24.10.06

O referendo, por Pedro Cem

Vem aí o Aborto. E eu que esperava que viesse o julgamento do Mladic e do Karadzic, ou até do Bush, do Cheney, do Colin Powell e da Sra. Rice. E também outros julgamentos famosos, como os daqueles que fizeram a primeira e a segunda Guerra Mundial, mas não foram assentar o traseiro em Nuremberga, os que fizeram a Guerra dos Boxers, os massacres dos Índios e dos Negros. Ou até o de quem matou o Autarca Colaço, ex-amigo do Saleiro, que afinal não morreu carbonizado num desastre em 1997, mas metido dentro do carro depois de lavar uma pancada. Ou dos assassinos de Sá Carneiro e Amaro da Costa. E eu que queria bem isso, para não andarem tantos fantasmas a assombrar o meu pomar e vodus a fanarem-me a paz.

Mas não! Aí vem o Aborto. De novo os pró-vida e os pró-escolha. Amanhã vamos referendar quando se desliga a máquina e, depois quando se desliga a Responsabilidade do Amor, como foi em Angola, Moçambique e Timor, que morreram para cima de um milhão de pessoas. E, eu que pensava que ia dormir descansado ao pôr-do-sol, puxar o cobertor esburacado sobre o peito e dizer para o meu gato: “Ah, Tareco, amanhã vai ser melhor, fez-se Justiça!”. Miau, diz-me ele! Miau?! Se calhar foi porque o mandei castrar...

Como se pode abater um milhar para salvar milhar e meio, a terapêutica da Guerra evita que uma série de pobres mulheres tenham de gramar os filhos decepados o resto da vida. Evita-se-lhes assim uma vida miserável, para eles e para elas. Eles são como girinos, podem ir para a vala comum como quem vai pela pia abaixo.

Eu sei que há não sei quantas mulheres a morrerem por vãos de escada, barbeiros e clínicas espanholas, no nosso país, todos os anos. Mas porque estão a morrer cem pessoas por dia no Iraque, e são iraquianos que se matam entre si, não vou eu aprovar a Guerra, nem quem a provocou e quer continuar ( isso mesmo: se a coisa passa por meter o Saddam cá fora e também negociar com ele, há que o fazer, o mais tardar, hoje). Negoceia-se, emenda-se e corrije-se o que se pode, minora-se o mal, trata-se dos vivos, estejam eles onde estiverem, na barriga da Mãe, ou no rés-do-chão de Canaã, depois dum gandulo do Hezbollah ter ido lá disparar um míssil. Faz-se o juiz julgar com pulso honrado e bom mas não se anda aí a estourar foguetes para ir fazer um aborto como quem vai buscar o retorno do IRS.

Já que vem aí o referendo, proponho uma pergunta assim:
“Concorda com o direito de, em qualquer circunstância, você ou alguém que lhe é chegado interromper voluntáriamente a gravidez, até às dez semanas de gestação?”.

Ah, jubentude, digam-lhes como é que é...

4 comments:

Anonymous said...

Obrigada pela Recomendação ao corta-fitas! Retribuirei asap!

Anonymous said...

Estive a ler a mensagem do título. E é mesmo essa a MENSAGEM: MENS AGITAT MOLEM! De génio!

João Távora said...

Brilhante!
Vim recomendado pelo FAL.
Voltarei sempre, quando a janela estiver aberta!

Ana A. said...

Pois é.
Mas cuidar dos vivos dá trabalho e despesa. É muito mais fácil convencer uma mulher carente que o que traz no ventre é algo que pode ser executado, a bem da sua liberdade e felicidade.
O problema é que nem a mulher fica mais livre, nem fica mais rica, nem fica melhor por ter abortado. Aliás, fica até pior: o sentimento de culpa, algumas lesões emocionais muitas vezes irreversíveis, etc...
E pensar que, indirectamente, com os meus descontos - que deveriam ser para promover a vida e a sua qualidade -, vou estar a financiar este suicídio de consciências...