16.6.09

XXII -(Re)leituras - The Civil War Diary of Emma Simpson, de Barry Denenberg, por André Bandeira

As guerras civis são fenómenos horrendos. A guerra é algo que não se pode expulsar facilmente das nossas existências mas, quando ela é civil, quer dizer que expulsá-la é como abater as paredes e o teto da própria casa para se lutar mais à-vontade.Este diário de 1864, duma rapariga de quinze anos do Sul dos Estados Unidos, faz-me lembrar esse grande actor Patrick Swaize, que decidiu enfrentar a morte inevitável com cancro do pâncreas, sem tratamentos. Ele protagonizou, em tempos, uma bela série de Televisão sobre a Guerra da Secessão norte-americana. No diário de Emma Simpson, vai-se passando de um cenário de elegância e amor, até ao pesadelo diário, sem se sair de casa. Curiosamente, na família desfeita dos sulistas Simpson, restam duas tias velhas, a própria escritora e dois escravos negros que não as largaram. Todos morrem tragicamente excepto a escritora, a quem o amor por um soldado confederado, que teve a sorte de ter sido feito prisioneiro, permitiu sobreviver. Os exércitos garbosos do Sul, vitoriosos à partida, acabam por desfilar em frente à casa, desfeita, descalços, agonizantes e desvairados. Um soldado ferido do Norte depositado pelos seus camaradas nos jardins da casa agradece a água que a escritora lhe dá, antes de morrer, dizendo apenas:«Um homem com sede agradece-lhe, senhora».Os animais são mortos, os soldados pilham, violam, aterrorizam. Os negros fogem para o Norte, em busca da Liberdade e alguns vingam-se, nomeadamente aqueles a quem os patrões batiam ou que lhes separavam as famílias, vendendo um filho ou a mulher e impedindo depois as visitas. É todo um mundo que rui, em loucura e terror, onde dantes havia injustiça e crueldade mas onde este terror não cura nada, antes faz da crueldade uma orgia completa. No meio da brutalidade sem limites, qualquer gesto de delicadeza adquire um valor incrível, como se um simples bom pensamento fosse a única recordação de que a noite acabará um dia. E todos nos precipitamos neste poço como que obrigados. Para quê? Só para emergirmos um dia e, para num outro dia ainda voltarmos a cair. Quando já nem nos lembrarmos porquê, por que bandeiras, por que brilhos, por que slogans...há certamente, qualquer coisa na sucessão dos dias e das noites, dos passarinnhos que voltam a cantar de madrugada, que nos diz essa outra palavra sem som e que dura uma eternidade a ser pronunciada.

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