10.4.06

como um canto comanche, por André BAndeira

Vim de Talinn, capital da Estónia e que se chama assim, em estónio, ou seja « lugar dos dinamarqueses ». Depois fui a Rabat, onde as crianças jogam à bola na rua e os sumos de laranja, num copo de palmo de altura, são naturais e custam uma ninharia. Em Talinn ouvi uma guia que falava do seu país, apesar de três vezes duzentos anos de ocupação ( dinamarqueses, suecos e russos). Ah, e ainda os alemães…Um americano tentou dar-lhe uma gorjeta, em frente a toda a gente. Ela baixou a cabeça e emitiu um « não, obrigado » como quem indica a um homem que se enganou na porta da casa-de-banho. A Estónia tem dois milhões de pessoas mas tem mil ilhas e pode sobreviver pelo Turismo. Admiro a sua independência.

Em Rabat, um meu conhecido marroquino, disse-me que queria ir visitar o Algarve em Agosto. Eu disse-lhe que, se fosse, em Agosto, tinha um desgosto. Aconselhei-lhe o interior. Contei-lhe que as muralhas, a vegetação e o cheiro do quarto de Hotel eram o mesmo, desde Urumqi, na China, até ao Algarve. Ele disse-me profissionalmente que se tratava do mesmo tipo de Magia.

Um holandês falou-me em português. Tinha sido cooperante em Moçambique e pusera os afrikanders na ordem, pois lá por ser holandês não era supremacista branco. Contei-lhe o que sabia : que os boers eram uma cultura africana, que o luteranismo deles era um espécie de xangô branco, que tinham chegado ao Cabo sessenta anos antes dos xhosa de Nelson Mandela, que tinham sido os locatários dos primeiros campos de concentração da História Moderna onde foram deixados morrer aos milhares e se cruzaram com zulus, trazendo os rebentos com eles, quando, finalmente, venceram a guerra aos ingleses. Como este holandês era católico, lembrei-lhe da luta desigual da Polícia sul-africana contra a onda de crimes satânicos que percorreu a população branca, antes de passar o poder ao ANC. Disse-lhe que ouvira uma vez, um comissário Boer, de cabelo, olhos e barba negra como um latino, o qual, ao descrever esses horrendos crimes duma população em suicidio espiritual, conseguia passar ainda assim, uma belíssima imagem de consolação na luta eterna contra o Mal, seja em que circunstâncias for. De facto, houve pais que mataram os filhos antes de se suicidarem, filhos que massacraram a família toda. E aquele Comissário, Hugenote perdido no tempo e na História, ainda assim, dava testemunho, erguendo-se contra o vento mau do Universo, sózinho perante Deus, como os melhores luteranos.

Que há de comum em tudo isto ? ( pensava eu dormitando nas traseiras do hotel porque Deus me deu uma hora de descanso, ouvindo as crianças a jogar à bola e perfumado pela brisa do Atlântico africano) . O marroquino não me disse tudo o que pensava – pois talvez pensasse que há um Imperio latente, desde o Turquemenistão chinês, até Silves e que o Afecto o restaurará um dia. O holandês porque não era suficiente para aquelas coisas e me disse o que a sua dupla condição de minoritário ( cooperante holandês e católico) não deixará marca senão no reino das intenções e dos belos gestos.

Depois encontrei Stephy, artesão belga saudoso de Mussolini e rezingão como um francês, ressentido contra os jovens que contestam Villepin. Ele explicou-me que já não havia patrões, mas apenas burocratas multinacionais que nos faziam comer sintético e que contagiavam aos filhos a arte de não trabalhar. E, depois, aterrou-me uma mulher egípcia ao lado que dizia que quando era pequena, saltava para os ombros do pai quando este chegava a casa à noite e agora eram os filhos que lhe faziam o mesmo ( « desforra de mulher », disse ela, enquanto um francês comentava firmemente que « eu e a minha mulher não competimos assim »).

Que há de comum entre isto tudo ? De Talinn a Rabat vai uma onda de ressentimento, de gente que insiste em que é pela revolta e pela desforra que se muda a Vida. Gostava de ter um foto do Dalai Lama assinada, o Homem que pergunta: como podemos desarmar o Mundo se não nos desarmarmos por dentro ? Ah ! A brisa do mar em Rabat, no meu modesto quarto, dando para umas traseiras abandonadas, onde chegavam os gritos dos meninos, como quando havia tempo, na minha infância, foram um presente do Alto …não precisam de ir a Rabat, na Primavera, nem fazer aquilo que o vosso pai não fez, para que as delícias da paz vos toquem …como um canto comanche, que diz apenas : eu sou um ser humano.

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