31.5.07

Nossa Senhora da Atalaia, por Pedro Cem

Nossa Senhora da Atalaia tem um altar no Cabo Espichel em Sesimbra. Quando sai à rua em dias de festa, no andor, aos ombros de quem conhece a morte no Mar, talvez se comova por esta dor e este amor ao infinito que já ninguém crê, que uns repetem sem saber e outros crêem, baixando a cabeça frente a um mundo que os gozaria se se tentassem exprimir.

"Há aqui lugar para uma lágrima", diz-me alguém que muito amo, no meio da sua confusão de frases desgarradas por uma doença de Alzheimer galopante.

Li hoje que uma mulher desesperada por não conseguir tratar da sua filha deficiente de 25 anos, a quem tinha de assistir a comer e a movimentar-se, escolheu o Cabo Espichel para se matar, a ela mais à filha. Aconteceu de manhã, quando toda a gente se incorpora na grande serpente de carros da margem Sul. Hesitou -- disso são testemunho as travagens do carro à beira do precipício . Por fim mergulhou dentro desse bem que foi uma das conquistas do nosso progresso: um carrito para todos. Mãe e filha tiveram morte imediata. Não era casada, vivia com um modesto Canalizador que tratou da mãe e da filha, desde que esta era bébé. O homem disse que além do fardo da filha deficiente, não encontrava outras razões para aquilo. É que no húmus dos canos se pode espreitar e, às vezes, ver o Céu...

Nossa Senhora da Atalaia, que guardo ao meu lado encostada a um livro. De pele branca e cabelo prêto, muito prêto e desalinhado como essas mulheres mediterrânicas, da Grécia talvez, que acordam zonzas numa terra de sol que não era delas, mas com a mesma sombra por dentro, que o Mar nos desenhou pelas escarpas. Eu sei que te condoeste deste drama e talvez a meio da queda tivesses agarrado estas duas mulheres unidas para sempre, desde a barriga da mãe. Como agarras os pescadores que caiem ao Mar, como os puxas para baixo ternamente, no teu manto azul, ao cabo da tormenta sem fim.

Não nos rejeites Mãe do Mar, Nossa Senhora da Atalaia. Não nos deixes despertos apenas ao leme, mas também para ver a dor dos outros que tantas vezes nos passa despercebida e nos ensines a ver estas famílias pequeninas e estropiadas que são o teu presépio, alumiado no egoísmo do Verão.

1 comment:

Rui said...

Olá Pedro!
Só conheço duas cidades: a de Deus e a dos homens. Leia-se Santo AGOSTINHO.
E não esqueçamos q o Verbo se fez carne e habitou entre nós! O Emanuel! Segunda Pessoa da Santíssima Trindade.
O Espírito procede do Pai e do Filho. O Filho pede a São Tomé q ponha a mão no seu lado para q este ateste donde brotou o sangue e água.
A Obra da Redenção é Real e Reias são as pessoas de Maria e Jesus.
Um abraço, no dia da Festa Grande de Nossa Senhora da Atalaia, Montijo, Portugal