29.6.08

Peter Schlemihl....

Houve uma boa resposta ao post da Maria Luísa Guerra 
" P - Qual o futuro dos licenciados em filosofia, e de todos os licenciados em "humanísticas"? R - Call Centers."  
A pergunta seguinte é: Qual o futuro dos Call Centers? 
A questão é muito mais ampla do que emprego de uma classe; é de escolha de paradigmas de sociedade.  
Quando os vendedores de automóveis dizem " A minha filosofia de vendas é..." prestam homenagem ao conceito embora não percebam nada do conteúdo. Desvalorizar a filosofia, nos curriculos universitários, nos curriculos liceais, na aprendizagem ao longo da vida é esquecer que ela é a sombra da vida e que todos os nossos argumentos estão permeados de conceitos, valores, pressupostos.
Há quem queira viver sem a sombra, como o Peter Schlemihl. Por exemplo no debate do petróleo e dependência de combustíveis. Pode debater-se o preço do crude nos poços, o hedging nas refinarias, a distribuição, o ISPP, o IVA e a GALP, as sete irmãs e a Branca de Neve, se necessário também. Mas de nada adianta se não se colocar a condição prévia: por que razão escolhemos uma sociedade que depende de um produto cujo acesso não controla ?  
Curiosamente: lutar pela filosofia, tornou-se hoje lutar pelo bom senso.

7 comments:

Luis Miguel da Fonseca Barrocas said...

Lutar pela filosofia é lutar pela humanidade...
É lutar pela causa cívica...
É aprofundar o significado do mundo, e da relação com o outro numa perspectiva de interdependência e inter-relação... numa altura em que o respeito pelo outro, pelas culturas diferenciadas, pelo ambiente tendem a desaparecer...
Matéria e materialismo vingam... necessários mas não únicos na dimensão humana...
Respeitar a filosofia significa: respeito por ti e pelo outro!
Respeito pelo saber, pelo "ter" e pelo ser!
Dizem os cientistas:
o gelo desaparecerá no Pólo Norte este ano...
Que outras coisas mais desaparecerão: a compreensão?
Estarão ligados estes dois processos: o do abandono do que é o Homem e o abandono do que é o mundo, em suas dimensões essenciais.
Vamos lutar!
Eu vou lutar...

Deodor de Claraval said...

Acho que há um problema com a palavra "luta" que tem uma conotação operária óbvia, além de militante lato senso. Luta-se contra a pobreza, no entanto nunca esteve tão disseminada. Luta-se contra a doença, ou seja na semântica médica as doenças são inimigos a abater, há um "arsenal terpêutico". Mas existem novas doenças. o Farmapower vive da criação de novas doenças.

Em geral as ideologias de "luta" criam um maniqueísmo operacional, de cisão fundamental,nós os bons, ou ao serviço do bem, lutamos contra o mal. A Al-kaeda luta contra o grande Satã americano. O Bom Old Joe americano luta pela democracia. Ambos lutam. há uma homologia estrutural flagrante entre ambos. Os extremos tocam-se. Em Jerusalém no tempo das Crtuzadas, ao intervalo, os cavaleiros de Godofredo de Bouillon jogvam calmamente xadrez com os cavaleiros de Sah El Hadin.

A palavra "luta" além de ter perdido conteúdo e dimensão, não só se esvaziou, como o emprego dela nos dias de hoje denuncia autocratismo, tirania, posse da verdade. Daniel Ortega lutava pelos pobres - hoje os sandinistas são chefes de conselho de administração das antigas empresas somozistas.

Eu acho que não se tem que lutar pela filosofia, tem-se simplesmente que praticá-la. Nesse sentido comer um rissol pode ser um acto profundamente filosófico.

Daí que eu tenha vindo a desenvolver progressivas séries de anticorpos em relação à palavra "luta". Não quer dizer que procure refúgio na palavra e atitude oposta a luta, que não me parece que seja "paz" nem sequer inacção ou inércia ou cedência ou desistência.

Luta tem um "toque" demasiado militar. Não me parece que a filosofia deva procurar exemplo nas palavra favorita dessa digna classe, bastante limitada nas capacidades perceptivas e intelectuais e que deva escolher palavras da sua ideologia para as fazer suas. Shcopenhauer dizia que aos militares bastaria a espinal medula. Daí que importar para a filosofia palavras do militarismo dominante ( a única ideologia actual que é transversal, no fundo) não me pareça ser um grande serviço prestado à causa filosfófica profunda que continua a ser uma empresa de carácter privado, pessoal tendo pouco a ver em primeiro lugar com grandes causas colectivas, se é que as há, se é que não passam de representações delusionais, de projecções, de alternativas â auto-inquirição.

Claro que vivemos na era da grande tentação democrática e massivante/global. Daí que mesmo os filósofos se sintam inclinados a mass-mediazirem-se e adoptem os trivia da narrativa de massas: luta, sangue, combate, acção. Mas há coisas que só se esclarecem na montanha, no bosque - na profundidade natural que busca a pessoal.

Daí que eu ache que o modelo contemporâneo do filósofo por estranho que pareça é do passado: o eremita. Com efeito no deserto da contemporaneidade são raros os eremitas. Não lutam nas arenas, nos palcos, nos teatros. Estando os desertos tomados por fabricantes de rallyes e as montanhas invadidas por zelotas da chama olímpica, resta ao eremita uma opção inesperada, o estado de eremita urbano, pós digital evidentemente.

Ou pelo meno um ultimate state of mind, em que o eremita encontra o seu espaço em qualquer lugar. Evidentemente que estou a fazer a apologia do solus, do monachus - o que passou para lá da necessidade da luta. ou mlhor dito dos exercícios da luta para passar aos da indagação contínua ou descontínua, fatal ou próxima, a única que sela as palavras que indicam os caminhos que nos aproximam da verdade.

mch said...

Caro Luís BArrocas

Eu concordo com a tua atitude militante, precedida pela atitude pesante. Depois é uma questão de escolher bem as causas.

Caro "de claraval":

Pois é sua opção, o eremitério. Boa ideia, mesmo, com a crise das mobilidades que aí vem. MAs com esse pseudónimo tão caro ás ordens militares do Ocidente, lembre-se que elas não evoluiram para uma elite governante porque o celibato monástico lhes cortava a base vital. O clã kamakura no japão, pelo contrário conseguiu o sucesso dos samurais até ao séc XIX. Lembrei-me do que Voegelin diz sobre isso e postei.

Luís Costa said...

As sete irmãs e a Branca de Neve?

Deve ser lapso. As sete sociedades anãs, seria isso que queria dizer?

Ou simplesmente os sete anões.

Quanto a escolher a sociedade, nós não a escolhemos. Já lá estava quando nascemos, e pouco ou nada se modificou desde então, a não ser pela rama.

O produto é controlado, as subidas de petróleo estão agendadas. Justamente por uma combinação ou convergência de interesses, os países produtores de petróleo, as companhias petrolíferas, e os governos.
Nesta subida não há governos inocentes, a não ser os secundários sem voto na matéria, como o nosso, que segue ou é forçado a seguir os outros.

Luis Miguel da Fonseca Barrocas said...

Deixaram uma pessoa a morrer, num hospital... sem a ver!
Pararam camiões "políticos" a sociedade... sem a ver!

Peter Curvello said...

Sócrates, o verdadeiro, não estava à espera do Estado para ministrar o seu ensino.
Fazer depender a filosofia dos apoios do Estado é patético. O filósofo-comissário ou o nómada do conhecimento?

Luis Miguel da Fonseca Barrocas said...

Uma filosofia orienta nem que o mundo desoriente...
Em Bruxelas a Faculdade de Filosofia tem projecção: porque é que cá não?