14.9.06

Interpretação do 11 de Setembro, por André Bandeira


Vi hoje o caso de Joaquín Martinez , um espanhol que estava no corredor da morte em Miami e conseguiu provar que era não-culpado de um duplo assassínio pelo qual fora condenado. Uma família unida e ibérica juntou-se, um bom Rei, um honrado cônsul, um homem bom, advogado norte-americano …

Vejo que as pessoas que entraram nas Torres Gémeas no dia 11 de Setembro de 2001, entraram no corredor da morte sabendo que eram inocentes. Os mesmos do 11 de Julho em Madrid e noutros lugares . Os miúdos que entraram no refúgio em Qanah, onde viriam a ser esquartejados, durante o sono, entre um canhão do Partido de Deus e um míssil do Povo de Deus, esses sabiam, por não saberem, serem um pouco culpados, ao andarem e terem nascido em fuga há muito tempo e, sobretudo, por serem inocentes.

Quem não tem, por definição, nenhuma culpa, é culpado, porque não entrou ainda no Mundo asfixiante da culpa. Eu matei um gatito prêto quando era miúdo e, apesar de o tentar ainda salvar, quando ele me agitava a sua patita, paralisado por uma dor que o seu mundo breve, de um barranco e uma lixeira entre a poeira não explicavam, nunca me esquecerei da sua carita desolada, de boquita aberta, tentando estender a patita talvez para pôr direito esse Mundo que se virara, brutalmente ao contrário. Deus sabe que nunca conseguirei ultrapassar esta dor dentro de mim, visto que não posso ressucitar este gatito e adormecermos os dois numa tarde de Verão, sózinhos, um velho adiado com um gato zarôlho nos joelhos, que só se têm um ao outro. Posso tentar ajudar animais, ser vegetariano, como já tentei, mas nunca ultrapassarei esta dor que me há-de acompanhar até ao fim da vida. E que Deus e vós me perdôem…

Assim é o mesmo com as pessoas que entram nos vários corredores da morte, sejam da Existência ou da História, sabendo-se culpados ou desconhecendo-o completamente. Vão para o corredor da morte como quem se mete numa escada rolante. Lembra-me dum casal de dois velhitos chineses, agarrados um ao outro, rindo um pouco envergonhados a tentarem meter o pé numa escada dessas e a retirarem-no várias vezes, sem conseguirem.

Descubro então que a única defesa para não cometer mais crimes, estejam eles ou não inscritos nos meus genes, é a de ter saudades e amar toda a abjecção duma vida falhada, obscura, disléxica e até anedótica se não fosse tão torta. Tenho a certeza que uma vida assim, me fará suspirar, quando vier o tropêço final, a brisazita de não fazer grandes disparates. Posso até somar os deveres de todas as religiões, tentar loucamente cumpri-los, perder a razão na penitência de pecados imaginários, fazer até tropeçar o pé esquerdo no pé direito que tropeçara antes, julgando sem saber bem que até pus o diabo tôlo.

Mas quantas pessoas por esse Mundo fora, apagadas e de quem já o vento se esqueceu, são a vitória definitiva contra todos os tortos e disparates que não chegámos a cometer ? E saber que essas pessoas rodam com o silêncio da Terra pelo Universo, pelos séculos dos séculos, adormecidos na colcha luminosa do Tempo, serena enfim meu coração.

Ah, enganei-me na tecla. Que bom chegar ao fim e tropeçar mais uma vez…

12.9.06

The widening Atlantic, Financial Times


Every year the annual “Transatlantic Trends” opinion survey provides a fascinating, if often alarming, insight into the state of transatlantic relations. The latest report, organised by the German Marshall Fund, has just been released. It deserves particular attention given the impending fifth anniversary of 9/11. It will not make for happy reading in Washington. But it is unlikely to cheer up the leaders of Iran either – there is surprisingly strong European support for the idea of military strikes against Iranian nuclear facilities.

The big picture is that European sympathy for the United States and support for US global leadership fell precipitately in the wake of the invasion of Iraq – and is still in the doldrums. In 2002, 64 per cent of Europeans saw American leadership in world affairs as “desirable”; by 2004 that had fallen to 36 per cent, and this year the figure is 37 per cent. Mention George W.Bush explicitly and approval ratings fall even further. Just 18 per cent of Europeans approve of his handling of world affairs.

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Behind the big picture there is a wealth of fascinating detail. There are four points that strike me as particularly interesting:

1) The sharpest decline in support for America has come in the most traditionally Atlanticist countries such as the Netherlands, Britain and Portugal. At a popular level, the traditional distinction between the pro-American British and the anti-American French no longer really holds. A chart of “Who supports the US most” shows the Romanians as the most pro-American country polled and the Turks as easily the most anti-American. The UK and France are grouped next to each other in the middle, with the British only marginally more supportive than the French.

2) Perhaps the most surprising and counter-intuitive trend is that all this European suspicion of American global leadership will not necessarily translate into opposition to military strikes on Iranian nuclear facilities. Both Americans and Europeans regards military strikes as the worst option available. But on both sides of the Atlantic, lots of people are prepared to contemplate military strikes as a last resort, “if diplomacy fails”: 53 per cent of Americans support military action under those circumstances, as do 45 per cent of Europeans. The French are actually marginally more bellicose than the Americans: 54 per cent of French people would support military strikes as a last resort.

3) Something strange and disturbing is happening in Turkey. For the first time ever less than 50 per cent of Turks (44 per cent to be precise) are prepared to accept the idea that “Nato is still essential”. Turkish support for joining the EU is still above 50 per cent - but only just. It stands at 54 per cent compared with 73 per cent two years ago. And Turks are dramatically out of sympathy with America. Asked to rate their feelings for other nations and groups of people out of 100, the most popular group are the Palestinians (47), followed by the EU (45), Germany (44) and Iran (43). America is down at 20, beaten in the unpopularity stakes only by Israel on 12.

4) Finally, although anti-Americanism in Europe is often dismissed as an elite phenomenon, a separate “European elites survey” suggests that exactly the opposite is true. GMF polled a large group of members of the European parliament and officials working for the European Commission. They found that 73 per cent of parliamentarians and 75 per cent of Commission officials were prepared to say that US leadership is “somewhat desirable”, compared with less than 40 per cent of the general public. Mind you, only one out of 50 Commission officials polled had a positive view of George W. Bush. Presumably that individual will now have to be found and sacked.

10.9.06

Ler Marx em Setembro, por André Bandeira


Porquê ler Marx? Agora, por Humanidade, a qual sobrevive sempre aos cataclismos ideológicos. E porque a sua voz dogmática, metálica, o seu desprezo pelos patuscos, burgueses ou revolucionários, sobrevive decerto ao marxismo.
É curioso recordar uma hipnose feita de corridas e aventuras, algum sexo, muita demagogia e irresponsabilidade e uma demorada orgia de Poder. Isso do materialismo histórico e do materialismo dialético estão sempre vivos, não é qualquer um que volta agora atrás a uma fase que se já passou, nestes ricorsi de Vico, ao tempo dos heróis de teatro. Biólogos e Físicos, nos EUA são todos marxianos, mesmo sem serem marxistas. O mais brilhante teórico de Relações Internacionais de hoje em dia, o norte-americano Wallerstein, é marxista. Só os economistas não são, porque esses estão a investir na Bolsa e são suficientemente discretos ou mentirosos a respeito do que sabem, para não irem para a cadeia. Aliás, o Mundo ficou marxista. Está todo socializado, cheio de oportunidades de prazer para as seduções e fumo de charuto de novos Marx. Marx seria o primeiro a aprovar o bombardeamento de Teerão. Deixem-se de doutrinas porque Marx por ele mesmo, como nos deu o receoso Raymond Aron ou descontrolado Louis Althusser, estão bem vivos nos estilos de Richard Branson da Virgin ou outros empresários de sucesso, que vivem como as plantas sensitivas, ao foco da Televisão. Felizmente que os primitivos russos e os chineses já se deixaram de interromper o processo deste carril de História que nem nos deixa piar. A doce transição para o socialismo está aí a ser feita pelos melhores individualismos e efeitos virtuais do Ocidente, senão mesmo pelos soldados americanos no Médio-Oriente, com as suas modas liberais, pragmáticas e despachadas, como a pilula ou a meia de nylon. Marx, no fundo, ao contrário do incestuoso maluco Bakunine, queria um Partido de fato e gravata, dentro da Lei. Detestava a Comuna de Paris e, por isso, talvez Brasillach e Rebatet, que eram fascistas, homenageavam regularmente o muro dos federados onde os operários e miseráveis de Paris morreram de peito aberto às balas, gritando frases de raiva variadas e incompreeensíveis. Marx é rebelde, inteligente, sedutor, não perdoa, tem muito de mediterrânico. O amor que sempre demostrou pela própria família revela um homem quente e bem vivo. É até digno de pena, a pena que ele não teve senão pelo Proletário ideal que o levaria ao estrelato, tão certo, como uma fórmula matemática, que só existia na sua cabeça e no coração vingador de Lenine, o qual tivera um nobilíssimo irmão. Há um Santo Marx, como ele gozou com o "Santo Bruno Bauer" e o "Santo Max Stirner"? Há sim. O Santo do Espírito de Hegel que sempre me fez desconfiar do erotismo balzaquiano das sessões de espiritismo. Tudo o que é real é o nosso espírito, as nossas teorias, as nossa verborreias de café e de engates galantes, os nossos ismos construídos em bibliotecas. Um espírito sempre a correr, necessáriamente para cima, como se a realidade fosse apenas uma anti-matéria impertinente da Razão. Este Santo é um Santo do Mal, com a foice do genocidio ou o cordel da guilhotina, na mão.
Realmente eram melhores, em vez do trocismo e do sectarismo de Marx, da sua vaidade e da sua irresponsabilidade, os revolucionários genuínos, pobres ou ricos, como Émil Henri ou Ravachol, que viveram a sua tragédia pessoal até ao fim, seguindo a sua consciência. Esses teriam lugar no perdão dos que foram sedentos de Justiça e não, como Marx, que, apesar do seu apurado sentido de Justiça, tinha era ambição de honrarias. Felizmente que o seu amor pela família, bem pouco eficaz, o salvou, no coração, antes de morrer. Morrer por ser incapaz de viver sem a mulher e a sua filha, ambas de nome Jenny ou ter um amigo como Engels até ao fim, não sei se todos teremos essa consolação.

5.9.06

News of the World, by Globetrotter


The poor Irwin died. But his death was registered in video, as most of his life. He was a good, benevolent ape-man, who decided to climb back the genealogical tree of other erect apes and try to live in harmony with Nature. His legacy remains, as the snapshot of his sincere, childish face, tenderly rubbing a baby crocodile, does. Australians are some of those outcasts from the western world, who were unfortunate and fortunate enough to sleep tight in Nature’s arms. They got a little bit of kangaroo, ostrich and of crocodile; they found their identity in a Continent where Nature managed to stay in a closed circuit for many years of the historic era. In the meantime, another ailing ape-man says that the worst is already gone, but not for his ailing people. Hunger and humiliation may justify shooting but never a State, except in a rough mind, could justify the death of a single man. And this ailing Fidel, now, flows in the cheering and tears he didn’t shed for the lonely losers he pushed to the execution wall, at desolate dawns. We should do everything we can to get him a nice wheel-chair and a nice sailing to a peaceful port of exile: he’s about to fight his worst battle, the one we all have to fight alone. There will be no chaos, after his departure and, at least, this rough and heartless ruler would be absorbed by the Past, which is a generous kingdom. Guenther Grass should be laughing at life. What an actor he was, how vivid, almost real he played! Will he find courage enough to say something in front of a mirror that doesn’t shed a second image, the one of Faust? I know the world is cynical but should the cynical go on receiving Nobel Prizes? They say that only mediocrity sticks to coherence, but he has been always coherent, a coherent liar. The Taliban are fighting back. They do not want to be free. They want to be themselves. Nobody wants to be free before being himself. In Israel everything is in turmoil. There are suspicions that the President himself and the Minister of Justice have raped or harassed someone. But P.M. Olmert justified the track of war because people were losing the pleasure of life, out of Hezbollah’s rockets. I guess there are many more reasons for the Israelis, who have the sacred right to live and exist where they deserved to be, for being depressed. And clap your hands, clap your hands! The British, French, Italian and German soldiers who have been summarily executed in the end of the First World War, on grounds of cowardice, have been finally rehabilitated. The news was discreet but the lesson stays. Some rebelled but these ones suffered alone in a living hell. May we finally hold their livid and desolate hands. Notorious women are running for Presidents. Behind a Great woman, there is always a cupid man.

3.9.06

Aphorisms at the end of Summer, by André Bandeira



1 - The sight of Beauty may cause some hormonal expectations which lead to the rejection and repugnance of ugliness. That's why ugly people do not bring with them, the so-called luck. They cut short, at sight, a certain degree of satisfaction which comes before fruition.

2 - The murder of God caused a creeping void. Now, that everybody is shouting and evoking God, we became colloquial with Him and we even deduce many deities from the word. That's why some Sun freaks take the Sea for a god. The Sea is unaccountably old, constant, and big. That's a god...

3 - Sensualism is very strong. We even call it Intuition.

4 - Between the world of facts and the one of words, we don't really need a cover-code, but we do need an intermediate code. We need a translator, not a dictionary. There is an ocean of complexity in between, we are part of it, every step of the way.

5 - The Ethics of Responsibility goes round in circles, even when it sums up the complexity of causes and consequences. At a certain point it spreads as the ondulatory concentric circles on the surface of a pond, which has been splashed by a stone. Every ethics becomes incorporated, embedded within facts. That's why the surface of the pond becomes quiet again. The one to change, that's the way we see it, not the pond.

6 - Identifying Reality by means of dividing it into things, certainly breaks the ungraspable flux of the mind. But this flux has made a thing out of us, long before we were tired of riding it.

7 - The feeling of Guilt, as any other Attribute, doesn't require a case to be there, in order to make itself conspicuous. There wouldn't be really anything without attribution. But the feeling of Guilt, in abstract, is just a Symbol of the wish for happinness, in rough times. In darkness, a diamond feels like a stone.

8 - Pan-sexuality, as they call it now, will be soon expanded to children. It has to do with the relentelessness of an unfulfilled desire. Is it possible to live unsatisfied, just for the sake of Beauty? Yes, it is. Because Desire is Life kicking inside our veins and more important than the statue of Venus, that's the Sunlight which sets it on.

9 - "Let's have lunch together", says a businessman to the the other, on the phone. Regular meals should be avoided by people who love and have to behave as urban guerrillas to go on loving.

10 - Masculine, that's the nature of willing. Fulfilment is feminine. Half of the world is waiting for the willing of the other half, to manifest. But Will doesn't come up for the sake of fulfilment.

12 - In the current state of affairs, where some master is manipulating pendulums and procedures to tame and lead any kind of awareness, it is good to have a constant point of view, even if it is the wrong one.

13 - Decision doesn't mean mastering the world. As a matter of fact, the one who decides, proceeds to the ablation of a part of the world. And he stays aside. That's why decision is not from this world, and requires a world beyond this one, which is never proven and which doesn't make part of the decision. Is it only a fiction? No. It is pure imagination. But without imagination we would never be able to decide and make our own, human world. Furthermore, we make it human precisely because it is not decided and made, neither in the same state of mind, nor in the same wave length of the world. When some say that deciding the wrong way is better that not taking a decision at all, they are not sating on the content of the decision, they are saving the face of humans, who have no ultimate reason for their actions. Humans are just essentially insufficient and decision only means the reconcilitiation with this insufficiency.

30.8.06

A Grande Mentira do Islamofascismo




A incompreensão do softpower que se apoderou dos neoconservadores de Washington leva-os a usar termos venenosos como Islamo-Fascistas para referir o Hizballah e o Hamas. O termo é um explosivo emocional, digno de Goebbles, e uma arma na guerra de informação contra essa outra ficção que é o “califado muçulmano”. Os termos são inventados para desumanizar ou demonizar os adversários e negar-lhes motivações políticas racionais. Assim, não é preciso ouvi-los nem falar com eles. Sem cair no paradoxo de Peter Ustinov que dizia que “o terrorismo é a guerra dos pobres, e a guerra é o terrorismo dos ricos.”, terrorismo e ‘fascista' são termos que perderam o significado original.

Uma boa definição de fascismo, como a de Robert Paxton, exige 4 ou 5 condições: 1. um sentido da crise fora das soluções tradicionais; 2. o sentimento de vítima, a justificar qualquer acção sem limites jurídicos ou morais; 3. a autoridade de um chefe acima da lei, que confia nos seus instintos; 4. o direito a dominar outros; 5. medo do contágio estrangeiro. O fascismo exige guerras de conquista, e ameaças para manter a nação em estado de ansiedade e hipertensão patriótica. Os que discordam são traidores. Os fascistas aliam-se sempre aos partidos conservadores tradicionais, e ao complexo militar-industrial.

Como escreveu Andrew Bosworth, o fundamentalismo islâmico “é um movimento transnacional oposto ao pseudo-nacionalismo necessário ao fascismo. No mundo muçulmano, nada há que se assemelhe aos estados fascistas ocidentais. A sociedade islâmica tradicional, com estruturas fragmentadas de poder, lealdades locais e tribais, e tomada de decisão por consenso, está muito longe do fascismo do estado industrial ocidental. O mundo muçulmano, além de algumas democracias razoáveis e funcionais, tem algumas ditaduras brutais, algumas monarquias semi-feudais, e alguns estados falhados e corruptos. Mas nenhuns destes regimes, se ajusta ao padrão do fascismo. Muitos regimes conservadores e militaristas não são fascistas. Que o diga Washinton ao falar com a Arábia saudita e os Principados do Golfo.

Os grupos militantes islâmicos (`terroristas' na terminologia ocidental) não entram nesta grelha delirante querem libertar territórios de ocupação estrangeira, derrubar regimes não-Islâmicos, quebrar a influência ocidental na região, e, nalguns casos, instaurar uma teocracia baseada na democracia islâmica. O “califado islâmico mundial” é uma fantasia digna de Bin Laden e dos lobbies frenéticos da direita de Washington. O único grupo fascista no Próximo Oriente era os Falangistas cristãos dos anos 30, no Líbano e aliados de Israel nos anos 80.

É grotesco que Bush e Blair mantenham a pretensão de travar uma nova guerra mundial. OS EUA travam uma guerra de terceiro mundo ou uma guerra de quarta geração (contra adversários não-estatais) dentro dos cânones do “ interesse nacional”. Mas a direita da América está a infectar a nação com as emoções políticas da Segunda Grande Guerra; no fundo projecta no exterior, os ódios racistas e religiosos que ainda tem pudor de usar no interior. Na Europa, o ódio anti-semita, a velha marca dos partidos de direita, passou do anti-judeu para o anti-muçulmano. Viu-se isso com a exploração dos cartoons da Dinamarca (que nem sequer eram grande coisa os publicados, não os efectivamente circulados no Médio Oriente).

Na América, ( e em alguns caniches europeus) não faltam tendências neo-fascistas em direitistas rambos. Advogam ataques preemptivos contra inimigos potenciais, captura dos recursos da outra nação, derrube de governos não cooperantes, domínio militar global, ódio aos Semitas (muçulmanos, para já, depois se verá), controlo policial intenso. Abusa-se do manto sagrado do patriotismo para promover o complexo militar-industrial. Incita-se à guerra nos órgãos do propaganda. E agora está na hora de chicotear a febre da guerra contra a Síria e o Irão como uma fuga para a frente, uma profecia auto-cumprida, após os desastres no Afeganistão, Iraque, Somália e Líbano.

25.8.06

The half of it, by Half-man


By halves we live. Half-way of a marriage, we desire somebody else. Half-way of desiring somebody else, we get involved with a third one, behind a counter or hanging from the same bar.
Half-way between the neck and the heels, there is a butt we phantazise about. Since the butt brings back less responsibilities, we know for the better, that being gazed back by eyes, which gaze over a shoulder, from the edge of a body which turned its back on us, is much more exciting. A body with no face means the ultimate nakedness, the one which we don´t even need to obtain.
By halves of halves we suffocate.
I met on the street, yesterday, a Portuguese, a retired one, one of those left-behinds in August. But this one was left on his own, many Augusts ago. He stated and he proved that he lives on 40 Euros a month. Since he had to retire after being run over, by a car, in the city, he's still discussing a compensation with the Insurance company. The Insurance takes time because this man is already on the eve of a fifth operation and his problem could be cut short. He also asks for alms. His name is Augusto Santos Sousa and he lives in Rua das Gaivotas, n. 28, 1362-Lisbon, P-Portugal. I gave him the 50 Euros I had in the wallet and decided to have a cold dinner, composed of left-overs, sitting by the fridge and thinking on the half of a sardine can a day, Augusto is getting by. He also raised his voice telling that he hadn't studied ( the equivalent of the sixth grade, quite a feat for a guy of his generation and background) to live through that humilliation. But he calmed down and stated he was going to have a substantial meal, after speaking to me. He tried to kiss my hand.
The day before I saw four men around a trash bin. One was an aged Nigger, with his penetrating, almost laughing look, the other was an Ucranian with his shaved head and his fraternal gesturing, and his leaning ahead attitude, as a man ready to work even if he didn't have eyes or legs. The other two were asians, dark and short as anguish. They were partitioning a bunch of fresh sardines that somebody had thrown away. In four parts.
They were living by quarters.
And soon we'll be living by less than quarters. In the abyss of selfishness and total madness, we'll be partitioned in much more than quarters.

23.8.06

A Iha dos Amores, AB



Que há de novo num traseiro? Ele há-os de diferentes carácteres. Deve-se mesmo fazer um código no mundo da moda para negociar a entrada de um novo carácter destes, ao léu.
Ora eu tiro o chapéu ( e só ele) a Elsa Rapôso, empresária também de si mesma, que aparece como uma estátua de bronze nos léus deste Verão, entre as giestas do Barão Brei...
Os casamentos ilustres já não fazem capas porque, para serem ilustres, têm de ser para a vida. Mas um divórcio para todos os Verões, isso é de encantar. Há algo de progressão lateral de uma equipa de râgueby, em campo: do marido, para o amante, do amante para o amigo, do amigo para a onda e da onda para o Barão. Não havendo já categorias nupciais para tanto ensaio, tudo me leva a crer que a nossa léu da semana, está em guerra com o mundo. E bem podia descansar um bocado para variar.
Mas uma mulher ultrajada é imparável. Excepto quando é ultrajante, porque temos que a parar. Não, a D. Elsa, não é o "corpo". E Portugal não é a Ilha dos Amores, para andarem por aí, mães de filhos, aos saltos, nuas, pelas giestas, mesmos que sejam as do barão.
Dorsos ebúrneos e peitos dourados, onde jazem duas opalas verdes como o Índico e o Pacífico, não são canto para o nosso poema épico. Cesse de nos olhar Sra. Elsa, porque essa técnica de fixar um homem até ele começar a rabiar, repetida milhares de vezes pela Imprensa, não é uma provocação, é uma falta de coração.
Tenha ao menos a noção higiénica que a emersão dos traseiros e peitos dourados é como qualquer coisa de casa-de-banho de Gare e de quartel, às sextas-feiras. E, se as opalas verdes brilham do anel dourado, na frescura do abismo, também depressa se transformam em dois oxiúros furfurescentes numa espiral de m... ao som do autoclismo. É esta a rima que lhe dedico, a si, que só consegue capas de revista, porque nem um poeta zarôlho lhe é capaz de achar graça.
Em suma: deixe de ser louca, poque não é o traseiro deste Verão e, muito menos "o Traseiro". Afinal, um traseiro, não tem carácter.

22.8.06

From Guns to Grass, by André Bandeira

Guenther Grass did what he wanted to do, when it pleased him so.
Somebody else allowed his silence, on condition he didn't touch some points. So he could make fire at random, at his will.
One of those obscure points was the possibility of interrogating Germany without a shadow of a doubt on his side. As a matter of fact, only a guy which had a big stain on his shirt, but a big cafetan all over, could work as the emperor's joker and pose questions freely. Everybody knows that freedom is only a starting point and, this way, he had a solid starting box under his feet.
He provided a service to the self-imagery of Germany, after the war, for many years long, and he did it as if following a series of mortgage instalments.
Only a volunteer, as he once was, and a not very well chosen one, would be able to do it and make business out of it.
Now, he payed all his bill, after he accomplished this unloading.
But a liar in late is so bad as a non reliable source.
We do not care about Grass´s guilt. There is an entire nations' too.
We certainly acquit him. But we'll never trust him again, even after his death. We shan't advice his books to young people, and young people won´t find charisma in his work. He cared so much about his own aftermath but he only managed to be a consumated successful actor.
He was funny as Democracy is.
They say that Democracies don't fight each other. But Mars, the god of war is older than Athena. He hits, and runs. Maybe Grass was only a Cold War Institution...

Líbano? Hanói ou Hong-Kong?


There is a duality that has defined Lebanon. Would Lebanon choose to be Hanoi or Hong Kong? That is, an international symbol of militancy and armed struggle, or a business entrepôt, a bastion of liberal capitalism and ecumenical permissiveness?

Lebanon today lies ravaged, its inhabitants suffering the consequences of Hezbollah's hubris and Israel's retribution. Beirut seems empty.
Israel may have hoped to unite the Lebanese people against Hezbollah. But as recriminations over the war spread, the delivery of aid across group lines will become more difficult, frustration will mount.
Coexistence, freedom and entrepreneurial drive had been the state of the country between independence in 1943 and the start of the civil war in 1975 and even beyond.

Many of the clichés were true: a neighborhood firefight might break out between militias in the morning, but by the end of the day people would be repairing their damaged properties. The Lebanese could be infuriatingly anarchic, stupidly selfish, but they were also determined to take initiatives and embrace new departures.
From the moment of Hariri's assassination on Feb. 14, 2005, it was clear that the Shiite political parties, particularly Hezbollah, did not share in the national distress. Shiites represent perhaps 35 to 40 percent of the Lebanese population. Hezbollah had gradually won over a large majority of the community, particularly poorer Shiites
In the early 1980's, the ''Party of God'' was a loose collection of groups organized and trained by Iran's Revolutionary Guard and dedicated to fighting Israel. After vanquishing its Shiite rival, the Amal movement, in fierce street fights, Hezbollah established in the southern suburbs of Beirut. When the civil war ended in 1990, it was virtually the only armed group allowed to retain its weapons. Syria had its own reasons to keep Hezbollah armed: as it negotiated with Israel for the return of the Golan Heights, the Assad regime wanted all the military leverage it could get

14.8.06

Guenther Grass serviu nas SS


Numa entrevista publicada dia 12 no Frankfurter Allgemeine Zeitung, Guenter Grass admitiu que serviu nas Waffen SS durante a segunda guerra mundial. O Prémio Nobel de 1999 debate memórias da sua juventude que deverão ser publicados no próximo mês Ofereceu-se para os submarinos aos 15 anos, mas não foi aceite. Foi chamado aos 17 para a 10ª divisão blindada "Frundsberg das Waffen SS em Dresden. Questionado porque fazia a divulgação, disse."Pesou em mim. O excesso de silêncio todos estes anos é uma das razões pela qual escrevi este livro. Tive que me confessar, finalmente."
É assim o porta-voz de uma geração dos alemães que cresceram na era nazi e sobreviveram à guerra. Tem sido activo na política de esquerda como apoiante crítico do partido social democrático, e considerado uma voz moral contra a xenofobia e a guerra.
A admissão de GG está a dividir a Alemanha. Para uns “não teve maneira de defender-se da propaganda nazi” disse o ensaista judeu Ralph Giordano. Mas Michael Wolffsohn, um historiador militar criticou uma espera tão longa. “O trabalho da sua vida é desvalorizado pelo seu silêncio persistente," escreveu Wolffsohn no Netzeitung.

Afinal GG é talvez uma vítima inesperada da Guerra do Líbano. Toca a todos, admitir os pontos fracos. Toca a alguns saberem deles redimir-se. Grass levou tempo demais para ser credível.

13.8.06

The memory of a Dictator, by André Bandeira


Seeing his photos causes me cramps. In the eylids, from the edges where some smile or grimace is supposed to begin. But what makes me worse is the number of people interviewed on the streets of Havana, who wish him rule for more fifty years. The obscenity of dicators has no limits. Maybe that's why we invented an after-life. This man has sent to a certain death, thousands of innocent people, who didn't feel the same way about Cubaness, or Democracy, or even Socialism. He orchestrated rallies, which worked as People's Courts where a guy, if he ever had the opportunity of defending himself, was bound to emerge as a target in the backyard's wall. But, at least, this things were held in the open air, under the sunny caribbean sky with a latin bluntness, full of words and saliva.
This man is celebrated as a rebel who managed to implement his own stance, against all odds, against the most powerful neighbour. But it is his is style, with no scruples, celebrating a way of doing Politics, with demagoguery, ruthlessness, death squads and latino-lover steps, a thing very much appreciated among all rebels who presume to have the right, as he had, of shaping the future according to their will. They call it Freedom, and New World, the world of dreams where those who know the nightmares are indians who got silent long, long ago.
It is his macho style the thing that remains and that every fool loves. I hope he'll recover quickly, the way his victims didn't. This time, History won't acquit him.

11.8.06

Quem era Franco? por André Bandeira

Consegui ler de uma assentada o livro "Franco - un balance histórico" de Pío Moa, que não e nenhum pássaro da N. Zelândia mas um jornalista espanhol. O assunto é perigoso, do ponto de vista de um portuga, com um vizinho tão grande e tão parecido de quem pouco o diferencia senão esse anel de noivado com a Liberdade que se chama Nação e que não se tira nem frente ao assaltante que nos diz que corta o dedo. Desta vez é um livro de Direita e de Direita democrática. Pouco conta que Moa tenha sido do PCE, em 75 e do PCE(E) GRAPO, depois. Não o esconde, porque-- penso -- nos cega com um foco de luz em cima. Moa distribuía,como dirigente destas formações, por capricho, os famosos panfletos que inundaram as ruas de Madrid, com o poema de mau-gosto, de Neruda em que este amaldiçoava Franco agonizante. O livro defende a tese que a democracia de Espanha, hoje em dia, se deve a Franco. Joga com números, nomeadamente de mortos, mas a correr, porque o seu livro é um Editorial. E é perigoso agora que os contadores de corpos, nos EUA estão a querer contar os de Franco ( é que a gente de Rifkin, jurou desenterrar tudo, até os assassinos de Tutankamon e a ideia não me horroriza). Para ele, Franco tinha ganho num instante, se não fosse aURSS a roubar o ouro de Madrid e a pôr no terreno bom material de guerra e comissários de élite. Mas também porque Franco sabia que pondo os seus legionários a combaterem nas ruas de Madrid, iria antecipar a Guerra do sec.XXI, a que nunca acaba,porque a gente das pedras e das torres é tão digna como a dos vales e das montanhas. Pontos interessantes: Franco consentia a monarquia mas, ao contrário do seu irmão Ramón, seguia a Lei e só se meteu contra a República, separando cuidadosamente as suas convicções pessoais do seu comando militar, quando a República chegou ao insuportável. Tem todos os pontos dos textos oficiais do regime franquista, com conclusões, remates e recomendações, de tal modo que o autor, ex-Grapo, parece que se esqueceu das alienações próprias das Ditaduras. Cita até a inteligentíssima resposta de Franco, a Vernon Walters, de que o seu monumento maior seria a "classe média espanhola" quando este enviado de Nixon,trocado em miúdos, lhe foi perguntar quando morria. Cita também a resposta a D. Juan de Borbón em que Franco lhe diz muito explicitamente que a revolta militar ( nacional e não nacionalista porque umCatólico segue sobretudo a Deus e evita o endeusamento pagão da "Nação") não foi monárquica nem tinha a intenção de restaurar a monarquia. Franco, aqui, separa o seu cuidado político,de novo,das convicções pessoais, apesar de querer, oportunamente, sacudir as lições do Rei.
Parece-me que o livro, vindo dum antigo anti-franquista, arqui-radical, a quem irritam sumamente as divisões da Espanha, venham elas da Direita regional ou da ultra-esquerda regionalizada, cai nos mesmos pecados da democracia radical, apesar de todas as suas profissões de fé anti-comunista. Para mais, diz que os actuais anti-franquistas, ou fizeram a carreira graças a Franco, ou contestaram-no de boquilha, nos cafés. Ele, Moa, é que sabe, que foi GRAPO.
Numa altura em que querem retirar as estátuas e as lápides de Franco, além de outras medidas legislativas que geraram enorme celeuma entre a Sensatez, os argumentos de Moa, que já têm um ano nas bancas, andam à volta do seguinte ponto: se fossem os oposicionistas a fazerem a transição para a Democracia, e não Franco, tinha acabado tudo noutro banho de sangue.
E Moa tem razão. Porque os oposicionistas eram pouco credíveis e os exilados tinham sido tão maus que até tinham vergonha de aparecerem à luz do dia. Parece que sim, que, em 1946, quando os maquis espanhóis, que eram parte substancial da Resistência francesa, se infiltraram em Espanha, a População os rechaçou e até denunciou.
Mas não pelo que Moa pensa. Um portuga sabe bem o que sopra de Espanha, em certas alturas, seja vermelho ou azul o pó que levanta. Por isso, o portuga não quer ser espanhol.
É que Franco foi bem mais sensato que outros ditadores do mesmo estilo, na época. Mas foi bem sanguinário também,como o não foram, nem Mussolini, à sua esquerda, nem Salazar, á sua direita. Ou foi-o suficientemente para dizermos que, se no testamento Franco se reclama verazmente católico, há sérias dúvidas sobre a sua Cristandade.
A razão porque a transição correu bem foi porque os espanhóis sabem bem o Monstro que é uma Guerra sobretudo civil. E Franco limitou-se a prolongar a sua ditadura militar indefinidamente, dando lugar a uma Monarquia que retomou a sequência da história espanhola, depois de uma República miserável.
Mas isso não significa que se legitime um Ditador que excedeu largamente -- apesar da sua prudência e inteligência superiores -- o seu mandato de militar em estado de excepção. A legitimidade de um ditador é, na origem, ilegítima e só se legitima com o tempo mas aí não sabemos como teriam corrido as coisas porque ele não deixou que elas acontecessem. E este Moa mete-me pena com o seu desencantamento. O mal dos radicais é que começam no Poder e acabam no Poder. Por isso, o Poder lhes parece sempre legítimo.
Por fim, fica-me uma grande interrogação sobre quem era Franco. Sobre a sua prudência e sobre a sua incapacidade de se legitimar. Que aprendeu ele com a gente do deserto? Pergunta bem actual, nesta guerra absurda dos cem anos em que nos querem meter: que foi que o fez calar, para sempre, o mesmo que fez os templários mudarem de religião? Não, não foi o saber secreto gnóstico que sobreviveu no Islão. Foi simplesmente o simples facto de que não se viaja impunemente. E isso não é mérito de um homem. É mérito da Humanidade.

9.8.06

FRANÇOISE GIROUD, por Maria Luísa Paiva Boléo


Há trinta anos atrás, nos anos 70, a minha cultura política internacional passava muito pelas páginas de "L'Express" de Servan-Schreiber e Françoise Giroud. Não me apercebi que ela morreu em 2003. Um bom texto de Maria Luisa Paiva Boléo lembra a escritora, a resistente e a mulher que foi FRANÇOISE GIROUD, de seu nome France Gourdji (1916-2003)

"Jornalista, escritora, cronista, ensaísta e política francesa, de origem suíça. Mulher de acção, combatente e militante, esteve na Resistência contra a ocupação da França na 2ª Guerra Mundial. Foi presa pela Gestapo e encarcerada em Fresnes. Manifestou-se já depois da guerra contra a Guerra da Argélia e foi uma acérrima defensora da causa das mulheres jornalistas. Em 1932 escreveu o guião do filme “Fanny” a que se seguiram “A Grande Ilusão” e “António e Antonieta”. Foi directora da revista Elle e co-fundadora com Jean-Jacques Servan-Schreider, seu grande amor, o semanário francês L'Express, de que foi directora de 1953 1974, quando passou a ser secretária de Estado do Governo de Jacques Chirac. Depois passou a secretária de Estado da Cultura de Raymond Barre. Teve uma intensa vida política até 1979. Em 1983 passou a editora do Nouvel Observateur. Fez crítica literária e publicou uma biografia de Alma Mahler(1988) e do casal Karl e Jenny Marx, 1992. Escreveu «Mon très cher amour» numa noite. Dentre as suas frases cheias de sabedoria disse "O discurso é o que distingue o ser humano do animal e o democrata do bruto" e ainda "O mais insuportável não é a infelicidade suportada, mas a infelicidade imaginada". Foi uma talentosa jornalista e como escritora deixou-nos biografias de grandes mulheres como Lou Salomé, Cosima Wagner, Marie Curie e Alma Mahler, entre outros. Escreveu um livro autobiográfico com o título "Arthur ou le bonheur de vivre" (1997).

8.8.06

IRAN: DA VINCI CODE BANNED

Tehran, 26 July (AKI) - The Iranian culture ministry said in a statement issued on Wednesday it was banning the Farsi edition of Dan Brown's bestseller The Da Vinci Code. The decision was reportedly taken after the Organisation for Islamic Communication - a body controlled by Iran's supreme leader Ayatollah Ali Khamenei - protested against the book which was denounced as "an offence to Christianity." The ban also concerns the film based on the novel.

7.8.06

Never again, one more time, by Johnny Bravo

I do not flirt with Death. She is a married one, despite widowing all the time. I know that if one gets "betrotted" to her, hey man, it's for life!
So, I don't count on her body in my bed, or I'll find myself to be counting bodies till I'll have to look for the smartest bomb and stop it! I'm not smart, nobody ever called me that, but I get the chicks all by myself, and smart bombs, only those ones with the big boobies... I tell them I'm the thoughest of the block and there we go, just the two of us, I do not kick the girlie-boys just because they're not as lucky as I am. You know, it's all in the pelvis.
So, don't count on me to fall into Mrs. Death devices. I don't look back, nor I smile to her. Sooner or later she will come after me, I know, but I don't feel like seeing my mother, or my cousin, or even that chick who switched me for another guy, fall into her arms 'cause it could happen to me and hurts to the bone before you go, only you and her, to the dark room.
Pain is not a marriage for life, and you can even divorce, on mutual consent.
I have no simpathy for the one who revenges better and the question of who began all this, is not my bizz. So, do not dress for Mrs. Death. She is of the marrying kind and you'll get married even before you undress. I told you, pal: she is of the marrying kind and she's widowing all the time, every step of the way. She doesn't need flowers or white frocks to get you caught. 'cause she is never alone. Better stay alone if ain't no chicks around...

5.8.06

Argonauts of the modern world, by "Margaret Mead"

One should have a look to the probably award-winning report of Sorous Samura, a cameraman from Sierra Leone, which is being broadcasted, these days, on the CNN. It is a report on illegal immigrants, come up from deep Africa, who wait in the bushes, for so long as three years, to cross to Ceuta,or Melilla, in Morocco. It is better than a good book, more calling than a sudden rush of blood to the head, or a theological tale.
Samura goes all the way down from the snowy bushes in Morocco, to the trailers entering England, where an illegal immigrant may try his luck and his life, hanging between the wheels or struggling against sleep in the fridges. Some swim all their way to Ceuta, after months warming up in camp-fires, sleeping under shreds of newspapers, running away from the Police and eating whatever.In Calais they count on some charity and they meet whichever human zeros from the world, be it from China, Kurdistan or Latin America. They cannot return, some of them will be killed. I've done the same, 30 years ago, somewhere between Spain and France. The dance is the same, but the sleepless night never ends.At some point, the guys celebrate Christmas in the bushes. They find a short pine and they decorate it with coloured newspaper rags and empty cans. They pray, for their children and wives they left behind. Some are sick and will never make it.
These guys are the mythological heros of our times, although they may offer no resistance when they are kicked to death by skin-heads in a night hole of Europe.Their dark faces are covered with the skin of God. We cannot let all of them in, but we have to do something now and right about them. We cannot take care of their frail lives and bomb others in any other place. Unless we want to rot in the deepest pit of hell.

Beirute sul, antes e depois


Um quarteirão de Beirute, antes e depois. A diferença entre Ahmadinejad é Olmert é que o presidente Iraniano actua pelo interposto Hizballah enquanto Olmert tem planos directos para apagar uma cidade do mapa.

2.8.06

Um livro útil de Timothy Garton Ash


Creio que Timothy Garton Ash dispensa apresentações. É o melhor que a consciência sociaç-democrata ainda possui para dizer que os ocidentais são melhores porque não são incorrigiveis. é uma mistura de Churchill e George Orwell. Claro que não é tão bom como nenhum dos dois, em agir e em pensar. MAs ninguém é perfeito. E dele acabei de ler o “Free World” 2004, agora na edição de 2005 da maior editora do mundo, a Random House, comparada pela Bartelsmann que em Portugal tem o Círculo de Leitores e agora comprou a Bertrand. E pensar que Bartelsmnann é um gnóstico que começou por vender livros que transportava na traseira do seu Volkswagen, na Alemanha do pós-guerra.

Ao longo de oito capítulos em sanduiche com prologo e epilogo, Garton Ash (cinzas) enuncia o seu programa modesto de "liberdade, bom governo, leis justas, e descanso" para um mundo livre. "Descanso", porque a política é muito limitada. E conclui este programa com dúvidas sobre o consumismo Ocidental: “Quem visita Burma, vê uma ditadura miserável mas também uma sociedade que conserva no traje, nos costumes, e na religião uma maneira tradicional de vida. Quando caem os ditadores, avançam os exércitos do consumismo Ocidental à espera na fronteira, com bens baratos chamados e técnicas avançadas para fabricar desejos novos do consumidor. Esta força da invasão é mais irresistível que o exército vermelho, ou o exército dos EUA.”

1.8.06

Evil as mainstream, by ‘Hannah Arendt”


The constant footage of innocent children, slaughtered by bombs ( as well as their severed limbs, even before beginning to decompose, which makes them look like toys parts), of old women crying, once more in a thousand times, after having lost the few they had, as well as blood pounds in the ground, may lead to a moral nightmare. One finds himself, more and more watching these things on TV, at the same time he’s having a chat with his family or even eating. Paradoxically, the profis of Death in Battle, the Soldiers, are only shown in mourning ceremonies.

This doesn’t mean that the work of journalists is not one of the most valid in our times, and there are no words, grateful enough to emphasize the mitigating role they have, some of them at the cost of their own lives, as they make public and denounce atrocities on civilians such as themselves. In a way, the mainstream of journalism, pulls to the stage, mainstream people, everyday life which is not taken seriously in historical decisions.

But, if the most outrageous things go on pouring into our private lives at this pace, one will tend to take them as only one more matter of observation. That means that the horror which should determine the change from notation to action or refusal, within our minds, will be reduced to the self-exam of an opinion. In other words: the adolescent extracted from the rubble in any place won’t be a terrible loss but a liability. This leads to a nightmare, the one that someone is counting bodies within our head and that he dictates when and where to count. Instead of an Attitude, you’ll end up having an Account.

31.7.06

Got'a dance, by Gene Kelly, Fred Astaire and Ginger Rogers ( de André Bandeira)


But why doesn't she look at me, when she passes by? And whenever she passes by, the whole world is filled with Grace, only because of Love. She doesn't walk, she dances and I can't dance by her side 'cause I fear Grace. The widows of every Mayo Square dance alone and in that beautiful scene of "Zorba, the Greek", Anthony Quinn, devastated as he was for his young son's death, pulls Alan Bates to the seaside and begins to dance with him, the way Greeks do, as brothers in arms, with empty hands challenging the wind of Destiny. And what about that young and scared norwegian who was kidnapped in Kashmir and finally was the only one who ended up beheaded? He was a dancer, who dared to go there to study the mixture of cultures, which were neither muslim nor indian, and sitll they couldn't let a dancer quiet in his chair. Did he ask for his last three minutes of dancing alone in the Universe, so that Heaven might cry?

Got'a dance, Got'a dance! I don't know what to say, I don't know how to judge, my mind is humble and insufficient for condemning the guilty. But my body moves, it raises from the chair, my arms want to wave in the air. What shall I do? I cannot stop, I just cannot stand still.

Go everybody to the center of Beyrouth and Telaviv, and dance between Israelis and the Hezbollah. You Taliban, get out of the ranks where is forbidden to dance and begin to dance, even if it is only two of you. Like Priscus and Verus who had to fight each other in the quarry so that the gladiators sponsors could notice them, and release them to the arena where they fought each other till dawn, and the Public had to award freedom,finally, to both of them. Or like the besieged from Sagaste, who, though starving and thirsty, decided to get out of the walls and face Scipio, the African, dancing. You soldiers, get out of the ranks, don't lesson to the bombs, neither to shots, nor to your commanders, throw your helmets down and begin to dance. 'Cause I don't know how to speak, but my body is my mind and my mind is my body. And I know that when the paramedic, raised the first child's limb, from the rubble of Qanah to the stretcher, this Sunday, he raised the holy body of Christ. It was in Qanah where Jesus danced, where Jesus was gay and happy. So, Got' a dance. Even the nuns and monks are dancing, even the Pope is dancing! You' ve never seen a blind man or a person on a wheelchair dancing, or even a deaf. But I did. You may have seen the Maori dancing their impressive war dance, but you didn't see the maori families dancing when they visited each other over the South Pacific Islands, something which happened once in a lifetime. But Heaven saw it! Let's go to the South of Beyrouth and dance, dance till we fall exhausted to the ground.

Olmert says his people was losing the pleasure of life, because of Hezbollah's missiles. So, open the doors, go to the streets and come out dancing, be brave enough to dance, 'cause the birds in the sky don't fly, they dance. And leaves don't shiver, it is trees which dance. And compared to dancing, be it the touching jewish way, shoulder to shoulder, or the heartening arabic way, so subtle, only seeing a child sleeping like an angel, is better.

Come on, Fred Astaire, raise from the dead, and show them how it is.

Got'a dance!

30.7.06

Para ler e guardar, por Pedro Cem

Acredito que o céu romperá amanhã. Com o Sol. Acredito que, no fim dos tempos, nem um cabelo da nossa cabeça se perderá, nem a do monge que não tem cabelo, nem dentes. E sorri ainda. Acredito que o homem que sofre hoje nos hospital, com a Morte no sangue descendo como uma canoa no Nilo, em direcção ao seu porto, sofre porque vale a pena. Para que os Anjos cantem em côro, na Madrugada e no Crepúsculo. Acredito que a Pobre Gisberta morreu num poço por todos nós e que os moços que a mataram, (eram treze) vencerão a sua dor de vergonha que lhes velará o Sol por muito tempo.

Acredito que no meio da dor, sejam culpados ou inocentes quem a provocou, um Anjo poderoso, um pássqro gigantesco como Maiastra dos Romenos, cobrirá o céu e nos dará um segundo para pensarmos. Bendita sejas Condoleezza Rice por seres mulher, e por seres Negra porque ser Negro é belo. E só uma mulher negra perceberia isso. Por te terem assassinado uma amiguinha quando eras nova, com uma bomba da Ku Klux Klan te lembrarás que os inocentes têm um lugar no céu e nós cá na terra sempre tristes. Que o barco negreiro perdido no mar, chegou a algum sítio e que Zombie e António Conselheiro vencerão os colorados federais, porque a eles vieram os guerreiros de El-Rei S. Sebastião, saídos do mar nas suas armaduras de coral. E que eles não combatem com armas mas com tsunamis perfumados de mar azul onde espumam flores. Acredito que só na Tristeza a Fatalidade se repete, seja em Qana ou onde for . E que haverá um Armistício e que o fantasma de Raúl Indipwo aparecerá cantando que os « Homens fizeram uma acordo final… ». Acredito no Amor e que na Dor aprendemos alguma coisa, e que todos estes inocentes mortos não morreram em vão e que o Amor maior que os aguarda a todos os inocentes, que caíram neste montes de Torres Gémeas e de betão no Sul do Libano, é um Amor que não morre. E que ele aí vem, como os assobios dos companheiros de Robin, na floresta, como a voz de mulher que chama Januszick, o lôbo bandido da floresta . Como os fora-da-lei dos pântanos de Hebei. Como o canto do Muezzin que chama os fiéis da Paz, como o galo negro que anuncia o Sol, como o velho cantor de blues que olha em silêncio a plateia e, no silêncio, a sua mão desce em chuva sobre o rio das cordas, como o melodia feminina, de mãe, de irmã, de amor que senti hoje, pela primeira vez, na tua voz, Condie…

29.7.06

Gilead! Gilead!, por André Bandeira


Erev tov Gilead, onde quer que estejas, Adonai, shalom sheLo im ata…foste caçado quando andavas à boleia. Eu percorri tantos lugares à boleia, com o Sérgio Venezuelano, com o Gustavo, com o João de S.Tomé. Se nos tivéssemos encontrado talvez também andássemos à boleia juntos. Caminhos de pobre maçarico, caminhos de Deus…

Agora que estás numa cova do Hamas, com as bombas a explodirem ao lado, deves ter as dimensões que temos do nosso pobre corpo. Sabes que arrebentou um petroleiro no mar do Líbano? E o mar, amor azul se fez negro. Somos aquele pequenino caranguejo na maré negra mexendo as patitas como o Pianista do Ghetto, à procura da voz de Deus que soa entre duas teclas. Não diziam os mártires do Holocausto « Apesar de tudo, música ! « ? Como aquela canção yiddish em que um pobre Gilead como tu e eu, recordava ter dançado um dia num salão com lustres, a amada junto ao peito, e depois saíu e viu uma arvorezinha, pequenina como nós, toda florida . Há dias de sorte, até para um Judeu, como eu e tu. Como são pequeninas as maravilhas da vida. Talvez te sintas como Mordechai Vanunu que passou treze anos na solitária por ter gritado ao Mundo que o teu Israel tinha a bomba atómica. Porque era o seu Dever. O seu Dever. Mordechai, sim, como o insubmisso do ghetto, porque não se tem um nome impunemente, nas praias de Israel.

Possas sair Gilead, desse buraco, possas passar entre as bombas e as armas, como o nosso Povo pelo Mar Vermelho. Não quero voltar ao Egipto, não quero voltar ao Egipto. Agarro-me a esta Aliança como a um tronco, perdoem-me não ver bem. Se não houvesse Deus, se Deus morrese, se tivesse ido para um lugar de onde não volta, ainda me agarraria ao seu tronco, porque talvez o universo se comovesse e Deus voltasse. Como aquele macaquito abandonado que se agarrava a um urso de peluche arrebentado.

Passou mais um shabbath, apaga a vela que não existe. Agora acendo-a eu, num lugar onde procuro todos os Domingos um Messias que era pobre e azarado como tu. Sobreviverá esta humilde chamazinba? Para o ano que vem, lá nos vemos em Jerusalém.

28.7.06

Blogs e Livro

Recuperando tempo perdido, adicionamos blogs que têm dialogado aqui no Duas Cidades. Viva a Liberdade Digital!

Interregno
Sesimbra e Ventos
Café Portugal

E agora o livro
“Salazar e a Rainha” (D. Amélia), de Fernando Amaro Monteiro, foi lançado no passado 6 de Julho na SHIP, em Lisboa, com umas 200 pessoas na assistência, uma apresentação do livro escrita - e melhor declamada - por Carlos Pinto Coelho, um improviso fantástico de Dom Duarte de Bragança sobre o autor e palavras de um editor malcriado que afirmou “também era autor”. O autor, do alto dos seus de 72 anos de envolvimento na acção monárquica, em que avulta a Revolta da Sé, em 1959 soube responder de luva branca ao dislate e contou com simplicidade a sua história.
A pesquisa nos Arquivos Salazar na ANTT de abundante correspondência trocada, permitiu a Amaro Monteiro um contributo sério para a história dos movimentos monárquicos na I República e a II até 1950. È uma história edificante pelos que resistiram e pelos que traíram. Ficam retratos dos dirigentes monárquicos que abdicaram, Lugares-Tenentes de D. Manuel II e de D. Duarte Nuno de Bragança.
Amaro Monteiro prova que Salazar impediu a restauração monárquica de um modo muito sui generis resultante do espantoso faro político para liquidar a tradição com gestos de deferência. Manipulou tudo e a história da Causa Monárquica é sobretudo a de uma abdicação dos monárquicos perante o Estado Novo. A sua vocação seria a de "primeiro-ministro de um rei absoluto" o que nem D. Manuel II nem D. Duarte Nuno aceitariam. Amaro Monteiro resume bem: os lugares tenentes da Causa representavam Salazar junto ao Rei e não este junto aos monárquicos.
Uma particularidade do livro é o contributo para a história do regicídio, aliás nas primeiras páginas. Em resultado do pedido de Salazar ao ministro Santos Costa em 1953 sobre o famigerado processo do regicídio. Em resposta, o estudo de Rodrigues Cavalheiro, traça a síntese possível na época - mas que hoje conhecemos melhor - do que é talvez o mais importante processo de justiça portuguesa no século XX, completo na instrução mas nunca levado a juízo.
Esperemos pelo segundo volume sobre “Salazar e o Rei“ para o qual o autor tem particular autoridade para lembrar o episódio da frustrada proclamação de 1959 em que D. Duarte Nuno falaria das "liberdades públicas perante a força, a autoridade e as largas funções que caracterizam o Estado Moderno".

27.7.06

dEUS, por Pedro Cem

Todos gostamos das questões morais, porque elas nos reconhecem como pessoas capazes de decidir sobre as nossa vidas, nomeadamente, o que nos vai acontecer para futuro. E depois de muito decidirmos, julgamos que nunca pecámos aparatosamente. Vemos até as asneiras que fizemos, como grandes « decisões » das nossas vidas.

Podemos ir de carro ou de combóio, de avião ou de bicicleta. Podemos até não ir . Mas temos que tirar as consequências. Nada há nada na nossa mente que não venha em séries e essas séries podemos tirar-lhes ou pôr-lhes uma peça mas elas lá seguem. Quando um homem comanda a série, damos-lhe o lugar de Chefe, às vezes para o meter longe das nossas vidas e não nos perturbar. A vida é complexa e este Chefe já fala sozinho.

Entretanto veio-nos uma grande aflição: as coisas não nos correm bem. E então recorremos a Deus. Nunca Deus foi tantas vezes incomodado com os nosso pedidos. Andamos de credo na boca ou até alternamos isso com uma tranquilidade budista, de vez em quando, quanto a tudo o que nos vai acontecer. Deus nunca esteve tão perto de nós. Só que nós queremos ser quem vai ter com ele e não que Ele venha ter connosco.

Depois desta abundância de Liberdade, o Ocidente passou a sentir uma grande Secura. Mas felizmente que há gente programada com uma força de vontade de ferro, vinda das selvajarias medievais indianas e programada com lavagens ao cérebro heréticas, para que o reino da Liberdade tenha a sua coroa, ainda antes de cair. E quando não há força de vontade, há um labôr de Castor, que acumula piscinas de dinheiro como o Tio Patinhas, a par de uma secura ainda maior. Os ricos são infelizes e os pobres sofrem.Os ricos lá conseguem sofrer e os pobres ser menos infelizes. Nunca se viu tanta aflição e há razão para isso. O que temos são números que complicadas máquinas nas esquinas, nos fornecem. Nem o ar que temos é nosso, que o diga o doente cardíaco que antes correu pela rua do Stress.

Como nos deixámos enterrar nisto, é culpa nossa. Mas ainda temos tempo de procurar uma alternativa. Talvez começando, por atender às pessoas concretas que nos rodeiam . Confiar menos em ideias, sonhos, imagens, estilos, poses: deixar de estar morto, que as pessoas até parecem almas do outro mundo à nossa volta e sair da morte em que caímos. O resto, Deus ajudará. A Terra continuará a girar depois dela sairmos.

26.7.06

Outra Guerra Diferente


O conflito entre Israel e Hizbollah faz parte da chamada Guerra de quarta geração em que os Estados enfrentam forças não estatais. Este facto desencadeia a estranha reacção - ou falta de reacção - da comunidade internacional
Israel quer o que disse general Dan Halutz quando ameaçou "fazer andar para trás o Líbano 20 anos." Desencadeou um ataque já formatado até que o governo do Líbano desarme o Hizbollah, uma tarefa que o exército israelita não conseguiu realizar em 18 anos de ocupação. Vem daqui a necessidade de Ehud Olmert de acusar o Líbano de "actos de guerra” e fazer-lhe exigências impossíveis de cobrir a fronteira quando a marinha e força aérea israelitas são desencadeadas contra a Hizbollah.
Para a Hizbollah vencer basta sobreviver com força suficiente para uma nova ofensiva a coberto do estado libanês dentro de um mês, um ano, o que for. Donde o desespero israelita de ataque em força.
Onde estão os dirigentes árabes, calados no Cairo, em Riad, e Jordânia enquanto o povo libanês é massacrado? Nenhum quer arriscar a defender a Hizbollah que tem ramificações congéneres e dentro das respectivas fronteiras.
Onde estão os cristãos? Por que razão está o papa Bento XVI virtualmente isolado entre dirigentes cristãos ao falar contra o que está sendo feito aos cristãos e muçulmanos libaneses e na condenação do ataque de Israel ao Líbano, à luz do direito internacional e do humanitarismo. Ver as declarações do Núncio António Franco em Jerusalém.
Onde está Bush mais silencioso do que habitual – tirando a *** palavra na cimeira do G8 que mostra “ estes governantes que nos governam” - e que apoiará abertamente os israelitas durante um período indeterminado – segundo boas fontes? O plano para a democracia no Médio Oriente cai por baixo porque ele apoia o governo libanês de Saronio – completamente de rastos e não apoia a vitória democrática do Hamas – que sempre esteve de rastos, a ponto de atacar Israel através de túneis.
Onde está a União Europeia, com as missões Solana de diálogo e mais diálogo desacompanhado de uma clara luz ao fundo do túnel?
Por quê tanto silencio quando Israel persegue uma política consciente de punição colectiva de inocentes? Porque além dos erros morais há um erro profundo intelectual sobre o Médio Oriente; em vez da guerra entre Estados é uma caçada aos agentes da guerra de quarta geração: Como a invasão do estado iraquiano foi feita em nome de ter relações com um agentes da Al Qaeda. Tudo isso mostra que a Comunidade internacional precisa de poliarquias regionais mais fortes e incisivas para estabelecer a segurança e defender as populações. O mundo é mais complicado que o factbook da CIA e as prescrições dos tratados europeus e as surata do Corão. Só o sofrimento faz ver isso

23.7.06

O direito à auto-terminação, por Pedro Cem

A Ministra dos Negócios Estrangeiros de Israel é uma mulher bonita de se ver. Tem umas madeixas loiras sempre a caírem sobre o rosto que ela tem de afastar com as suas mãos longas, cinematográficas. Tem uma ar pouco à-vontade, com as suas roupas sóbrias, de cerimónia satânica numa Universidade da Nova Inglaterra... quero dizer, meio de rapaz, típicas dos pubs de encontros simpáticos, em Greenwich Village, Nova Iorque.
Disse ela ontem, que um Estado que não consegue sancionar a sua soberania dentro das fronteiras ou onde existem grupos terroristas dentro do seu território, ou milícias, não pode ser aceite. Receitou bem a cartilha. A Espanha tem um grupo terrorista no seu território, o Reino Unido também, o Governo de Bagdhad tem de lidar todos os dias com várias milícias, o de Kabul fê-las renascer para segurar a polícia. Existem milícias, constitucionalmente, nos EUA. E acrescenta Gideon Meir, porta-voz do MNE israelita, que a ameaça do Hezbollah, diária, sobre o povo de Israel, essa é que é desproporcionada. Ai que alucinação do Sr. Geir não tem proporção!
Parece-me que a Sra. Livni não está à vontade nas suas roupas. Tem um ar distinto, quase frio, mas um sorriso caloroso, e aquelas mãos nasceram para afagar (já agora um homem que não esteja, correlativamente, vestido de roupas femininas).
Espero que ela vá amar alguém, ser bonita para um jardim, escrever poemas ou fazer filmes e que experimente um desses vestidos claros e longos, à moda de Israel, que lhe fica muito bem. Não sonhe ser Golda Meyr, que não nascera tão bonita.
Tenho pena que queira ser homem, de tão torcida que é, num cargo onde os homens tentaram aprender com as mulheres. Como se o direito à auto-determinação do Líbano, da Espanha ou dos EUA seja equivalente a escolher entre matar em segredo ou não dormir de noite, com bombardeamentos colaterais e parando aviões com prédios cheios de inocentes.
A Sra. Livni, se calhar, não deve gostar do próprio pai pois nãO nascíamos se os nossos pais não interferissem entre si mas também não crescíamos se eles não nos deixassem, depois, em paz. A Sra. Ivni não vai parar enquanto não encontrar uma pose definitiva frente às câmaras, ou enquanto não for homem. Irá à Síria e ao Irão para cantar, com voz de veludo, que "não é aceitável", acompanhada ao órgão Estaline. Os seus promotores julgarão que nos enganam com a lógica da guerra preventiva (que é um jogo de suposições como o foi a dissuasão nuclear) para evitar piores males. Como se tudo não estivesse programado, há muito tempo, para arder em toda a região, ao som da tabuada da democracia, ou do ditado militar. E ainda querem envolver a comunidade internacional neste fogo regional, para o qual têm muitos litros de gasolina.
Em breve teremos um Grande Iraque onde a arma é o voto do povo, com eleitores passivos e activos, idos nas urnas, todos os dias.
Realmente a solução é a mesma que já ouvimos na Alemanha dos anos 30: sem a auto-terminação de todos os colaterais, sem os colaterais todos a irem como cordeiros para o duche, não haverá auto-determinação dos especiais, nem pureza de sangue. Auto-determinação, já agora, até da antiquada condição de mulher.
Assim, uma destas noites, um médico vai decretar ao modo do general que quer deixar o Líbano, o Irão, o Iraque e a Síria em vida vegetativa: que se desligue uma máquina para ligar outra. Ora já não é a cabeça de Sharon que pensa, mas a máquina. Se já sabíamos que não se pode pensar como os ideais, os ideais têm de pensar como nós e liga-se à máquina quando a nossa mente estoura. A vida é como é, faça-se a comparação, tire-se a metáfora: a vida, como é. E depois, vá-se mais longe: a vida é como...ou "é a vida!".
Vivemos um sonho, em que não se acorda da magia do palavreado. Por isso se tem que ligar a cabeça à máquina. Faz-se-lhe uma máscara mortuária e, sem honra mas com glória, metemo-la num busto.Tínhamos a cabeça suja de sangue, o nosso pensamento afogava-se no sangue, guardámo-la numa urna de pó. E só resta aos mortos-vivos este sonho de sarcófago, de ter um calhau erguido, em que o alívio de tanto sangue é a areia que lavará o busto do nosso cérebro em curto circuito, quando o vierem derrubar. Cairá como a ânfora romana, herméticamente fechada, que só tinha dentro, afinal, ar e pó...
Ah, zombies vaidosos, loucos de posar, sem lugar onde descansarem a cabeça!

22.7.06

Fatuma, por André Bandeira

Dizem que havia e há uma Fathima negra que incita as viúvas chechenas a morrerem em combate. Este ciclo não tem fim e arrasta-nos com melopeias de sereia para a cegueira total, porque o negro das fátimas negras nos dá relâmpagos de luz na periferia do olhar. Isto porque o olhar não se semicerra, a respiração não pulsa com os pássaros, e o nosso interior não repousa na sombra, em equilíbrio com a luz de fora, acendendo uma candeia quando a noite vem. O Buda histórico não recolheu ainda as pernas e depôs os braços no núcleo da nossa matéria, quando o devia ter feito há muito tempo, como a velha capela no centro da nossa aldeia. Pelo menos para os que não passam nesta vida impunemente, abraçando-se ao veludo negro.

Assim…lembro-me duma bela Mulher que não tinha bem consciência disso e me pregava a licenciosidade. Era casada e mãe. Tive de fugir dela durante muito tempo. Como muitas outras, não me perdoava, eu não me ter sacrificado no altar do suor e das lágrimas, dos sangues menstrual e sacrificial, em suma, de não ter feito o que ela queria, mesmo que ela não o soubesse bem o quê. De repente, o homem larga à tareia na mulher e não se liberta de nada, apenas a liberta a ela de todo o Poder que tem, só por uns instantes. Todo o meu amor a uma Mulher ideal, feito de compreensão mútua e elevação não é para esta Fathuma negra. Na verdade é pôr-me a correr semi-nu na savana, à frente das leoas que acordam com a Lua.

Ora o mundo está cheio deste sabor a desdém de várias mulheres que juraram vingar-se e que embruxam afanosamente. Contudo, as Fátimas negras buscam o direito ao amor e à paz, morrendo gazeadas no ombro do jovem terrorista que não acredita, nem a faz acreditar que há setenta jovens à espera deles no paraíso. A luta pela Liberdade nasce nos extremos do Islão mas o seu bálsamo não se sente e o cinismo gelado de certa gente em Israel satisfaz-se em organizer esta carnificina, abanando as chamas de uma fogueira perpétua. Há pessoas inocentes a morrer, quando tinham laboriosamente canalizado e saneado a paz. Na festa informativa não lhe damos nem um milésimo da atenção que daríamos ao nosso avô, nos cuidados intensivos do hospital durante a canícula. Tudo em nós é colateral como uma alucinação de drogado. A empresa do ódio gera a opressão da frieza. A frieza gera a orgia do festejo.

E por trás disto tudo, há uma Fatuma negra que se vestiu de côr-de-rosa, incitando-nos desgovernada a que a mordamos. Para que ambos caiamos na lama com ela, já que não a podemos amar. Valha-nos Sta. Teresa de Ávila.

19.7.06

Deus, não sujes as minhas mãos de sangue!, por André Bandeira


Quando Zidane deu uma cabeçada no peito do jogador italiano, todos se retiveram como quem assiste a um gesto dos deuses do estádio. E começou ali outro desafio que já vinha de antes, que sobreviveu depois. A mãe de Zidane divulgou uma receita sobre moelas, a propósito. Todos perguntaram se Zidane tinha ouvido a fórmula da bomba atómica ou uma surata dum Livro Sagrado ou um pregão genealógico, coloquiando os ouvintes, depois, sobre até que grau de parentesco.

Mas todos continuaram a seguir este desafio, porque parece que, quando nos fascinamos com pudins nas montras, com corpos bem-feitos nas Televisões, com carros de luxo e com efeitos especiais no Cinema, o único direito humano que reconhecemos, é o direito à explosão.

Aí estão os homens exercendo o seu direito à explosão, mais uma vez, cabeça ao peito, peito à cabeça, escudo ao dardo, dardo ao escudo. O direito à explosão não é a explosão, embora ela mate e estropie dezenas de pessoas por dia. O Direito é essas costas direitas e sabor a sal que fica na boca depois de se explodir.

Oh, Senhor Buda, Príncipe dos vagabundos, dá-me a realização do rio que corre, a mansidão do Sol que se apaga e se volta a acender, a brancura da mão do pedinte. Nada em mim expluda ou impluda, o vento me agregou como as nuvens do céu, o vento as dispersou. As minhas mãos não ficaram sujas de sangue. Nunca terei os olhos verdes daquela bela Mulher ao pé dos meus, mas eles foram belos na mesma e iluminaram o Mundo. E em dois pardais se transformaram...o seu riso ecoa eternamente pelos ramos do Tempo.

16.7.06

Quem era Basayev, por Pedro Cem

Um dia conheci um checheno, na Jordânia. Rapaz novo, enorme, de pernas grandes como duas colunas, olhos e cabelo ligeiramente claros, uma voz humilde, tranquila, retida. Tinha uma posição qualquer na Administração jordana que se via bem que era um lugar na caravana beduína, dada por ser órfão de tudo menos de Allah. Ele não era daquele lugares, nem daquelas temperaturas, não dançava se calhar à mesma música. Contudo, falava-me do lado de lá duma barreira, porque eu representava o Ocidente e ele tinha encontrado refúgio entre os seus Aliados, num lugar longínquo, sem árvores. Por fim entendemo-nos quando, depois de nos enumerarmos todos os nossos acidentes, concluímos de cabeça baixa, pensativos, que éramos ser humanos, do Planeta Terra. E assim dissemos adeus.

Basayev morreu. Já tinha um pé no outro lado. Nascera para morrer assim. Segundo o seu comando, por pisar uma mina por engano, entregou o que faltava ao Criador. O Comando tinha razão: os Serviços secretos russos apenas espalharam mais umas minas e, desta vez, uma acertou em gente importante. Mas Bassayev tem sucessor, Omarov, capaz de fazer tanto mal como na escola de Baslan, abraçando-se nesse amplexo fatal, malévolo mas cheio de balalaikas e amores românticos com que os modernos opričnicky se abraçam aos misteriosos vostokskyludi, como os nossos franceses nas Arabias, ou os nosso David Crockett no Faróeste, aos nativos e miscigenados cheios de magia. Que chorem as mães.

Não duvidem que, entre milhões de muçulmanos Basayev é um herói de pele clara e Omarov, um ruivo herói viking que se juntarão ao « Olimpo universal » do Deus único. Não duvidem que eles já cultivam o seu Forte Alamo, uma derrota que é vitória futura, na revolta em 2004, de Mazar-i-Shariff, onde durante três dias « cem túlipas negras » (como ficaram conhecidos quando os seus cadáveres ficaram abandonados e enlaçados no pátio da prisão porque a Aliança do Norte tinha medo dos fantasmas que sairíam da masmorra) mantiveram as tropas especiais norte-americanas em respeito, combatendo num metro de água gelada que lhes foi injectada, como Kubis e Gabchik na Praga de 1943, com cadáveres a flutuar e escrevendo versetos do Corão, a sangue, na parede. Entre eles, combatia um jovem de boas famílias americanas, John Walker Lindh.

Tudo o que se passa nos outros lados, são apenas batalhas do que eles crêem ser o Armagedão. E Putin não matou o seu Bin Laden. Só uma Liberdade cínica resolveria isto com a morte dos Bin Ladens. Uma civilzação julga. E divinamente, não condena à morte.

14.7.06

Woman, by André Bandeira

(ao Papa em Valência. Fumando um cigarro com José Luís Zapatero)

Fighting a tiger is not inviting to recall whom I loved. When love shuts the door, the door shuts in a cloud and the cloud vanishes over the horizon. We survive because love fights till death, but it never dies.
M. came out speaking to me, one day, about marriage and my heart was blessed. But I cheated on her as someone who drinks a glass of chilly water in a hot day and closes his eyes for a moment, diving deep into freshness. When I came to the surface I crawled ashore, resplendent and smashed by the burden of having seen stars and paradise trees at the same time. I tried for twenty days to remove that mammoth laid on me and, finally I confessed my trespass. I lost her but I moved from one century to the other without getting old in a sole eve.
Later I dated A. four springs in a row. This time it was A. who cheated on me with a friend of mine, who chose to be my friend and pray, in his own way, for our happiness. She didn’t manage to say it, neither that she was barren. When I realized it, I gathered strengths to overcome that obstacle because I thought that marrying her, for a childless life, wouldn’t work. But it ceased working before that because she was looking into my face and not into my heart and the heart mirrored in my face was her intellect.
Then I got married. I became a father, one day. And when I laid my baby girl on the sofa of a lone November house, she began to move her little fingers and, thereafter, they didn’t stop pulling the strings of my heart.
I remember other women I fancied about on getting married, having children and looking back over a corridor of time with gratefulness.
At a distance from the struggle with a tiger, it stands a woman’s face. Women laugh among them at these sayings, and we beckon. But if we were not different who could ever come to the rescue of each other? All those women lie beyond our thoughts, as the tide recedes from the tranquil toes.
It is true that giving birth to a new life could only come from two beings, always new to each other. And how vain it would be to come out in the starry night and command the stars to kneel at our feet. A new being can only happen by accident. Therefore, only by accident could love happen. If man was not a woman’s accident and vice-versa, both would be of the same essence, revolving and fading as a butterfly in a parched cocoon.
So I thank the women by whom I never qualified as husband and I do not regret the dive we did together in order to escape an island round with water.

The traits of a woman’s face catch the lightning and stripes of the tiger as if a fortunate island emerged from the sea under the shipwrecked and slowly opened her eyes, dried from tears, the eyelids made of birds.

Pad' Zé - O Cavaleiro da Utopia", de João Mendes Rosa


Acabei de receber hoje "Pad' Zé - O Cavaleiro da Utopia", de João Mendes Rosa, edição da JF de Joanes, no Fundão, 2000. Agradeço ao autor. Primorosamente bem escrito, antes de mais! E para além do objecto próprio de estudar o folgazão das Beiras - o homem das anedotas do dr. Assis, das pilhérias de Coimbra, do estudante que organizava a turma a rir por bancadas das piadas do dr. LAranjo, Alberto António da Silva e Costa (Pad' Zé) foi-me revelado como advogado e jornalista ,incansável nas pilhérias e sedento de uma " sociedade republicana " onde a lealdade desse às maõs à inteligência. Felizmente morreu antes de ver o resultado do 5 de Outubro.
Deixei para outra altura as leituras sobre os episódios chamemos-lhe de "para além da porta Férrea", a cultura sui generisde lentes, sebentas e tertúlias do que foi durante séculos o único campus universitário português, onde ser futrica era estar a mais numa cidade cujo coração vivia compassado pelo toque da "cabra". Tudo isso fica para depois, até porque a minha aldeia é a Universidade de Lisboa, e tenho presente o célebre comentário de Fernando Pessoa sobre a lusa Atenas.
Mas lancei-me qual Zidane e li compulsivamente os capítulos em que Mendes Rosa lança luz abundante sobre a preparação, a execução e sobretudo, o encobrimento do Regicídio. Desde o livro de Sanches de BAena, prefaciado pelo dr. António Reis, agora Grão-Mestre do GOL, que não se fazia tanta luz sobre um tema decisivo do séc. XX.
Mendes Rosa - amigo de velha data e velhas cepas - escreve com fibra de historiador, com alma de literato, com ganas de jornalista e com astúcia de detectuive. São parágrafos sucessivos em que as citações exumadas daqueles inconcebíveis jornais republicanos - "O Mundo" (O imundo, claro) "O Século" - e do memorialismo abundante e fervente da época, nos deixa pasmados pelo rigor da concatenação dos argumentos e pelo brilho das metáforas. Podemos chorar com os crimes de sangue da Carbonária - que " suicidava " os arrependidos", os " temerários"; ou podemos rir com os " gatos-pingados da eloquência democrática" que vinham cobrir-se de penas após encomendados assassinatos. Mendes Rosa passeia-nos com mão de cicerone dantesco pelo relativo inferno do fim de século português que se arrastou séc. XX adentro. Quem quiser sentir de perto o Pad Zé, natural de aLDEIA DE Joane, poderá ir ao Cemitério dos Prazeres, Gavetão Municipal nº305. Talvez lá vá um dia! Depois de ler o resto do livro! Por este, obrigado ao historiador João Mendes Rosa, professor em Salamanca e exercendo o seu mester no Fundão.

11.7.06

Cabeça e Coração, por André Bandeira

O Coração e a Cabeça, partes do corpo que representam atitudes em relação à Vida. A Cabeça ao Coração. Assim Zinedine Zidane nos deu uma amostra. O engraçado é que, nesse esforço máximo que é uma final mundial da indústria e do espectáculo de massas, mais a do prestígio nacional reduzido à sua versão mais superficial, passou-se algo de mágico. O italiano pagou a uma bruxa para lhe ensinar uma frase que fizesse o campeão francês descontrolar-se, sendo que a bruxa já nem se lembra que filtro vendeu,nem a quem, nem para quê. O campeão mordeu o isco e saíu, passando de lado, com o seu ar circunspecto de homem do Norte de África ao lado da taça dourada, filmado em grande plano, de costas para ela, como um rapazito em cuecas a ir à casa-de-banho. Nesse momento já se sabia que o jogo estava perdido. Quer dizer: não se sabia, mas as pessoas passaram a desejar, todas, que o Drama se consumasse. Todas, franceses e italianos, jogadores, público e telespectadores. Porquê? Porque o que desejamos é a consagração de um herói. Quando o herói se retira, o jogo passa a ser outro, sem fim, porque é que ele reagiu assim, o que é que lhe disseram, foi racismo contra orgulho árabe, fidelidade à França ou à Família, provocação, o que foi, afinal..?

Ora, se o jogo de futebol é ainda o altar onde idolatramos o Homem e onde o sacrificamos, para nos purgar de nós mesmos, então fomos todos levados. Levados por nós mesmos. Queremos que as coisas se revelem como julgamos que elas são. E hão-de ser sempre como as recordamos, com drama, tragédia, violência, suor, lágrimas e pele molhada. Tal como no amor, tal como na guerra. Porque queremos amor e guerra. E todos os estádios, todas as mesas de jogo, todas as corridas e competições desaguam aí. Temos que soltar o bicho que há cá dentro. Quando o único bicho que soltámos foi o Burro! Burros! Em vez de nos ordenarmos por dentro, metemos a cabeça no coração, num golpe que vai fazer moda. Os nossos heróis são um italianeco agarotado e um francês nu, dois garôtos afeminados a brigarem uma lata. E pagamos-lhes milhões porque pensar ou rezar é uma chatice. Desistimos de meter o coração na cabeça, mergulhamos de cabeça no coração, saímos relaxados do duche da vida, não lhe acrescentámos nada.Ah, mas quem é que nos ensinou esta porcaria?! Basta de nos achincalharmos com este tipo de distracções.

7.7.06

Portugal começa amanhã, às cinco da madrugada, por André Bandeira

Portugal não é uma cerveja nem um trocadilho de publicidade. Portugal não é uma equipa de futebol, antes ou depois de ganhar. Não é uma toalha, um lenço, uma côr maluca do cabelo ou uma maquilhagem mais ou menos de filme. Portugal não é uma confraternização depois do jogo, ou antes, à volta de um Televisor. Portugal não é “aqui estou eu!”. Portugal não vale uma missa, em que entro, me ajoelho e me levanto, canto uma ou duas canções, molho os dedos na água benta e me limpo de alguns maus pensamentos, para depois ir fazer o que faço sempre. Portugal não é as costas quentes para bater nos outros que não são Portugal. Se não se lembram, aprendam que Portugal é esforço, sacrifício e também tragédia e até um pouco mais tristeza, uma tristeza inexplicável que não tinge os rostos de outras Nações. E, por isso, de vez em quando, Portugal é uma alegria infantil, quase, uma tranquilidade, imaculada do medo. Por isso Portugal é senhor da Tristeza, domador do Monstrengo que está no fim do Mar, surdo barquinho frágil, flutuando com a brisa nas barbas do Adamastôr. Portugal não é reconhecimento em vida e, ao invés, é tremenda guerra e batalha enquanto a vida dura. Portugal é quase, quase uma maldição, porque africano e atlântico, celta e viking, roçou o fogo do Inferno. Quem está disposto a ir com Orfeu e com Jesus a essas profundezas e acompanhá-los até fora, sem olhar para trás, sabe que essa é a gotinha de orvalho que Portugal condensou na mão de Deus, o seu pequenino presente acrescentado ao Universo. Não saberemos nunca o que verdadeiramente se esconde por trás dos olhos de um português e essa é a nossa bandeira.

Portugal não é uma rasteira na Grande área. Portugal não é uma rasteira. Portugal é renúncia, oração e grandeza na noite da viagem, em direcção à luz da madrugada...

6.7.06

Caídos de pé.

Segundo os especialistas e mesmo l'Équipe, Portugal dominou o jogo mas jogos ganham-se com golos.
Assim, acordem Deco e retirem PAuleta para o próximo jogo pelo terceiro lugar.
É ainda espantoso o apupo a Ronaldo pelos ingleses em Munique. O futebol tornou-se também um concurso e um ranking de personalidades individuais - além das colectivas.
Ihateronaldo.com. tem 600.000 hits em quatro dias. O ódio despejado lembra o dos velhos piratas ingleses. " Como eles dizem, "it sucks". Aconselho visita e resposta. Eu fiz. O dr. MAdaíl que vá pedindo providências; não basta a boa definição que deu do jogo. Caídos de pé. Não seja pedestre.

5.7.06

Dia Nacional da Língua Portuguesa no Brasil

O Brasil no artº 13 da Constituição declarara a língua portuguesa como idioma oficial,
e acaba de criar seu dia próprio para celebrar o idioma nacional
Através da Lei nº 11.310, de 12 de Junho de 2006, o presidente Luís Inácio Lula da Silva sancionou o projecto de lei do Senado n. 149/04, da autoria do senador do PSDB pelo Amapá, Papaléo Pães que institui o dia 5 de Novembro como Dia Nacional da Língua Portuguesa no Brasil. O dia foi escolhido por ser o aniversário de nascimento de Rui Barbosa, um dos mais ferrenhos defensores da língua portuguesa no Brasil. Ao adoptar a medida, o Presidente brasileiro declarou que a intenção era a de valorizar e preservar a língua portuguesa como “importante laço de consolidação da unidade nacional. A lei foi publicada no Diário Oficial do Brasil no último dia 13 de Junho de 2006.

Sobre uma Homilia, por André Bandeira

Havia uma Mulher que sofria de perdas de sangue. Depois de se ter arruinado com vários médicos, não se conseguia curar e os hebreus tomavam a sua doença como impura. Foi procurar Jesus, no meio da multidão. Os apóstolos diziam que não valia a pena. Mas ela conseguiu tocar-Lhe as vestes e curou-se. Jesus perguntou quem lhe tinha tocado as vestes e os apóstolos diziam-lhe: “Oh Mestre, no meio de tanta gente como vamos saber?”Mas Jesus voltou-se e viu quem era, no meio da multidão. Talvez o sofrimento desta Mulher também tivesse tocado o coração de Jesus e o milagre o tivesse abanado tanto a ele como a ela. Depois Jesus foi procurado por Jairo, o Chefe da Sinagoga que lhe pedia desesperado que o Mestre lhe salvasse a sua menina, quase a morrer. Os Apóstolos, de novo, diziam-lhe; vai-te embora que ela está morta já. Mas Jesus seguiu-o e disse à menina: ‘Levanta-te Tabeeta”. E ela levantou-se e viveu. Tabeeta quer dizer pequena gazela. Teria doze anos, a idade da puberdade.

Num Mundo de revolta e seccionamento, este episódio faz-me ver que a pequena Gazela, na idade de sofrer a impureza cíclica, se levantou e que a Mulher se curou. Por mais misteriosa que seja a natureza pagã da condição Feminina, com tanta História e que se pretende fazer renascer hoje, sob a forma de Diana, de Juno, de Minerva, de Vénus, uma coisa ela tem de comum com a Natureza Masculina. Sobre as duas pernas se erguem ambas as condições e sobre elas têm de caminhar para viver. Imagino Jesus, ao ver a pequena Gazela, erguendo-se nas suas pernitas frágeis e aguentar-se nelas de novo. E sobre esta natureza comum de caminhantes, somos irmãos, o Homem e a Mulher. Aguentando-nos nas canetas somos tão fracos e tão fortes, uns como os outros.

4.7.06

sentimento de pertença , por Fernanda Leitao

O Portugal-Inglaterra encheu-me as medidas. Ricardo à baliza, foi ali mais do que ele, foi a vontade de todos nós. Cristiano Ronaldo, o menino que beijou a bola como quem diz “tu não me falhes”, foi ali mais do que ele: foi a crença ingénua do povo que somos. O brasileiro Scolari, rubro de entusiasmo, quase dançando, foi mais do que um grande treinador, foi ali o fio invisível que une o mundo lusófono, esse que existe onde dois seres humanos se entendam em português.

Quando o jogo acabou liguei para um amigo de Angola, como eu, o Orlando, que vive na mesma cidade que eu. Respondeu-me com a voz embargada de quem chorava. Eu fui até ao lindo e castiço Mercado de São Lourenço, em frente da minha casa, para esvaziar a tensão. Era o 1 de Julho, Dia do Canadá, e o mercado estava apinhado de pessoas alegres e descontraídas, a comprarem e petiscarem. De repente, dei com os olhos num rapagão todo embrulhado numa bandeira portuguesa, com a cara pintada com as cores da bandeira, que berrava a plenos pulmões em inglês: “O meu Portugal ganhou”. E todos aqueles estrangeiros o felicitavam, lhe davam abraços e palmadas nas costas. Fui direita a ele e disse-lhe apenas: “Lá ganhámos”. O rapagão abraçou-se a mim com as lágrimas a saltar dos olhos. E eu quase chorei. Éramos dois desconhecidos que pertenciam a uma mesma Pátria, com um sentimento de pertença sem reticências a um destino comum.


Novo Hino de Portugal... em inglês claro

O blog do momento é p Worldcupblog.org
Aí se expõe a comunidade internacional.
Para quem só acredita na língua inglesa Dina excreveu o que bem pode ser o hino sombra de Portugal em inglês.

My Portuguese Pride
I Will Not Hide
My Portuguese Race
I Will Not Disgrace.
My Portuguese Blood
Flows Hot & True.
My Portuguese People
Will Always Stand By
Through Thick And Thin.
Till The Day We Die.
Our Portuguese Flag.
Rises Higher Than The Rest
Because Everyone Knows
PORTUGUESE ARE THE BEST!!!

:-)

Força Portugal!

3.7.06

O Vencedor é da velha Europa

Regressado de conferências nos EUA, começo pelo inevitável: o nacionalismo pedestre do campeonato do mundo tem uma dimensão e força tais que o tornam uma linguagem global, e mesmo a linguagem global. Na Europa, como no Canadá, em África, no Japão, na Al-Jazeera o destaque são enormes. Murcha... está a angloesfera!
Duas coisas se destacam.
Força Portugal! e Viva a Comunidade Internacional! “Ricardo... é nosso!” E Scolari, também. Dos 32 treinadores presentes na Alemanha, 15 são estrangeiros, incluindo o nosso herói. Em segundo lugar, seja qual for o vencedor do Alemanha 2006, será um vencedor da Velha Europa, aquela a quem Rumsfeld pediu desculpa em Munique 2005, dizendo que era uma frase do “old Rumsfeld” a sua idiotice de 2003. Bandeiras à janela, parece haver em todo o mundo. Mas esta democracia à varanda parece ser a melhor coisa que os povos inventaram para dizer que estão vivos e que contem com eles na ordem internacional.