bandeira
No Primeiro de Dezembro, recordo a independência de Portugal. Sim, a independência. Durante muito tempo, imaginei-o como um acto de coragem de um punhado de portugueses que atacou o centro da ocupação castelhana antes que esta pudesse reagir. Tudo recomeçara ali. A guerra demoraria 28 anos. Não estou crente que, se o Conde-Duque de Olivares tivesse optado por reprimir Portugal, em vez de reprimir a Catalunha, que Portugal não moveria a mesma resistência. Portugal foi sempre um projecto extra-europeu. Em 1648 e 1649, nas duas batalhas de Guararapes, os portugueses do Brasil, expulsaram os holandeses que poderiam, a partir do Recife e Pernambuco, ter iniciado um Brasil inteiramente diferente.Em 1959, os holandeses partiram definitivamente, derrotados pela gente de um português do Brasil, Vidal de Negreiros, de um índio, Felipe Camarão e de um comandante negro, Henriques Dias. Henrique Dias não foi um santo. Jogou com os seus interesses, serviu-se da liberdade de muitos escravos mas usou a escravatura de outros. Foi um comandante notável duma gente notável.Sem a batalha de Guararapes e sem o Império do Brasil, Portugal não teria crédito, no continente, para comprar armas a França e reagir contra Espanha.
Portugal deve a sua independência também à batalha de Guararapes. Não há uma única estátua a Henrique Dias ou a Felipe Camarão, numa praça de Portugal.
Henrique Dias era negro. Foi-lhe prometida uma comenda. Nunca lha deram. Tentou viajar a Lisboa para a reivindicar. Viajou mas não lha deram.
Morreu pobre e ignorado.
Enquanto Portugal não honrar aquilo que foi universal, recusando-o como «História», Portugal ver-se-á a morrer, todos os dias, à frente dos seus próprios olhos.Talvez num quilombo perdido do Brasil, a campa rasa de portugueses negros esperem ainda o que lhes é devido. E talvez assim, Portugal se reconcilie consigo próprio e não se deixe sangrar, imparavelmente, todos os dias.
Portugal deve a sua independência também à batalha de Guararapes. Não há uma única estátua a Henrique Dias ou a Felipe Camarão, numa praça de Portugal.
Henrique Dias era negro. Foi-lhe prometida uma comenda. Nunca lha deram. Tentou viajar a Lisboa para a reivindicar. Viajou mas não lha deram.
Morreu pobre e ignorado.
Enquanto Portugal não honrar aquilo que foi universal, recusando-o como «História», Portugal ver-se-á a morrer, todos os dias, à frente dos seus próprios olhos.Talvez num quilombo perdido do Brasil, a campa rasa de portugueses negros esperem ainda o que lhes é devido. E talvez assim, Portugal se reconcilie consigo próprio e não se deixe sangrar, imparavelmente, todos os dias.
25.11.09
I - Audições: Slavoj Zizek em Hardtalk, da BBC, por André Bandeira
Depois de o ouvir, uma ou duas vezes, este filósofo da moda deixa-me desesperado.Diz que o comunismo é a solução para o capitalismo em que vivemos. E o entrevistador ainda parece mais desesperado do que ele. Enfim, esta entrevista em que Zizek já vinha preparado para uma «luta», é uma agressão ao telespectador. Porque é que este esloveno consagrado aceitou? Talvez porque os Conservadores vão ganhar em Inglaterra com um programa de esquerda e uma honestidade de conservadores. Tony Blair tinha um programa individualista próximo da histeria e, claro, o blairismo foi uma aldrabice. David Cameron virá com um programa de Esquerda que resvalará para a Direita e ficará também desonesto, porque a Inglaterra está condenada ao declínio, muito antes dos EUA e não há ainda uma consciência internacional conservadora. Porque digo isto? Porque uma entrevista de meia-hora a um escritor talentoso como Zizek, é inteiramente manipulada pela situação política decisiva em que se ganham e perdem votos com audições e imagens. Quem manda? A retórica, como massagem psicológica dum cultura de rebanho. Fugir a esta cultura de rebanho, que é já por si um cataclismo, é como fugir da droga.Em suma, Zizek é famoso entre os capitalistas porque escreve bem sobre filmes e pega bem frases no ar, como numa taberna mediterrânica do Sul do Império austríaco, onde os neuróticos de Viena podiam beber uns copos e seduzir umas moças. A isto se reduziu a Esquerda, uma das duas patas do Despotismo iluminado. Não adianta que Zizek diga que o comunismo foi um falhanço total e que o estalinismo foi pior do que o nazismo. A solução para um mundo de dor e confusão -- por razões que ainda não são muito claras -- é voltar um bocadinho atrás, a um comunismo como rosto humano,diz ele, como quando Zizek "lutava" em manifestações reprimidas suavemente, quando era novo, no «Comunismo» da Jugoslávia. Enfim, daquilo que este mundo malcriado e vulgar ainda não se libertou foi do guru modernaço Karl Marx, caro aos corpos «quentes» de Wall Street e aos corpos «sedutores» da Rive Gauche, o Marx sem concorrentes, adorador do deus dinheiro e que meteu poetas ou artistas a fazerem de filósofos, onde se tornaram em charlatães. Então, se eles forem misturados com jornalistas, temos um filme a falar sozinho, onde Zizek é o garoto loquaz da Democracia, com sessenta anos e o jornalista é o especulador da Bolsa com o emprego em jogo, aos quarenta.
22.11.09
XLVI - (Re)leituras - Anti-cancer, Prévenir et lutter grâce à nos défenses naturelles, de David Servan-Schreiber, por André Bandeira
David Servan-Schreiber surpreende-nos todos os Natais com um bom livro. E dá-nos uma nova concepção ao «best-seller». O livro vende-se bem? Então não é só num romance, destinado a absorver e alhear o leitor da barbárie informativa do dia-a-dia, mas tem de ir para a estante do leitor como uma lista de bons conselhos que se podem consultar caso a caso, ou consultar em geral. Por exemplo, quando ele nos dá, com uma técnica de imagem que já não é livresca, o «prato anti-câncer». Bom… este livro não é (mas pode ser) para hipocondríacos.
Na parte que não pode deixar de ser livro, o autor revela-nos aquilo que só se sabia superficialmente dos livros anteriores. Servan-Schreiber, judeu francês e filho do fundador dum dos Semanários mais importantes da França, o l’Express, obviamente ganancioso pelos EUA (onde é Professor), como todas as elites bonapartistas, depois de ser um jovem e arrogante neurologista, descobre durante uma brincadeira com os colegas, que tem um tumor maligno no cérebro. Quinze anos depois, venceu o tumor, mesmo depois de uma recaída e é sobre as técnicas de sobrevivência bem como de prolongamento da vida, e da busca incontornável do seu sentido, que ele exerceu o seu dever de nos informar. Ele dá muitos exemplos reais e tocantes que nos deixam calados. Pode dizer-se que a dieta mediterrânica é um bom preventivo mas também que a Civilização ocidental, que vem perdendo o domínio no Séc. XXI, deve ser afastada de um regime saudável de vida. Em suma, o modelo protestante anglo-saxónico faz objectivamente mal à saúde ou – como eu interpreto – é uma tal armadilha que, realmente, quem sobrevive nele, é porque travou com sucesso uma batalha bárbara que faria corar qualquer democrata liberal e sorrir de cúmplice a um antropófago. Concedo que Servan-Schreiber, como muitos judeus europeus, quer fugir de um ghetto interior, e que se expôs deliberadamente a todo o orientalismo da romaria norte-americana, com ioga, tai-chi e ecologismo radical. Mas o que ele nos ensina tem de ser ouvido: para sobrevivermos todos os dias, já não bastam os optimismos naturalistas da Europa romântica. É preciso comer e mover-se como um habitante do ghetto de Varsóvia, antes de mais uma levada. Não é paranóia. É a realidade e, neste aspecto, o Povo judeu da diáspora mantém intacta a sua força profética. A Democracia faz mal à saúde mesmo com um Serviço Nacional de Saúde.
Mas que vivemos num tempo de trevas espirituais profundas, parece-me que só uma pessoa acometida por uma doença assim o pode testemunhar. E não adianta proclamar a «Liberdade», que só um doente de cancro, absolutamente inocente, pode dizer-nos o limite de mais essa arrogância. Reduzir o mundo a uma dialéctica Esquerda-Direita é como matar por amor a um Clube de futebol. Mas, também, ver o mundo como Servan-Schreiber o vê, é esquecer o que disse o seu conterrâneo Bichat: « a vida é o conjunto das funções que resistem à morte». Mesmo aquelas que nos dizem que estando qualquer um de nós, morto, a prazo, resta-nos o dever de combater a Morte. Cada um de nós é uma «função de Bichat» e talvez este Natal seja melhor gastar mais em jogging, como os pastores do presépio e menos em camelo, como os Reis magos.
Na parte que não pode deixar de ser livro, o autor revela-nos aquilo que só se sabia superficialmente dos livros anteriores. Servan-Schreiber, judeu francês e filho do fundador dum dos Semanários mais importantes da França, o l’Express, obviamente ganancioso pelos EUA (onde é Professor), como todas as elites bonapartistas, depois de ser um jovem e arrogante neurologista, descobre durante uma brincadeira com os colegas, que tem um tumor maligno no cérebro. Quinze anos depois, venceu o tumor, mesmo depois de uma recaída e é sobre as técnicas de sobrevivência bem como de prolongamento da vida, e da busca incontornável do seu sentido, que ele exerceu o seu dever de nos informar. Ele dá muitos exemplos reais e tocantes que nos deixam calados. Pode dizer-se que a dieta mediterrânica é um bom preventivo mas também que a Civilização ocidental, que vem perdendo o domínio no Séc. XXI, deve ser afastada de um regime saudável de vida. Em suma, o modelo protestante anglo-saxónico faz objectivamente mal à saúde ou – como eu interpreto – é uma tal armadilha que, realmente, quem sobrevive nele, é porque travou com sucesso uma batalha bárbara que faria corar qualquer democrata liberal e sorrir de cúmplice a um antropófago. Concedo que Servan-Schreiber, como muitos judeus europeus, quer fugir de um ghetto interior, e que se expôs deliberadamente a todo o orientalismo da romaria norte-americana, com ioga, tai-chi e ecologismo radical. Mas o que ele nos ensina tem de ser ouvido: para sobrevivermos todos os dias, já não bastam os optimismos naturalistas da Europa romântica. É preciso comer e mover-se como um habitante do ghetto de Varsóvia, antes de mais uma levada. Não é paranóia. É a realidade e, neste aspecto, o Povo judeu da diáspora mantém intacta a sua força profética. A Democracia faz mal à saúde mesmo com um Serviço Nacional de Saúde.
Mas que vivemos num tempo de trevas espirituais profundas, parece-me que só uma pessoa acometida por uma doença assim o pode testemunhar. E não adianta proclamar a «Liberdade», que só um doente de cancro, absolutamente inocente, pode dizer-nos o limite de mais essa arrogância. Reduzir o mundo a uma dialéctica Esquerda-Direita é como matar por amor a um Clube de futebol. Mas, também, ver o mundo como Servan-Schreiber o vê, é esquecer o que disse o seu conterrâneo Bichat: « a vida é o conjunto das funções que resistem à morte». Mesmo aquelas que nos dizem que estando qualquer um de nós, morto, a prazo, resta-nos o dever de combater a Morte. Cada um de nós é uma «função de Bichat» e talvez este Natal seja melhor gastar mais em jogging, como os pastores do presépio e menos em camelo, como os Reis magos.
20.11.09
XLV - (Re)Leituras:The Geopolitics of Emotions, de Dominique Moïsi
Este livro foi publicado depois da eleição de Obama e antes da aprovação final do Tratado de Lisboa. Dominique Moïsi, do IFRI francês, é, talvez, o especialista de Relações Internacionais, francês, que melhor fala inglês. Filho dum sobrevivente de Auschwitz, parece-me o exemplo consumado da profunda estupidez do anti-semitismo. Não concordo com ele, já o presenciei em algumas atitudes um pouco arrogantes ou snobs, se não mesmo afectadas, mas tudo o que escreve é razoável, civilizado, até um pouco ingénuo, e sem ponta de perfídia. Neste livro, ele explica que as determinantes do Mundo moderno são a cultura da humilhação, à qual ele associa o mundo islâmico, e a cultura do medo, à qual ele associa o mundo israelita, mas também certa Europa e certa América. Termina com um capítulo de futurologia, com um cenário mau e outro bom, sobre o Mundo em 2025. Tem umas ideias interessantes como as de que os EUA se tornarão os missionários da ecologia, assinando um Acordo de Tóquio modificado e que tal os fará reentrar na Comunidade internacional, depois de passar um herdeiro de Obama, que será de extrema-direita mas isolacionista. Penso que exagera. Prevê, apesar de tudo, uma União Europeia, alinhando como Bloco económico e militar ao lado dos EUA, da Rússia, da China e da Índia mas, depois de um cenário, também possível, em que a Europa se reduzirá a menos do que o Reino Unido inicialmente queria dela. Prevê a independência da Catalunha, da Escócia e do País de Gales. Deixa o Brasil para depois. Prevê, apesar de tudo, um declínio da Europa, com expulsões em massa de emigrantes, prevê conflitos graves na Ásia, com a inevitabilidade de um regime fundamentalista no Paquistão, ou uma guerra local em Taiwan, e um exaurir do desenvolvimento da China. Prevê um clube muito maior de países nuclearizados, a começar pelo Japão mas também com a Turquia, a Arábia Saudita e o Egipto. Fala no bombardeamento conjunto das instalações nucleares iranianas, pelos EUA e Israel,derrubando Ahmanidejad, mas gerando um ódio generalizado aos EUA. No cenário bom, enquanto Israel e Palestina assinam finalmente o Tratado de Paz do conflito central da Modernidade, para Israel não acabar e a Palestina poder existir, abrindo Tel-Aviv mão de parte de Jesrusalém bem como dos territórios ocupados, e renunciando a Palestina ao direito de retorno dos seus exilados, o resto do Mundo debate-se com conflitos regionais. O Conselho de Segurança será alargado e contará com um Secretário-Geral carismático. Os «Grandes« contarão com a China, a Índia e o Brasil. Enfim, como ele diz, numa técnica de argumentação em que diz algumas coisas agradáveis, e deixa o paradoxo inquietante para o fim da frase, afinal Huntington tinha razão, porque conseguiu, em 1993, espalhar o perigo islâmico, o qual se materializou. Citando Hegel, os Homens fazem a História sem saberem qual. Acho que ele,o autor deste livro, realmente, não sabe.
17.11.09
XLIV - (Re)leituras, Milton: Political Writings, edited by Martin Dzelzainis, by André Bandeira
This collection of Milton's Political Writings, published in 1991, sheds some light on a politician who managed to survive as a poet. He got blind, had to go on hiding but finally got his own Candide's garden.
After reading his Tenure of King's and Magistrates, written to justify the beheading of the catholic Charles the First, and especially after reading his vitriolic argument, in Anglicorum Popolo Defensio, with Symasius, who was himself an «hired gun» for the royalists, one concludes that the modern conception of Republic didn't surface in Paris, in 1789, but did it long before, in London, in 1649.
What made both of the republics so prone to beheading as an execution techinque? It was the same costum of reserving to aristocrats, the fast lane. If the matter was speed, the ensuing civil wars, which didn't stop at all, neither during the Glorious Revolution, in 1688, nor with Napoleon, became the weapon of choice for eliminating other categories of ennemies, who were slower in time. At some point, Milton contends that his peculiar way of defending Cromwell's militar dictatorship is supported by evidences such as the fact that there is a pars potior or a pars sanior, a better or a healthier part of the population (the army, for instance) to legitimize a murder vested in trial. It doesn't matter which kind of church or doctrine, was Milton standing for. A mixture of Zwingli, and Luther was fair enough, particularly if all of it mouthed in the well proven demagoguery of Buchanan. As it happens in every Revolution, especially those ones proped up by black shirts such as the puritans and round-heads, the protagonists, and nobody but them, are day-dreaming. Therefore, there is a need in combing poets with advocates in every revolution, because they make nightmares look like dreams.
As far as one studies the fine art of conspiracy which leads to Monk turning his coat and facilitate the restoration of Charles the second, and, further in time, the restoration of parliamentarism, by William of Orange, one gets the feeling that what counts, is to have friends who stay afloat in every situation. If this corresponds to a technique of managing a stock of skeletons in the closet, as a kind of way in reaching a newtonian mass, it depends on how far Newton followed a secret cult. But it shows as well that nobody needs a kind of british parliamentarism, where royalists are ressented and republicans are frustrated. Instead of a little fatalism called Leviathan and a great deal of cynicysm, called Behemoth, as Hobbes put it, one needs more than a cave light which led Milton to see Lucifer as a superman, the moment he couldn´t see anything. As a matter of fact, in Paradise Lost, he watched the wrong movie: it was Frankenstein. The parts of the monster's body were ghosts of a demagogical assembly of sensations : an allucination called res publica.
After reading his Tenure of King's and Magistrates, written to justify the beheading of the catholic Charles the First, and especially after reading his vitriolic argument, in Anglicorum Popolo Defensio, with Symasius, who was himself an «hired gun» for the royalists, one concludes that the modern conception of Republic didn't surface in Paris, in 1789, but did it long before, in London, in 1649.
What made both of the republics so prone to beheading as an execution techinque? It was the same costum of reserving to aristocrats, the fast lane. If the matter was speed, the ensuing civil wars, which didn't stop at all, neither during the Glorious Revolution, in 1688, nor with Napoleon, became the weapon of choice for eliminating other categories of ennemies, who were slower in time. At some point, Milton contends that his peculiar way of defending Cromwell's militar dictatorship is supported by evidences such as the fact that there is a pars potior or a pars sanior, a better or a healthier part of the population (the army, for instance) to legitimize a murder vested in trial. It doesn't matter which kind of church or doctrine, was Milton standing for. A mixture of Zwingli, and Luther was fair enough, particularly if all of it mouthed in the well proven demagoguery of Buchanan. As it happens in every Revolution, especially those ones proped up by black shirts such as the puritans and round-heads, the protagonists, and nobody but them, are day-dreaming. Therefore, there is a need in combing poets with advocates in every revolution, because they make nightmares look like dreams.
As far as one studies the fine art of conspiracy which leads to Monk turning his coat and facilitate the restoration of Charles the second, and, further in time, the restoration of parliamentarism, by William of Orange, one gets the feeling that what counts, is to have friends who stay afloat in every situation. If this corresponds to a technique of managing a stock of skeletons in the closet, as a kind of way in reaching a newtonian mass, it depends on how far Newton followed a secret cult. But it shows as well that nobody needs a kind of british parliamentarism, where royalists are ressented and republicans are frustrated. Instead of a little fatalism called Leviathan and a great deal of cynicysm, called Behemoth, as Hobbes put it, one needs more than a cave light which led Milton to see Lucifer as a superman, the moment he couldn´t see anything. As a matter of fact, in Paradise Lost, he watched the wrong movie: it was Frankenstein. The parts of the monster's body were ghosts of a demagogical assembly of sensations : an allucination called res publica.
XLIII - Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, por André Bandeira
Este livro, tem edições subtis. Pego na de 1946. Mas o livro foi escrito, em 1936, um ano antes do golpe facistóide de Getúlio Vargas e dois, depois da insurreição comunistóide de Luís Carlos Prestes, o «Cavaleiro de Esperança». O texto é uma boa peça de investigação para a identidade portuguesa, no Séc.XXI. Para um país, como o Brasil, que será uma potência mundial dentro de alguns anos, e cujos intelectuais, depois de se sentarem à mesa dos maiores Pensadores do seu Tempo, insistem na identidade portuguesa das suas raízes, Portugal ainda é importante. Mas Sérgio Buarque de Holanda não se ensina nas escolas portuguesas, talvez porque há gente em Portugal que quer dissolver a identidade nacional, há muito tempo e a luta é amarga, há muito tempo também. Holanda terminou aqui a sua sociologia do Brasil e passou a Historiador. Dizem que foi Historiador das mentalidades.Porque,com tanta traição e tanto Miguel de Vasconcelos, Holanda não podia ir fazer a História do Brasil, em Lisboa. Rir-se-iam dele, como «brazuca». Por isso, saíu da América Portuguesa para uma outra América, que também tocou Roma.Contudo, Holanda sofre dum amargor irreparável em relação ao Brasil. Não o troca por uma cátedra na Europa, torce-se em esgares duma Nação em trabalho de parto e, por isso, não lhe adiantaria pensar que está noutro lugar. Defende, a concluir, que há um «espírito» que comanda a História e que a forma de Estado que o contorna, fica sempre no contorno. O erro dos fascistas, nomeadamente os postiços «integralistas» brasileiros, foi não serem oposição nenhuma. E o erro dos comunistas brasileiros foi o de serem naturalmente «anarquistas». Holanda deve ser um hegeliano no Brasil espírita, o que torna a pergunta sobre quem é o seu «Espírito da História», uma chalaça. Holanda é conservador e autoritário, apesar de se julgar avançado. E é-o em nome do realismo, dum frio polar como o de Max Weber. É cómico ver um «frio polar» num intelectual brasileiro. Portanto, a identidade nacional de Portugal é também brasileira, já que este frio polar permanece na combustão tropical dos portugueses. O estudo minucioso que Holanda fez da monarquia brasileira, apesar da curta duração desta, é fundamental para Portugal, porque a mesma pode ter durado pouco mas envolveu milhões de almas. E Holanda fala sem problemas de «influência ibérica», para, a todo o momento estabelecer a diferença abismal entre Portugal e Espanha. Pois...é que o Brasil não precisa nem de ódios, nem de guerras, nem de traições, para perceber a sua especificidade lusitana. O Brasil não é um imenso Portugal mas Portugal é um pedaço do Brasil.
15.11.09
XLII - Republicanos e Libertários - Pensadores radicais no Rio de Janeiro (1822), de Renato Lopes Leite, por André Bandeira
Hoje é 15 de Novembro, data da proclamação da República no Brasil. Alguns intelectuais brasileiros lamentam a data, dizendo que a República do Brasil inaugurou um período de guerras civis e aboliu um Imperador, Pedro II, que era afinal republicano. Neste livro percebe-se que já o seu pai, D.Pedro I, II de Portugal, era provavelmente republicano e que a luta nas Cortes constitucionais em Lisboa foi entre republicanos brasileiros e monárquicos portugueses. Mas a luta nas Cortes constitucionais do Brasil independente, em 1823,essa foi entre monárquicos constitucionais e republicanos. No fim, perderam os republicanos, e fizeram a Liga do Equador, que se revoltou contra o Rio de Janeiro de D. Pedro II do Brasil, levando ao primeiro ciclo de violência, no qual pereceram de João Soares Lisboa, um português feito brasileiro, e Frei Caneca. Mas o livro conclui de um modo cândido, dizendo que a proclamação da independência do Brasil, foi sobretudo resultado da intervenção da Imprensa republicana. O livro diz que sim. E acrescenta que o apoio popular foi certificado por uma série de festas públicas e populares em tumulto, nas quais a «voz do Povo» deu vivas ao Imperador do Brasil, entre foguetes e cornetas. Enquanto se lançavam também as sementes de um conflito racial, a proclamação foi o resultado de uma luta de elites, nas quais a minoria republicana - assinale-se -- nunca simpatizou, nem com Robespierre, nem com as invasões napoleónicas. E o conceito de Liberdade desta minoria era sobretudo a resistência à corrupção e à arbitrariedade do Estado. João Soares Lisboa morre em combate, agonizando por um dia, encostado a uma árvore,com uma frase bonita: «Morro nos braços da amizade».
Reconheço os ideais desta gente capaz do martírio. Porém, a História é tão irónica quanto a Humanidade. O desejo de Justiça e de Paz destes revolucionários surgiu depois de uma política sinistra e secreta, inaugurada com a abortada República de Cromwell e a seguinte Restauração dos Stuarts em Inglaterra, tudo abençoado pelo mago Hobbes. Não trouxe Paz a ninguém, entre picos de Justiça, semeou desertos de Injustiça e, de consolo, deu apenas breves alívios.Um regime deixou de se poder justificar por uma sequência de festas populares, em tumulto, nas quais se gritam alguns slogans. Os Reis que ainda existem, como as calotes polares da Humanidade, têm o dever de travar as lutas raivosas das elites. Com o escudo da gente boa e a espada da gente verdadeira.É esta a promessa do Rei Antigo, que não reina senão nos corações e que não é Imperador de nada.
Reconheço os ideais desta gente capaz do martírio. Porém, a História é tão irónica quanto a Humanidade. O desejo de Justiça e de Paz destes revolucionários surgiu depois de uma política sinistra e secreta, inaugurada com a abortada República de Cromwell e a seguinte Restauração dos Stuarts em Inglaterra, tudo abençoado pelo mago Hobbes. Não trouxe Paz a ninguém, entre picos de Justiça, semeou desertos de Injustiça e, de consolo, deu apenas breves alívios.Um regime deixou de se poder justificar por uma sequência de festas populares, em tumulto, nas quais se gritam alguns slogans. Os Reis que ainda existem, como as calotes polares da Humanidade, têm o dever de travar as lutas raivosas das elites. Com o escudo da gente boa e a espada da gente verdadeira.É esta a promessa do Rei Antigo, que não reina senão nos corações e que não é Imperador de nada.
12.11.09
XLI - (Re)leituras - The post-american World, de Fareed Zakaria, por André Bandeira
Fareed Zakaria, ex-editor da Newsweek, e com show próprio na CNN, escreveu este livro, pouco antes de Obama ser eleito. Hussein Obama fez um ano de presidência e John Muhammad, que, com o filho, matara dez pessoas arbitrariamente,em 2002, presumivelmente por uma imitação solitária da Al-Qaeda, foi executado sem últimas palavras.Dois nomes de nómadas do deserto dão o alfa e o ómega deste mandato presidencial que Zakaria, à data do livro, cautelosamente, não vaticinou.
Zakaria vem de Bombaim,sonhava com a América e materializou o seu sonho. De tal modo, que, depois de recitar a lição de óptimo aluno de Harvard, vem jogar. Porém, o seu tabuleiro de jogo é medonho: a Índia é um Estado-nação, os Estados-nação da Europa estão condenados a definhar e o Estado-nação americano, a «nação universal», vai continuar a liderar, mesmo num mundo bipolar -- com a China -- ou multipolar,com o Brasil e o México também.O jogo é sempre o mesmo, o do Poder, em que ser de esquerda liberal é igual ao credo de que a política pode mudar a cultura, se se vencer a competição. E o que é a «competição»? A maior classe média do Mundo, a lentidão indiana, contradições e vontade de prosperar,é a melhor das competições.
A competição por clientes, dos batoteiros, faz parte do jogo. Afinal, os Estados-nação -- ou campos de ensaio -- que a vaga de descolonização, seguinte à Segunda Guerra Mundial, inventou, por acordo entre os EUA e a URSS, reivindicam agora a selecção natural, no campo da Cultura. Os pequenos Estados-Nação, a despeito da sua longa História, estão condenados à irrelevância. Por conseguinte, só grandes Nações podem dividir o Mundo e, desde já, é entre essas Grandes Nações que se devem fazer intercâmbios. Entre as Grandes e as pequenas Nações só há concursos internos.O Ocidente certamente que cometeu erros hediondos, mas não deve somar, aos erros que cometeu, o do masoquismo. Se houve batoteiros que faziam «bluff» dizendo-se descendentes do Carlos Magno, a batota será a mesma quer se digam descendentes duma casta indiana superior, que beberam confucionismo no berço ou que são descendentes do lobisomem das estepes.
Zakaria vem de Bombaim,sonhava com a América e materializou o seu sonho. De tal modo, que, depois de recitar a lição de óptimo aluno de Harvard, vem jogar. Porém, o seu tabuleiro de jogo é medonho: a Índia é um Estado-nação, os Estados-nação da Europa estão condenados a definhar e o Estado-nação americano, a «nação universal», vai continuar a liderar, mesmo num mundo bipolar -- com a China -- ou multipolar,com o Brasil e o México também.O jogo é sempre o mesmo, o do Poder, em que ser de esquerda liberal é igual ao credo de que a política pode mudar a cultura, se se vencer a competição. E o que é a «competição»? A maior classe média do Mundo, a lentidão indiana, contradições e vontade de prosperar,é a melhor das competições.
A competição por clientes, dos batoteiros, faz parte do jogo. Afinal, os Estados-nação -- ou campos de ensaio -- que a vaga de descolonização, seguinte à Segunda Guerra Mundial, inventou, por acordo entre os EUA e a URSS, reivindicam agora a selecção natural, no campo da Cultura. Os pequenos Estados-Nação, a despeito da sua longa História, estão condenados à irrelevância. Por conseguinte, só grandes Nações podem dividir o Mundo e, desde já, é entre essas Grandes Nações que se devem fazer intercâmbios. Entre as Grandes e as pequenas Nações só há concursos internos.O Ocidente certamente que cometeu erros hediondos, mas não deve somar, aos erros que cometeu, o do masoquismo. Se houve batoteiros que faziam «bluff» dizendo-se descendentes do Carlos Magno, a batota será a mesma quer se digam descendentes duma casta indiana superior, que beberam confucionismo no berço ou que são descendentes do lobisomem das estepes.
9.11.09
XL - (Re)leituras - A Crítica da Faculdade de Julgar, de Immanuel Kant, por André Bandeira
Esta terceira «Crítica», de Kant, permitia aplicar uma espécie de raciocínio cumulativo para distinguir uma coisa bela duma outra sublime. Tudo dependia de categorias novas, como se «Alma, Mundo e Deus» ou Qualidade e Quantidade não permitissem, numa cervejaria, acertar entre uma cerveja, que se oferece, e o decote da criada, que arrefece. Seguindo Thomas Kuhn,as ciências humanas exigem «categorias móveis». Por exemplo, para explicar a sentença do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, para que se retirem os crucifixos das escolas, em Itália,eu acho que a categoria móvel, neste caso, é ambulante e o seu conceito «a ambulância».Goethe já dizia que, nem sempre a percepção erra. É o juízo que erra.
Ora vamos bem analisar o programa de uma excursão da escola dos nossos filhos, em que os podemos acompanhar. Os miúdos vão ver uma cidade europeia. Passem por aquela praça e está lá uma cruz, em cima do fontanário. A seguir, eles verão o cimo daquelas ruas com estátuas, algumas delas com cruzes. As estátuas estão com «gestos cristãos», como olhar para o céu, meter a mão no peito, carregar galos e chaves do Céu, peixes e coisas assim. Claro que há campanários por toda a parte, com cruzes em cima, colocadas em pontos estratégicos da cidade. No cimo daquela colina podem ver um fulano barbudo,de pálpebras semi-cerradas e em camisa de noite, com os braços abertos. Mede cerca de setenta metros, um exagero para um monumento à candura do sonambulismo e do Inconsciente de Freud,ou tratar-se-á de um campeão de natação, por estar ao pé do rio? E, agora, podem descer do autocarro e ir beber umas cervejas naquela tasca que existe desde o Séc. XVII, enquanto os miúdos jogam «Massacre», ou «Exterminio Total» no computador. Se olharem para o decote da empregada, e repararem na cruz, a balançar entre as duas suaves curvas na gola de renda, não se lembrem do «Manual de maus costumes» da Bíblia, nem tentem arrancar-lhe a cruz porque se ele traz vinte cervejas de cada vez, já houve quem a visse com três turistas engraçadinhos, debaixo do braço. É tudo um erro de percepção, como as receitas do Psiquiatra militar Nidal Malik Hassan.São as vossas caras que ficam mal na fotografia e há que fazer uma operação estética.Quando mudarem as vossas caras que podem traumatizar os meninos da escola,o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem terá também mudado já, o seu nome, para Tribunal do Juízo Universal.Se falharem a visita da sede desse baluarte da Liberdade e da Democracia, com um triângulo de quatro lados em cima,poderão dizer, sem preocupações: «Oh, que pena! Perdemos o Juízo!"
Ora vamos bem analisar o programa de uma excursão da escola dos nossos filhos, em que os podemos acompanhar. Os miúdos vão ver uma cidade europeia. Passem por aquela praça e está lá uma cruz, em cima do fontanário. A seguir, eles verão o cimo daquelas ruas com estátuas, algumas delas com cruzes. As estátuas estão com «gestos cristãos», como olhar para o céu, meter a mão no peito, carregar galos e chaves do Céu, peixes e coisas assim. Claro que há campanários por toda a parte, com cruzes em cima, colocadas em pontos estratégicos da cidade. No cimo daquela colina podem ver um fulano barbudo,de pálpebras semi-cerradas e em camisa de noite, com os braços abertos. Mede cerca de setenta metros, um exagero para um monumento à candura do sonambulismo e do Inconsciente de Freud,ou tratar-se-á de um campeão de natação, por estar ao pé do rio? E, agora, podem descer do autocarro e ir beber umas cervejas naquela tasca que existe desde o Séc. XVII, enquanto os miúdos jogam «Massacre», ou «Exterminio Total» no computador. Se olharem para o decote da empregada, e repararem na cruz, a balançar entre as duas suaves curvas na gola de renda, não se lembrem do «Manual de maus costumes» da Bíblia, nem tentem arrancar-lhe a cruz porque se ele traz vinte cervejas de cada vez, já houve quem a visse com três turistas engraçadinhos, debaixo do braço. É tudo um erro de percepção, como as receitas do Psiquiatra militar Nidal Malik Hassan.São as vossas caras que ficam mal na fotografia e há que fazer uma operação estética.Quando mudarem as vossas caras que podem traumatizar os meninos da escola,o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem terá também mudado já, o seu nome, para Tribunal do Juízo Universal.Se falharem a visita da sede desse baluarte da Liberdade e da Democracia, com um triângulo de quatro lados em cima,poderão dizer, sem preocupações: «Oh, que pena! Perdemos o Juízo!"
4.11.09
XXXIX - (Re)leituras - Raça e História, de Claude Lévi-Strauss, por André Bandeira
De Bruxelas, vale de tempestades, para o Brasil, terra de Vera Cruz. Lévi-Strauss fez esse caminho antes de sair do armário, que, no seu tempo, queria dizer tomar posições públicas por ideais públicos e não por miasmas individuais. Claude -- vou chamar-lhe assim -- morreu em silêncio antes que alguém o pudesse convidar para um concurso televisivo de longevidade ou, talvez, para dissertar sobre o direito ao testamento vital. Mandou depois um bilhete postal aos percursores bonitões das futuras câmaras de gaz. Claude era um judeu de Bruxelas, askhenazi que, saído da narrativa de maus costumes que foi o laboratório efervescente da Humanidade no Médio-Oriente (com um relatório parcial na Bíblia) se apercebeu da noite negra em que caíu o nosso espírito. Tomou, em plena época de premeditação assassina na Europa, a década de 30, a missão de exercer a influência francesa, racionalista, num país que ainda fardava os seus soldados à francesa.Como um século antes, o Arquitecto Montigny e o pintor Taunay. E chegou ao Brasil, foi ao Amazonas, decretou do alto da sua seriedade, o fim do termo «selvagem», porque encontrou índios que pouco tinham disso, graças a uma História que Paris ignorava e que não esperou por antropólogos de Paris para prosseguir. E fê-lo como se estivesse sempre dentro de um quarto, com livros, constatando e declarando sem pestanejar. A França, que fora derrotada ao lado da Confederação dos Estados do Sul, nos EUA, disputava agora a sua influência no Sul, com antropólogas norte-americanas de pouca lisura, como Ruth Benedict e Margaret Mead, ou fundadores como Boas e Malinowski. Claude atravessou a Segunda-Guerra mundial sem ser gazeado e emergiu com a sua Antropologia estrutural, que subdividia uma ideia académica em partes e depois somava-as para a voltar a repetir. Como Freud e outros, o seu número extenso de dados, corroborou uma teoria pré-definida. Mas, ao não-colaboracionista Claude, sobrou-lhe bom-senso. Quando foi chamado a discursar nas Nações Unidas sobre a Raça e a História, claro que deu testemunho de que não existem raças mas disse muito claramente, como lhe tinham ensinado milhares de picadelas de mosquitos tropicais e carrapatos europeus, que é um erro transferir culturas para meio de outras culturas, as quais se guerreiam forçosamente, quando obrigadas à promiscuidade. Tentaram vendê-lo como mais um padrinho da Revolução. Enganaram-se.Ele não foi, nem podia ser, porque nunca se pretendeu candidatar ao Parlamento europeu ou mundial -- ideia que certamente ignoraria -- um defensor da sociedade multicultural. O seu discurso Raça e História foi publicado e traduzido. Poucos o leram com atenção e os campeões da sanha libertacionista anti-colonial, que o ouviram discursar, protestaram exasperados. Mas Claude disse. E não se desdisse.
1.11.09
XXXVIII - (Re)Leituras - Conversas com Filósofos Brasileiros, de Marcos Nobre e José Márcio Rego, por André Bandeira
Quando leio este livro, compreendo porque é que Braz Teixeira considera tanto Tobias Barreto de Menezes, um filósofo mameluco (crioulo), nordestino, do Séc. XIX. Barreto testemunhou com a sua vida o que pensou e escreveu. Os filósofos deste livro, todos vivos à data da publicação do livro (2000), certamente que testemunham mas não sei se todos o fazem em relação ao que pensam. Noto com graça o diferendo pessoal entre Giannotti e Ruy Fausto,notando previamente que Giannotti vê na «filosofia brasileira» uma forma de resistência a influências estrangeiras que contradizem a experiência quotidiana do Brasil e a sensibilidade de Ruy Fausto, que é sobretudo um triunfo sobre uma existência épica. Simpatizo muito com a humildade de Leandro Konder, o que há de melhor num alemão tropical, nomeadamente quando dizia que militava com os comunistas, porque era normal, mas achava-os todos esquisitos. Mas de filosofia estamos falados: o mais covincente é mesmo Oswaldo Porchat, com o seu neo-pirronismo, porque sinto nele uma iluminação semperviva, a mesma que sustentará Diógenes de Halicarnasso, em qualquer lugar, em qualquer época. Ao começo, vejo a sombra do padre Lima Vaz e não posso deixar de pensar que também há legitimidade divina no gládio temporal, não apenas no espiritual. Só me resta mesmo Marilena Chauí. Lida aqui e em outras obras,esta filósofa filha de integralistas e que punha muitas perguntas, recebeu muitas respostas.Pediu Ordem e teve-a. A sua interpretação de Espinosa, monumental, só dignifica o filósofo português que viveu numa época sangrenta. Mas o espinosimo, aplicado hoje, é uma laranja mecânica,e revela a democracia como a ditadura do Povo. O drama da libertação pessoal de Espinosa obscurece a responsabilidade pessoal pela sociedade inteira de quem a pessoa, e não a sociedade, é o genótipo.Se, para isso, me despeço do Deus da Bíblia e entro na mistificação cristã, nem por isso me submeto ao gládio do padre Lima Vaz. Marilena continuará indefinidamente, como o Departamento francês ultramarino do Brasil. E fico-me a pensar se o diagnóstico marxista do capitalismo, depois de durar tanto tempo sem aplicar terapêutica de jeito, não será uma mistificação que, além de assassinar inocentes pobres, assassina empresários com princípios que sabem que a sua propriedade é o ganha-pão de muita gente enquanto não chega a Revolução mundial.
24.10.09
XXXVII (Re)leituras - Um «Fausto» de Saramago, por André Bandeira
Li «Cem Anos de solidão». Era um romance maravilhoso a que chamaram de «realismo fantástico». Tendo sido escrito por um homem muito culto e artista, fiquei durante uns tempos a pensar que passara a haver uma forma de falarmos das coisas a direito, sem nos dotarmos, antes, de uma linguagem certificada. Saramago, se calhar, pensou o mesmo. E pensou de tal maneira que achou que podia tratar também a Bíblia como «realismo fantástico». A linguagem antiquíssima da Bíblia passou a ser explícita como um comunicado político ou um anúncio das «Páginas Amarelas» e o que era símbolo passou de realidade fantástica, para uma noite sem dormir. Um pouco como se o que foi escrito nos hieroglifos egípcios fosse título de jornal e a raiva militante nos levasse a crer que, em vez do faraó, estavam a falar do Presidente, ou de mim próprio.Com o tempo, com o escavamento de civilizações mais antigas e o aprofundamento, quer da tecnologia, quer da linguagem dos animais, poderemos talvez tratar como «realismo fantástico», qualquer texto ou comportamento.Alguns textos de Física e Astronomia têm já esse carácter. Mas, aqui, faltam-me as palavras (parece que «neve» é dita de muitos modos por um «esquimó»). Vi também a amostra de debate entre o Padre especialista da Bíblia, Carreira das Neves, e Saramago, para perceber que o Padre, honesto e cortês, não se soube defender. Nesse mesmo dia conheci um missionário católico que trabalha há trinta e três anos numa região longínqua onde muitas pessoas estão mais ou menos condenadas a prazo por uma doença terrível, inclusive ele. Este missionário citou várias vezes a Bíblia e não tinha e-mail.Honestamente, não vou ter tempo para ler «Caim» e Saramago está para a Internet como Júlio Dantas para Almada Negreiros. Mesmo desculpando-se por uma linguagem rude que não o levou a retirar o livros das bancas e corrigi-los,Saramago lembra um Fausto fugindo duma sombra que lhe mostra um pacto assinado a sangue. E, aqui,o vulto cultural de Saramago entra no seu próprio realismo fantástico. Nesse mesmo dia percebi também que o missionário que conheci continuou a escrever a Bíblia, durante trinta e três anos, numa escrita que Saramago pode só vir a entender tarde demais.A escrita era realista.Se havia algo fantástico, era o Silêncio que se impôs a seguir.
22.10.09
XXXVI (Re)leituras - A Bíblia, de autor anónimo, por André Bandeira
Veio a primeira neve na Serra da Estrêla, em Portugal.A neve, que é muito branca e pura. E que cai sempre como uma página se enche de letras, ou uma folha branca se enche de traços, os quais -- diz-se -- tentam imitar a Natureza. E volta a escrever-se, cada Inverno.Um dia li a Bíblia numa semana e pouco percebi. Demorei anos, mais tarde, tive de aprender línguas antigas para voltar a ler algumas partes dela e percebê-las. Na verdade, penso tê-las percebido mas há mil maneiras de dizer a mesma coisa como os flocos de neve caiem sobre o chão, sempre de modo diferente e dão sempre a mesma brancura,fonte de luz inesperada quando os nossos olhos pesavam. Gostava de ser Hamish e ler a Bíblia de tal modo que quando entrassem na minha aldeia onde me refugiei, num instante de piedade da Natureza cruel, e começassem a estuprar as minhas crianças inocentes, eu fosse ainda capaz de-- uma vez passada a momentânea tortura -- de recolher esmola para a família das vítimas e para a viúva do assassino. E dizer isso, como a neve cai, santa e pura. Sim, agradeço a Bíblia em que me exercitei a ler, quando já tinha aprendido a ler, nas estrêlas, nos jornais, nos computadores, nos Tratados e nas linhas da mão. Agradeço o Deus vingativo, cruel e de mau carácter que o Homem fez à sua imagem só para que o Homem se pudesse ver como era e os traços negros da imagem se fossem acumulando, subissem no ar e condensassem a neve, que finalmente cai branca e pura.Nem Jesus, de quem alguém disse ter falido, muito antes dos céus se abrirem,pôde deixar de dizer, antes de entrar no enrêdo da Bíblia «Pai, se puderes afastar de mim este cálice...», para concluir, quase sem forças, «Mas faça-se a Tua vontade». Posso imaginar homens antigos, de muitos tempos, urgidos pela Morte que sempre avança nos subúrbios da cidade, tentando arranjar um sentido definido nas palavras que pronunciavam. Sim, é como medir o Universo pelo avanço que o atleta Aquiles dá à tartaruga, ou recordar uma bela noite estrelada de Verão pelos sons de umas anedotas que alguém ainda tenta contar ao fim de uma festa. E, no meio dessa escuridão imensa que começa nos subúrbios da cidade, onde os soldados ainda combatem -- que é uma escuridão apenas porque me pesam as pálpebras ao pensá-la -- a neve volta a cair, branca e pura, como as notas de uma música, os preparativos do pescador, os balidos de uma ovelha nascida de madrugada. E o chão se torna branco, mais uma vez, mesmo se me vem o arrepio da súbita lembrança de alguém que sofre ou está a morrer. Quem diria -- pergunto-me -- que as partículas escuras voando em redemoínho,e subindo no ar, provocariam esta brancura? Bom dia, irmã neve, que nunca te esqueces.
20.10.09
XXXV- (Re)leituras - Um Imenso Portugal, de Evaldo Cabral de Mello, por André Bandeira
Eis um livro, composto de artigos de Imprensa, que apontam para tantos horizontes na História, que até parece grosseiro fazer uma recensão. Mesmo assim, o título, voluntariamente tirado a uma canção de Chico Buarque, obriga um ouvido duro a cantarolá-la por distracção a cada página. Cabral de Mello defende que o destino do Nordeste brasileiro, antes e depois de 1640, permitiu um Portugal independente e, este último, por existir, permitiu a independência do Brasil.Depois, diz que o nacionalismo brasileiro apareceu por causa da independência e não ao contrário. Devo dizer que estas estradas profundas num Passado não muito longínquo (afinal, Hobbes e o Estado leviatânico são bem actuais)emergem de repente para dar uma resposta a termos e palavras que se nos impõem como enigmas. Não digo que o livro ande atrás de slogans criados por publicitários, apresentados sob a forma de charadas que nos vemos a resolver, ao guiar o automóvel ou a preparar o pequeno-almoço. Mas noto que certos paradoxos são como cortar a madeira dum lado e do outro da ponta do lápis, até fazê-lo tão aguçado que já não é mais um lápis, tornou-se um espêto.Como o livro, parecendo de História, se transforma num livro de política pura, não é difícil de imaginar uma História de Sherlock Holmes em que o Historiador aparece assassinado sobre a secretária com um lápis enfiado no coração. Como descobrir o culpado? Eliminado os suspeitos. Se Portugal fosse imenso, não seria Portugal, como não é português o «mar sem fim»,pois nem o mar, nem a terra antiga foram alguma vez fechados e os gregos e os romanos arruinaram-se ao querer fechá-los. O nacionalismo brasileiro não é português. A nova História fá-la-ão as pessoas com as suas estórias, mesmo aquelas que vieram de muito longe, tão longe quanto o calendário longo dos Maias e que pareciam aos marinheiros velozes, ilhas paradas na torrente, ou escravos de olhos apáticos. O autor é capaz de concordar comigo quando diz que falta fazer a História do Homem Negro no Brasil.Como viu o Escravo, o Grande Êxodo para Ocidente? Talvez um dia se encontrem os períodos duma «História» espiritual e possamos, enfim, passar a floresta dos vodus e dos feitiços, fazendo pousar finalmente as duas mãos do Cristo redentor, uma sobre a outra.
14.10.09
XXXIV - (Re)leituras - 1491- New Revelations of the Americas Before Columbus, de Charles C. Mann, por André Bandeira
Depois de ler este livro de 2005, concluo que, se tivesse que dar um primeiro nome ao Género Humano, lhe chamaria «desajeitado». Como eu. Este livro, de um jornalista de Ciência norte-americano, corresponde à moda,aflitiva, entre vários americanos, de se considerarem «índios», contra o resto do Mundo, depois de terem, por distracção ou deliberadamente, massacrado os índios reais.Depois de quase provar que, antes da Civilização mediterrânica, o Novo Mundo era muito mais povoado e histórico, quer dizer, mais velho, o livro faz-se de jovem, dando a entender que muitos dos mistérios a resolver pela humanidade residem nesta ciência nova do novo Mundo. Linguística, Ecologia, Matemática, vieram ao Mundo, no Novo. E o Novo Mundo, apesar de patentear as asneiras de todo o resto da Humanidade, cometeu-as ao mesmo tempo, mas a solo e, por isso, sobreviver-lhes-á. Por exemplo, o moderno conceito de Liberdade foi copiado dos iroqueses do Canadá e levanta a hipótese de que o elo perdido entre as formas mais arcaicas de cultura e as mais modernas, ficou a pairar no corredor americano, da Antártida ao Árctico, como o arco-íris.Enfim, é como redescobrir a Índia por Ocidente -- em vez de a «achar»,como diziam sempre os marinheiros portugueses.No meio de querelas científicas e políticas, o autor faz um bom jornalismo vespertino, em que o dia começa em 1491.Mas ficamos insatisfeitos. Se é verdade que a notícia da História ter acabado, foi exagerada e há muitos mais mundos para além da Democracia ( uma forma de aristocracia das assembleias,baptizada na Grécia), os quais nasceram há milénios e se estão a desenvolver em mundos coexistentes, também é certo que a História é tanta quantas as vidas humanas que a inventam. E, nisto, continuamos num poço a contar pedrinhas,sem rezar.
O livro faz ainda uma manchette: a Amazónia é uma invenção dos índios. Só se formos índios -- o autor hesita -- poderemos salvar as Amazónias do Mundo. Mas não há «índios», nem na Índia e «prêtos»,há alguns olhos, como «brancos», alguns flocos de neve e amarelos alguns girassóis.Há extraterrestres a rodar no meu gira-discos.
O livro faz ainda uma manchette: a Amazónia é uma invenção dos índios. Só se formos índios -- o autor hesita -- poderemos salvar as Amazónias do Mundo. Mas não há «índios», nem na Índia e «prêtos»,há alguns olhos, como «brancos», alguns flocos de neve e amarelos alguns girassóis.Há extraterrestres a rodar no meu gira-discos.
12.10.09
XXXIII - (Re)leituras - A Estrada para Fornovo, de Fernando Lourenço Fernandes, por André Bandeira
Poucos sabem que o Brasil combateu ao lado dos Aliados durante a Segunda Guerra Mundial. E que teve cerca de 1900 baixas mortais, entre marinheiros, soldados e civis.O autor, que dedica o livro também ao estudo de «outras guerras», dentro da Segunda Guerra Mundial, relata vários episódios que testemunham a completa ignorância do facto entre os europeus, com a excepção de Portugal, onde o facto é conhecido, também por razões afectivas. O livro relata com bastante objectividade o que foi a Guerra Civil italiana,de 1943 a 1945 (ou até mais tarde) que se desenrolou entre o Norte e o Sul de Itália, afrontando Governos italianos de sinal contrário, que tanto o comando alemão, como o comando aliado, desprezavam. E descreve ainda mais objectivamente a profunda angústia e luta contra o absurdo com que os italianos se viram, de um mês para o outro, transformados em joguetes da geo-política internacional. Ao cabo de se ler o estudo, fica-se com a ideia que dificilmente um povo tratado assim, poderia alguma vez mais falar na cena internacional de coração aberto. No meio disto tudo, os brasileiros, mal-equipados, foram alvo duma possante contra-ofensiva alemã que acabou por dizimar, ao lado, uma Brigada ainda mais mal-preparada, apesar de todas as certificações, a 92ª do Exército norte-americano, por sinal uma brigada de soldados negros, com o corpo de oficiais, branco. Mesmo assim, a Força Expedicionária Brasileira sustentou eficazmente o combate na zona de Modena e Reggio Emilia, a qual viria a ser considerada o «Triângulo Vermelho» da Itália do post-guerra mas que, curiosamente, gerou naquela altura, mesmo sob controlo aliado, um número inaudito de voluntários nas tropas fascistas. No meio desta confusão de dor e vergonha, os soldados brasileiros ficaram conhecidos pelo modo humano como tratavam os prisioneiros.
Lembro-me de um alto funcionário cingalês defender, um dia, a necessidade de militares do Sri Lanka continuarem a morrer em missões internacionais de Paz, por África e recordo-me de todas as tropas do Ultramar que morreram na Segunda Guerra Mundial. Se todas as guerras na Europa têm algo de Guerra civil, não vejo que haja nenhuma vitória em ver o Resto do Mundo, mais tarde ou mais cedo a intervir neste género de vespeiro. Os mouros da «França Livre» ou os argelinos eram duríssimos na guerra de montanha. E a sua crueldade ninguém a esqueceu. As populações italianas,então martirizadas e confusas, em torno de Pistóia, não esquecem ainda hoje a Humanidade das tropas brasileiras, numa Guerra onde o Homem se olhou ao espelho e viu um monstro.Por isso não faltam razões de orgulho para as Forças Armadas Brasileiras.
Lembro-me de um alto funcionário cingalês defender, um dia, a necessidade de militares do Sri Lanka continuarem a morrer em missões internacionais de Paz, por África e recordo-me de todas as tropas do Ultramar que morreram na Segunda Guerra Mundial. Se todas as guerras na Europa têm algo de Guerra civil, não vejo que haja nenhuma vitória em ver o Resto do Mundo, mais tarde ou mais cedo a intervir neste género de vespeiro. Os mouros da «França Livre» ou os argelinos eram duríssimos na guerra de montanha. E a sua crueldade ninguém a esqueceu. As populações italianas,então martirizadas e confusas, em torno de Pistóia, não esquecem ainda hoje a Humanidade das tropas brasileiras, numa Guerra onde o Homem se olhou ao espelho e viu um monstro.Por isso não faltam razões de orgulho para as Forças Armadas Brasileiras.
6.10.09
XXXII - (Re)leituras - Povo que lavas no rio, de Amália Rodrigues, por André Bandeira
Amália morreu a 6 de Outubro. Depois dos seus bens terem sido descongelados, sabe-se que apenas deixou cerca de 500.000 Euros, os quais terão de ser bem geridos para realizar os sonhos da Fundação com o nome da cantora. Amália não era assim tão rica, não era assim tão símbolo do Estado Novo, não era assim tão esperta, não era assim tão Mulherão, não era assim tão estrangeirada, etc. Mas algo que ela era «muito assim», era uma grande cantora, de um género de música que se canta com poucos instrumentos musicais, sobretudo numa cidade que tem muitas raízes mediterrânicas mas que é a capital de um país atlântico. Se dissessem a Amália que Portugal ia acabar, que qualquer das suas bandeiras desapareceria para se unir com uma bandeira representando um outro espaço, do qual Portugal era apenas uma parte, que Portugal abdicaria de ter um Hino próprio e até da sua Língua, que haveria ela de pensar? Penso que ela, que começara como pequena vendedeira num cais onde desembarcava gente de todo o Mundo, já tinha exprimido o que sentiria, nas suas canções:«Povo que lavas no rio/Que talhas com o teu machado/As tábuas do meu caixão.Pode haver quem te defenda/Quem compre teu chão sagrado/Mas a tua vida não». Não faltará quem defenda o povo, quem compre o seu chão antigo porque, em Economia, os bens mudam de mãos. Mas a vida desse Povo não se compra, nem pode ser defendida por alguém de fora. Uma vida que se defende a si mesma, com um coração independente, «foi por vontade de Deus», que teve de viver assim, «sempre, nesta ansiedade». E é esse Povo que só se pode defender a si próprio, aquele que talha o caixão de quem toma consciência dele. Como se, por trás de todas as bandeiras de Portugal, adejasse o recorte dum buraco na terra, ou um pedregulho caindo no Mar, uma bandeira negra, um xaile e uma capa esfarrapadas. «Barco Negro/Dançava na Luz», diz outro Fado de Amália. Posso imaginar um cavaleiro do Norte que chega a uma cidade, onde uma mulher imóvel, vestida de negro, canta qualquer coisa, rodeada de músicos solenes e contidos, como se proclamasse um ultraje. Mesmo sem compreender, esse cavaleiro deter-se-á a ouvi-la, como se houvesse realmente um ultraje qualquer, irónico e firme, que é reparado no pregão. Penso que Amália, que tinha gestos espontâneos de dar dinheiro sem contar, a pessoas totalmente desamparadas, certamente que sairia do cortejo para dar tudo a esse Povo que arqueja por continuar a existir, como um Rei abraçado ao mastro de todas as suas bandeiras esfarrapadas.
4.10.09
XXXI - (Re)leituras: How the Irish Saved Civilization, de Thomas Cahill, por André Bandeira
Esta obra de 1996, com o subtítulo do papel heróico dos irlandeses desde a Idade Média até aos nossos dias, defende a tese curiosa de que não haveria Renascimento se o Monges irlandeses não tivessem continuado a cultivar a civilização greco-romana ao longo de todas as invasões bárbaras. Embora passassem, a partir de certa altura, a ser pilhados e mortos pelos vikings e pelos anglo-saxões, os irlandeses nunca foram invadidos pelos bárbaros, tendo finalmente repelido a invasão normanda,na batalha de Clontaft. Diz-se que, em tempos de total isolamento, subiram a parada, e passaram mesmo a falar uma forma de latim ainda mais exigente e refinada, continuando assim aquilo que no Império Romano do Oriente, de Justiniano, ia asfixiando num território cada vez mais estreito. Nomes como João Escoto Eriúgena conseguiram passar intacta a tradição platónica que reemergiu também no Franciscanismo espiritual. Quer dizer:na Irlanda, a Idade Média não se interpôs entre a Antiguidade e a Modernidade. O livro dá também um papel de relevo importante ao congregacionismo irlandês nos EUA dos Sécs. XIX e XX, entre os colonos calvinistas e todo o resto.Quando Nova York se fazia nas ruas, à navalhada e ao cacete, o «Paddy» irlandês, conhecendo toda a gente no bairro e manejando bem um cajado curto, era um elemento mais gregário que a Polícia e menos desagregador que o mafioso.
Não sei se a Tese é ou não uma vaidade de um filho de imigrantes irlandeses nos EUA mas recordo-me deste livro num dia em que o Povo irlandês se voltou a dividir, de um modo diferente daquele com que se dividiu há um ano. E digo para mim que há algo de estranho naquela terra verde que faz com que nenhuma espécie de serpente se tenha desenvolvido naturalmente na ilha. Seja o que o Povo irlandês decidir, tenho a certeza que ele guardará algo do nosso sonho, sempre. E que, quando for necessário, Michael Collins voltará a levantar-se numa praça brumosa, acordando as pessoas com a sua voz misto de mel e de cana-rachada, coma a sua imprudência de bêbedo insubmisso e a sua luz de chama verde, verde dum fogo tímido, mas que até debaixo de água, da água cinzenta dos dias de trabalhos e desemprego, se incendeia sem explicação. Como se houvesse uma Primavera algures, que ficou ardendo independente, no coração de povos dispersos e submetidos pela mesma cinzentura da estepe.
Não sei se a Tese é ou não uma vaidade de um filho de imigrantes irlandeses nos EUA mas recordo-me deste livro num dia em que o Povo irlandês se voltou a dividir, de um modo diferente daquele com que se dividiu há um ano. E digo para mim que há algo de estranho naquela terra verde que faz com que nenhuma espécie de serpente se tenha desenvolvido naturalmente na ilha. Seja o que o Povo irlandês decidir, tenho a certeza que ele guardará algo do nosso sonho, sempre. E que, quando for necessário, Michael Collins voltará a levantar-se numa praça brumosa, acordando as pessoas com a sua voz misto de mel e de cana-rachada, coma a sua imprudência de bêbedo insubmisso e a sua luz de chama verde, verde dum fogo tímido, mas que até debaixo de água, da água cinzenta dos dias de trabalhos e desemprego, se incendeia sem explicação. Como se houvesse uma Primavera algures, que ficou ardendo independente, no coração de povos dispersos e submetidos pela mesma cinzentura da estepe.
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