27.10.06

A inglesa e o Duque...


A inglesa e o Duque, o filme de Eric Rohmer, jovem cineasta de 80 anos, sobre a Revolução Francesa de 1789, passou muito despercebido em Portugal, excepto pelo “tour de force” de animação computorizada a partir de pinturas a óleo da época. Os fundos de decoração teatral, faz transparecer uma atmosfera singular e estranha, entre a melancolia e o ensimesmamento. Só isso mereceria um Óscar de efeitos especiais. Mas o filme é especial porque trata o liberalismo aristocrático e anglófilo dos aristocratas que actuavam na Assembleia Constituinte, o que em Portugal se chamaria partido do meio-termo, com Palmela, Mouzinho e outros.
Durante a Revolução francesa, após ter sido amante do Duque de Orléans, Graça Elliott, uma inglesa, permanece sua fiel amiga e conselheira. A sua relação, apesar de comportamentos e convicções formalmente opostas, vai desde a amizade quase fraterna à confrontação ideológica brutal. Mas em redor dos dois protagonistas, da pequena história, articulam-se os grandes acontecimentos históricos.
A visão não-revolucionária da Revolução Francesa por Eric Rohmer é a apologia de uma terceira via, que não venceu. Orléans é o aristocrata que defendia uma solução no âmbito da “legitimidade” revolucionária, em choque com os “puros” de direita, para os quais a Revolução constituía algo de abominável e de funesto. Neste segundo grupo, estão os arrogantes que serão os futuros emigrados de Coblença, que nada aprendem e nada esquecem, cheios da história de Boulainvilliers sobre a Grande França, dos Francos que subjugaram os gauleses, cheia do fundamentalismo cristão de Bossuet. e o futuro anti-parlamentarismo de todos os contra-revolucionários franceses até Maurras.No primeiro grupo – monarchien – que é o centro do filme de Rohmer - estão os ecos de Edmund Burke. Esta segunda corrente, minoritária no seio do grande grupo aristocrata, aglutinou os espíritos anglófilos como Cazalès e os seus amigos, Montlosier, Rully, des Roys, Puisaye, defensores da liberdade, mas ligados aos corpos intermédios (nobreza, Parlamento, clero...), e seus privilégios honoríficos. Com o duque de Orléans, os monarchiens pertencem ao campo dos revolucionários. Queriam em 1789 a reunião das três ordens – contra os aristocratas –a sua concepção do mundo político e social não é democrática. Mas o futuro é cada vez mais precário. Cada gesto, cada palavra pode conduzir à perda. Na adversidade, os personagens revelam-se, e Rohmer fustiga a hipocrisia, a estupidez de todos. De um lado, os revolucionários com métodos que podiam ser dos nazis ou dos soviéticos. Do outro, os nobres que traem para sobreviver. O filme merece ser visto como uma lição sobre a história de todas as revoluções

2 comments:

Anonymous said...

BELO FILME: Aina bem que alguém o lembrou

TI said...

Vou rever