23.6.08

VII-- Re(leituras), The End of Faith, de Sam Harris, por André Bandeira

Este livro de Sam Harris, mereceu, quase em circuito fechado, o seguinte comentário de Richard Dawkins, autor the "A desilusão de Deus" (ou ilusão): "Leiam o livro e acordem!". O livro começa por ser uma lufada de ar fresco contra o fanatismo religioso. Argumenta muito de uma forma lógica bivalente ( se se concede numa proposição que algo é, então, na segunda proposição, o seu contrário não é, ignorando que quando se muda de proposição, se muda também, muitas vezes, de contexto, e até se desvia, em vez de mudar realmente). Harris começa por descascar forte e feio no Islão, argumentando de um modo persuasivo que não há islâmicos "moderados" e que certas crenças são perigosas. Descasca depois no judaísmo e no cristianismo, invocando o Holocausto. Termina por propôr um orientalismo extra-mediterrânico (ilustrado até pelas pequenas percentagens de apoiantes dos atentados suicidas, registados na Indonésia) em que elogia e avulta toda a riqueza das tradições budista e hindu. Remata, na sua lógica bivalente -- descrita atrás -- por opôr Misticismo a Fé. "Fé", em Sam Harris, é algo que quase devia ser proibido, na medida em que vende os motivos, a acção e as consequências por atacado, enquanto o Misticismo tem regras como as de um manual. O livro perfila-se ao lado daquele de Dawkins e do outro, de Paul Berman ("Terror and Liberalism", 2003), que foi a grande tomada de posição da Esquerda Norte-americana contra o "islamo-fascismo", refundando-se na tradição liberal, e que será de certeza retomada por Barack Obama. Sam Harris, na sua criatividade vocabular, opõe ao pragmatismo norte-americano, o seu "realismo", o qual pretende jogar com a objectividade final dos valores éticos. Diz algo muito curioso, na sua arte de polemista (diga-se que um pouco "jovem"): quando os valores éticos são objectivamente agredidos, então ninguém se deve admirar que espectador racional deixe de ouvir ou conversar. Bom conselho...
Curiosamente, Sam Harris, que cita António Damásio e parece seguir a senda de Eric Kendal, na busca norte-americana de uma "Ciência da Consciência", acaba por se contradizer sem disso se aperceber, mesmo antes de partir para a etapa final: acaba por dizer que os valores éticos objectivos são construções que têm necessariamente de arrancar de "crenças" e, por conseguinte, negar o valor da crença é, mais que irracional...é inviável. Quer dizer: esta ou aquela crença repugnam-lhe mas não a crença em si, que prefere obter sob a forma de fluido, em vez de plasma, mergulhando em vez de acender. Enfim, parece-me que Sam Harris procura fundar a Fé por outras vias, que não o deslumbramento. O facto de ter sido publicado graças à sua desassombrada colecção de factos quanto a diversos fanatismos religiosos, fá-lo cair no erro em que nós, leitores de jornais, caímos frequentemente: o que parece óbvio -- porque o seu contrário parece obviamente falso -- tem um fôlego curto, a que a publicidade e as urgências da decisão pública, juntam uma certa cegueira própria do excesso de claro/escuro. Como se a Realidade fosse um fato de Pierrot, agitando-se constantemente, de todos os lados, à nossa volta.

2 comments:

Orlando said...

Este post merece um comentário aturado (de tipo ). Voltarei.

Orlando said...

O comentário anterior apareceu truncado.

...de tipo fisking ...