15.11.06

Damião de Gós e a vitória da razão

Rodney Stark
"O sucesso do Ocidente deve-se a quatro grandes vitórias da razão. A primeira foi o desenvolvimento, dentro da teologia cristã, da fé no progresso. A segunda foi a forma como a fé no progresso incentivou inovações tecnológicas e de organização, muitas vezes apoiadas por centros monásticos. A terceira vitória foi que, graças à teologia cristã, a razão influenciou a filosofia e a prática política de tal maneira que surgiram na Europa medieval estados responsáveis com um elevado grau de liberdade pessoal. A vitória final foi a aplicação da razão ao comércio, que resultou no surgimento do capitalismo dentro dos ambientes seguros proporcionados por esses estados. Foram estas as vitórias que levaram o Ocidente a vencer. "

5 comments:

António Feijó said...

E assim temos o capitalismo abençoado, o capitalismo com justificação teológica, assente na razão - a vitória mais alta depois da teologia-fé-no progresso, do monaquismo, da filosofia política.
Esta escalada vertiginosa do argumento leva a crer que o judeu da Palestina, que preconizava a pobreza como virtude (e que vivia em comunidade com os seus discípulos - modelo para a vida monástica, de resto) foi ultrapassado pela esquerda, pela direita, por baixo e pelo alto.

O positivismo comtiano readaptado gosta muito desta visão simplista e ingénua do progresso em 4 étapas. Dá jeito e conforta a necessidade, a meu ver neurótica, de Ordem e Progresso. Mas entretanto , já lá vão muitos anos, a física quântica tem vindo a demolir a ideia de um tempo e progressos lineares, sempre em direcção de um modelo da sociedade e do homem mais perfeito. Na verdade para a ciência física dos nossos dias, o tempo não flui só causalmente, de trás para a frente, como um comboio de sentido único, tem um referencial mais vasto. Não tem linearidade de sequência. Admite que haja concorrência ou oposição de tempos paralelos. Inaugura a retro-causalidade, enfim, dá cabo de um modelo de tempo com que funcionámos até meados do século XX...de resto assim, o tempo, o tempo vivo, iluminado pela consciência divina tem mais possibilidades, mais complexidade e mais mistério )

Mas o sr. Rodney prefere engessar a história num molde quadrado a 4 tempos. Quatro pregos na Cruz, porque fazem com que a mensagem crística de irreverência, de desafio aos Principes fariseus, de criadora "desordem", de Chaos necessário fique manietada, sossegada, ao serviço do Santo Capital, realização final do cristianismo, coroa de glória da sua missão.

Damião de Góis, perseguido e preso pela Inquisição ( - aplicação da teologia â liberdade política certa e obrigatória, ó contradictio!)está aqui na estátua, felizmente, em subtil contraponto irónico âs ideias do sr. Rodney.

Há prosas que são caricaturas involuntárias, de facto. Muito obrigado.

Ad majorem Dei gloria, prefiro ler o Chesterton - desenjoa do tomismo pós tomista com aplicações etno-sociais. Viriliza a charitas.Ajuda a manter mais o fogo do Paracleto, e tira o pobre Nazareno da perspectiva de ser um precursor, malgré lui, do capitalismo iluminado, estabelecido na fé, no monaquismo, e na filosofia política. Tudo encadernado, em quatro tomos, in~folios, encadernado ou down loaded nas meninges, que sai mais barato.

Engels, que também tinha uma visão messiânica e simplista da história - como todos os socialistas - podia tê-lo assinado, fazendo algumas substituições nos termos aqui e ali, claro está. Em vez de capitalismo poria Socialismo, e por aí adiante.

Cumprimentos,

A.Feijó

PS - Por cá, no luso cantinho, se as ideias da 4a etapa-em-glória do sr. Rodney triunfarem e forem aplicadas, como é muito possível que aconteça, pelo menos por uns tempos, antes do Pleroma, teremos pelo menos um Banco que já alinhou na onda rodneyana há muito tempo. O Espírito Santo, claro está. Outros se seguirão, renomeados. Poder-se -á talvez transferir o culto para uma espécie de guichets cibernético-libertários. In God We Trust, reza o dólar, outra moeda de aplicação rodneyana. Resta saber se vale a pena ganhar esses trinta talentos ou se não será melhor "perder a vida para ganhá-la."

Anonymous said...

Concordo com o comentário, se bem que, por os tempos serem paralelos ( como foi muito bem dito) sob a designação de capitalismo se incluem muitas coisas que não apenas aquela compulsão de ganhar, sem fim, como uma trepidação repetitiva da carne para fazer acalmar, suspender ou submeter o Espírito. Outros gimnosofistas inventaram exercícios melhores, como se sabe e, por vezes, os abanões, carrósseis e montanhas russas da Vida, nem nos dão tempo de escolher o exercício.

Que ir à procura de Jesus é um combate que muitas vezes leva à Morte e passa pela Loucura. Fico para ouvir o que se passou realmente com Damião de Góis... salvo erro,a exumação do seu cadáver, descoberto em frente a uma lareira, revelou recentemente ter um golpe na parte posterior do crânio o que leva a pensar que foi assassinado pelas costas.

André Bandeira

JSM said...

Não gosto de decomposições ou de composições para explicar porque é que o carro anda! O carro anda porque tem razão mas principalmente porque tem fé.

mch said...

Ora ainda bem que o debate se levanta. Em Rodney Stark existe o velho triunfalismo whig, de quem está acha que a história traz o progresso e a fé juntinhas, um pouco como na versão secularizada do "americano tranquilo" de Graham Greene que tem boas intenções políticas mas só fica satisfeito quando faz um bom negócio.
Damião de Gós mewrece mais que esta estátua em Alenquer. Ele é o rosto do humanismo português do séc XVI, ou, seja da confiança na fé cristã e na razão humana, e no homem e em Portugal que defendeu enquanto o deixaram. E por tudo isto, pagou como Jesus Crist, ele que percebia de fianças e que tinha biblioteca mas que foi quase decerto umm mártir

António Feijó said...

Pois é. Damião de Góis merece mais do que esta estátua ode ao quadrado (de facto,um quadrado ensanduíchado entre dois paralelípipedos.) Lembro-me de estar no Highgate Cemmetery, em Londres, não por nostalgia, mais por perversa curiosidade, a ver o túmulo de Marx, que tem um plinto enorme, quadrado, exactamente do tamanho deste em Alenquer. Só que em Highgate só tem por cima do cubo (de meca)a cabeçita do profeta, aqui vá lá, Damião está de corpus inteiro, embora a pose seja mais de garde-à-vous - com típico toque militarete, demasiado hierático, de sentinela (esta mania de confundir tropa com pensadores!) - do que de sábio. Então,por Toutatis! o homem que conheceu e privou com Erasmo, o ironista, havia de estar em sentido, na sua terra natal? O escultor por certo não leu nem Góis nem Erasmo nem Vitrúvio, o arquitecto que pensou a perspectiva antes de todos os outros.
Pelo chapéu vê-se que o escultor se esforçou em contemplar un dos poucos retratos de Góis, com típico chapéu de aba pendente flamengo.Vá lá. Que o bronze dá verdete, dá. Mas pode ser tratado e não dar. Esta mania de ancianizar o que foi feito há pouco tempo! Um verdete novo só passa por patine aos olhos dos parvenus, infelizmente a maioria.

Saúde-se, no entanto, para não se ser tão catilina, o esforço. Mas haja olhos!

Entretanto,a relvita no primeiro fundo, tenta dar um ar de cemitério inglês. Fatal relvita! prima das rotundas e do pensamento rotundo e quadrado que devem estar algures ao fundo e â esquerda. Ou seja, esta estátua do Damião, misto de estética Estado Novo com revivalismo de cemitério inglês hiperborizado em relvita, não ajuda muito a repensar Damião de Góis, de facto, como diz André Bandeira, encontrado de crânio "fracassé" por mau golpe traiçoeiro, pelas costas, única maneira de evitar um dos poucos olhares luminosos que tivemos.

Depois,o enquadramento dos volumes da estátua com a casa de estilo novecentista do fundo, não colhe. Nem a relvita. Um município esforçado nem sempre é um município com bom gosto. A ideia de elevar o homenageado teve o seu tempo. Por exemplo,como contra~exemplo, a estátua de FP em frente à Brasileira funciona â maravilha. Ficou FP privado do empíreo assento porventura? Pelo contrário, de pés na terra é que ele sobe. E não tem conta a onda de simpatia que provoca. Está-se bem ao pé daquela estátua. Fez mais pela obra dele que muito discurso sisudo. Nisso só tem um rival, o cauteleiro do largo de Sâo Roque, estátua também humana, mais digna que os deuses da nação postos nas alturas, na altimetria inclemente dos faraós.

Por isso eu pediria a Vexas. tragam o Damião â terra. De vultos históricos ao alto e com verdete estamos nós fartos. Registe~se, por fim, com geral agrado, o alunar do primeiro pé humanista nosso.

Cumprimentos aos debatentes, agradecendo os esclarecimentos,

A. Feijó.