15.7.10

XLVII - (Re)leituras -- Descolonização Portuguesa - o malogro de dois planos, de Carlos Dugos, por André Bandeira

De novo retorno aqui a este meu caminho, levantando um pé, de cada vez, cheio de livros e de inscrições. É um caminhar pesado mas o caminho faz-se caminhando, não é? Olá a todos, aos que lêem, aos que comentam e aos que olham...
Este livro de 1975, seria um livro chamado de reaccionário. E, contudo, como ele, sinto-me como se tivesse levado um bofetão de um espírito, num corredor escuro da minha casa. É um livro de um português de Moçambique que nos diz, de uma forma muita clara e concisa tudo o que aconteceu. Havia dois planos para as Colónias portuguesas: o plano de Spínola, chamado de auto-determinação e o plano de independência, do Partido de Álvaro Cunhal. Spínola perdeu e perdeu-se. Mas o 25 de Abril tinha sido todo feito para resolver as questões das Colónias, em particular Angola. Angola e o Zaire são metade de África e metade de África é um domínio enorme do Mundo. O plano de Cunhal venceu e ele perdeu-se e perdeu-se a URSS. Ficaram guerras civis, de que nunca conheceremos os mortos, tiranias e explorações de fazer corar os antigos. E ficou uma esperança de liberdade e dignidade em que, afinal, só os fortes é que ganham. Ai dos vencidos!O autor diz uma coisa muito simples. Escrevera-o em 1972, mas foi censurado: depois da libertação das Colónias, quem libertará Portugal? Sim. Portugal sobrevivera graças à sua quase miraculosa expansão marítima. Já Norton de Matos pensara numa Federação portuguesa em que o Brasil teria uma parte importante. E D. João VI. Já o próprio Marcelo Caetano pensara numa auto-determinação das colónias em que, a independência inevitavelmente se seguiria e só ficariam os laços morais e culturais. Hoje, por mais que forcemos, num só dia mau, todos esses laços podem ser cortados e, quando resta um só, alguém vem para a rua exigir que se o corte também.
Meu Deus, que desperdício, que crime até! Será que o casamento entre pessoas do mesmo sexo é assim tão importante?! Será que é preciso encontrar na Lei um lugar para tudo, só para que a Lei regule os mais ínfimos pormenores da nossa vida?!
E tudo o que este livro diz é verdade, brutalmente verdade, mas agora é tarde demais. E eu próprio me sinto horrorosamente culpado...
Meu Deus, Portugal bateu-se por um mundo demasiado tímido para sobreviver e, afinal, o mundo arrogante dos Russos desfez-se pouco depois e o mundo arrogante dos norte-americanos, arqueja mortalmente ferido. É isto tudo um delta de histórias triste que acabam todas tragicamente?!
Que poderemos fazer para ainda dar sentido à nossa existência como algo que não apareceu por acaso, algo que inclui responsabilidade pelos outros? Algo que ainda passará como os que se foram antes de nós mas de que nos lembramos, até com carinho.

2 comments:

ana said...

Não ia comentar a descolonização, apesar de angolana, porque muito se disse, e é um assunto sem remédio.
Mas fico mais indignada quando existe uma tentativa de banalizar os direitos conquistados pelas minorias. é importante a lei pronunciar-se quanto ao casamento gay,ao racismo, a igualdade de religião, de sexo, ao aborto. Sim é. Porque não é um permenor da nossa vida intima. São direitos civis.

mch said...

Ana,

Obrigado pelo seu comentário. Recebo poucos, embora me esforce. Não penso que a questão da descolonização não tenha remédio: ela foi tão falsa que o relacionamento entre Portugal e os novos países, terá que ter uma «re-continuação». Quanto à Lei pronunciar-se sobre tudo, imagina porque é que não posso estar de acordo com isso. Há soluções regionais, que se constroem regionalmente. Os direitos civis são o resultado da Lei pelo que, se a Lei se pronuncia sobre tudo, tudo são Direitos, reivindicações, formas deformadas e monstruosas de pôr em público algo que é privado, íntimo.E é também interromper processos de organização social e humana, levando-os para a praça pública onde a decisão é do mais forte. Ora, a força nunca criou o bom e durável direito, mas foi o consenso, a boa-vontade, que o fez.
Muitas vezes o racismo não é o que parece e, aquele que parece, não é o pior.

André