10.9.06

Ler Marx em Setembro, por André Bandeira


Porquê ler Marx? Agora, por Humanidade, a qual sobrevive sempre aos cataclismos ideológicos. E porque a sua voz dogmática, metálica, o seu desprezo pelos patuscos, burgueses ou revolucionários, sobrevive decerto ao marxismo.
É curioso recordar uma hipnose feita de corridas e aventuras, algum sexo, muita demagogia e irresponsabilidade e uma demorada orgia de Poder. Isso do materialismo histórico e do materialismo dialético estão sempre vivos, não é qualquer um que volta agora atrás a uma fase que se já passou, nestes ricorsi de Vico, ao tempo dos heróis de teatro. Biólogos e Físicos, nos EUA são todos marxianos, mesmo sem serem marxistas. O mais brilhante teórico de Relações Internacionais de hoje em dia, o norte-americano Wallerstein, é marxista. Só os economistas não são, porque esses estão a investir na Bolsa e são suficientemente discretos ou mentirosos a respeito do que sabem, para não irem para a cadeia. Aliás, o Mundo ficou marxista. Está todo socializado, cheio de oportunidades de prazer para as seduções e fumo de charuto de novos Marx. Marx seria o primeiro a aprovar o bombardeamento de Teerão. Deixem-se de doutrinas porque Marx por ele mesmo, como nos deu o receoso Raymond Aron ou descontrolado Louis Althusser, estão bem vivos nos estilos de Richard Branson da Virgin ou outros empresários de sucesso, que vivem como as plantas sensitivas, ao foco da Televisão. Felizmente que os primitivos russos e os chineses já se deixaram de interromper o processo deste carril de História que nem nos deixa piar. A doce transição para o socialismo está aí a ser feita pelos melhores individualismos e efeitos virtuais do Ocidente, senão mesmo pelos soldados americanos no Médio-Oriente, com as suas modas liberais, pragmáticas e despachadas, como a pilula ou a meia de nylon. Marx, no fundo, ao contrário do incestuoso maluco Bakunine, queria um Partido de fato e gravata, dentro da Lei. Detestava a Comuna de Paris e, por isso, talvez Brasillach e Rebatet, que eram fascistas, homenageavam regularmente o muro dos federados onde os operários e miseráveis de Paris morreram de peito aberto às balas, gritando frases de raiva variadas e incompreeensíveis. Marx é rebelde, inteligente, sedutor, não perdoa, tem muito de mediterrânico. O amor que sempre demostrou pela própria família revela um homem quente e bem vivo. É até digno de pena, a pena que ele não teve senão pelo Proletário ideal que o levaria ao estrelato, tão certo, como uma fórmula matemática, que só existia na sua cabeça e no coração vingador de Lenine, o qual tivera um nobilíssimo irmão. Há um Santo Marx, como ele gozou com o "Santo Bruno Bauer" e o "Santo Max Stirner"? Há sim. O Santo do Espírito de Hegel que sempre me fez desconfiar do erotismo balzaquiano das sessões de espiritismo. Tudo o que é real é o nosso espírito, as nossas teorias, as nossa verborreias de café e de engates galantes, os nossos ismos construídos em bibliotecas. Um espírito sempre a correr, necessáriamente para cima, como se a realidade fosse apenas uma anti-matéria impertinente da Razão. Este Santo é um Santo do Mal, com a foice do genocidio ou o cordel da guilhotina, na mão.
Realmente eram melhores, em vez do trocismo e do sectarismo de Marx, da sua vaidade e da sua irresponsabilidade, os revolucionários genuínos, pobres ou ricos, como Émil Henri ou Ravachol, que viveram a sua tragédia pessoal até ao fim, seguindo a sua consciência. Esses teriam lugar no perdão dos que foram sedentos de Justiça e não, como Marx, que, apesar do seu apurado sentido de Justiça, tinha era ambição de honrarias. Felizmente que o seu amor pela família, bem pouco eficaz, o salvou, no coração, antes de morrer. Morrer por ser incapaz de viver sem a mulher e a sua filha, ambas de nome Jenny ou ter um amigo como Engels até ao fim, não sei se todos teremos essa consolação.

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