23.7.08

Capitão Ahab




A disciplina de Relações Internacionais ameaça tornar-se a preferida do Conselheiro Acácio.
A enorme massa de platitudes que infesta as revistas de geopolítica, relações internacionais e ciência politica, algumas transexuadas de jornalismo, é de fazer vómitos. Os ditos especialistas que se colocam em biquinhos dos pés para nos recitar como vai o mundo desde Vestefália e qual vai ser o próximo espirro de Condoleeza Rice ou o traque do novo senhor do Kremlin, são de enjoar; a suficiência bronca com que nos debitam cenários que nunca acontecem fora da cabeça deles, e de mais alguns centos de fotocópias da Universidade de Georgetown, é assustadora.
Para variar radicalmente gostaria de trazer o que ainda não vi nenhum embora decerto que uma pesquisa google o faça aparecer de tal modo é óbvio; ter modelos literários para analisar as relações internacionais.
O que me fez pensar nisso é o paralelo entre Moby Dick e o Terrorrismo, entre o capitão Ahhab e George (vai-se embora) W. Bush.
São bem conhecidas as análises de como o romance Moby Dick significa a externalização do mal; converte-se o mal no absolutamente outro para que o eu seja o bem. E nesse processo o capitão Ahab ( um nome elementar, básico, bushiano) perde a alma, os seus marinherios perdem a vida e tudo termina numa enorme tragédia como os acontecimentos contemporâneos do baleeiro Essex que inspirou o grande escritor americano.
Esta simplicidade de que só os grandes escritores são capazes para sondar a alma humana é decisiva para analisar George W. Bush. È muito mais verosímil do que os supostos actores, agentes, entrosamentos, redes, factores do potencial, cenários, e muitos outros pluses e minuses do jargão das RI. Perceber que por detraá das grandes causas que arrastam o mundo também ( ou sobretudo, isso é para debate) existem as pequenas causas da personalidade humana que nasce e morre sozinha. Mas pelo meio vive em comunidade e é a esta que deve prestar contas. Moral: Ler Moby Dick é ler o maior fantasma jamais concebido pela alma americana que renasceu com George Bush, é ler como melville profeticamente sabiaA uma certa América que caminha para o fim do império como sucedeu a outros impérios criados “como quem os desdenha”, ou seja, by default.

3 comments:

VIVA O REI said...

Boa parte da cultura americana, para não dizer a totalidade, baseia-se na capacidade do individuo perante a sociedade.Se houve algum legado para o futuro esse legado foi a propaganda que um homem sozinho pode, independentemente do que a maioria pensa...claro que isto, de uma certa forma, é profundamente antidemocrático...dai a generalidade dos "herois" da literatura anglo-saxonica acabarem mal no fim das histórias...apesar do seu esforço prolongar-se pelos tempos

O fim dos EUA enquanto potência global (que ainda vai demorar algum tempo) não se resume ao fim da influência de um Pais (tão singular como qualquer outro)Resume-se sim á ideia instalada no Ocidente que o modelo neo-Liberal (sozinhos podemos) acabou.Hoje os homens mentalizaram-se de que nada podem sozinhos

Se no sec XIX a ideia de um marinheiro de arpão na mão (completamente só) perante algo que o ultrapassa mas não o desmorece, seria algo descabida...hoje é uma fantasia...não porque seja falso (nos açores caçava-se assim) mas porque os corações dos homens esmoreceram

Se hoje algo pode explicar a decadência de um certo Ocidente (que vai além das fronteiras dos EUA) esse algo é visivel no homem que apesar de culto, bem alimentado e confortavel treme perante cenários virtuais e ameaças irreais tão pequena é a sua alma que se confina a uma caixa chamada TV

O Ocidente não se fez assim, fossem os homens e mulheres assim e ainda seriamos todos escravos
Não é o fim dos EUA a que assistimos...mas ao nascimento de uma nova epoca, pior, mais brutal e talvez muito similar á que precedeu a queda do império romano ou a invasão mongol na china


bem haja

Simão Netto de Novais said...

Talvez nunca haja uma nova era, apenas distopoi vagos ou radicais - a escolha é vossa - de uma antiga harmonia de que dão ainda recado os deuses abolidos.
O analogon do individualismo empreendedor e que se casa com o próprio desespero do fim está bem recordado pelo capitão Ahab ( e esta fotografia da baleia toda amarrada e de um arpão quase infantil, mas secretamente mortífero é estupenda).
Sem dúvida a América bem estrebuchou mas parece agora a caminho não da catharsis redentora mas da anihilatio que toca aos ciclos imperiais.
Este império do qual somos contemporâneos e cúmplices repetiu Roma e o British Empire, não durou tanto como uma, foi menos requintado e altivo do que o outro, e tão butcher como todos os impérios idos. Que vamos fazer com esta imensa morte anunciada, de uma terra empapada do sangue de caçadores de baleia - milhares de açorianos justamente, milhares de madeirenses diaspóricos?
O curioso é que todos os impérios são edificados com quota parte de grande responsabilidade mais do que relativa de todos.(Tenho um Mac, vocês também o terão ou um windows, ao império os devemos). Ninguém é periférico à grande baleia branca, e por isso vamos morrer inúmeras vezes mais do que da petite mort blanche dostoievskiana, a epilepsia intelectual perfeitamente ao mesmo tempo que o leviathan entra nas vascas da agonia.
Mas desta feita não soa a trompa de Cybèle. Baco não parece estar a postos. Do oriente vem um silêncio afanoso de formiga. A luz, a outra, que não está nos illuminati, mais secreta do que nunca, no entanto desloca-se juntando os mundos.
Tempo em que o Capitão Ahab depois de encontrar o duplo do anjo, avança com o arpão cravado no seu olho depois de Édipo, e dança.

que se me perdoe a linguagem um pouco oracular, mas haverá outra que toque ao mesmo tempo no pneuma pós társico e no de Madalena? Logos e cuore?

E acabo com a voz do dólar diferido
In God we Trust. Do we?

Simão Netto de Novais said...

Ahab no fundo é um anti Jonas, anticipa-se a ser engolido pela baleia (a grande instância para falar como Jung do subconsciente colectivo), e o homem que se desembaraça dele num gesto de rebelião individual contra as massas. Mas há uma reserva: Ahab também é a baleia e foi sempre a baleia branca, que é inclusiva e última, ao mesmo tempo singular e todas as outras baleias do mundo, as já caçadas e as por caçar, as que estão nas gravuras dos capitães já reformados, e as que estão a esticar os colarinhos dos especuladores da Bolsa.

Enquanto Jonas sofre a digestão interna no forno interior da baleia - que equivale ao forno alquímico da transmutatio) e sai de dentro renovado, renintegrado no seu sólo mais firme: identificou o seu subconsciente com o colectivo, e agora pode falar com o ouro das palavras:ou seja, comunica aos homens porque se integrou na linguagem comum sem perder a estranha luz de quem também comunica com a instância mais alta do sagrado, Ahab procede a outra operação ainda mais delicada: desmantela e desmonta o seu próprio espelho, procede a um penúltimo sobressalto ôntico profundo que desarticula as cadeias lógicas que ao mesmo tempo levam ã suprema doxa a anulam e a constragem e casa la noche del alma com a luz selvagem - porque espontãnea - da razão ardente. Última Thule: rompe o primado das melhores convenções e entra na viagem depois do fim do mundo e isto em vida, contra os deueses e contra a natureza.

E nem sequer é preciso imaginar Ahab feliz.