30.6.08

c. O Monge-Guerreiro de Kamakura, por Eric Voegelin

A resposta ao post anterior mostra alguma incompreensão do que é luta. Remeto para duas fontes obrigatórias: Fernando pessoa e o seu peoma guerreiro -monge e a peça de igula título que sairá no nosso vol vol 03. cap. 4. c. de Voegelin que começa a entrar no prelo

vol 03. cap. 4. c. O Monge-Guerreiro de Kamakura

As ordens militares na sociedade ocidental tiveram de ceder o lugar à cidade e ao estado nacional. Contudo, o desaparecimento precoce não deve obscurecer a importância intrínseca do fenómeno. Em circunstâncias mais favoráveis, como por exemplo no Japão, na mistura do monge e dos ideais do guerreiro determinou durante séculos o carácter político da civilização. Por coincidência histórica, a introdução do budismo Zen no Japão, patrocinado pelo shogunato de Kamakura está em paralelo com a ascensão das ordens militares no Ocidente.

A fusão peculiar do misticismo e do esteticismo Zen com as virtudes guerreiras de lealdade, resistência e obediência deram forma à vida da classe governante guerreira de Kamakura porque a dinâmica da política japonesa naquele tempo seguiu um percurso oposto à do Ocidente cristão.[1] As ordens ocidentais sucumbiram porque as novas e fortes unidades políticas, emergiram a partir do campo feudal do poder. O ideal japonês do Monge-guerreiro venceu porque a vitória do clã de Minamoto e o estabelecimento do governo militar em Kamakura encerrou o período do governo imperial central moribundo, copiado das instituições chinesas, e iniciou a idade feudal japonesa (1192). As ordens militares do Ocidente, além disso, não podiam evoluir para uma elite governante porque o celibato monástico cortava a base vital que é a exigência inevitável para a continuação de um grupo secular governante; a atitude espiritual militar japonesa poderia crescer como uma força política estável porque a base vital era uma sociedade vitoriosa de um clã guerreiro.

 



[1] Sobre Zen veja Daisetz Teitaro Suzuki, Essays in Zen Buddhism, 1ª série (Londres: Luzac, 1927); 2ª série (Londres: Luzac, 1933); 3ª série  (Londres: Luzac, 1934). Reimpressão: Londres: Rider, 1970; e Teipei: Ch'eng Wen, 1971.

 

6 comments:

Claraval said...

Um ponto prévio: eremita não significa imobilidade, bem pelo contrário.
A crise de mobilidade que aí virá ou não, diz respeito aos veículos.

Não conhecia Voegelin. O seu resumo histórico está correcto, mas pessoalmente não me adianta muito. Embora ache que ele ao falar do celibato monástico para o Ocidente (que não foi assim tão estrito, a natureza humana não permite extremos) toca num ponto. Os filhos dos guerreiros monges do Ocidente não se podiam constituir em casta, os do Oriente sim.

O inteligente do ponto de vista eficaz do Monge-guerreiro japonês, foi ter-lhe acrescentado práticas meditativas de origem indiana.

Os guerreiros são uns ginastas especializados, em que se introduz uma formatação específica, o "esprit de corps." A ideologia guerreira nipónica produz colectivos fortes, raramente indivíduos. O estereótipo do samurai eclipsa a individualidade. Mas isso é típico do Oriente, que não teve um período como o romantismo, que libertou o indivíduo.

O que aconteceu com os samurais, mau grado a injecção Zen, é que evoluiram parta um tipo de polícia pretoriana hereditária, uma pequena aristocracia militar/espiritual, que se queria modelar.

Sendo assim a ideologia castrense absorveu a espiritualidade primária do Zen e claramente produziu um tipo de homem, dedicado à luta. A intenção do shogunato foi mesmo essa, ter um corpo altamente profissionalizado, e que melhor do que também ser um campeão da espiritualidade (enfim, do que se julgava ser a espiritualidade - porque está longe de estar provado que o Zen, sobretudo o marcial, seja um veículo par excellence, da mesma).

Mas já que trouxe â liça o guerreiro-monge de tipo oriental, reprodutível, assegurando a estabilidade e a eternidade do shogunato (o que já de si é uma pulsão tirânica: o despotismo da ordem invariável, a repetição do Mesmo, características do Oriente) para sustentar o seu conceito de luta, como aplicaria esse modus operandi à figura do filósofo comtemporâneo, no caso luso, está bom de ver?

Porque as coisas não se passam só na cabeça, e vendo o estado físico da maior parte dos nossos aprendizes de filosofo, temo que teriam que passar uns bons anos a recuperar fisicamente antes de poder passar para esse estado de "luta" que o meu amigo sugere, e que agora abona com os samurais vistos por Voegelin.

Cumps,

Claraval

PS . Não é pseudónimo. O meu pai era um admirador de Wagner e dos pós-rafelitas.

Luis Miguel da Fonseca Barrocas said...

Olho para Portugal e vejo um "litoral".
Olho para a Europa e vejo um "centro" articulando-se com um todo.
Olho novamente para Portugal e vejo pessoas licenciadas, mão-de-obra qualificada a "saír" deste belo país rumo a uma Europa orgulhosa de si, bem cuidada, estruturada que, para Portugal,“olha”.
Precisamos de lutar por uma espiritualidade, por processos de construção de identidade social como Voegelin tão bem ilustra em suas obras. Lutar significa intervir, crescer em autonomia, num todo social amadurecido. Lutar é relacionarmo-nos de modo interdependente, por meio de uma circulação de elites de carácter, empresariais e políticas, como refere Guido Dorso.
Lutar é ser activo, autónomo ou a caminho, sempre a caminho...mas não expulso, de sua própria terra porque algo falta de essencial ao ser humano, como por exemplo, a “filosofia”: a luta pela “filosofia” enquanto saber formativo de cidadãos activos e amadurecidos, mais amadurecidos…
Olho para Portugal e vejo um litoral de “cimento”! Empresarial mas não empreendedor de acção social responsável. Que falta para um Portugal do "conhecimento"?

Instituto da Democracia Portuguesa said...

Sem qualquer dogmatismo e num espirito aproximativo que é oq ue convém a este caso, deixe-me que lhe diga que no OCidente as funções de "luta" não seguem castas, como no Oriente dos samurais ou dos kshatria indianos. a par dos sacerdotes e dos trabalhadores. Sem falar dos sem casta
O Ocidente não tem castas. as Funções de luta estão distribuidas por Forças Armadas e de Segurança , por intelectuais e académicos e pelos sacerdotes
Tradicionalmente eram les clercs, os clérigos, . Donde que a solução seja de restabelecer o sentido destes clérigos para a cosmopolis. è bastante mais simples do que parece, E faz-se todos os dias. So que mal ...

Salvato Sepúlveda said...

Seguiram - veja a composição de apelidos nas Forças Armadas portuguesas - basta seguir ao longo do século XIX até à queda do salazarismo. Praticamente uma casta social, provinda de um grupo social específico.

Quanto a reinstauração do clericalismo nem pensar. Está mais do que patente o afunilamento intelectual e cultural que deu: uma oligarquia espiritual, sem muito espírito, de resto.

Luís de Noronha e Castro said...

Caro Luís Miguel,

Aos anos que ouço palavras como essas "intervir", "lutar", "autonomia". Por mais belo, inflamado, prático, cheio de boas intenções ou más que tenha sido o discurso em que se batia nesse tropo a verdade é que não deu em nada, rigorosamente em nada.
O país não tem jeito, paralisou irremediavelmente. Fazem bem esses jovens com talento em sair daqui e não voltar mais. Há outra pátria mais vasta que é a da alma universal.

Mas este país tem criteriosamente suicidado os seus melhores, desde Camões a Antero, desde Pessoa a Cesariny. É um país de urgos, de grunhos, de meia-lecas. Daqui não pode sair nada a não ser um borborigmo contínuo. Paralisou praticamente todos os seus escritores, que não lê, porque tem autoestradas mais importantes a construir.
Destinado a padrecas de qualquer partido ou religião, eis o destino deste país. Por mim felicito-me por ter tomado o partido da emigração interior e exterior.
Aos que aí estão, olhe estão bem em geral, no tocante a finanças. Tem tachos, que é o que dá mais felicidade ao português, por tê-los e poder roncar sosssegado, e por não tê-los e gostosamente dizer mal de quem os tem.

É um país muito pequeno, servil, tacanho, ultra-paroquial, cheio de venenosas capelinhas, que volta e meia tem umas assombraçoes cíclicas de megalomania, e que dá fogachos psiquiátricos como as novas concepções do Quinto Império dos discípulos do prof. Agostinho. vendo friamente, sem nenhuma chama ideológica a turbar a pura luicidez, este país de palermas é que está destinado a levar o Espírito Santo ao mundo? Santíssima miopia, santíssima atrofia da epífise. Este país espoja-se gostosamente na estrumeira chamada futebol, a fraca catarse que se arranjou para cantar o hino e durante meia hora desafinar aos gritos, em episódios de histeria colectiva.

Acabo com Goethe: "num país pequeno o indivíduo de génio está reduzido à solidão."

E consolo-me copm o insuperável Eça, a única Bíblia que produzimos e que resiste à passagem dos anos, malgrado o aparecimento de insossos Mexias, Tavares e Peixotos e tutti qunati- Portugal é um belo país, cujo único senão é ser habitado por portugueses.

Por isso, não creia que não tenham sido feitas inúmeras tentativas de animar, intervir, guiar, liderar, a insossa alma colectiva lusa. Hºa lamas assim, de mau quilate. Não há volta a dar-lhe. É isto assim antes da Índia e as gerações que estão aí, mais palmpilot e cartão de crédito pouco ou nada diferem das anteriores.

Luis Miguel da Fonseca Barrocas said...

Quando as palavras se vivem
A realidade transforma-se...