1.9.08

Balanço sobre Solzhenitsyn - com vista para os acontecimentos da Geórgia

morte de Alexander Solzhenitsyn produziu reacções muito previsíveis dos comentadores ocidentais. Basicamente jornalistas e opinion makers, disseram isto: “Foi um gigante moral ao expôr os males soviéticos no arquipélago Gulag; mas a sua estatura moral ficou depois comprometida por se transformar num nacionalista russo a desconfiar do Ocidente”. Nunca gostou do Ocidente, equiparando-o aos mercados livres ou à cultura Pop.”

A maior parte destes comentários revelam mais sobre os respectivos autores do que sobre Solzhenitsyn. É a geo-ideologia de que Ocidente e democracia são sinónimos. ‘Ocidental’ aparentemente já não significa a tradição das clássicas Atenas e Roma e as religiões judaica e cristã.

Há aqui grandes equívocos. A começar com os mercados livres. Uma das medidas da liberdade de um mercado são os impostos. A taxa única do IRS na Rússia é de 13% , metade dos 25% dos E.U.A, e 1/3 dos mais de 40% da Europa continental. Quanto a cultura Pop, a Rússia tem em abundância, infelizmente.

Quanto aos comentários que desacreditam como inadequada a visão de Solzhenitsyn de uma “sociedade mais espiritual” e os seus julgamentos duros e antiquados “de nacionalista” que se parece com a propaganda soviética, são comentários de arrogantes mas atrasados mentais.

 Reli o ensaio de Solzhenitsyn de 1995, The Russian Question at the End of the Twentieth Century. No livro Solzhenitsyn quase não se refere à religião que, sabemos, levava muito a sério. O que emerge é uma posição política extremamente simples e poderosa, idêntica à de Pat Buchanan, A Republic not an Empire, ou do libertário conservador Ron Paul, ou mesmo desse cowboy liberal William Ramsey Clark.

Solzhenitsyn ataca ferozmente trezentos anos de história russa. Só escapam a imperatriz Isabel, 1741-1762, e o Czar Alexandre III, 1881-1894. A coerência é evidente: opõr-se às aventuras imperiais a expensas da população russa. Antes de búlgaros, sérvios, Montenegrinos, seria melhor a Rússia pensar em Bielorussos e Ucranianos: a mão pesada do império privou-os de desenvolvimento cultural e espiritual; a tentativa da grande-Rússia prejudicou a Rússia. Aferrar-se ao império contribuiu para a extinção do povo.

Após o horror do comunismo, veio o caos relativo do post-Comunismo. O problema não é que a URSS quebrou – isso era inevitável. O problema real é que a dissolução ocorreu ao longo das fronterias leninistas. Em poucos dias, a Rússia perdeu 25 milhões de russos étnicos, 18% da nação, e o governo aceitou esta derrota.

O Leninismo criara as chamadas repúblicas Soviéticas, nacionalismos falsos que não correspondiam a realidades étnicas: Os Kazakhs são uma minoria numérica no Kazaquistão. A Ucrânia é uma colecção de antigas províncias russas (Kiev) e algumas ucranianas. Isto aconteceu quando a URSS foi dissolvida unilateralmente em Dezembro de 1991.

E esta é a chave da hostilidade ocidental para com Solzhenitsyn. O homem que ajudou o Ocidente a destruir o comunismo recusou dobrar o joelho às tentativas ocidentais de destruir a Rússia.

2 comments:

ASD said...

Li há dias o "declínio da coragem", conferência perante os estudantes de Harvard. Foi há 30 anos.
AS, condena naturalmente o totalitarismo que o obrigou ao exílio, mas denuncia a estupidificação das massas do Ocidente e aponta a nossa época como um momento de alteração estrutural.
Vivemos portanto sob o princípio da incerteza, porém, as forças sociais que se reforçam são a da mediocridade e da corrupção, num quadro de total ausência de estratégia, salvo talvez parte da escandinávia. De resto, o líder, o paradigma, é o bezerro de ouro.
O capitalismo especulativo anula o capitalismo de investimento sustentado, as redes sociais vivem sob a capa neurótica do superficialismo das relações descomprometidas de qualquer solidariedade, tanto social, como geracional.
Mas a turba está segura enquanto o endividamento generalizado não asfixiar o consumismo barato, que funciona como soporífero da escravatura financeira que afunila e apaga qualquer horizonte de esperança dos automatos robotizados em que nos vamos transformados.
As famílias vivem descompensadas.
A denúncia tribunícia da Universidade apenas funciona como escape e tertúlia virtual, de quem a sorte deu o privilégio de se alimentar das ideias.
A formação de maiorias sociológicas começa nos bancos da escola das primeiras letras.

mch said...

Caro AD.
Concordo com tudo o que disse.
E acescentoaquilo do José Gil
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